Cidade
Património da Humanidade, Essaouira, na costa marroquina, mantém
o charme e a autenticidade de uma terra perdida no tempo. Sob a protecção
dos ventos do Atlântico, a sua medina encanta viajantes do mundo
inteiro que aqui chegam à procura de um refúgio mágico
e de ondas perfeitas
Texto
de Catarina Palma
Fotos de F. Leeuwenberg
Os
habitantes da cidade, conhecidos como souiri, cobrem-se
com djellabas, da cabeça aos pés, como
forma de protecção contra os ventos endémicos
do Atlântico.
Ninguém
sabe ao certo de onde vem o fascínio que Essaouira exerce sobre
os viajantes, mas há quem diga que se trata de um encantamento
provocado pelo vento que sopra forte por entre as ruas e as vielas
da medina desta pequena cidade piscatória, situada a duas horas
de viagem da estância balnear de Agadir e a cerca de 180 quilómetros
da imperial Marraquexe.
Com
uma localização estratégica, esta velha conhecida
dos portugueses – Essaouira é a antiga Mogador que Portugal
invadiu no século XVI –, foi redescoberta nos anos 60
por viajantes solitários e pelas vagas de hippies enamorados
de Marrocos. Pouco depois, como um segredo que se revela apenas a
bons amigos, esta povoação muralhada da costa atlântica,
conhecida como a “Bela Adormecida” pela sua autenticidade
anacrónica, tornou-se um local mítico para uma pequena
elite de intelectuais, uma espécie de refúgio-fetiche
de pintores, escritores, músicos, actores e realizadores cinematográficos
do mundo inteiro.
Praticantes
de kitesurf perto de Sidi Kaouki, uma pequena vila piscatória
com apenas 20 casas, mesmo no início da praia
de Essaouira. Nesta região e durante os meses
de Inverno, as ondas chegam a atingir os cinco metros
de altura.
Simples
e despretensiosa, a minúscula medina de Essaouira encerra um
conjunto de pequenos edifícios caiados de um branco imaculado,
pontuado aqui e ali pelo azul- marinho das portadas das janelas. Ruas
estreitas e angulosas procuram proteger os moradores dos fortes e
constantes ventos alísios vindos do Atlântico que se
entranham no recato dos lares muçulmanos. No cais, a lide da
pesca (e, diz-se, de outros negócios menos claros) mantém-se
inalterada desde há anos. Tal como a mistura entre povos e
culturas que sempre caracterizaram a sua história cosmopolita,
canal de comunicação com o estrangeiro e ponto de encontro
entre africanos, judeus, berberes, portugueses e franceses…
Os
habitantes da cidade, conhecidos como souiri, cobrem-se
com djellabas, da cabeça aos pés, como
forma de protecção contra os ventos endémicos
do Atlântico.
Calcula-se
que Mogador, o seu primeiro nome, tenha raízes no Fenício
antigo, uma palavra que significa torre de vigia e se presume que
seja o monte desordenado de pedras batido pelo mar situado no extremo
mais distante da praia. Porém, a fama da cidade é ainda
mais remota. Tanto os cartagineses como os fenícios faziam
aqui as suas trocas comerciais, trocando seda e especiarias por ostras,
penas e ouro africano. Por sua vez, nos tempos do império romano,
a região – que inclui a península onde hoje se
ergue a cidade e a ilha de Mogador, na baía – ficou conhecida
como as Ilhas Púrpuras, pois era este o local de onde provinha
o corante púrpura mais requintado, extraído dos moluscos,
que era usado para tingir as roupas dos imperadores.
Aliás,
a ilha onde se fizeram os maiores achados arqueológicos romanos
da zona é actualmente uma reserva natural cuja espécie
mais preciosa é o falcão Eleonora, em vias de extinção.
Os gourmets sem preocupações ecológicas recordam
saudosamente as deliciosas omeletas feitas com os ovos desta ave,
iguarias que chegam a valer cem mil dólares por unidade no
mercado negro.
É
também popular a história do primeiro guarda da ilha,
que todos os dias se deliciava com um pequeno-almoço feito
com estes ovos. As cascas dos mesmos denunciaram-no, acabando por
ser atirado ao mar e substituído por alguém menos glutão.
Interditada durante algum tempo, actualmente é possível
visitar a ilha mediante uma autorização especial.
