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S A Ú D E


Cruzar os oceanos

Alguns “avisos à navegação” para quem não é um lobo do mar e vai embarcar num cruzeiro

Agosto de 2003




Texto de Simone Rocha
Ilustração de André Kano
   

A Carnival Cruise Lines, uma empresa de cruzeiros de renome mundial, incentiva os seus passageiros a bater a pala como forma de saudação a bordo, em substituição do tradicional aperto de mão. A ideia é sensibilizar para a importância da higiene pessoal, dado ser esta a principal causa dos surtos de doenças ocorridos nos navios.

Não que viajar num cruzeiro seja arriscado para a saúde: segundo o Centers for Disease Control and Prevention (EUA), os standards em matéria sanitária pelos quais estes navios se regem são os mais exigentes do mundo e incluem a desinfecção minuciosa de áreas comuns como os botões dos elevadores, os corrimãos e até as fichas de poker. Um estudo de 2002 da Organização Mundial de Saúde, porém, identificou mais de 100 surtos ocorridos em navios (de cruzeiros e comerciais) nas últimas três décadas, o que obriga a alguns cuidados.


Lavar bem as mãos
Os surtos de gastrenterite provocados pelo chamado vírus Norwalk são os mais comuns nos cruzeiros: num destes episódios ocorridos num cruzeiro em 1998, mais de 80% dos 841 passageiros foram afectados. Os sintomas, que habitualmente começam entre 24 e 48 horas após a ingestão do vírus, incluem náusea, vómitos, diarreia e cãibras no estômago que podem durar entre 12 e 60 horas. Embora provoquem grande mal-estar, estas infecções não são consideradas graves na maioria dos indivíduos, mas podem sê-lo nos mais jovens, nos idosos e naqueles que têm um sistema imunitário debi-litado. Suspeita-se que estes surtos tenham so-bretudo origem em terra, quando os turistas fazem escalas, e que depois se propagam de pessoa para pessoa através do contacto pessoal (mão e boca).

Aconselha-se, assim, a lavar muito bem as mão antes de comer, depois de utilizar a casa de banho e brincar com animais. Para obter melhores resultados, deve utilizar-se água morna, ensaboar de seguida as mãos e esfregá-las uma na outra durante 20 segundos; é esta acção combinada que elimina os germes.

Com as bebidas e a alimentação também é preciso ter cuidado, pois elas são as principais causadoras de doenças do estômago e dos intestinos durante as viagens. Os alimentos devem ser muito bem cozinhados e servidos quentes e a fruta sempre descascada pelo próprio. Qualquer alimento mal manuseado pode causar problemas, mas é necessário dar uma especial atenção à carne e ao marisco pouco cozinhados, às saladas verdes e aos rebentos crus. Há que evitar produtos não pasteurizados como o leite e seus derivados, os sumos e as cidras, sendo preferível o chá e o café quentes e as bebidas de lata ou carbonatadas engarrafadas, tendo sempre o cuidado de limpar a zona do recipiente que vai estar em contacto com a boca. Deve ainda evitar-se o gelo feito a partir de água da torneira.

Também há gastrenterites causadas por bactérias infecciosas, que provocam habitualmente diarreia, mas que regra geral desaparecem sem tratamento. Não existem medicamentos para prevenir as infecções por bactérias, do mesmo modo que não há fármacos de prevenção e tratamento do vírus Norwalk.


Legionário a bordo
Embora não muito frequente em cruzeiros, há que estar atento a esta forma de pneumonia, pois pode ser letal. A causa é um microorganismo que se desenvolve em meio aquático e provoca infecções quando inalado sob a forma de aerossóis, por isso a prevenção depende da desinfecção, da filtragem e do armazenamento apropriados da água.

A boa notícia é que a doença do legionário não é contagiosa, e o que deve fazer para se precaver é vigiar os primeiros sintomas. Estes incluem dores de cabeça, musculares e abdominais, vómitos, diarreias e náuseas.


Previna a náusea do mar
Beba chá de gengibre, adoçado com mel, ou mordisque uma raiz de gengibre uma hora antes de embarcar; leve cápsulas com esta composição, vendidas nas ervanárias, para que possa repetir este procedimento sempre que fizer uma escala. Beber Ginger Ale ou Coca-Cola antes do embarque e na primeira hora a bordo parece produzir o mesmo efeito. Coma bolachas de água e sal, beba água e mastigue pastilhas de mentol ou hortelã-pimenta.
Escolha locais com pouca turbulência, a meio do navio, e tenha sempre os olhos postos no horizonte ou num qualquer ponto fixo. O ar fresco costuma ajudar; já o tabaco e a leitura são desaconselhados.
Quando sentir os sintomas, passe água fria ou gelo na nuca e pressione o umbigo com o polegar durante 15 a 20 segundos; repita a operação a cada cinco minutos.
Dependendo do grau do problema (as crianças são mais afectadas), pode pedir ao seu médico para receitar fármacos.
Segundo a crença popular, comer uma fatia de bacalhau cru salgado meia hora antes de embarcar e tapar um olho ajuda a prevenir o enjoo.


 

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