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[Santiago Compostela - O Sagrado e o Profano]


Santiago de Compostela transforma-se numa sombra dela própria. Não tem indústria nem comércio, foi preterida na escolha da capital de província (que é entregue à Coruña), tem poucos estudantes e não tem peregrinos, a sua razão de ser.

É só em 1884, com a redescoberta do corpo de Santiago, que as peregrinações regressam. E as escavações arqueológicas, entretanto realizadas na Catedral, levam à descoberta de uma necrópole, datada dos primórdios do culto a Santiago, que os especialistas consideraram insólita, já que a povoação mais próxima se situava então a 20 quilómetros de distância. Parecia que assim se confirmava a existência de algo muito mais profundo do que uma simples tradição.
Paulatinamente a cidade recomeça a crescer. E nos anos 20 deste século, com a República, ao ser recuperada a univer-sidade entretanto laicizada, dá-se mais um impulso que ajudará a cidade a recuperar o brilho perdido.

Depois dos anos 60, com a chegada da poupança dos emigrantes galegos espalhados pela Europa, a cidade expande-se para fora das antigas muralhas. Nasce o bairro Ensanche — que significa precisamente alargar. É nesse bairro que o número cada vez maior de estudantes — actualmente cerca de 40 mil estudantes — encontra casas para alugar. Por causa deles, a cidade sente que tem de se reconverter. Na Cidade Velha começam a surgir bares, cafés, restaurantes e discotecas.

A grande recuperação dá-se finalmente após a morte de Franco, a 20 de Novembro de 1975. Caminha-se para o federalismo, reclamado pela Galiza, pelo País Basco e pela Catalunha (reivindicações que tinham estado na origem da Guerra Civil de 36-39). Com a instituição das regiões autónomas, Santiago de Compostela sobe à qualidade de capital política. Já tinha a Universidade. Agora adquire também a sede do Governo e o Parlamento galegos, bem como a sede da TV Galiza. A sua localização a meio caminho de dois importantes portos comerciais, Coruña e Vigo, torna-a atraente para a instalação de algumas empresas. E transforma-se num povoado onde os opostos se atraem, com o sagrado e o profano a conviverem amigavelmente. De um lado a população estudantil, do outro os peregrinos. Uma caracterização sazonal já que de Setembro a Junho, Santiago de Compostela é a cidade dos estudantes; de Maio a Outubro é a cidade de peregrinos. No Verão a cidade nova fica deserta; a velha rebenta pelas costuras com visitantes.

Para inverter esta sazonalidade turística a cidade está agora a passar por um processo de renovação, apostando na cultura e na qualidade. Já classificada como Cidade Património da Humanidade pela Unesco, reconhecida como meta do Primeiro Itinerário Cultural Europeu pelo Conselho da Europa e vencedora do Prémio Europeu de Urbanismo da União Europeia, a capital espiritual da Galiza vai ser em 2000 uma das oito Capitais Europeias da Cultura.

Um acontecimento que aliás só prolonga as centenas de exposições, concertos, congressos e outros eventos culturais que a Xunta de Galicia organizou para comemorar o último Jubileu do milénio. Esta forte aposta no turismo cultural surge acompanhada de um grande investimento na oferta de serviços de qualidade e na renovação urbanística.

A justificação para esta procura em se assumir como destino cultural é evidente: o peso brutal que Santiago e as suas peregrinações tiveram na formação da identidade cultural da Europa, da Idade Média aos nossos dias. Tanto que continuam a ser escritas ou realizadas obras sobre os caminhos de Santiago, onde se incluem A Via Láctea de Buñuel, O Caminante, de Juan Manoel Serrat, ou o livro Compostela y su angel, de Torrente Ballester.

Enquanto a cidade busca a sua identidade, os peregrinos, ao caminharem para ela, sofrem o mesmo processo: segundo Paulo Coelho, no Diário de Um Mago "(...) A peregrinação pelo caminho de Santiago iria fazer com que me descobrisse a mim mesmo (...)". Assim seja



1º dia


9:00
Pequeno-almoço no Literarius (Travessia de la Quintana), para começar logo a entrar no espírito desta cidade, que mistura a cultura com a religião. Sala de refeições do Cocina Enxebre, uma verdadeira instituição gastronómica da Galiza.
É um café-bar muito acolhedor, conhecido pela sua forte ligação à cultura, mesmo ao lado da Catedral, onde pode comer uns croissants, acompanhados com chocolates quentes ou cafés diversos.

