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   XLRotas & DestinosDossier > Açores


D O S S I E R Agosto de 2006   
   
As ilhas do Pico, Flores, São Jorge e São Miguel, apesar das praias rochosas e do mar batido, garantem uma estadia tranquila nos Açores, em estreito contacto com o mundo selvagem. Entregues aos caprichos e força da Natureza, podem parecer-nos algo remotas, mas são belas como o sonho do paraíso

Texto deSara Raquel Silva e fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   

P U B L I C I D A D E

Flores | Pico | São Jorge | São Miguel | Guia de Viagem

Flores
Exuberante fim de mundo
N
as Flores é a Natureza quem tem a primeira palavra. Compreendemo-lo logo no primeiro dia, quando a velocidade a que seguíamos foi contida pela possibilidade de encontros fatais com bovinos fugidos das pastagens; pelas centenas de coelhos suicidas que se atravessaram na estrada, e pelo mood instável dos céus, que ora se abriam para nos iluminar o caminho, ora se abatiam sobre nós sob a forma de um espesso manto de nevoeiro.


Vista panorâmica sobre a Cuada, onde fica a unidade de turismo rural da Aldeia da Cuada

A impressionante Lagoa Funda
Mas, a bem da verdade, só se aterra e descola nas Flores com a permissão dos ventos, mais violentos aqui que em qualquer outra ilha do arquipélago (o cancelamento de voos é frequente no Inverno, pelo que aconselhamos a viagem entre os meses de Maio e Outubro). E os que aqui desejam aterrar sabem bem que o salvo-conduto para a preservação deste pequeno paraíso é precisamente o seu isolamento e vulnerabilidade às intempéries. Mais: quem vive ou “veraneia” nas Flores conhece o privilégio que é poder usufruir da Natureza no seu estado mais bruto e genuíno. No entanto, acredite o leitor, não se nota um segundo de arrependimento em qualquer olhar – quer chova, faça sol, soprem os ventos ou falhe a rede no telemóvel. O preço a pagar é mais que justo!

Igreja das Lajes das Flores e Carlos, para quem o mar dos Açores não guarda segredos
Os italianos Stefano Giocitti e Mónica Binda, por exemplo, trocaram a sua confortável existência em Roma por pouco mais que uma horta e um pequeno restaurante – “A Vigia”, na Fajã Grande. Arquitecto de formação, Stefano conheceu a ilha como destino de férias que repetiu, repetiu e repetiu até que um dia a estadia se tornou irremediavelmente permanente. “É um dos poucos lugares que conheço onde se pode viver com tranquilidade e cultivar a terra respeitando as leis da natureza”, desabafa. O que produz é direccionado em parte para o seu restaurante (aberto apenas na Primavera e Verão), uma surpresa cosmopolita numa aldeia eminentemente rural: a arquitectura é açoriana, a carta italiana e a banda sonora produto da inspiração do mundo.


Poço da Alagoinha, exemplo das paisagens extraordinariamente selvagens desta ilha

Farol da Ponta do Albarnaz
“As Flores são um paraíso e a palavra começa a passar; só aqui na Fajã encontram-se pessoas de, pelo menos, dez nacionalidades”, conta-nos Stefano, entusiasmado. É natural, esta ilha remota deixa o ser mais contido extasiado. Não, obviamente, pelos ausentes hotéis de cinco estrelas, restaurantes de luxo ou discotecas, mas pela diversidade e dramatismo da paisagem. Em apenas 17 km de comprimento por 12 km de largura, exibe dezenas de vales forrados a pastagens em alternância com enseadas, cabos pontiagudos, e morros rasgados por ribeiras e cascatas. Isto para não falar na irresistível beleza das sete lagoas que ocupam a área central do território: a Lagoa Funda, Branca, Seca, Comprida, Rasa, Lomba e Funda das Lajes.

Exemplar de uma Caravela Portuguesa, uma curiosa colónia flutuante de vários seres vivos; e Stefano Giocitti, o italiano que trocou Roma pela ilha das Flores
Os dias nas Flores passam-se em contacto com o mundo natural e selvagem. As caminhadas são pretexto para jornadas de regeneração pulmonar, provavelmente solitárias e silenciosas – a vantagem de se partilhar uma ilha com menos de cinco mil habitantes. No percurso que experimentámos entre Ponta Delgada e a Ponta da Fajã apenas uma cabra e um cagarro se atravessaram no caminho. Ou nós no deles. Por toda a parte o chilrear dos melros pretos, o perfume dos incensos e do mar – de um azul tão intenso que quase fere olhar – embriagavam-nos os sentidos. Compreendemos, então, o sorriso de felicidade estafada das holandesas que encontrámos no dia anterior, e que, após meia dúzia de horas a suar por trilhos íngremes, anunciavam o desejo de repetir a dose assim que as pernas o permitissem.

