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    XL >   Rotas & Destinos > África do Sul

D O S S I E R

A Cidade do Cabo tem uma vida muito própria, feita de gentes, culturas e sentimentos únicos. Também chamada de Mother City - foi a primeira cidade a ser fundada na África do Sul - oferece de tudo um pouco; ambiente cosmopolita e animadas noites, paisagens que deixam qualquer um sem fala e vida selvagem (ainda) em abundância. Aqui o Homem e a natureza vivem em perfeita harmonia.

A Na Cidade do Cabo, em cada esquina que se dobrar haverá sempre qualquer coisa para ver ou para descobrir, tais são as suas histórias e as muitas curiosidades com que nos deparamos .

Vida cosmopolita também encontrará na afamada Long Street, onde, porta sim, porta sim, proliferam charmosos antiquários, grande parte a atirar para o kitsch dos anos 50 e 60, e lojas de roupa de designers locais. O ambiente é descontraído, o cenário é vitoriano, com as suas requintadas varandas de ferro forjado e os telhados esconsos, e o apelo ao consumo uma verdadeira tentação. Nem mesmo as grades de segurança que barram a entrada - terá de tocar à campainha - o intimidam de gastar uns quantos rands nestas lojas de charme.
O amanhecer no Vitoria & Albert Waterfront, Cidade do Cabo.

Se preferir espaços abertos para dar largas ao seu espírito consumista, nesse caso o Cabo também é o lugar certo, já que os flea markets são uma verdadeira instituição local: o maior deles realiza-se todos os domingos no Green Point, em redor de um enorme complexo desportivo com vista para o histórico farol de Mouille Point, construído em 1824 e que ainda hoje funciona, com o seu potente e ruidoso toque de aviso a não permitir um sono tranquilo aos habitantes da zona nas noites de nevoeiro. De resto, e com o clima de feição, as bancas começam a instalar-se de manhã, vendendo, ao preço da chuva, de tudo um pouco. Se por qualquer eventualidade não incluir um domingo durante a sua estada no Cabo, pode sempre visitar o Greenmarket Square, que funciona todos os dias e fica a pouco metros de distância da Long Street. É um dos mais antigos mercados da cidade, criado em 1806, e foi, inclusive, classificado como monumento nacional. O ambiente é colorido pelas variadas peças de artesanato que ali poderá encontrar.

Do alto do Cape Point, a vista é de cortar a respiração. São 200 metros sempre a subir, também auxiliados por um funicular


Outro dos locais de eleição das gentes do Cabo é o chamado Victoria & Alfred Waterfront. Inicialmente construído em 1860 pelo príncipe Alfred, filho da Rainha Vitória de Inglaterra, para que este tempestuoso ponto de passagem de embarcações desse lugar a um porto abrigo, o local caiu em desuso, tendo as autoridades encetado em 1988 um processo de recuperação de toda aquela área onde agora tem lugar a mais agitada vida nocturna e comercial da cidade. Com todas as construções portuárias a manterem a traça original, restaurantes, bares, discotecas, centros comerciais e hotéis de luxo, como é o caso do recentemente inaugurado Table Bay Hotel, atraem milhares de pessoas, especialmente ao fim-de-semana, altura em que as imediações se tornam quase intransitáveis. Se estiver por sua conta e sem transporte próprio, é-lhe possível recorrer ao Waterfront Shuttle Bus, que parte de 15 em 15 minutos da Adderley Street, mesmo junto à estação central de comboios que serve a cidade. Uma nota: na Adderley Street funciona diariamente um colorido mercado de flores, a não perder.
Os coloridos mercados a céu aberto são uma verdadeira instituição da Cidade do Cabo. Tudo se vende e tudo se compra.

Os inúmeros espaços verdes da cidade são também eles dignos de referência. Quem admira Cape Town de um ponto cimeiro, logo conclui que, por entre as inúmeras vivendas ao estilo vitoriano, e até mesmo com a vizinhança próxima dos poucos arranha-céus existentes, os jardins mantêm-se intocados. Disso exemplo é aquela que foi a "horta" de Jan Van Riebeeck. Para abastecer de produtos frescos as embarcações que ali aportavam, o fundador da Cidade do Cabo criou, em 1652, onde é agora a zona chamada de Company's Gardens, um enorme espaço verde para o cultivo de espécies hortícolas e frutículas - sobrevive ainda no local a mais antiga pereira de todo continente africano, plantada aquando da chegada de Riebeeck ao Cabo. A delimitar o jardim, repleto de arbustos exóticos, frondosas árvores e destemidos esquilos que nos vêm comer à mão, estão não só as Houses of Parliament, erguidas ao longo da pedonal Government Avenue, bordejada por carvalhos altos, e onde funciona actualmente a sede do Governo sul-africano, assim como o Museu de História Natural da África do Sul e o Planetário, a National Gallery, a National Library e a imponente St. George's Cathedral, uma igreja anglicana datada de 1901.
O pontão de Hout Bay, na península do Cabo, onde inúmeras focas se juntam para fugir à mão predadora do Homem.

Na ponta do cabo
Barcos-fantasma, caravelas naufragadas, galeões perdidos, navios afundados... à medida que rumamos em direcção a Sul, ao longo da costa, as lendas, histórias e narrativas vão aumentando, assim como o assombro de paisagem que acompanha o caminho rumo ao extremo da península do Cabo. Da cidade até ao Cabo da Boa Esperança são qualquer coisa como 160 km de estrada, em que os cenários variam curva após curva.
Passadas as charmosas povoações costeiras, servidas por entrecortadas praias e todas com fantásticas casas e guest houses a mirar o mar, como Sea Point, Bantry Bay, Clifton Bay ou Camps Bay, esta última com um fantástico enquadramento paisagístico proporcionado pela cadeia de montanhas baptizadas como os 12 Apóstolos e ainda pela Lions Head, impossível é não parar em Hout Bay (Houtbaaijen, baía arborizada), uma pitoresca aldeia piscatória, e reservar uma hora para apanhar o susto da sua vida, inevitavelmente incluído nos roteiros turísticos da zona.
Muitos foram os barcos que ao longo dos séculos se afundaram ao dobrar o Cabo das Tormentas. Panorâmica do alto do Cape Point .

