Durou
24 anos este périplo, inicialmente destinado a organizar uma
rota comercial e a levar uma mensagem do Papa ao imperador mongol.
Empurrado ou cercado por guerras e conflitos políticos, Marco
Polo percorreu grande parte da Ásia num fabuloso percurso,
hoje impossível de realizar
Texto
e fotos de Ana Isabel Mineiro
Entre
1271 e 1295, os Polo – Marco, o pai Nicolo e o tio Maffeo –
ausentam-se de Veneza em direcção ao Oriente e ao império
de Kublai Khan, que lhes teria pedido uma representação
do Papa, oferecendo-lhes, ao mesmo tempo, boas perspectivas de comércio
no seu extenso território. Depois de paragens em Jerusalém
e S. João de Acre, o itinerário preciso dos três
homens é muito difícil de assegurar, mas basta um olhar
sobre o mapa para ver que atravessaram toda a Ásia até
à capital de Kublai, Cambaluc (Pequim).
Veneza,
onde vivia Marco Polo e onde teve início esta
viagem
Se
fosse possível retomar os seus passos, o que encontraríamos
hoje nos locais visitados? Que tradições se perderam
e que etnias se sumiram na complexa história deste continente?
As dúvidas só poderiam ser esclarecidas caso tudo o
que se conta fosse verdade, mas desde sempre que a questão
da veracidade se levantou. Destas páginas saem, por exemplo,
algumas das primeiras referências, por vezes exageradas, a animais
estranhos para um europeu mas que, de facto, existem. Veja-se o caso
do iaque das montanhas de Altai, “comparável, pelo seu
tamanho, a elefantes”: “O pêlo, que é corredio
em todas as partes do corpo, eriça-se-lhe no lombo, onde tem
uma altura de três palmos.” Ou dos crocodilos, “grandes
serpentes de dez pés de comprimento e o corpo com dez palmos
de circunferência”: “Na parte dianteira, próximo
da cabeça, tem duas pernas curtas, com três garras como
as do tigre e olhos maiores do que volumosos pães e muito brilhantes.
As mandíbulas são tão amplas que pode deslizar
um homem por elas (...).” Mas como acreditar nos espantosos
“cinocéfalos”, que viviam nas ilhas agora indianas
de Andaman, e que, num corpo de homem, “têm todos uma
cabeça de cão, e como os dos cães são
os dentes e os olhos”?
Cachemira
indiano
Muitas
foram as “maravilhas” testemunhadas por Marco Polo que
se encontram ainda espalhadas pelo planeta, e muitas as que nasceram
após a sua passagem. No rol das belezas naturais inclui-se
o bíblico monte Ararate, que já foi da Arménia
e hoje é da Turquia, “uma grande e alta montanha sobre
a qual repousou, segundo se diz, a Arca de Noé”. No seu
sopé, “de tal maneira extenso que são precisos
dois dias para dar a volta completa”, distribuem-se agora minúsculas
e hospitaleiras aldeias curdas que vivem da pastorícia, de
onde é difícil sair sem ceder a um convite para um chá
ou um copo de água bem gelada. As neves invernais dão
lugar a um calor tórrido no Verão. Os turistas vêm
até este extremo da Turquia, junto à fronteira com o
Irão, sobretudo para verem o suposto lugar onde encalhou a
Arca e o fantástico castelo de fadas de Isak Pacha, em Dogubeyazit,
verdadeira sentinela do Ararate. Os curdos já não são
“tribos sem princípios, cuja ocupação consiste
em assaltar e roubar os mercadores”, e a curta estrada que leva
à fronteira com o Irão faz-se sem perigos. Do outro
lado, as mulheres curdas continuam a alegrar a rude paisagem de montanhas
nuas com os seus vestidos garridos.
Deli,
Índia
Tabriz
é a grande cidade mais próxima e foi um grande entreposto
da Rota da Seda, mas todo o território persa foi sempre indispensável
em termos de comércio; Marco Polo fala dos seus cavalos, dos
tecidos de ouro de Yazd e da importância que ganha pelo porto
de Ormuz: “(...) numa ilha situada à distância,
mas não muita, da margem, se levanta a cidade de Ormuz, cujo
porto é frequentado por comerciantes de todas as partes da
Índia, que trazem especiarias e drogas, pedras preciosas, pérolas,
tecidos de ouro, dentes de elefantes e outras diversas espécies
de mercadorias.” A velha fortaleza construída pelos portugueses
três séculos mais tarde é agora uma relíquia,
visitada pelos raros turistas que se aventuram em terras dos ayatollahs
e no calor sufocante do Golfo Pérsico.
