[Expresso
do Oriente - De Veneza a Londres]
15h46: Brennero
Itália.
Esta
estação fica situada na fronteira da Itália com
a Áustria.
Almoço servido na carruagem Pullman decorada por René
Lalique
Para trás ficaram as montanhas do Dolomites, o Mar Adriático
e a passagem do Brenner a 1375 metros de altitude. À nossa
frente, surgem os Alpes austríacos. Refastelado no meu compartimento,
observo a paisagem carregada de neve. Fecho os olhos por um instante
e tento imaginar o dia 4 de Outubro de 1883, data em que se realizou
a primeira viagem do Expresso do Oriente de Paris à Roménia;
os carris paravam no Danúbio. Aí, atravessavam o rio
em ferry e continuavam de comboio a sua viagem até ao Mar Negro,
na costa búlgara. Uma vez chegados, navegavam até Istambul.
Anos antes, o americano George Pullman fornecera aos caminhos de ferro
britânicos carruagens de luxo tendo depois inaugurado The British
Pullman Palace Car Company que efectuava o percurso Londres-Brighton.
O VSOE foi um projecto idealizado pelo belga Georges Nagelmackers,
fundador da Compagnie Internationale des Wagons-Lits et des Grands
Express Européens. As ligações entre Londres
e Paris começam em 1889. De Londres a Dover no British Pullman;
a travessia do canal de barco e, finalmente, a aventura europeia nos
Wagons-Lits até Istambul, em que grande parte do percurso se
efectuava em via única.
Em 1921, já com uma via de dois sentidos, Paris-Istambul realiza-se
em apenas 56 horas (mantendo as tradicionais 3 noites a bordo) devido
à inauguração do Simplon Tunnel anos antes.
O VSOE sobrevive até 1962, altura em que se retiram por completo
as carruagens-restaurante. Realiza a sua última viagem Paris-Istambul
em Maio de 1977.
Nesse
ano, o americano James Sherwood, entusiasta de comboios e presidente
do Grupo Sea Containers, comprou gradualmente as carruagens, restaurou-as
e no dia 25 de Maio de 1982 realizou a viagem inaugural Londres-Veneza,
com o mesmo glamour e romantismo dos tempos áureos do
Expresso do Oriente.
Entretanto, adormeço ao som ritmado das rodas sobre os carris.
Piero acorda-me com um leve bater na porta. Vem servir-me o famoso
chá das 5.
16h42: Chegada
a Innsbruck Áustria.
Antiga cidade medieval é hoje a capital do Tirol. O ritual
das fotografias é, no entanto, um dos must da viagem. O apito
soa e o comboio avança serpenteando este vale cercado de
montanhas altíssimas. Lá no alto, nas montanhas de
Karwendel, as famosas rampas de saltos, inclinadíssimas,
que serviram de palco aos Jogos Olímpicos de 64 e 76. É
o local ideal para testar os limites dos amantes de esqui radical.
O troço ferroviário entre Innsbruck e Feldkirch, com
175 km, é considerado uma maravilha da engenharia, tendo
sido construído no final do século passado. A paisagem
supera todas as minhas expectativas e é, para mim, o troço
mais emocionante de todo o percurso.
O Venice Simplon-Orient Express é membro honorário
do Relais & Château desde 1986.
18h49:
St. Anton Áustria.
É a estância de esqui mais famosa da Áustria,
as suas pistas são pura adrenalina. Na estação,
um grupo de jovens à espera de outro comboio tira fotografias
ao VSOE. Amáveis, os stewards fazem com eles uma rápida
visita guiada. A paragem demora 7 minutos.
Estamos outra vez em movimento. Pela janela, um cenário deslumbrante.
À minha volta, pastos, montanhas e chalés, encontram-se
cobertos por um espesso manto de neve neste mês de Abril.
Antes do jantar, dirijo-me à boutique instalada na carruagem-restaurante
Côte dAzur. Delicio-me a ver os lenços de seda,
molduras, gravatas, relógios com a griffe do VSOE
Acabamos de entrar no Arlberg Tunnel, com os seus 10,25 km de comprimento.
Este túnel veio substituir o Simplon Tunnel, tornando o percurso
173 km mais longo, mas delicia os passageiros com uma paisagem alpina
lindíssima. Encontramo-nos agora no ponto mais alto do percurso,
sendo necessárias duas locomotivas para puxar as catorze
carruagens. As íngremes encostas e os vertiginosos desfiladeiros
são transpostos através de pontes ou altíssimos
viadutos, percorridos num troço de via única. Ao longo
do trajecto, é possível admirar engenhosos sistemas
de protecção contra avalanches. Para trás ficaram
um sem-número de túneis e de curvas pronunciadas.
19h48: Feldkirch
Áustria.
Antiga cidade dominada pelo castelo de Schattenburg.
Daqui,
o caminho de ferro segue o curso do rio Ill. As montanhas da cordilheira
Ratikon tornam-se mais íngremes e altas, formando uma fronteira
natural com o Liechtenstein. Pela janela do corredor, enquanto fotografo
a paisagem, observo ao longe as silhuetas da capital Vaduz com o
seu castelo. O comboio desliza à luz de um pôr-de-sol
fantástico. O espesso manto de neve branco torna-se dourado.
A tarde vai caindo e a noite aproxima-se. Antes do jantar, dirijo-me
para a carruagem-bar. Construída em França em 1931,
foi decorada por Gérard Gallet no estilo Art Deco. É
uma oportunidade para conversar com os meus companheiros de aventura,
quase todos americanos, que, na sua maior parte, estão no
comboio para celebrar uma data especial ou simplesmente pelo cenário
fantástico. O champanhe baila nos flûtes e os
brindes e sorrisos sucedem-se. A média de idades ronda os
45 anos.
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