Deixando terra firme, não falta, igualmente, que fazer. O mergulho é bastante procurado, pois pode ser feito a diferentes profundidades: em baixios, nas grutas ou na baía. Permite apreciar desde os peixes sedentários dos Açores como meros, bodiões, vejas e moreias, aos migratórios, de que são exemplo as serras, albacoras, lírios e bicudas. Está-se em pleno Atlântico, mas as águas rondam os 20ºC e a visibilidade os 30 metros! Menos radical, mas não menos interessante é a volta à ilha de barco. As grutas são os atractivos mais cobiçados – a dos Enxaréus, conta-se, servia de refúgio aos corsários no século XVI – mas o simples convívio com a brisa marítima e com os bandos de garajaus seria pretexto mais que válido para enfrentar o mar.

Nota Histórico-Geográfica
A ilha das Flores fica no extremo mais ocidental do arquipélago e da Europa; tem 17 km de comprimento e 12,5 de largura e está dividida em dois concelhos, o das Lajes das Flores e o de Santa Cruz das Flores. Possui 4400 habitantes. Pensa-se que em 1452 foi reconhecida por Diogo de Teive e inicialmente chamada de ilha de São Tomás ou de Santa Iria, mas acabou por mudar de designação devido à abundância de flores no território. O povoamento inicial das Flores é atribuído ao flamengo Wilhelm van der Haegen (Guilherme da Silveira), no século XV. Afastada das restantes ilhas do arquipélago e com poucos produtos para exportar, viveu séculos de quase isolamento, colmatado com o desenvolvimento da agro-pecuária e com a construção do aeroporto.
Quem nos leva a passear é Carlos, natural das Flores, que apesar de, volta e meia, dar umas voltas pelo mundo em busca de experiências radicais (como subir aos Himalaias), acaba sempre por regressar ao mar do Açores, cujos segredos conhece de cor e gosta de ensinar. Um exemplo? Aprender a resistir ao charme das caravelas portuguesas, tão atractivas quanto perigosas, no seu rosa quase fosforescente. A tentação de lhes tocar é evidente, o que não será propriamente uma boa ideia, uma vez que os tentáculos, pequenos e inofensivos à primeira vista, podem estender-se aos 30 metros e provocar dores insuportáveis… Mas, não se assuste, este deve ser o mais temido ser vivo das redondezas, pois na ilha não existem animais selvagens perigosos.

Apesar da tranquilidade e isolamento das Flores, há a possibilidade de escolher para dormir um lugar carismático, concebido à medida do espírito local: a Aldeia da Cuada. Trata-se de uma inteira povoação abandonada, entretanto recuperada por Teotónia, nascida na ilha, e Carlos Silva, natural do Pico. As casas são singelas, mas equipadas com tudo o que é preciso para uma estadia confortável. Não falta a salamandra para aquecer as noites mais frescas, nem o terraço relvado com vista para o mar, a partilhar apenas com uma ou outra vaca no pasto!

Pico
Terra de desafios

Viagem ao interior da ilha, sempre sob a vigilância do vulcão

D. Manuela ou “Nelinha”, no restaurante Ancoradoro, em Areia Larga
Ou se ama ou se detesta, mas ninguém lhe fica indiferente”. Luísa Terra refere-se à ilha do Pico, provavelmente a mais carismática do arquipélago dos Açores, graças ao enorme vulcão adormecido que se ergue sensivelmente a meio do território, acima das nuvens, como uma miragem em pleno Atlântico.

Natural do Faial, mas a residir no Pico, onde abriu uma charmosa unidade de turismo em espaço rural – o Pocinho Bay –, Luísa insere-se nas hostes dos que se deixaram apaixonar. O marido, José Rocha, também. Tanto que ambos abandonaram um belíssimo apartamento no Chiado, em Lisboa, para viverem tranquilamente, a dez minutos da vila de Madalena (entre uma ou outra viagem pelo mundo). E ainda bem, pois o Pocinho Bay é também uma ilha – de bom gosto e elegância –, dentro da rústica e agreste ilha do Pico. Para mais dá para uma baía em miniatura, quase privativa, e possui 14 hectares de arbustos, faias, incensos e laranjeiras, onde algumas camas de rede servem de pretexto a doces horas de dolce far niente.