Curdistão
turco
Este
porto foi apenas um dos que Marco Polo conheceu na sua viagem de regresso
por via marítima. Sobre a costa da Cochinchina, por exemplo,
diz Rusticelo que “Marco Polo visitou esta região em
1285, e nessa época o rei Zamba tinha 326 filhos, entre varões
e mulheres”: “A região abunda em elefantes. Há
muitos bosques de ébano de uma esplêndida cor negra,
madeira de que se fabricam formosos artigos de mobiliário.”
Com uma beleza exuberante, o Vietname é agora, infelizmente,
mais conhecido por uma longa e injusta guerra do que pelas suas praias
de mar turquesa debruadas por uma floresta tropical – embora
os elefantes já não abundem e as plantações
de borracha tenham substituído o ébano.
Habitantes
de Samarcanda
Ali
ao lado, em Myanmar (Birmânia), o grande Khan aprendeu o valor
dos elefantes na guerra e Marco admira os monumentos fúnebres
locais, que nada mais podem ser que as belíssimas stupas budistas
actuais: “(...) torres piramidais de mármore, com dez
pés de altura, um volume proporcional e coroadas, cada uma
delas, com uma esfera. Uma das torres foi coberta com uma placa de
ouro de cerca de cinco centímetros de espessura, de forma que
apenas o ouro era visível; e a outra com uma placa de prata
da mesma espessura. Em redor das esferas suspenderam pequenas bolas
de ouro e de prata, que tilintavam quando o vento as sacudia. O conjunto
formava um quadro esplêndido.” Um passeio pela planície
de Pagan, por onde se espalham milhares destes pequenos templos, à
hora em que a luz do crepúsculo os pinta de dourado, e compreendemos
que o Grande Khan os tenha poupado depois de ter conquistado a capital,
Mein.
Templo
Caodai
Baía
de Halong
Delta
do Mekong
Templo
Caodai, no Vietname
Moscovo
A
costa do Malabar (Índia), com os seus famosos pescadores de
pérolas e toda a riqueza deste imenso subcontinente, parece
ter tomado bastante tempo da sua viagem, uma vez que, para além
da China, não há outro território que lhe tenha
merecido tanta atenção e em que demonstre tanto conhecimento,
mesmo algum fascínio, na descrição dos nativos
e dos seus costumes. No Norte, nas montanhas de Caxemira, “os
nativos têm a cútis fusca, mas não são
negros”. E “há também florestas, tractos
desérticos e gargantas de travessia difícil nas montanhas,
que de certo modo protegem os íncolas contra as invasões”.
E por todo o território Marco Polo regista a prática
do sati (suicídio ritual), os hábitos alimentares e
de higiene, os trajos e mesmo alguns detalhes religiosos próprios
dos hindus, como a incineração dos cadáveres
e o respeito pela vaca: “(...) nenhum se deixará induzir,
por nada no mundo, a comer a carne do bovino.(...) Pedem aos sarracenos,
que não sofrem a influência dos mesmos preconceitos e
costumes, que lhes abatam os animais cuja carne desejam comer (...).”
Se muitos dos costumes se mantêm, alguns dos mais belos monumentos
do país, como o Taj Mahal, foram construídos bem mais
tarde pela dinastia mogul, descendente dos imperadores mongóis,
que reinou sobre grande parte da Índia durante os séculos
XVI e XVII. E no país da “grande abundância de
pimenta, gengibre, canela e nozes da Índia (cocos)”,
os últimos tigres escondem-se agora em parques e reservas vigiadas.
Templo
budista, Rússia
“Samarcanda
é uma nobre cidade, adornada com formosos jardins e circundada
por uma planície onde se criam todos os frutos que o homem
possa desejar.” O seu nome é dos mais evocativos das
caravanas da Rota da Seda – que, aliás, é ainda
uma das grandes produções do Uzbequistão –,
mas são os campos de algodão de que Polo nos fala que
rodeiam a cidade. As belíssimas mesquitas e madrassas que decoram
as praças de Registan em Bukhara e em Samarcanda, tão
justamente protegidas pela UNESCO, essas foram levantadas da areia
pelos russos antes da independência, e já tinham sido
arrasadas por Gengiscão ao tempo da passagem de Marco Polo.
