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D O S S I E R

Apesar do passado conturbado e tantas vezes sangrento das gentes do Soweto, as suas caras são alegres, sempre prontas para um sorriso fácil. Este enorme subúrbio de Joanesburgo começou a ser erguido em meados do século XX, numa tentativa do regime de apartheid de afastar a população negra do centro da cidade. Inicialmente foram construídas cerca de 24 mil modestas casas, e, agora, esta verdadeira cidade-satélite alberga qualquer coisa como mais de quatro milhões de habitantes, que vivem orgulhosamente o seu dia-a-dia.

A África do Sul começa a entrar nos mais variados roteiros, estando agendada para 2010 a realização no país do campeonato do mundo de futebol.

Por um punhado de ouro
Este aspecto quase imaculado e relativamente pacífico de todo o Cabo repete-se noutros pontos da África do Sul, muito embora não se possa generalizar esta ideia para lá da região, célebres que ficaram algumas cidades por força do extremar da criminalidade ali registada. Apesar de tudo, passados dez anos do fim do apartheid, a tensão começa a aliviar. Pelo menos é o que acredita a comunidade internacional que, recentemente, pela mão da FIFA, prendou a África do Sul com a organização do campeonato do mundo de futebol de 2010. Até lá, muita tinta correrá, discutindo-se agora quais serão as cidades que vão acolher os jogos de abertura e encerramento do ambicionado evento desportivo.

Entretanto, o mais certo é que continuem a ser ouvidas notícias de assaltos e assassinatos, principalmente em Joanesburgo, cidade que ganhou fama na década de 90 pelos seus elevados índices de violência urbana. No entanto, garante quem lá vive, nesta metrópole que concentra mais de um terço da população total do país a vida corre com os sobressaltos normais de uma qualquer grande cidade.

O centro de Joburg, como é popularmente conhecida, não deixa de ser um cenário algo desolador, acima de tudo para quem tem memórias do local no seu apogeu. Grande parte dos edifícios ali localizados está agora totalmente desocupada, tendo a generalidade das empresas transferido os seus escritórios para os subúrbios, como é o caso de Sandton, que em dez anos passou de zona residencial de luxo para centro de negócios, onde verdadeiras mansões deram lugar a sedes de empresas, todas elas rodeadas por fortes medidas de segurança. O arame farpado, os avisos de "armed response" e os seguranças bem artilhados ilustram o quadro.

Sun City - Terra da fantasia
Do nada cresceu Sun City, a que alguns chamam de cidade perdida, fruto de uma hipotética lenda, talvez construída para oferecer mais algum encanto a este lugar já de si encantado. Depois de atravessadas as imensas planícies da província de Gauteng, entramos no mundo da fantasia, um mundo à parte que se abre aos olhos do visitante com uma opulência e ostentação quase desmedida, a espraiar-se ao longo de mais de 1500 hectares.
Aqui nasceram três hotéis, destacando-se o imponente e luxuoso The Palace of the Lost City, praias e lagos artificiais, um parque de crocodilos, jardins botânicos, um campo de golfe, um casino e até uma reserva natural repleta de animais selvagens, o Pilanesberg National Park, implantado no interior de uma cratera vulcânica com mais de 100 milhões de anos.
Todos os anos, e desde o início dos anos 70, mais de dois milhões de turistas passam os portões desta verdadeira cidade da fantasia, todos em busca de momentos de emoção no Valley of the Waves, no Waterworld, no concorrido casino ou naquele que é considerado como um dos mais reputados campos de golfe de 18 buracos do mundo.
Na génese desta cidade esteve a descoberta de um filão de ouro e a consequente construção de um acampamento no ano de 1886, onde não mais do que dois mil prospectores se instalaram para revolver o solo em busca do vil metal. Joanesburgo é, e continua a ser, um chamariz para muita gente - milhares de imigrantes provenientes de todo o continente africano chegam anualmente à cidade à procura de uma vida melhor, mas, na maioria dos casos, espera-os o desemprego e as ruas -, daí talvez se explicando a tensão que se sente no ar, fruto de quase 120 anos de crescimento desmesurado, com guerras e sangrentos conflitos sociais e raciais a escreverem a sua história.

