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Rotas
de África
Gâmbia
Um país que é sete vezes mais pequeno
do que Portugal, cuja história se confunde com o esclavagismo,
atravessado a meio por um rio e onde os crocodilos são sagrados.
Chama-se Gâmbia e entra pelo Senegal dentro.
Do barco, Albreda quase não se vê.
Adivinham-se apenas alguns telhados de colmo, um grande canhão
e uma bandeira hasteada. Já no cais, um rapazinho vestido de
vermelho, pés descalços na terra a escaldar, agarra-me
na mão. Abdu tem 10 anos passados à beira-rio. Pergunta-me
donde sou, como me chamo e se é a primeira vez que venho à
Gâmbia. É a primeira vez. E, confesso, nem sequer seria
capaz de localizar a Gâmbia num mapa se alguém mo pedisse:
não mais do que um território algures em África.
Agora sei que há quem lhe chame "um dedo na boca do Senegal"
já que forma um enclave dentro deste país, a sua única
fronteira, se esquecermos a linha de costa, banhada pelo Atlântico
numa extensão de 80 quilómetros.
Cortado
a meio por um rio do mesmo nome, o país tem uma área
de 11 300 quilómetros quadrados, sete vezes mais pequeno do
que Portugal, para uma população de um milhão
e duzentos mil habitantes (aproximadamente a mesma de Lisboa), essencialmente
jovem como é comum nos países africanos. Albreda é
disso exemplo. As crianças dominam nesta aldeia ribeirinha,
com uma história que se confunde com a do próprio esclavagismo.
Situada em frente à ilha de James, um antigo entreposto de
escravos, a lenda conta que os cativos que conseguissem nadar os cerca
de quatro quilómetros que a separam de James, passassem o canhão
e tocassem na bandeira, seriam devolvidos à liberdade. As hipóteses,
como se imagina, eram poucas.
É Abdu quem nos conta a história, logo à chegada.
Abdu quer ser médico. Sair da aldeia e ir para a faculdade,
num sítio qualquer que não sabe onde é mas que
sabe existir. Por isso, estuda muito, "principalmente ciências",
na escola ao ar livre. Está no quinto ano e além de
wolof, o dialecto da região, fala um inglês impecável,
aliás, a língua oficial, o que é compreensível
dado que foi apenas em 1965 que a Gâmbia se emancipou do domínio
britânico, permanecendo, todavia, na Commonwealth. Sering, o
nosso guia, conhece Abdu quase desde que ele nasceu e estranha que
o rapaz esteja descalço. A explicação é
simples: "Não tenho sapatos." Os dois desaparecem
pelas ruas poeirentas da aldeia. Quando voltam, Abdu traz um sorriso
de orelha a orelha e nos pés ostenta uns chinelos de borracha
de enfiar no dedo, que me mostra orgulhoso. Volta a dar-me a mão
e nunca mais a larga até eu voltar a entrar no barco.
O grupo
de turistas que nos acompanha desde Banjul, a capital, donde chegamos
de barco, avança penosamente em direcção à
aldeia seguinte, Jufureh. Numerosas crianças ladeiam a estrada
de terra batida. Batem palmas, gritam welcome num inglês arrevesado
e esperam que se lhes dê algumas moedas. O calor está
insuportável, as sombras rareiam e passados alguns metros já
há desistentes que preferem voltar ao cais em vez de enfrentar
os cerca de mil metros até Jufureh, onde os portugueses foram
os primeiros a chegar em 1444, dando início às trocas
comerciais e, posteriormente, à captura de escravos que franceses,
ingleses, espanhóis, holandeses e alemães viriam reforçar
alguns anos mais tarde. |
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