São
muitas as cores, as paisagens e os sentimentos que percorrem a África
do Sul do século XXI.
Texto
de Miguel Satúrio Pires e Fotos de Pedro Sampayo Ribeiros
"We
just let it go, smoothly...",
que é como quem diz, numa tradução menos literal, basta entrar na
onda, suavemente. Na África do Sul não há pressas, não há urgências.
Tudo tem o seu tempo, o seu ritmo, a sua cor e o seu cenário. Pode
até nem ser este o sentimento - ou a paisagem, elevadas ao plural
neste país banhado pelas águas do Índico e do Atlântico, que se espraia
por entre desertos, montanhas e cenários luxuriantes - que ilustra
todo o país, mas é exactamente o que transpira aqui e ali ora timidamente,
ora de forma mais exuberante. "We just let it go, smoothly", como
é tão fácil ouvir da boca dos muitos sul-africanos de gema com que
nos cruzámos repetidas vezes.
Dependendo, como é óbvio, do chão em que se pisa, os olhares são simultaneamente
vivos e ternos, não deixando, apesar de tudo, de haver esgares mais
pesados numa África do Sul que tenta reconciliar-se com um passado
bem recente. Uma nação que renasce segundo as vontades dos povos que
se cruzaram ao longo de mais de cinco séculos e que ensaia agora um
caminho que promete ser longo.
Talvez por força do bloqueio económico que o país sofreu por parte
da comunidade internacional ao longo de quase três décadas, de 1977
a 1993, e também por consequência da instabilidade política e social
dos anos que se seguiram à abolição do apartheid, a África do Sul
passou um pouco ao lado do grande investimento, conservando-se numa
redoma que começa, finalmente, a abrir-se ao Mundo. Mesmo assim, e
apesar desta sua relativa "ingenuidade", a evolução, de mentalidades
e de tudo o resto, não refreou. As principais cidades são modernas
e dinâmicas, estão dotadas de boas vias de comunicação, dispõem de
dezenas de hotéis de luxo e de roteiros culturais e nocturnos que
batem aos pontos muitas das capitais europeias.
Posto de parte que foi o regime de segregação racial que vigorou no
país durante mais de 40 anos, a África do Sul sofreu inúmeras transformações
na última década - celebrou-se exactamente este ano, a 10 de Maio,
a comemoração dos dez anos das primeiras eleições livres em que Nelson
Mandela foi eleito Presidente. Desde então até à actualidade tenta-se
apagar uma memória pesada que amordaçou o destino de uma maioria de
negros, indianos e mestiços, numa hierarquia social que dava a supremacia
total aos brancos que, feitas as contas, mais não eram - e continuam
a ser - do que apenas 10% da população. Agora, após uma profunda reformulação
constitucional e, acima de tudo, de hábitos, não deixaram de ser diferentes
mas passaram a assumir-se como iguais, partilhando os 45 milhões da
população sul-africana espaços e direitos como há muito não acontecia.
A África do Sul das intimidantes placas com as inscrições "whites
only" ou "blacks not allowed" desapareceu, para dar lugar a uma nova
força que luta a todo o custo para reconstruir, orgulhosamente, a
sua história. Aliás, o orgulho é de tal maneira notório que por todo
o lado se vêem referências à cultura ancestral das muitas tribos autóctones,
que durante tanto tempo foram ocultadas e proibidas. Lojas, cafés,
nomes de ruas, organismos estatais, empresas, cidades, regiões e províncias,
e até mesmo a bandeira e o hino - assim como outros elementos menos
palpáveis - foram rebaptizados, reformulados e reinventados, como
se se escrevesse de novo a história de um país, o país do arco-íris,
como o bispo Desmond Tutu o baptizou, que aparece aos
olhos de quem vê, e quer ver, depois
A
vida selvagem está preservada, como vemos com esta simpática
colónia de pinguins africanos nas margens da False Bay.
de
uma chuva torrencial de décadas.
Cidade maravilhosa
A Cidade do Cabo é talvez o melhor cartão de visita da África
de Sul. Ao mesmo tempo carinhosamente tímida nas suas gentes,
mas exagerada no seu encanto. Inigualável na sua beleza, inexplicável
na sua profunda simplicidade e sensualidade, o Cabo, a cidade-mãe
desta nação do século XXI (foi a primeira povoação do país, fundada
em 1652 pela Companhia Holandesa das Índias Orientais) transmite
quem por lá passa uma estranha sensação. Parece que parámos no
tempo que chegámos a um local onde o homem não compete com a natureza
- quase a chegar ao centro, e mesmo em frente ao Groote Schuur
Hospital, onde foi realizado, em 1967, o primeiro transplante
de coração no Mundo por parte de Christiaan Barnard, pode logo
à partida admirar a consonância da vida selvagem com o Homem.
Trata-se do Table Peak Reserve Park, uma enorme extensão de verde
apenas limitada por redes que a separam da via-rápida, onde dezenas
de zebras, springboks e outros animais se passeiam calmamente.
É mais do que uma razão para dizer que, aqui, nesta peculiar e
única cidade à beira-mar, tudo se conjuga, tirando-se proveito
do que a natureza moldou com o correr dos séculos. Servida por
excelentes vias de comunicação, a capital legislativa sul-africana
- Joanesburgo, Bloemfontein e Pretória são, respectivamente, as
capitais financeira, judicial e administrativa - tem uma vida
muito própria e um ritmo diferente de tudo o resto. Nem que seja
por não se respirar aqui o clima de insegurança que nos bate à
porta tantas vezes noutros pontos da África do Sul.
