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D E S T A Q U E

Agosto de 2003
Durou 24 anos este périplo, inicialmente destinado a organizar uma rota comercial e a levar uma mensagem do Papa ao imperador mongol. Empurrado ou cercado por guerras e conflitos políticos, Marco Polo percorreu grande parte da Ásia num fabuloso percurso, hoje impossível de realizar

Texto e fotos de Ana Isabel Mineiro
   

Entre 1271 e 1295, os Polo – Marco, o pai Nicolo e o tio Maffeo – ausentam-se de Veneza em direcção ao Oriente e ao império de Kublai Khan, que lhes teria pedido uma representação do Papa, oferecendo-lhes, ao mesmo tempo, boas perspectivas de comércio no seu extenso território. Depois de paragens em Jerusalém e S. João de Acre, o itinerário preciso dos três homens é muito difícil de assegurar, mas basta um olhar sobre o mapa para ver que atravessaram toda a Ásia até à capital de Kublai, Cambaluc (Pequim).


Veneza, onde vivia Marco Polo e onde teve início esta viagem
Se fosse possível retomar os seus passos, o que encontraríamos hoje nos locais visitados? Que tradições se perderam e que etnias se sumiram na complexa história deste continente? As dúvidas só poderiam ser esclarecidas caso tudo o que se conta fosse verdade, mas desde sempre que a questão da veracidade se levantou. Destas páginas saem, por exemplo, algumas das primeiras referências, por vezes exageradas, a animais estranhos para um europeu mas que, de facto, existem. Veja-se o caso do iaque das montanhas de Altai, “comparável, pelo seu tamanho, a elefantes”: “O pêlo, que é corredio em todas as partes do corpo, eriça-se-lhe no lombo, onde tem uma altura de três palmos.” Ou dos crocodilos, “grandes serpentes de dez pés de comprimento e o corpo com dez palmos de circunferência”: “Na parte dianteira, próximo da cabeça, tem duas pernas curtas, com três garras como as do tigre e olhos maiores do que volumosos pães e muito brilhantes. As mandíbulas são tão amplas que pode deslizar um homem por elas (...).” Mas como acreditar nos espantosos “cinocéfalos”, que viviam nas ilhas agora indianas de Andaman, e que, num corpo de homem, “têm todos uma cabeça de cão, e como os dos cães são os dentes e os olhos”?


Cachemira indiano
Muitas foram as “maravilhas” testemunhadas por Marco Polo que se encontram ainda espalhadas pelo planeta, e muitas as que nasceram após a sua passagem. No rol das belezas naturais inclui-se o bíblico monte Ararate, que já foi da Arménia e hoje é da Turquia, “uma grande e alta montanha sobre a qual repousou, segundo se diz, a Arca de Noé”. No seu sopé, “de tal maneira extenso que são precisos dois dias para dar a volta completa”, distribuem-se agora minúsculas e hospitaleiras aldeias curdas que vivem da pastorícia, de onde é difícil sair sem ceder a um convite para um chá ou um copo de água bem gelada. As neves invernais dão lugar a um calor tórrido no Verão. Os turistas vêm até este extremo da Turquia, junto à fronteira com o Irão, sobretudo para verem o suposto lugar onde encalhou a Arca e o fantástico castelo de fadas de Isak Pacha, em Dogubeyazit, verdadeira sentinela do Ararate. Os curdos já não são “tribos sem princípios, cuja ocupação consiste em assaltar e roubar os mercadores”, e a curta estrada que leva à fronteira com o Irão faz-se sem perigos. Do outro lado, as mulheres curdas continuam a alegrar a rude paisagem de montanhas nuas com os seus vestidos garridos.


Deli, Índia
Tabriz é a grande cidade mais próxima e foi um grande entreposto da Rota da Seda, mas todo o território persa foi sempre indispensável em termos de comércio; Marco Polo fala dos seus cavalos, dos tecidos de ouro de Yazd e da importância que ganha pelo porto de Ormuz: “(...) numa ilha situada à distância, mas não muita, da margem, se levanta a cidade de Ormuz, cujo porto é frequentado por comerciantes de todas as partes da Índia, que trazem especiarias e drogas, pedras preciosas, pérolas, tecidos de ouro, dentes de elefantes e outras diversas espécies de mercadorias.” A velha fortaleza construída pelos portugueses três séculos mais tarde é agora uma relíquia, visitada pelos raros turistas que se aventuram em terras dos ayatollahs e no calor sufocante do Golfo Pérsico.


