Santiago
Compostela
O
Sagrado e o Profano
Uma peregrinação por Santiago de Compostela. Com atracções
mais mundanas e muita cultura, já a anunciar o próximo
acontecimento: em 2000, a cidade será uma das oito capitais
europeias da cultura.
Que
"... todos os caminhos são mágicos se nos levam
aos nossos sonhos", já se diz no prefácio de
O Diário de Um Mago, de Paulo Coelho, relato de uma peregrinação
pelo Caminho Francês.
A frase confirma-se na prática durante uma missa do peregrino,
na Catedral de Santiago, em Ano Santo. É uma segunda-feira,
dia feriado na Galiza, o templo rebenta pelas costuras. Aos peregrinos,
o cansaço marca-lhes a expressão. A roupa própria
para caminhar distingue-os dos que aqui chegaram em autocarros de
turismo. Nuns e noutros a tensão emocional é quase palpável,
mas nos peregrinos está mesmo à flor da pele. Choram
quando, coxeando, se arrastam para a comunhão agarrados à
Compostelana, certificado de terem andado mais de 100 km.
Por devoção, estes peregrinos atingiram um objectivo
sonhado. E ao fazê-lo, sofrendo as dores de todos os caminhantes,
atingiram também o que os cristãos têm de mais
renovador: o perdão de todos os pecados, através de
uma indulgência plenária. Que também se alcança
a cavalo, ou de bicicleta se forem percorridos mais de 200 km.
O Ano Santo Compostelano foi instituído temporalmente pelo
Papa Calixto II em 1119. Mas só teve efeito depois da sua ratificação
pela Bula Regis Aeterni, publicada pelo Papa Alejandro III, em 1179.
Os peregrinos aumentaram em pouco tempo.
É o Jubileu mais frequente da Igreja Católica: tem uma
periodicidade variável de cinco, seis e 11 anos, sempre que
a festa de Santiago, a 25 de Julho, calha a um domingo. Em 1999, esta
convergência acontece pela 115." vez. Houve, no entanto,
mais dois, instituídos apesar do dia de Santiago não
ser um domingo: em 1884, em louvor pela redescoberta do corpo do Apóstolo
(estava desaparecido há três séculos) e em 1937,
em plena Guerra Civil espanhola (1936-39)
Desta
aventura marítima nasceu o mito que fez das conchas de vieira
um dos símbolos dos peregrinos a Santiago de Compostela.
Um cavaleiro que seguia por terra a barca dos discípulos caiu
à água, ficou submerso durante muito tempo, mas misteriosamente
não se afogou. Quando veio à tona estava coberto por
estes bivalves. Os peregrinos ainda hoje trazem a concha de vieira
ao peito. Durante a Idade Média foi a marca inequívoca
no uniforme dos peregrinos que havia de franquear o acesso às
hospedarias.
À
chegada à Ria de Arosa, Atanásio e Teodoro decidem subir
o rio Sar (hoje Ulla) até Iria Flávia (a actual vila
de Padrón), onde amarram a barca a uma coluna de pedra
que se diz ser a mesma que está hoje sob o altar-mor da igreja
de Santia-go de Padrón.
Entram então nos domínios da rainha Lupa, senhora destas
terras. Pedem-lhe que os deixe sepultar o corpo de Tiago, mas Lupa
envia-os a Filotro, governador romano. São presos. Conseguem
fugir e regressam à presença de Lupa, que, para os pôr
à prova, os manda ao Monte Ilcino (hoje Pico Sacro, a 15 km
de Santiago de Compostela) em busca de bois que eram afinal touros
selvagens. Amansam-nos com o sinal da cruz, depois de terem derrotado
um dragão com o mesmo gesto. Lupa acaba por se converter: oferece-lhes
abrigo e um local para o funeral de Tiago.
Começa assim uma outra jornada da viagem até Liberum
Donum ou Libre-don (actual Santiago de Compostela) em memória
da doação feita numa carroça puxada a
bois. Os animais param três vezes ao longo do percurso de cerca
de vinte quilómetros.