Depois de concluída a viagem que o levou à localidade, por entre bucólicos vales de vegetação verdejante, abeire-se do porto de pesca onde estão acostados os barcos que o podem levar até à Duiker Island, um pequeno aglomerado de rochas fronteiro à Montanha Sentinela onde está uma das 17 colónias de focas e lobos marinhos da região. Resumindo e baralhando, ponha o colete de salvação (que não é obrigatório), respire fundo e arranje coragem para comprar bilhete. A viagem não demora mais do que 30 a 45 minutos, mas estes parecer-lhe-ão seguramente uma eternidade. Depende, como é óbvio, do passageiro, porque entre os participantes nesta aventura, uns havia que se mostraram bem audazes e nada receosos, como foi o caso da imensa comitiva de asiáticos que se aglomerava na proa da embarcação, urrando de contentamento de cada vez que a dianteira do barco se elevava metros acima da água.

Golden Mile, em Durban.

De qualquer modo, é de não evitar, nem que seja pela experiência de navegar em mar revolto e com ameaçadoras rochas a espreitar por entre os vagalhões - põe-se aqui a questão de como terá sido a vida de marinheiros de séculos passados, a navegar por estas rotas em autênticas cascas de nozes. Pastilhas contra o enjoo e uma boa dose de sangue-frio dar-lhe-ão a possibilidade de, durante uns breves minutos, admirar dezenas de focas e lobos marinhos a mergulhar nas águas gélidas e revoltas como se se tratasse de uma amena piscina. Uma salvaguarda: pode ter o azar de chegar a Hout Bay e os barcos não estarem autorizados a largar as amarras do porto, dada a eventual bravura do mar. Ou seja, o percurso até à Duiker Island é sempre seguro e não há razão para desconfiar da habilidade e da mestria do capitão, porque não havendo condições, também não há viagem.
Central eléctrica no Soweto, desactivada desde há dez anos.

Refeitos do susto, o cenário seguinte, saindo de Hout Bay em direcção a Sul, é bem mais tranquilizante. Seguimos por Chapmans Peak Drive, uma sinuosa estrada costeira escavada na rocha granítica, construída em 1922 por prisioneiros, e que atinge o seu ponto mais alto exactamente no Chapmans Peak, que se ergue do alto dos seus 592 metros acima do nível do mar. Ao longe, avistam-se os seis quilómetros de praia de areia branca de Long Beach, onde foram filmados "A Filha de Ryan" e "O Piano". Esta e outras extensas praias da zona de Noordhoek não convidam ao mergulho, dadas as temperaturas algo gélidas das águas, mas atraem dezenas de surfistas para as famosas provas do campeonato do mundo da modalidade e cavaleiros de ocasião que calmamente se passeiam por ali.

Alguns quilómetros percorridos, e depois de atravessarmos uma pequena vila residencial, de seu nome Scarborough, repleta de sinais a avisar para termos todas as precauções possíveis com os macacos que, invariavelmente, se atravessam à frente das viaturas em busca de comida, entramos então na Reserva Natural do Cabo da Boa Esperança. São cerca de 7800 hectares de natureza intocada a romper mar adentro. A população selvagem - avestruzes, pequenos antílopes (bonteboks e rheboks), zebras montanhesas, além dos inevitáveis babuínos - está ali presente, à vista desarmada e facilmente identificável, dada a vegetação rasteira característica da zona.

Depois de atravessarmos os portões que controlam as entradas para a reserva - 35 rands por adulto e 10 por criança - sobra-nos o vento como companhia até alcançarmos o extremo da península. Estamos precisamente a 34' 21' 24' latitude Sul, 18' 29' 51' longitude Este, as coordenadas que Bartolomeu Dias e Vasco da Gama apontaram quando dobraram esta tormenta de cabo.

E para uma panorâmica verdadeiramente arrasadora o melhor é rumar ao Cape Point, a cerca de três quilómetros do extremo da península, onde, do alto dos seus mais de 200 metros - auxiliados por um funicular que faz a viagem de ida e volta diariamente das 10 às 17 horas - e com as agitadas águas do Atlântico a fustigarem as rochas mais abaixo, poderá ter uma vista de 360º em seu redor (pode orientar-se pelas placas que lhe indicam as distâncias dali em direcção às mais variadas cidades do mundo, como Rio de Janeiro, Paris, Nova Iorque e outras; de Lisboa é que não há qualquer referência...).
À distância de um olhar está a enganadora e aparentemente interminável False Bay, com pontos de interesse turístico impossíveis de não serem destacados a quem faz agora o seu caminho de regresso à Cidade do Cabo. Como, por exemplo, a localidade de Boulders, onde é mantida uma das maiores colónias de pinguins africanos, uma espécie que chegou a estar em vias de extinção mas que tem agora o seu futuro preservado, apenas uma ou outra vez ameaçado pelas gaivotas que, para se alimentarem, não fazem cerimónia em bicar ovos ou matar crias acabadas de nascer.

É este o ciclo da natureza, que pode ser admirado ao percor-rermos os 200 metros de uma passadeira de madeira suspensa sobre a areia que nos possibilita um contacto próximo com esta comunidade de animais selvagens.


 


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