Curdistão turco
Este porto foi apenas um dos que Marco Polo conheceu na sua viagem de regresso por via marítima. Sobre a costa da Cochinchina, por exemplo, diz Rusticelo que “Marco Polo visitou esta região em 1285, e nessa época o rei Zamba tinha 326 filhos, entre varões e mulheres”: “A região abunda em elefantes. Há muitos bosques de ébano de uma esplêndida cor negra, madeira de que se fabricam formosos artigos de mobiliário.” Com uma beleza exuberante, o Vietname é agora, infelizmente, mais conhecido por uma longa e injusta guerra do que pelas suas praias de mar turquesa debruadas por uma floresta tropical – embora os elefantes já não abundem e as plantações de borracha tenham substituído o ébano.


Habitantes de Samarcanda
Ali ao lado, em Myanmar (Birmânia), o grande Khan aprendeu o valor dos elefantes na guerra e Marco admira os monumentos fúnebres locais, que nada mais podem ser que as belíssimas stupas budistas actuais: “(...) torres piramidais de mármore, com dez pés de altura, um volume proporcional e coroadas, cada uma delas, com uma esfera. Uma das torres foi coberta com uma placa de ouro de cerca de cinco centímetros de espessura, de forma que apenas o ouro era visível; e a outra com uma placa de prata da mesma espessura. Em redor das esferas suspenderam pequenas bolas de ouro e de prata, que tilintavam quando o vento as sacudia. O conjunto formava um quadro esplêndido.” Um passeio pela planície de Pagan, por onde se espalham milhares destes pequenos templos, à hora em que a luz do crepúsculo os pinta de dourado, e compreendemos que o Grande Khan os tenha poupado depois de ter conquistado a capital, Mein.



Templo Caodai

Baía de Halong

Delta do Mekong

Templo Caodai, no Vietname



Moscovo
A costa do Malabar (Índia), com os seus famosos pescadores de pérolas e toda a riqueza deste imenso subcontinente, parece ter tomado bastante tempo da sua viagem, uma vez que, para além da China, não há outro território que lhe tenha merecido tanta atenção e em que demonstre tanto conhecimento, mesmo algum fascínio, na descrição dos nativos e dos seus costumes. No Norte, nas montanhas de Caxemira, “os nativos têm a cútis fusca, mas não são negros”. E “há também florestas, tractos desérticos e gargantas de travessia difícil nas montanhas, que de certo modo protegem os íncolas contra as invasões”. E por todo o território Marco Polo regista a prática do sati (suicídio ritual), os hábitos alimentares e de higiene, os trajos e mesmo alguns detalhes religiosos próprios dos hindus, como a incineração dos cadáveres e o respeito pela vaca: “(...) nenhum se deixará induzir, por nada no mundo, a comer a carne do bovino.(...) Pedem aos sarracenos, que não sofrem a influência dos mesmos preconceitos e costumes, que lhes abatam os animais cuja carne desejam comer (...).” Se muitos dos costumes se mantêm, alguns dos mais belos monumentos do país, como o Taj Mahal, foram construídos bem mais tarde pela dinastia mogul, descendente dos imperadores mongóis, que reinou sobre grande parte da Índia durante os séculos XVI e XVII. E no país da “grande abundância de pimenta, gengibre, canela e nozes da Índia (cocos)”, os últimos tigres escondem-se agora em parques e reservas vigiadas.


Templo budista, Rússia
“Samarcanda é uma nobre cidade, adornada com formosos jardins e circundada por uma planície onde se criam todos os frutos que o homem possa desejar.” O seu nome é dos mais evocativos das caravanas da Rota da Seda – que, aliás, é ainda uma das grandes produções do Uzbequistão –, mas são os campos de algodão de que Polo nos fala que rodeiam a cidade. As belíssimas mesquitas e madrassas que decoram as praças de Registan em Bukhara e em Samarcanda, tão justamente protegidas pela UNESCO, essas foram levantadas da areia pelos russos antes da independência, e já tinham sido arrasadas por Gengiscão ao tempo da passagem de Marco Polo.


