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A Veneza do Norte
Também designada "cidade livre"
da antiga Liga Hanseática ou "cidade-estado", Hamburgo,
no decurso da sua longa história apenas se curvou perante a
ocupação napoleónica no início do século
XIX..
A comparação com Veneza deriva do facto de ser uma
cidade sobre água: miríades de canais que funcionam
como vias fluviais
Nasceu
por iniciativa de Carlos Magno no ano de 808 na confluência
de três rios, o Alster, o Bille e o Elba, sobre os brejos
da Luneburger Heide, zona silvestre e pantanosa rodeada por uma
floresta chamada Hamma. A fortificação, construída
com o fim de proteger o império da amea-ça das hordas
bárbaras eslavas, recebeu o nome Hamma-Burg.
O
filho de Carlos, Luís o Pio, considerando a sua posição
estratégica, fez dela sede de Arcebispado. Criou assim um
baluarte missionário nos territórios ocidentais vocacionado
para a difusão do Cristianismo nos países escandinavos.
Estava-se no ano de 831 e, desde então, Hamma-Burg passou
a ser governada, durante mais de três séculos, por
Bispos-Príncipes. Parece inacreditável: aquela que
hoje é a cidade alemã mais rica e mais importante
sob o ponto de vista económico, governada pelos negócios
e pelo comércio, conhecida pela sua vida livre e pelas ruas
de prostituição, teve origens militares e religiosas.
Uma
história que os hamburgueses não gostam muito de recordar,
orgulhosos que são das suas características independentes
e republicanas e muito mais interessados no futuro que no passado,
na riqueza e na "boa vida" que nas origens antigas, cada
vez mais distantes do seu modo de ser.
Riquezas
Hamburgo é, actualmente, a segunda cidade alemã em
dimensões, com 1 700 000 habitantes e um dos mais importantes
portos comerciais dos nossos dias.
Outra
característica inacreditável é que este enorme
complexo portuário não se situa no mar mas sim no
rio Elba, a uns bons 50 quilómetros do Báltico e a
mais do dobro do Mar do Norte. Os navios de grande porte, que aguardam
em fila no Mar do Norte, levam cinco a seis horas de navegação
lenta para cobrir os 110 quilómetros que separam o cais da
foz em Cuxhaven.
O porto foi principiado em meados do século décimo,
quando Hamburgo começava a tornar-se um importante centro
comercial. A sua existência ficou a dever-se ao Conde Adolfo
III, que teve também o mérito de construir a Neustadt,
a parte nova da cidade, situada a ocidente da Altstadt, a cidade
velha ainda sob a autoridade dos Bispos.
Por diploma régio datado de 1189, o imperador Frederico Barba-Roxa
concedeu a Neustadt o direito de exercer o comércio livremente
e a isenção dos direitos alfandegários, privilégios
que no século xii, quando as duas partes da cidade se uniram,
foram alargados a Altstadt. O comércio conheceu um considerável
incremento e Hamburgo tornou-se rapidamente numa rica cidade portuária,
e também, em 1321, num proeminente membro da Hansa, a poderosa
federação de cidades do Mar do Norte que existiu continuadamente
até ao século XVII.
Por
duas vezes, em 1460 e de novo em 1510, Hamburgo foi reconhecida
como "Cidade Livre Imperial", título de que ainda
hoje lembra com orgulho. Até ao século XVII manteve
a independência e prosseguiu uma política de neutralidade
e tolerância, pensando sobretudo em desenvolver as suas actividades
mercantis que alcançaram resultados dignos de registo. Em
1558 abriu aqui a primeira Bolsa da Alemanha, em 1665 a primeira
Câmara de Comércio, em 1619 o primeiro Banco e em 1672
o Relations Courier, o primeiro jornal de anúncios comerciais
e publicitários do mundo.
Nunca como neste caso se disse com tanta propriedade que "é
de manhã que se adivinha que o dia vai ser bom": a tradição
foi mantida até ao ponto de Hamburgo ser hoje a mais rica
das cidades alemãs e o segundo porto europeu depois de Roterdão.
O comércio foi acompanhado pela indústria, e no que
respeita à imprensa, basta dizer que mais de metade dos jornais
diários e dos periódicos de toda a Alemanha são
aqui publicados. Não falando já dos grandes armazéns
como o Geo, o Merian e o Stern, conhecidos em todo o mundo.
Modo de Vida
Uma
cidade rica e discreta, onde todavia a qualidade de vida está
acima de tudo. Para quê ter dinheiro se não houver
oportunidade de o gozar? A filosofia de Hamburgo não é
apenas ganhar, mas antes ganhar para viver bem. Daí que a
embelezem enormes parques, dois lagos artificiais para aproveitar
os dias límpidos de Verão e uma centena de metros
de passagen: galerias-salões, passagens subterrâneas
luminosas em vidro e cimento, animados corredores sem saída
e pracinhas artificiais ligados entre si por escadas rolantes e
portas automáticas, onde se apresentam lojas, boutiques,
pubs e locais da moda. Tudo bem protegido do frio e das intempéries
de Inverno.
Foi assim que Hamburgo se apetrechou para enfrentar as duras invernias
devidas à sua posição geográfica e os
intermináveis dias de chuva, capazes de reter em casa os
quase dois milhões de habitantes que a povoam. Uma cidade
de negócios, de comércio e de indústria, mas
também uma cidade verde e limpa, com enormes espaços
para praticar desporto, passear, andar de bicicleta e dar uma volta
de barco à vela.
A
sua localização numa zona pantanosa na confluência
de três rios poderia parecer desvantajosa para o desenvolvimento
de uma grande cidade moderna. Mas Hamburgo soube também aproveitar
isto com vantagem: é uma metrópole peculiar, meio
composta por água e por um labirinto de canais, a que os
hamburgueses chamam fleet, dispostos como uma teia de aranha desde
o Elba até ao centro da cidade onde se ligam com os dois
lagos artificiais: o Binnenalster (Aster interior) e o Aussenalster
(Aster exterior).
Dois lagos que na prática são
um único, com 184 hectares, em pleno centro da cidade, um
imenso oásis para os tempos livres, com parques para andar
de bicicleta, infra-estruturas desportivas, esplanadas, pavilhões,
restaurantes e cafés. Apenas os separa a Lombardsbrucke (Ponte
dos Lombardos), em memória dos cambistas italianos que na
época medieval emprestavam dinheiro contra penhores e aqui
tinham os seus bancos.
Foi precisamente no rio Aster que, em 1792, apareceram os primeiros
banhos públicos alemães com quatro cabinas destinadas
a senhoras, um acontecimento mundano decididamente transgressivo
e extraordinário naquela época austera e puritana.
O
Alsterfleet, o canal principal que liga o porto ao lago, divide
Hamburgo entre Neustadt e Altstadt, divisão essa que actualmente
é mais teórica que prática, uma vez que ambas
as partes constituem o núcleo central da cidade, formando
já um único conjunto histórico.
O Nikolaifleet liga por sua vez o Alsterfleet ao Elba e é
atravessado pela ponte mais antiga de Hamburgo decorada com as estátuas
de Angar, primeiro bispo da cidade, e do conde Adolfo III, simbolizando
respectivamente Altstadt, dominada pela autoridade eclesiástica,
e Neustadt, fundada por esse nobre alemão.
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