10:00
Museo do Pobo Galego, um espaço etnográfico e antrológico sobre as várias regiões da Galiza, que dá a conhecer a história e as tradições deste povo: o mar, a agricultura, a arquitectura popular, os ofícios tradicionais, a música. É perfeito para ficar a conhecer melhor a Galiza e os galegos. O antigo cemitério e a velha horta do convento, que aqui funcionava, foram transformados por Siza Vieira num bonito jardim. San Domingos de Bonaval, tel.: 981 583 620, aberto de segundas a sábados, das 10h às 13 e das 16h às 19h. Entrada grátis.

11:00
Centro Galego de Arte Contemporánea, projectado por Siza Vieira, mesmo ao lado do Museo do Pobo Galego, este CAM combina mostras monográficas de artistas galegos e internacionais com intervenções de jovens artistas. Rúa Valle Inclán s/n, tel.: 981 546 619, aberto de terças a sábados das 11h às 20h; domingos e feriados das 11h às 14h.

14:00
Almoço no El Asesino, um restaurante famosíssimo existente desde 1873. Deliciosa comida galega em ambiente familiar, muito frequentado por gente ligada à cultura e à universidade. Era um dos locais preferidos de Valle Inclán, que deu o nome a uma das salas por comer sempre nela. Herdou o nome da altura em que ainda se matavam os animais no restaurante. Um galo que ia ser sacrificado fugiu para a universidade, tendo sido "protegido" pelos estudantes, que viram nele uma óptima oportunidade de matarem o fome. O carniceiro passou desde essa altura a ser conhecido como "assassino". O epíteto estendeu-se ao próprio restaurante. Na Plaza Universidad 16, tel.: 981 581 568.

16:00
Museo da Catedral, de visita fundamental para compreender a história da catedral, do culto a Santiago e também da cidade, todas estreitamente ligadas. Inclui o resultado das escavações arqueológicas realizadas nos últimos anos, um tesouro riquíssimo, biblioteca, e visita à cripta do Pórtico da Glória. Praza do Obradoiro, s/n, tel.: 981 581 155, aberto de segundas a sábado entre as 10h e as 13h e as 16 e as 19h30, e as domingos das 10h às 13h30, até Setembro. No resto do ano encerra aos domingos e à semana fecha as portas às 18h. Preço: 500 pesetas

19:00
Ideal para recuperar forças depois de um banho cultural-religioso, o Nouturnio é um café situado na zona velha da cidade, com decoração pós-moderna e algumas peças de design. Muito frequentado por estudantes, serve chocolate quente ou cafés diversos, alguns com álcool, na rúa Cardenal Payá nº 3.

21:00
Jantar no Enxebre, o mais recente restaurante do Parador compostelano. A qualidade gastronómica é a mesma do restaurante principal desta unidade hoteleira — excelente — mas os preços são mais acessíveis. Experimente o que for tipicamente galego, e não se vai arrepender. Na Costa do Cristo, Hostal dos Reís Católicos, tel.: 981 582 200

22:30
Périplo pela noite, percorrendo diversas capelinhas, bem ao jeito da cidade.

O célebre rali Paris-Dakar deu origem a uma verdadeira peregrinação noctívaga em Santiago de Compostela, onde é da praxe parar e "picar" algo nas muitas casas comerciais situadas entre o Paris e o Dakar, dois bares na rua do Franco.
É célebre, a maratona Paris-Dakar, uma reprodução do célebre rali, em versão "copofónica", em que as várias etapas se fazem entre os múltiplos bares, situadas entre o "Paris" e o "Dakar", dois bares na rúa do Franco. Mas se preferir um ambiente mais calmo o Borriquita de Belem, rúa San Payo de Antealtares é ideal. Tem como especialidade os mojitos cubanos, caipirinha em versão do Caribe, e os vinhos andaluzes a barril, ambos bebidos ao som de jazz com especial relevo para Billy Hollyday
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