Sem esquecer alguns locais de interesse turístico nesta região, como por exemplo as grutas de Sterkfontein (ver "Aqui nasceu o Homem"), a Gold Reef City, Sun City (ver "Terra da fantasia"), entre outros, há um local que merece especial referência na história: o Soweto. A cerca de 15 km do centro de Joanesburgo, esta cidade satélite tem mais de quatro milhões de habitantes, entre eles o nobelizado bispo Desmond Tutu e Winnie Mandela, ex-mulher de Nelson Mandela, que tivemos a sorte de encontrar cara-a-cara, precisamente um dia antes do seu julgamento por corrupção, quando, durante a visita da praxe em frente à sua casa fortificada, os portões se abriram e espreitámos descaradamente os jardins onde se dedicava à poda das roseiras...

O próprio Nelson Mandela também viveu neste megabairro, estando a sua simples casa - agora museu - aberta ao público, enquanto a sua actual e luxuosa residência, nos arredores chiques de Joburg, mais parece um quartel...

Construído com o intuito de afastar a população de raça negra do centro da cidade, através da medida legislativa denominada como Group Areas Act, adoptada a partir de 1932, o Soweto (acrónimo de Southwest Township) foi desde sempre um foco de tensão. Entre as datas tristemente memoráveis, destaca-se a de 16 de Junho de 1976, quando um grupo de jovens em idade escolar que se manifestava contra o regime foi barrado pela polícia, que atirou a matar, atingindo, entre outros, um jovem de 13 anos, chamado Hector Pieterson, cujo nome ficou para a história como símbolo da chacina. Em sua memória foi construído no centro do Soweto um interessante museu, onde é reportada toda a história da luta contra o apartheid.

Refira-se que, ao contrário de outros tempos, já é fácil a orientação pelas ruas desta cidade, tendo em conta que um dos truques utilizados para despistar a polícia do regime era ocultar o nome das ruas e os números das portas.
Aqui nasceu o homem
Importa fazer um "pequeno" apontamento histórico: a África do Sul é o berço de toda a humanidade - o chamado Cradle of Humankind. Além da descoberta na província de Gauteng, nas grutas de Sterkfontein, no Norte, do crânio de um australopithecus africanus, baptizado como Mrs. Ples, com mais de três milhões de anos, foi também no seu território, na zona da Lagoa de Langebaan, perto da península do Cabo, que foram descobertos os mais remotos vestígios do homem moderno (Homo sapiens sapiens), com uma datação cronológica que remonta aos 117 mil anos a.C.
Como é óbvio, existem inúmeras atracções turísticas (na foto: Lesedi Cultural Village) por toda a África do Sul a explorar esta questão, com parques temáticos e afins a reproduzirem este e outros episódios da história desta região, sendo as rotas arqueológicas um dos percursos recomendados, espalhando-se de Norte a Sul os vestígios deixados pelos seus ocupantes de há milhões de anos. Pinturas rupestres, fósseis de dinossauros, artefactos da idade do ferro, entre muitos outros, completam o puzzle da história do país (e da humanidade). Dividido em nove províncias - Western Cape, Eastern Cape, KwaZulu-Natal, Free State, Northern Cape, North West, Gauteng, Mpumalanga e Limpopo -, o país conta nas suas origens com diversas tribos, com especial predominância para zulus, xhosas (de que faz parte Nelson Mandela), sothos e tswanas. Cada uma com a sua identidade e a sua cultura muito próprias.

Por muito curioso que possa parecer, e ao contrário do que acontece no centro de Joanesburgo, no Soweto não se sente agora qualquer tensão nos olhares das gentes locais, mesmo apesar da pobreza. A sua disposição é de uma alegria contagiosa, sempre com um sorriso na cara. Os cabeleireiros de rua e a céu aberto são uma constante, os bares de porta aberta multiplicam-se, os mercados de rua são às dezenas e os ajuntamentos de locais em alegre confraternização são também eles habituais.

Tubarões à vista
Ao desembarcar no aeroporto internacional de Durban, a terceira cidade do país, há um sentido que é automaticamente despertado, o do olfacto. Paira no ar quente e húmido um estranho e agradável aroma a especiarias, quem sabe por esta ser a cidade onde reside a maior comunidade indiana do mundo fora da Índia. São mais de um milhão, e começaram a chegar em meados do século XIX, trazidos pelos colonos ingleses para a apanha da cana-de-açúcar (a região é ainda hoje conhecida como a Sugar Belt Province, dadas as enormes plantações de cana-de-açúcar que se avistam no seu território e que fazem da África do Sul o sétimo produtor à escala mundial).

