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Panorâmica
- Argélia
Beleza Desconhecida
Quando o mundo parecia já não ter
mais segredos para revelar, eis que a Argélia, um país
que muitos se habituaram a associar à escalada do fundamentalismo,
se afirma, aos poucos e poucos, como um destino ideal para quem deseja
viver toda a magia do Norte de África.
| Texto e fotos de João
Andrés |
Visitar
a Argélia é um espanto. A começar na alegria
e na hospitalidade das suas gentes e a terminar na enorme variedade
das suas paisagens, repletas de lugares que jamais imaginámos
existir num mundo onde, cada vez menos, existem coisas capazes de
nos surpreender: as esplendorosas praias do Norte, de louros e extensos
areais banhados por um Mediterrâneo de azul intenso e sempre
convidativo; dunas do deserto que, em Hoggar, dão lugar a montanhas
ideais para a realização de rallies todo-o- terreno
ou de passeios mais tranquilos para admirar rochedos enormes de todas
as cores e feitios, que mais parecem talhados pela mão de homem;
colinas e montes a solicitar escaladas; montanhas a dizerem-nos baixinho
que a sua cor ocre faz um contraste fantástico com o colorido
das asas deltas...
Enfim,
como se trata de um país imenso, ainda muito pouco dado às
habituais uniformizações que imperam nos destinos onde
se pratica um turismo mais massificado, há ali espaço
para (quase) tudo. Daí que, quem já esteja saturado
das rotas habituais que as agências de viagens servem, como
se fossem pratos aquecidos pela décima vez, chegou a hora de
optar pela originalidade e de partir em busca de um profundíssimo
sentimento de liberdade que a Argélia nos oferece em qualquer
parte. Tudo é vasto, o deserto, os passeios à beira-mar,
mas há sempre a possibilidade de não ir até ao
fim e de parar a meio caminho numa esplanada simpática a tomar
um saboroso chá de menta.
AS GENTES
Como nós, são um misto das muitas
raças que por ali passaram. Como nós, preservam muitos
vestígios da ocupação romana, com uma diferença:
na Argélia esses "vestígios" são cidades
inteiras, já que, ao longo dos tempos, ninguém lá
foi para aproveitar a pedra ou o espaço.
Têm
de tudo para dar e vender e um orgulho enraizado que não os
impede de receberem muito bem os estrangeiros e de procurarem obsequiá-los
com generosidade. Uma jornalista italiana que conhecemos durante a
nossa viagem chegou a contar-nos que, numa certa altura, travou conhecimento
com um professor primário que a convidou para ir a sua casa.
Curiosa, apressou-se a ir ver como vivia um mestre-escola nas terras
do Sul da Argélia. Encontrou uma casa só com rés-do-chão
e pobre, mas a simpatia e generosidade do anfitrião e da mulher,
deixaram-na encantada: ofereceram-lhe fruta, água fresca e
serviram-lhe o sempre presente e saborosíssimo chá de
menta. Mais não tinham, mas tudo repartiram com ela, como manda
a hospitalidade árabe.
O DESERTO
Todos
nós conhecemos as dunas de areia deslizantes, quando mais não
seja do cinema ou de fotografias. Só que parte significativa
do Sahara argelino - o Hoggar - assume formas e proporções
verdadeiramente surpreendentes com as suas montanhas de cores diferentes
e formatos inacreditáveis. Toda esta aridez só é
interrompida de vez em quando, e sempre com uma grande distância
pelo meio, por veios de águas que se precipita do alto de uma
montanha para logo empapar a areia. Nesses casos, nascem logo palmeiras
a toda a volta e surge sempre um aldeia perdida naquela vastidão
para aproveitar a presença do oásis.
Em Tahabort, por exemplo, existe mesmo uma nascente de água
mineral, a escorrer por entre rochedos negros, que logo é aproveitada
por grupos de mulheres que, indiferentes ao calor, abrem covas com
todo o vagar. Procuram maior abundância de água e uma
vez que o conseguem tratam logo de, com o auxílio de pequenos
púcaros, encher vazilhas que hão-de carregar, a pé,
por trilhos escaldantes. De tão purificada pelas areias aquela
água serve até para beber, apesar de possuir uma tonalidade
amarelada.
Mesmo em Tamanrasset, a capital do Hoggar, há uma nascente
que alimenta o hotel Tahat, por enquanto o único existente
na cidade. Edificada pelos franceses no sítio de um antigo
oásis e no tempo em que a Argélia não passava
de uma colónia, esta cidade é povoada de casas de um
só piso, e faz recordar as nossas vilas alentejanas.
A
presença das nascentes deve-se ao facto de existirem vários
lençóis de água, avaliados em muitos milhões
de metros cúbicos no subsolo do deserto, como acontece, aliás,
com o gás natural, o petróleo, o ouro ou os diamantes
(estas duas últimas fontes de riqueza já estão
a ser exploradas depois do acordo firmado com a África do Sul.
Seja como for, nos trilhos sem fim que percorremos só avistámos
alguns oásis e montanhas imponentes, muitas de encostas totalmente
verticais...
Nem ao longe vislumbrámos recintos vedados para a exploração
fosse do que fosse. Esta é a terra dos tuaregues, homens de
grande estatura, desde sempre reconhecidos como destemidos guerreiros,
mas de trato afável, riso pronto e aberto. As caras trazem-nas
tapadas enquanto as mulheres as descobrem. Mulheres que beneficiam,
entre os tuaregues, de grande ascendente social, já que podem
até escolher o marido e viver com ele antes do casamento. Islamizados
desde o século VII, os tuaregues preservam, apesar disso, tradições
antiquíssimas. |
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