Saídos do aeroporto internacional do Cabo, que fica a pouco mais
de 20 minutos do centro da cidade, o primeiro cartão de visita
com que os nossos olhos se deparam é uma imensa área toda ela
ocupada por bairros de lata. Após alguns - poucos - quilómetros
de auto-estrada, esse cenário desaparece para dar lugar a uma
visão deslumbrante. À nossa frente cresce a Cidade do Cabo, rodeada
pelos seus guardiões, que se erguem imponentes acima das nuvens;
a Table Mountain, o Pico do Diabo, a Lions Head (assim conhecida
pela sua forma e também por, reza a lenda, ter ali vivido e morrido
o último leão da cidade) ou a Colina do Sinal, de onde ainda hoje,
pontualmente no bater do meio-dia, se fazem ouvir as salvas de
canhão que recordam tempos passados em que os agricultores da
cidade eram avisados de que um navio estava prestes a atracar
no porto. Aliás, é precisamente a partir da dita Colina do Sinal,
por dispor da altura ideal e do ângulo exacto, que se tem a melhor
perspectiva de toda a cidade no seu esplendor.
Deixe, portanto, o verdadeiro ex-libris de Cape Town para mais
tarde. Guarde a visita à Table Mountain para quando tiver tempo
de sobra para gastar lá no alto deste prodígio da natureza que
alcança os 1086 metros de altura. Deixe-se ficar e contemple este
quadro que jamais irá esquecer. A vista é impressionante, com
um alcance de cortar a respiração. Não refreie os sentidos, dê
largas à sua imaginação e tire partido da paz que o local transmite,
desfrute do som do silêncio, apenas por vezes interrompido por
uma ou outra avioneta que lhe passa mesmo diante dos olhos.
Antes de descer à terra, aproveite ao máximo a viagem de cinco
minutos a bordo do teleférico que faz a ligação ao alto da montanha.
Este moderno equipamento importado da Suíça está equipado no interior
com uma democrática plataforma móvel que faz uma volta de 360º,
proporcionando igualdade de direitos visuais a todos os passageiros.
Se for mais dado a caminhadas e ao exercício físico, pode escolher
um dos 300 trilhos que sobem e descem a encosta da Table Mountain,
cada um com o seu grau de dificuldade. Uma visão algo assustadora
para quem os vê do teleférico, tal é a inclinação da escarpa e
a sinuosidade dos trilhos, mas também é verdade que se avistam
muitos trackers acompanhados pelos filhos mais novos.
Em tempos passados...
Cá em baixo, siga em direcção ao mar e pelo caminho faça o seu
roteiro. A cada esquina que dobrar haverá sempre qualquer coisa
para ver ou para descobrir, como por exemplo o agora recuperado
e multicolor Bairro Malaio, conhecido por Bo Kaap (por cima do
Cabo), local ideal, dizem os populares, para quem queira solicitar
os trabalhos das reputadas costureiras que ali assentaram arraiais
desde a chegada à região de escravos malaios em meados do século
XVII - hoje em dia é aqui que a comunidade muçulmana da região
está maioritariamente concentrada. Mas as portas destas pequenas
e simples habitações de todas as cores, que vão desde o rosa pálido
ao amarelo vivo, escondem outros segredos, tendo este bairro de
ruas empedradas na encosta da Colina do Sinal fama de albergar
alguns dos mais eficientes contabilistas da região. Coisas que
só a história pode explicar... Não abandone o local sem antes
visitar o mais antigo edifício da zona, datado de 1760, na Wale
Street, n.º 71, onde está instalado o Bo Kaap Museum.
E por falar em história, a da África do Sul começa mais ou menos
por esta urbe, com gentes de todo o mundo, a começar pelos portugueses,
a colorirem o cenário. O primeiro a por ali avistar terra foi
Bartolomeu Dias, que em 1488 dobrou o então apelidado de Cabo
das Tormentas, logo rebaptizado como Cabo da Boa Esperança, caminho
certo para as Índias. A colonização propriamente dita, essa, apenas
se registou passados alguns séculos, quando, em 1652, um consórcio
de 17 comerciantes holandeses, comandados por Jan Van Riebeeck,
se juntou para sedear na Cidade do Cabo a Companhia Holandesa
das Índias Orientais. Estava traçado o destino desta região, que
nunca mais parou de receber cidadãos do mundo inteiro, sendo actualmente
o Cabo o segundo mais importante porto comercial do país - foi
construído pelos colonos britânicos na segunda metade do século
XIX e modernizado já na década de 1960.
Prova da sua capacidade de absorver e viver diferentes culturas
e tendências é a arquitectura que "faz" a paisagem da cidade,
com construções tipicamente vitorianas, fruto da colonização inglesa,
a contrastarem com outras bem ao estilo holandês, mais imponentes
e austeras, como, por exemplo, o edifício do Instituto Salesiano,
instituição religiosa dedicada ao ensino que vive paredes-meias,
espante-se, com a zona a que os locais chamam de Pink Map, nada
mais nada menos do que o bairro gay, onde se multiplicam bares
e restaurantes da moda. Outra das características deste sítio
em especial são as inúmeras lojas de decoração, todas very fashionable,
nas quais se poderá perder em compras para a casa e de seguida
fazê-las embarcar rumo à Europa em contentores. Um expediente
que ganhou fama e clientes além-fronteiras, tendo em conta o facto
de não só os artigos serem baratos, mas também pela razão de o
processo logístico de transporte ser relativamente pouco dispendioso
e facilitado pelas autoridades aduaneiras.