Durban é uma cidade movimentada e com um comércio dinâmico, não fosse o seu porto o mais movimentado de África e o décimo maior do planeta. Por isso, grande parte da vida da cidade tem a ver com o mar, e daí que esteja a ser totalmente recuperada a enorme e ainda degradada zona portuária. Refira-se que, já em 2005, será concluída a segunda fase de reordenamento da orla costeira, apelidada como Waterfront, tendo a etapa inicial sido já cumprida com a construção do uShaka Marine World, uma zona de entretenimento à beira-mar que inclui um parque de divertimentos aquáticos e um simpático oceanário desenvolvido no interior de um navio naufragado, réplica perfeita construída à escala natural.
O Zimbali Lodge, na zona do Bolito, arredores de Durban, é considerado um dos melhores hotéis do mundo.
Encarada pela população sul-africana como uma estância de veraneio - as temperaturas são elevadas durante todo o ano, mal se fazendo notar as estações -, Durban sempre viveu das suas praias banhadas pelo Índico, com imponentes edifícios de estilo art deco a erguerem-se na primeira linha da água, uma água, aliás, repleta de tubarões. Por isso mesmo, as autoridades desde há muito que têm montadas redes de protecção submersas a 700 metros da costa, para proteger os banhistas e as centenas de surfistas que durante todo o ano acorrem à costa de Durban - de Junho até finais de Agosto realiza-se aqui uma das mais aguardadas provas do campeonato mundial de surf.

As transformações não se ficam pelo centro da cidade. Os seus arredores, antes repletos de plantações de cana-de-açúcar, ganham agora um novo fôlego, com a construção de infra-estruturas como o King Shaka Casino e a restrição de acesso à área onde se encontra um dos mais luxuosos resorts do país e do mundo, na zona de Bolito. Falamos do Zimbali Lodge, propriedade da IFA Investments, que detém igualmente o Pine Clifs, no Algarve.

O Unfolozi Game Reserve, a cerca de 200 km de Durban, possui a maior reserva de rinocerontes brancos do planeta.

Na boca do leão

A África do Sul possui cerca de 20 parques e reservas naturais espalhados por todo o território nacional, onde se podem admirar animais selvagens no seu ambiente, com o incontornável e mundialmente famoso Kruger National Park a destacar-se entre os seus congéneres.

Como é impossível visitar ou sequer falar de todos, escolhemos apenas dois, o Pilanesberg National Park, junto a Sun City, onde foi realizada uma das maiores operações de requalificação alguma vez engendradas pelo Homem, com a inclusão em cerca de 580 km2 de mais de seis mil animais, incluindo os "big five" (leão, leopardo, elefante, rinoceronte e búfalo), e o Unfolozi Game Reserve, a cerca de 200 km de Durban, o mais antigo parque natural da África do Sul - foi criado em 1895 - e também a maior reserva do mundo de rinocerontes brancos, que se passeiam calmamente ao longo dos cerca de 50 mil hectares da propriedade. Em qualquer destas reservas poderá admirar uma enorme e variada fauna animal, aconselhando-se, no entanto, que cumpra todas as normas de segurança impostas. Será preferível que realize uma visita guiada por um ranger, ao invés de se aventurar com carro particular, como tão frequentemente se vê nestes parques. As ocorrências - muitas vezes trágicas - não são lenda e todos os anos registam-se mortes ou feridos.

Para quem quer avistar animais sem grande dificuldade, o Pilanesberg é, sem dúvida, o mais indicado, tendo em conta a enorme concentração de animais numa área relativamente reduzida, quando comparado o parque com os restantes. Aliás, a proximidade é de tal ordem que há que ter algumas precauções. Por exemplo, tivemos de fugir a sete pés de uma leoa enfurecida, tendo o ranger que nos conduzia sido obrigado a meter a marcha-atrás para percorrer 300 metros de uma estrada de areia a uma velocidade superior a 65km/h para que o animal não saltasse para dentro do jipe. Fica, portanto, um conselho: não provoque os animais, não saia do carro e não faça barulho.
O Pilanesberg National Park concentra a vida selvagem nos 580 km2 da imensa cratera de um vulcão extinto há 100 milhões de anos.

Este episódio terá sucedido exactamente porque nesse mesmo dia alguém provocou a leoa, que guardava as suas crias, e, sentindo-se uma vez mais ameaçada, investiu em força contra a nossa viatura. Resultado: o animal teve de ser abatido, para que situações destas não se repetissem. Este relato aplica-se também à própria África do Sul, um país que tem de seguir o seu curso natural sem que haja qualquer tentativa forçada de alterar o rumo da história, para que histórias passadas também elas não se repitam.


Agradecemos a colaboração da Across Africa, da South African Airways e da British Airways para a realização desta reportagem.

 


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