Estrada
Fora - Marrocos
A Rosa do Deserto
Dormir nas dunas ao luar, fazer todo-o-terreno
em pistas dignas do Paris-Dakkar, tomar um chá em Marrakech ao som
de encantadores de serpentes, dar de caras com as filmagens da Múmia,
descobrir que os oásis não são miragem, encontrar a rosa do deserto.
Qual
é a sua medida de viagem de aventura? Há quem diga que
ao sair de casa já se está a tornar uma aventura, mas
para os que desesperam de tédio ou stress com a vida quotidiana,
esse argumento não convence.
São outros os argumentos que convencem qualquer pretendente
a aventureiro, pois quantos não gostariam, secreta ou assumidamente,
de se tornarem Indiana Jones?
Infelizmente, nem sempre os papéis de cinema se adaptam ao
comum mortal, correndo-se até o risco de quem quer que tenha
escrito o argumento do nosso próprio filme não nos ter
destinado o papel de herói indestrutível. Com a agravante
de, na realidade, não se poderem repetir as cenas que acabem
mesmo mal
Apesar de tudo, há sempre uma aventura disponível para
a medida de cada um. Por vezes, ao sair da porta, contrariando a distância
ansiada pelo nosso imaginário.
Há viagens que se podem tornar inesquecíveis e surpreendentes.
E se lhe propusessem Marrocos para iniciar o seu currículo
de aventureiro? Demasiado perto para ser verdade? Pois saiba que Marrocos
é a forma mais curta para alcançar África a partir
da Península Ibérica. Partindo de Tarifa ou Algeciras
nem vai ter tempo para saborear a travessia de barco até sentir
o pé no continente abaixo do seu. Isto se, entretanto, não
for abalroado por um passageiro indesejável: o enjoo.
Marrocos:
Tão próximo, tão distante
Tânger.
Uma opção viável para entrar em Marrocos. O
início de uma experiência que rapidamente o fará
entrar noutra realidade, noutra cultura. Uma espécie de nível
1 de abordagem ao mundo islâmico.
A nossa história não esquece que foi em Alcácer
Quibir que ficou desfeita na areia a aventura do Portugal quinhentista.
Uma desilusão e um mito só "comparáveis"
à mão de Abel Xavier, daqui a cinquenta anos. Seja
como for, Marrocos continua a ser uma passagem para a aventura.
A passagem para o deserto. Os desertos, como os oceanos, têm
algo em comum. Talvez por isso ambos atraiam grandes navegadores.
Solitários ou em grupo, ligados por uma paixão irresistível
pelos grandes espaços ou, simplesmente, pela ilusão
de liberdade total.
Thierry
Sabine foi um desses aventureiros do deserto. E o tributo à
sua paixão, o mítico Paris-Dakar. Para que todos pudessem
experimentar e partilhar a sua ilusão de liberdade.
Foi esse espírito que uniu todos
os que partiram para Tânger, numa iniciativa Unibanco com
organização do Clube Aventura. Uma caravana de quase
duas dezenas de jeeps que empreendeu a Volta a Marrocos em Oito
Dias. Um alucinante papa quilómetros, entre alcatrão,
pista de deserto e dunas, conduzido pela experiência tranquila
de uma lendária raposa do deserto: José Megre.
Dia 2: Tânger, A sequela do Matrix
Desembarcados
em Tânger somos confrontados com a burocracia das formalidades
aduaneiras. Não vale a pena desesperar. Atravessar o túnel
do tempo nem sempre é rápido mas compensa. Ao longe,
ecoa pela cidade o chamamento para a oração de final
do dia.
No curto percurso para o hotel, a caravana desperta curiosidade.
Se houvesse vida em Marte não nos sentiríamos mais
alienígenas em pleno processo de intrusão. E com a
habilidade que esta gente revela para o negócio não
será de admirar que, na vinda, já existam à
venda no comércio local pequenas figurinhas nossas, criando
condições para uma nova Rosewell.
Tânger é uma cidade agitada. Conduzir é uma
prova de perícia entre enxames de peões que escapam
milagrosamente de tangentes suicidas. A sensação para
o condutor é a de ter entrado num jogo de computador ou mesmo
de ter sido escolhido para participar na sequela do Matrix.
O hotel Minzah, com uma soberba vista sobre o porto, serve de base
para a primeira noite marroquina. Depois do jantar, saboreiam-se
os relatos de viagens anteriores, contados na primeira pessoa pelos
"veteranos" do deserto. Os "caloiros" ouvem
e sentem a adrenalina crescer quando uma das participantes conta,
com o ar mais bem-disposto deste mundo, que a sua iniciação
à condução nas dunas terminou em "capotanço",
o que lhe valeu eva-cuação de emergência em
helicóptero e um regresso antecipado a Portugal.
É sempre reconfortante saber que estas coisas são
"à séria".
Dia 2: Fez, As contas que Deus fez
A
caravana parte cedo à conquista do alcatrão. Num grupo
muito heterogéneo, que oscilava entre os que já haviam
atravessado África, Ásia ou América do Sul
em todo-o-terreno e os totalmente inexperientes que ganharam o direito
de participação num sorteio do cartão Metrópolis,
a dúvida colocava-se: como conciliar um andamento que permitisse
chegar ao fim e cumprir o programa de viagem?
Felizmente,
a primeira etapa correu verdadeiramente sobre rodas. Mesmo um furo
curricular num dos carros não retirou confiança à
equipa que parecia predestinada para o sucesso. A paisagem, embora
seca logo que terminou a primeira parte do trajecto ao longo da
linha de costa, ainda não revelava as emoções
fortes que estavam guardadas para os dias seguintes.
Vencidos os primeiros 300 quilómetros, assentámos
em Fez, uma referência incontornável do circuito das
cidades imperiais marroquinas. A sua reputação confere-lhe
a fama da mais tradicionalista de Marrocos.
A piscina do excelente hotel Jnan Palace é um óptimo
elixir antes da visita obrigatória à parte velha da
medina, onde fazer compras pode ser divertimento ou calvário.
Para se dar bem com o sistema tem que pôr na sua cabeça
que nada possui preço fixo e que tudo, ou quase tudo, é
negociável. Depois, é entrar no jogo. Um jogo de estratégia
em que pode comprar a maior pechincha da sua vida ou levar pechibeque
a peso de ouro.
O negócio é aqui algo quase religioso e dificilmente
escapará ao ritual de regatear seja o que for sem que você
próprio se sinta com a consciência pesada pelo pecado
da avareza
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