Expresso
do Oriente
De
Veneza a Londres
Às
portas do século XXI, viajantes de todo o mundo continuam a
sonhar com o glamour e com as mordomias das viagens de outras
épocas. Como não somos excepção, resolvemos
embarcar no Expresso do Oriente para ver se sempre é verdade
que o comboio de charme mais famoso do mundo é capaz de nos
fazer recuar até à idade de ouro dos caminhos-de-ferro.
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Texto e fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
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1º
DIA
9h30 Veneza
Itália.
Exuberante, esta cidade deve a sua grandiosidade aos inúmeros
canais ao longo dos quais palazzi e igrejas relembram glórias
passadas.Jeff, um dos mais emblemáticos stewards, impecável
no seu uniforme feito à imagem e semelhança dos usados
em 1914 pela Wagons-Lits.
Após uma noite fabulosa no Hotel Cipriani situado na ilha de
La Giudecca, em frente à Praça de São Marcos,
chego finalmente à estação de comboios de Santa
Luzia.
O trajecto pelos canais é inesquecível. Faço
check-in à hora marcada. Despachados os formulários
e bagagens, sou encaminhado para a gare n.º 2. À minha
frente, 14 carruagens pintadas de azul-escuro exibem, com orgulho,
o brasão polido da Compagnie Internationale des Wagons-Lits
et des Grands Express Européens. O cabin steward, impecável
no seu uniforme azul (uma réplica dos que eram usados em 1914),
conduz-me ao meu compartimento. Fiquei na carruagem n.º 3483,
construída em Inglaterra no ano de 1929. Foi decorada por Morrison,
um designer do período Art Deco.
Feitas
as apresentações, Piero, o steward, no seu inglês
perfeito, explica-me que é o responsável pela carruagem.
Tomará conta do meu passaporte, mudará a configuração
do compartimento de dia para a noite e irá servir-me o lanche
e o pequeno-almoço. Olho em meu redor: o compartimento é
pequeno e luxuoso. As paredes são de mogno envernizado, com
embutidos feitos com diversos tipos de madeira, formando um cesto
de flores. Os assentos são de tecido aveludado, com motivos
florais em tons de verde-seco, preto e amarelo-torrado, e à
noite convertem-se em elegantes camas; para encosto uma almofada do
mesmo padrão em que sobressai o bordado inglês.
No dia 25 de Maio de 1982, James Sherwood viu o seu sonho tornar-se
realidade com a partida do VSOE.
Junto
à janela, uma mesa rebatível com um candeeiro de abat--jour
plissado rosa-velho. No tecto, três tulipas em vidro fosco
desenhadas por Lalique iluminam o compartimento. Ao lado da porta
estão situados os interruptores das luzes do tecto, da cabeceira
e a campainha para chamar o steward. O aquecimento é
controlado individualmente, ao passo que para aumentar a ventilação
abrem-se as janelas. Os lavabos estão equipados com lavatórios,
torneiras de água quente e fria, tolhas, amenities e ficha
de duas voltagens. As casas de banho, que mais parecem um museu,
encontram-se nos extremos da carruagem e não têm chuveiros!!!
Nos anos de ouro dos caminhos de ferro, os duches só eram
obrigatórios para viagens de duração superior
a 3 dias.
Lá fora, pelos altifalantes, anuncia-se em italiano, inglês
e francês a partida do comboio. Olho
para o relógio: são 10h42 da manhã. As boas-vindas
do director do comboio chegam pelo altifalante. À medida
que o Expresso ganha velocidade, parto à descoberta pelos
seus estreitos corredores. Ao meu encontro vem o director do comboio,
Miguel de Lacerda, por sinal um português, dar-me as boas-vindas
pessoalmente e apresentar-me o meu novo lar.
O Venice Simplon-Oriental-Express (VSOE) é composto por 3
carruagens-restaurante, 1 carruagem piano-bar, 11 carruagens-cama
e 2 carruagens de serviço para tripulação e
bagagem. As áreas públicas estão situadas no
centro da composição e as carruagens-cama estão
nos seus extremos. A sua configuração habitual é
composta por 17 carruagens mais a locomotiva; esta, ao longo do
seu trajecto, irá ser trocada em todas as fronteiras. Durante
as paragens técnicas não se realiza nenhum tour. Foram
necessárias 23 mil horas de trabalho por carruagem para as
restaurar. Cada composição é individualizada
por um número e por uma decoração própria
da autoria de designers famosos do período Deco: Dunn, Maple,
Morrison, Nelson, Prou e Lalique.
Modificações
estruturais foram realizadas para alcançar uma velocidade
máxima de 100 km/hora. No sistema de aquecimento foi mantido
o original, ou seja, uma caldeira de Verão e de Inverno que
funciona a carvão.
Para trás ficaram Mestre, Pádua, Vicenza, paisagens
industriais que vão dando lugar a cenários campestres.
12h13: Chegada
a Verona Itália.
Cidade italiana escolhida por Shakespeare para o seu Romeu e Julieta.
O almoço vai ser servido nas três carruagens-restaurante:
Côte dAzur, com os seus painéis de cristal Lalique,
Étoile du Nord com embutidos e a Voiture Chinoise com os
seus painéis lacados ao mais puro estilo chinês. Dirijo-me
para a carruagem n.º 4141 Côte dAzur
e instalo-me finalmente num lugar previamente marcado pelo maître
dhotel.
No tecto, ventoinhas coloniais e plafonniers em forma de
tulipa. Nas paredes, painéis de cristal Lalique ilustram
as virgens da mitologia grega figuras femininas segurando
uvas. Sentado, observo mesas de dois lugares à minha frente
e outras de quatro lugares no outro lado.
Pratos
com monograma, de porcelana branca debruados a azul, faqueiro de
prata, copos de cristal francês, um solitário e um
candeeiro estão sobre uma toalha adamascada, tudo estilo
Deco. As iguarias são confeccionadas a 100 km/hora na mais
pequena cozinha do mundo, com enorme requinte pelo subchefe David
Ducrocy sob a orientação do chefe Christian Bodiguel.
Como entrada, salmão frito envolto em sementes de sésamo
e cominho, acompanhado de puré de tomate frio e manjericão.
Como prato principal, galinha estufada com trufas pretas, ervilhas
em manteiga e um bolo de batata, recheado com foie gras. Para finalizar,
um crème brûlée. Tudo isto devidamente
acompanhado por um vinho branco Bordeaux Château dYquem
Lur Saluces 1990. O restaurante também dispõe de um
menu à la carte digno de reparo composto por nove
pratos (não incluídos na tarifa, tal como os vinhos
e os digestivos). A garrafeira é de excelente reputação,
contando com vinhos italianos e franceses, tendo a escolha recaído
sobre vinhos brancos, tintos e champanhes. Não é por
acaso que o VSOE é membro honorário do Relais &
Château desde 1986.
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