A bem desenhada
O
windsurf tornou-se numa das imagens de marca de Essaouira,
a nível internacional
Dos
tempos da curta ocupação portuguesa restam poucos vestígios
– com excepção de troços da fortificação,
alguns canhões e a fachada em ruínas da primeira igreja
da cidade –, pelo que a Essaouira como hoje a conhecemos foi
fundada em meados do século XVIII, mais propriamente em 1764,
quando o sultão Mohammed Ben Abdallah decidiu instalar na antiga
Mogador a sua base naval, transformando-a no único porto autorizado
para contacto entre o reino e o Ocidente. Pouco depois passa a viver
aqui uma elite de mercadores judeus com um estatuto especial de intermediários
entre o sultão e as potências estrangeiras, obrigadas
a instalar um consulado no local.
Quanto
à nova cidade, o seu desenho – o plano original está
conservado na Biblioteca Nacional de Paris – foi encomendado
a Théodore Cornut, um arquitecto francês a soldo dos
ingleses de Gibraltar, entretanto expulso sob acusação
de espionagem. Uma outra versão da história conta que
Cornut já estava aprisionado em Marrocos e que trocou a sua
liberdade pela realização gratuita do projecto arquitectónico.
Mas, lendas à parte, ficou na memória o sucesso do seu
traço, que deu origem ao nome actual de Es Saouira, que significa
“a bem desenhada”. Depois disto, a importância da
cidade como posto de trocas e de contrabando de piratas não
parou de crescer até ao início do século XX,
quando finalmente foi caindo no esquecimento de todos.
Arte e cultura
Vista
da muralha que rodeia a medina antiga, constituída
por um emaranhado de edifícios caiados de branco,
pontuado aqui e ali pelo azul-marinho das portadas.
Toda
a sua história justifica o caldeirão cultural que continua
a caracterizar a cidade, ponto de encontro entre as civilizações
árabe, africana e europeia. Aqui convivem duas tribos locais
– os chiadma (árabes) e os haha (berberes) –, a
etnia dos gnaouas, descendentes dos escravos negros que acompanhavam
as caravanas de ouro e sal vindas do Sudão, e cerca de um milhar
de ocidentais que vieram em visita e decidiram ir ficando… sem
previsão de partida.
Um
micromundo bem patente na sua cultura, que tem vindo a conquistar
o exterior. É o caso da celebrada música gnaoua, com
fortes ligações às cerimónias mágicas
do voodoo e da macumba brasileira. Os seus cantos e ritmos hipnóticos
já seduziram nomes como Randy Weston (este conhecido músico
de jazz gravou um disco com os gnaoua) e continuam a dar o mote para
o grande festival de música que se realiza, anualmente, em
Junho, atraindo, durante quatro dias de transe absoluto, milhares
de espectadores.
A
muralha que rodeia a medina foi construída para
proteger a cidade de invasões e ataques de piratas.
Devido à sua localização estratégica,
Essaouira, em tempos conhecida como Mogador, foi desde
sempre cobiçada, nomeadamente pelos portugueses,
que a ocuparam no século XVI.
Também
apaixonante é a história da Galeria Frédéric
Damgaard (Av. Oqba-Bem-Nafii), propriedade de um dinamarquês
que, desde há vários anos, encoraja, desenvolve e dá
a conhecer ao mundo as obras coloridas dos pintores locais, quase
todos autodidactas. Uma febre criativa que parece incentivada por
cada rajada de vento, porque há cada vez mais artistas a chegar.
Vêm para terminar um livro, compor uma obra musical, desenhar
um cenário… e aqui encontram uma intensidade luminosa
e um convívio propício à criação.
Na
lista dos artistas famosos que já passaram por Essaouira é
emblemático o nome de Orson Welles, que rodou aqui parte do
seu kafkiano Othello, com o qual ganhou a Palma de Ouro de Cannes
em 1952. E, segundo consta, foi também durante uma curta estada
de Jimi Hendrix (os mais fanáticos juram a pés juntos
que o músico viveu numa casa nas dunas, perto de Diabat, durante
cinco anos!) no local que surgiu a inspiração para o
célebre Castels in the Sand. De facto, as mágicas dunas
do Cap Sim, nos arredores da cidade, e a sua magnífica praia
deserta merecem um passeio mais atento (num veículo todo-o-terreno).