Lago Baikal, Rússia
Para chegar à China e à corte de Kublai, o último território a atravessar foi o Turquestão, ou Grande Turquia, região de pastores nómadas e montanhas, a que se seguem os desertos do Taklamakan e do Gobi. Toda esta área da Ásia Central está povoada por etnias de origem turca, descendentes das sucessivas hordas de Tamerlão que ocuparam a zona por várias vezes. Em Samarcanda predominam os tajiques, em Kashgar os uigures: “(...) Kashgar, segundo se diz, formou outrora um reino independente, encontrando-se agora submetido ao domínio do Grão-Khan (...). O povo fala um dialecto próprio. Vive do comércio e da indústria, especialmente da que se ocupa da fiação de algodão. Existem ali formosos jardins, hortas e vinhedos.” Hoje a cidade faz parte da China, mas continua a ser dos lugares com mais carácter do país. Os habitantes são muçulmanos, continuam a falar a sua língua de origem turca e a fazer o milagre de produzir algodão no deserto, para além de excelentes frutas, como melões e uvas. O mercado de sexta-feira é um sobrevivente dos séculos, onde uma multidão de locais e seminómadas vestidos a rigor continua a vender e a comprar camelos, cavalos, mulas, carneiros e cabras.


Biografia
Quem era Marco Polo?

No século XIII, Veneza era a cidade das especiarias, sedas e pedras preciosas, transportadas do Oriente por caravanas; os portugueses ainda não tinham arrasado as rotas comerciais terrestres com o estabelecimento das suas rotas marítimas até à Índia e ao Extremo-Oriente. Os Polo eram uma família de mercadores venezianos, com sucursais em Constantinopla e na Crimeia. Os irmãos Maffeo e Nicolo Polo possuíam mesmo a sua própria frota de galeras mercantes e também tinham interesses no comércio com a Rússia, o Mar Negro, a Tartária, e nas caravanas que percorriam os desertos da Mesopotâmia. Em 1253, Nicolo casa-se com uma nobre veneziana, e seis meses mais tarde parte com o irmão numa expedição comercial, internando-se na Tartária com uma caravana de ricas mercadorias. Quando conseguem regressar, em 1269, Nicolo encontra um filho de 15 anos, Marco, e descobre que a esposa já tinha morrido. Claro que a próxima expedição, dois anos depois, inclui Marco no rol da caravana. Os Polo tinham estabelecido excelentes relações com o Kublai Khan, que até os tinha nomeado seus embaixadores junto do Papa. Depois de anos de viagem evitando guerras e locais hostis, conseguem finalmente chegar à corte e Marco aparece encarregado de várias missões pelo Khan; era muito comum os mongóis contratarem estrangeiros para supervisionarem os funcionários chineses, e o jovem veneziano conhecia “várias línguas e quatro escritas e letras”, talvez o persa, o mongol, provavelmente também o turco e o árabe, as mais úteis para as actividades político-comerciais na Ásia. Nas boas graças do Khan, chega a ser governador de Yangzhu durante três anos. Apesar de o Khan não os querer deixar partir, os três aventureiros conseguem aproveitar uma das missões – entregar uma noiva a um súbdito do imperador mongol –, para regressar a casa. Marco, Nicolo e Maffeo chegam a Veneza em 1295, 24 anos depois da partida, quando a família já os tinha dado como mortos e feito as partilhas. Foi preciso um grande banquete com familiares e amigos e uma excelente performance teatral, com Marco a distribuir presentes e a tirar da bainha da roupa pérolas e pedras preciosas orientais, para que, enfim, todos acreditassem que eles tinham voltado vivos. Em 1296, os Polo fretaram uma galera de guerra para ajudar Veneza numa guerra contra Génova. Marco, que a comandava, foi feito prisioneiro e encerrado numa cela com um cavaleiro e homem de letras, Rusticelo. É este que escreve o seu “Livro das Maravilhas”, a “Descrição do Mundo” ditada por Marco onde finalmente nos dá a conhecer parte das suas aventuras de 24 anos. Curiosamente, como aponta Jacques Heers, nada nos diz da sua actividade de mercador, não fala de negócios ou de qualquer acção comercial. Libertado em 1299, é recebido com pompa e honrarias em Veneza. Casa-se tardiamente, tem três filhas e morre aos 70 anos de idade, em 1324.


 

 

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