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    XL >   Rotas & Destinos > Essaouira
E V A S Õ E S

Agosto de 2004
Cidade Património da Humanidade, Essaouira, na costa marroquina, mantém o charme e a autenticidade de uma terra perdida no tempo. Sob a protecção dos ventos do Atlântico, a sua medina encanta viajantes do mundo inteiro que aqui chegam à procura de um refúgio mágico e de ondas perfeitas

Texto de Catarina Palma
Fotos de F. Leeuwenberg
   


Os habitantes da cidade, conhecidos como souiri, cobrem-se com djellabas, da cabeça aos pés, como forma de protecção contra os ventos endémicos do Atlântico.
Ninguém sabe ao certo de onde vem o fascínio que Essaouira exerce sobre os viajantes, mas há quem diga que se trata de um encantamento provocado pelo vento que sopra forte por entre as ruas e as vielas da medina desta pequena cidade piscatória, situada a duas horas de viagem da estância balnear de Agadir e a cerca de 180 quilómetros da imperial Marraquexe.

Com uma localização estratégica, esta velha conhecida dos portugueses – Essaouira é a antiga Mogador que Portugal invadiu no século XVI –, foi redescoberta nos anos 60 por viajantes solitários e pelas vagas de hippies enamorados de Marrocos. Pouco depois, como um segredo que se revela apenas a bons amigos, esta povoação muralhada da costa atlântica, conhecida como a “Bela Adormecida” pela sua autenticidade anacrónica, tornou-se um local mítico para uma pequena elite de intelectuais, uma espécie de refúgio-fetiche de pintores, escritores, músicos, actores e realizadores cinematográficos do mundo inteiro.


Praticantes de kitesurf perto de Sidi Kaouki, uma pequena vila piscatória com apenas 20 casas, mesmo no início da praia de Essaouira. Nesta região e durante os meses de Inverno, as ondas chegam a atingir os cinco metros de altura.
Simples e despretensiosa, a minúscula medina de Essaouira encerra um conjunto de pequenos edifícios caiados de um branco imaculado, pontuado aqui e ali pelo azul- marinho das portadas das janelas. Ruas estreitas e angulosas procuram proteger os moradores dos fortes e constantes ventos alísios vindos do Atlântico que se entranham no recato dos lares muçulmanos. No cais, a lide da pesca (e, diz-se, de outros negócios menos claros) mantém-se inalterada desde há anos. Tal como a mistura entre povos e culturas que sempre caracterizaram a sua história cosmopolita, canal de comunicação com o estrangeiro e ponto de encontro entre africanos, judeus, berberes, portugueses e franceses…


Os habitantes da cidade, conhecidos como souiri, cobrem-se com djellabas, da cabeça aos pés, como forma de protecção contra os ventos endémicos do Atlântico.
Calcula-se que Mogador, o seu primeiro nome, tenha raízes no Fenício antigo, uma palavra que significa torre de vigia e se presume que seja o monte desordenado de pedras batido pelo mar situado no extremo mais distante da praia. Porém, a fama da cidade é ainda mais remota. Tanto os cartagineses como os fenícios faziam aqui as suas trocas comerciais, trocando seda e especiarias por ostras, penas e ouro africano. Por sua vez, nos tempos do império romano, a região – que inclui a península onde hoje se ergue a cidade e a ilha de Mogador, na baía – ficou conhecida como as Ilhas Púrpuras, pois era este o local de onde provinha o corante púrpura mais requintado, extraído dos moluscos, que era usado para tingir as roupas dos imperadores.

Aliás, a ilha onde se fizeram os maiores achados arqueológicos romanos da zona é actualmente uma reserva natural cuja espécie mais preciosa é o falcão Eleonora, em vias de extinção. Os gourmets sem preocupações ecológicas recordam saudosamente as deliciosas omeletas feitas com os ovos desta ave, iguarias que chegam a valer cem mil dólares por unidade no mercado negro.

É também popular a história do primeiro guarda da ilha, que todos os dias se deliciava com um pequeno-almoço feito com estes ovos. As cascas dos mesmos denunciaram-no, acabando por ser atirado ao mar e substituído por alguém menos glutão. Interditada durante algum tempo, actualmente é possível visitar a ilha mediante uma autorização especial.