Lago
Baikal, Rússia
Para
chegar à China e à corte de Kublai, o último
território a atravessar foi o Turquestão, ou Grande
Turquia, região de pastores nómadas e montanhas, a que
se seguem os desertos do Taklamakan e do Gobi. Toda esta área
da Ásia Central está povoada por etnias de origem turca,
descendentes das sucessivas hordas de Tamerlão que ocuparam
a zona por várias vezes. Em Samarcanda predominam os tajiques,
em Kashgar os uigures: “(...) Kashgar, segundo se diz, formou
outrora um reino independente, encontrando-se agora submetido ao domínio
do Grão-Khan (...). O povo fala um dialecto próprio.
Vive do comércio e da indústria, especialmente da que
se ocupa da fiação de algodão. Existem ali formosos
jardins, hortas e vinhedos.” Hoje a cidade faz parte da China,
mas continua a ser dos lugares com mais carácter do país.
Os habitantes são muçulmanos, continuam a falar a sua
língua de origem turca e a fazer o milagre de produzir algodão
no deserto, para além de excelentes frutas, como melões
e uvas. O mercado de sexta-feira é um sobrevivente dos séculos,
onde uma multidão de locais e seminómadas vestidos a
rigor continua a vender e a comprar camelos, cavalos, mulas, carneiros
e cabras.
Biografia Quem
era Marco Polo?
No século XIII, Veneza era a cidade das especiarias,
sedas e pedras preciosas, transportadas do Oriente por caravanas;
os portugueses ainda não tinham arrasado as rotas comerciais
terrestres com o estabelecimento das suas rotas marítimas
até à Índia e ao Extremo-Oriente. Os Polo
eram uma família de mercadores venezianos, com sucursais
em Constantinopla e na Crimeia. Os irmãos Maffeo e Nicolo
Polo possuíam mesmo a sua própria frota de galeras
mercantes e também tinham interesses no comércio
com a Rússia, o Mar Negro, a Tartária, e nas caravanas
que percorriam os desertos da Mesopotâmia. Em 1253, Nicolo
casa-se com uma nobre veneziana, e seis meses mais tarde parte
com o irmão numa expedição comercial, internando-se
na Tartária com uma caravana de ricas mercadorias. Quando
conseguem regressar, em 1269, Nicolo encontra um filho de 15
anos, Marco, e descobre que a esposa já tinha morrido.
Claro que a próxima expedição, dois anos
depois, inclui Marco no rol da caravana. Os Polo tinham estabelecido
excelentes relações com o Kublai Khan, que até
os tinha nomeado seus embaixadores junto do Papa. Depois de
anos de viagem evitando guerras e locais hostis, conseguem finalmente
chegar à corte e Marco aparece encarregado de várias
missões pelo Khan; era muito comum os mongóis
contratarem estrangeiros para supervisionarem os funcionários
chineses, e o jovem veneziano conhecia “várias
línguas e quatro escritas e letras”, talvez o persa,
o mongol, provavelmente também o turco e o árabe,
as mais úteis para as actividades político-comerciais
na Ásia. Nas boas graças do Khan, chega a ser
governador de Yangzhu durante três anos. Apesar de o Khan
não os querer deixar partir, os três aventureiros
conseguem aproveitar uma das missões – entregar
uma noiva a um súbdito do imperador mongol –, para
regressar a casa. Marco, Nicolo e Maffeo chegam a Veneza em
1295, 24 anos depois da partida, quando a família já
os tinha dado como mortos e feito as partilhas. Foi preciso
um grande banquete com familiares e amigos e uma excelente performance
teatral, com Marco a distribuir presentes e a tirar da bainha
da roupa pérolas e pedras preciosas orientais, para que,
enfim, todos acreditassem que eles tinham voltado vivos. Em
1296, os Polo fretaram uma galera de guerra para ajudar Veneza
numa guerra contra Génova. Marco, que a comandava, foi
feito prisioneiro e encerrado numa cela com um cavaleiro e homem
de letras, Rusticelo. É este que escreve o seu “Livro
das Maravilhas”, a “Descrição do Mundo”
ditada por Marco onde finalmente nos dá a conhecer parte
das suas aventuras de 24 anos. Curiosamente, como aponta Jacques
Heers, nada nos diz da sua actividade de mercador, não
fala de negócios ou de qualquer acção comercial.
Libertado em 1299, é recebido com pompa e honrarias em
Veneza. Casa-se tardiamente, tem três filhas e morre aos
70 anos de idade, em 1324.