Estranhamente
acontecem todas a poucos metros umas das outras.
Para
cada uma, os discípulos tinham uma incumbência: no
local da primeira deviam construir uma capela; no da segunda edificar
uma fonte, de onde brotasse água. Uma e outra são
visíveis na actual rua do Franco, completamente absorvidas
pelo tecido urbano. À terceira vez que os bois parassem deviam
depositar o corpo de Tiago, colocar as relíquias numa arca
de mármore e construir uma outra capela (ac-tualmente a Catedral),
de que cuidariam até porque ao morrerem seriam aí
sepultados com o apóstolo.
As peregrinações ao túmulo começam quase
imediatamente ao mesmo ritmo das perseguições, estas
ordenadas pelo imperador Vespasiano, que em 257 acaba por proibir
qualquer manifestação do culto jacobeu.
Abandonado
nessa altura, o túmulo só foi redescoberto em 813,
quando um eremita que pregava junto ao Libre-don viu sobre a sepultura
uma estrela de brilho intenso acompanhada de cantos angélicos.
Os rumores desta visão rapidamente chegam até ao bispo
Teodomiro, de Iria Flavia, que indo ao bosque encontra a capela
com as três campas, as relíquias do apóstolo
e uma lápide. Afonso II das Astúrias foi o primeiro
peregrino deste novo ciclo do culto a Tiago. O Libre-don passa a
chamar-se Campus Stellae.
Compostela tornava-se assim um verdadeiro caminho europeu santificante,
a par dos que rumavam a Roma e à Terra Santa. No século
XII, o embaixador do Emir Alí Ben Yusuf já dá
conta da multidão de fiéis que aqui se dirigem: "É
tanta a gente que vai e vem de Santiago de Compostela que dificilmente
deixam o caminho do ocidente livre."
Reis,
santos, camponeses, para aqui convergem, ultrapassando em número
os crentes que vão a Jerusalém e a Roma, fazendo com
que a capela românica então existente se transforme
no centro de peregrinação e de cultura mais importante
do cristianismo da Idade Média. A propósito, Goethe
escreveu que "(...) A Europa se construiu a caminho de Compostela
(...)".
Ao longo dos séculos, os peregrinos foram estabelecendo rotas
mais ou menos fixas, ainda que muito variadas, originando largas
dezenas de percursos, atravessando regiões, permitindo grandes
intercâmbios culturais. Alguns caminhos perderam-se na memória
do tempo, e estão agora a ser reencontrados, como prova o
recente achado de uma rota proveniente da Polónia.
Deste movimento intenso de pessoas vindas dos quatro cantos do Velho
Continente começa a surgir uma povoação que
para sempre ficaria ligada ao culto e à Igreja Católica.
Crescendo se as peregrinações estavam no auge, declinando
quando estas quase desapareceram, culpa de doenças e das
guerras entre católicos e protestantes. Foram estas, aliás,
que em 1588 levaram o arcebispo S. Clemente a esconder o túmulo
de Santiago, perante a ameaça de ataques ingleses. O esconderijo
foi tão bem dissimulado que durante três séculos
ninguém soube onde estes estavam. E deixou de haver razões
para peregrinar.
A pequena capela original foi sendo sucessivamente aumentada, com
acrescentos que demonstravam o poderio da Igreja. De capela passou
a templo românico, depois Barroco e Neoclássico e aumentou
consideravelmente de tamanho.
A universidade, já existente desde 1501 e também ela
ligada à Igreja, teve nestes tempos um papel secundário
na vida da cidade. Foi só com o Iluminismo, no século
XVIII, e porque as peregrinações já estavam
em franco declínio, que teve alguma importância, devido
à criação de cursos científicos. Foi
sol de pouca dura já que as invasões francesas fazem
com que a cidade volte a cair no esquecimento total, arrastando
consigo a universidade, que fica, entretanto, resumida às
faculdades de direito e teologia.
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