A bem desenhada

O windsurf tornou-se numa das imagens de marca de Essaouira, a nível internacional
Dos tempos da curta ocupação portuguesa restam poucos vestígios – com excepção de troços da fortificação, alguns canhões e a fachada em ruínas da primeira igreja da cidade –, pelo que a Essaouira como hoje a conhecemos foi fundada em meados do século XVIII, mais propriamente em 1764, quando o sultão Mohammed Ben Abdallah decidiu instalar na antiga Mogador a sua base naval, transformando-a no único porto autorizado para contacto entre o reino e o Ocidente. Pouco depois passa a viver aqui uma elite de mercadores judeus com um estatuto especial de intermediários entre o sultão e as potências estrangeiras, obrigadas a instalar um consulado no local.

Quanto à nova cidade, o seu desenho – o plano original está conservado na Biblioteca Nacional de Paris – foi encomendado a Théodore Cornut, um arquitecto francês a soldo dos ingleses de Gibraltar, entretanto expulso sob acusação de espionagem. Uma outra versão da história conta que Cornut já estava aprisionado em Marrocos e que trocou a sua liberdade pela realização gratuita do projecto arquitectónico. Mas, lendas à parte, ficou na memória o sucesso do seu traço, que deu origem ao nome actual de Es Saouira, que significa “a bem desenhada”. Depois disto, a importância da cidade como posto de trocas e de contrabando de piratas não parou de crescer até ao início do século XX, quando finalmente foi caindo no esquecimento de todos.

Arte e cultura

Vista da muralha que rodeia a medina antiga, constituída por um emaranhado de edifícios caiados de branco, pontuado aqui e ali pelo azul-marinho das portadas.
Toda a sua história justifica o caldeirão cultural que continua a caracterizar a cidade, ponto de encontro entre as civilizações árabe, africana e europeia. Aqui convivem duas tribos locais – os chiadma (árabes) e os haha (berberes) –, a etnia dos gnaouas, descendentes dos escravos negros que acompanhavam as caravanas de ouro e sal vindas do Sudão, e cerca de um milhar de ocidentais que vieram em visita e decidiram ir ficando… sem previsão de partida.

Um micromundo bem patente na sua cultura, que tem vindo a conquistar o exterior. É o caso da celebrada música gnaoua, com fortes ligações às cerimónias mágicas do voodoo e da macumba brasileira. Os seus cantos e ritmos hipnóticos já seduziram nomes como Randy Weston (este conhecido músico de jazz gravou um disco com os gnaoua) e continuam a dar o mote para o grande festival de música que se realiza, anualmente, em Junho, atraindo, durante quatro dias de transe absoluto, milhares de espectadores.


A muralha que rodeia a medina foi construída para proteger a cidade de invasões e ataques de piratas. Devido à sua localização estratégica, Essaouira, em tempos conhecida como Mogador, foi desde sempre cobiçada, nomeadamente pelos portugueses, que a ocuparam no século XVI.
Também apaixonante é a história da Galeria Frédéric Damgaard (Av. Oqba-Bem-Nafii), propriedade de um dinamarquês que, desde há vários anos, encoraja, desenvolve e dá a conhecer ao mundo as obras coloridas dos pintores locais, quase todos autodidactas. Uma febre criativa que parece incentivada por cada rajada de vento, porque há cada vez mais artistas a chegar. Vêm para terminar um livro, compor uma obra musical, desenhar um cenário… e aqui encontram uma intensidade luminosa e um convívio propício à criação.

Na lista dos artistas famosos que já passaram por Essaouira é emblemático o nome de Orson Welles, que rodou aqui parte do seu kafkiano Othello, com o qual ganhou a Palma de Ouro de Cannes em 1952. E, segundo consta, foi também durante uma curta estada de Jimi Hendrix (os mais fanáticos juram a pés juntos que o músico viveu numa casa nas dunas, perto de Diabat, durante cinco anos!) no local que surgiu a inspiração para o célebre Castels in the Sand. De facto, as mágicas dunas do Cap Sim, nos arredores da cidade, e a sua magnífica praia deserta merecem um passeio mais atento (num veículo todo-o-terreno).

 
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