Um dos moinhos de vento de Urzelina

O adeus marítimo ao Pico, já em direcção ao Faial...
Ao longo da estadia, o Pocinho funcionou como porto de abrigo, bom de saborear sobretudo ao final do dia, numa tentativa tão desesperada quanto inútil de recuperar a sensibilidade dos músculos do corpo. É que, apesar de este pequeno hotel constituir uma ode à preguiça, o Pico é demasiadamente fascinante para não ser palmilhado de lés a lés – para desgraça do corpinho daqueles que, num assomo de coragem irreflectido, decidem (como nós) escalar o vulcão-montanha mais alto de Portugal. Admita-se, no entanto, que, apesar do físico moído, a experiência não só vale a pena como nos parece inesquecível e indispensável. O percurso – de cinco ou seis horas de caminhada – inicia-se junto ao Cabeço das Cabras, a cerca de 1200 metros de altitude. No começo o coração começa a bater descompassado. Depois são os músculos que fraquejam. E quando já se acha que mais um passo e “esticamos o pernil” (literalmente) há uma montanha quase inteira por descobrir. Aí cabe ao guia avaliar as capacidades de cada caminhante. Joaquim, o nosso, vaticinou a subida, pelo que lá fomos contornando as rochas e subindo trilhos íngremes aromatizados a tomilho, duvidando da sua sabedoria.

Pocinho Bay, um pequeno hotel de apenas seis quartos com vista para uma baía quase privativa
Ao chegar ao Pico Grande, uma grande cratera com cerca de 700 metros de diâmetro, a sensação de vitória é inevitável, mas incompleta. Falta conquistar o Piquinho, um cone vulcânico 50 metros acima, com três ou quatro fumarolas. Ou seja, mais uma hora de escalada pura e dura, que nem o canto dos tentilhões consegue adoçar! Se o céu estiver limpo podem alcançar-se de apenas um relance as ilhas do Faial, São Jorge, Graciosa e Terceira, pelo que só as vistas valeriam todo o esforço. Depois é a sensação de missão cumprida, de limites ultrapassados, além do silêncio intemporal que nos engole e cuja sensação é impossível de traduzir em palavras.

Exemplo de charme e elegância, os proprietários chamam-lhe “Design Home Stay”
Apesar do Pico Grande – com mais de 2300 metros – parte do território da ilha junto ao mar é plano, geografia ideal para longos passeios de bicicleta. Um dos percursos mais interessantes faz-se no Lajido, um dédalo de caminhos estreitos que atravessam as vinhas classificadas como Património Mundial pela UNESCO.

Desde há séculos que os habitantes do Pico (inicialmente sob direcção dos frades franciscanos) cultivam a vinha em grandes áreas cercadas por paredes grossas e altas de pedra, destinadas a proteger as colheitas do roubo e dos coelhos. Estas propriedades foram, por sua vez, divididas em pequenos “currais”, que não só impedem a circulação do vento, como servem de reflectores solares. São muros e muros de rocha amontoada paredes-meias com o mar, que, diz-se, dariam mais de uma volta à Terra se dispostas em filinha indiana! Actualmente protegem centenas de hectares de vinha, cuja produção mal chega para abastecer as ilhas e os “países da saudade” (Canadá e E.U.A.), mas que no século XVIII era exportada para o Brasil, as Índias ocidentais e a Rússia.

De qualquer modo, o solo vulcânico da ilha, rico em micro-nutrientes, ainda hoje produz vinho branco afamado, de que o “Terras de Lava”, é o melhor exemplo, além do “Lajido”, um néctar forte e adocicado, herdeiro do antigo “verdelho” picaroto (a comprar na ilha, pois estes vinhos não estão à venda no continente).

Nota Histórico-Geográfica
Desenvolvendo-se em torno do vulcão (2351 metros de altitude) que lhe dá o nome, a ilha do Pico possui 42 km de comprimento por 15 de largura, acolhendo cerca de 15.500 habitantes. O seu povoamento iniciou-se por volta de 1460 com naturais do Norte de Portugal. Inicialmente voltada para a cultura do trigo e da exploração do pastel, a população do Pico dedicou-se também à pesca. Seguiu-se um largo período de esquecimento, interrompido no século XVIII por violentas erupções vulcânicas. Em 1723, Madalena é elevada a vila, confirmando a sua importância económica como porto de ligação com o Faial, por onde se realiza o comércio com o exterior. A partir daí é a produção de vinho que faz a riqueza da ilha, assim como a caça ao cachalote, abolida em meados dos anos 80.
O Pico é tão montanha quanto mar. É terra de agricultura e pasto, mas também de pesca. A da baleia, por exemplo, continua a trazer riqueza à ilha, mas é feita, agora, com binóculos e máquinas fotográficas ao invés de arpões. “Baleia à vista!” é expressão que justifica a entrada de milhares de viajantes, todos os anos, sobretudo no Pico e em São Miguel (por razões de agenda foi na última que acabámos por experimentar o “Whale Watching”). A actividade foi lançada em 1991 pelo francês Serge Viallelle, actualmente à frente do Espaço Talassa, uma base de observação e estudo de cetáceos, nas Lajes do Pico. Quem o viu chegar, nos anos 80, não poderia imaginar que o jovem hippie de madeixas demasiado longas para a moda local iria contribuir tão largamente para o desenvolvimento do Pico. Ditaram a sua fixação na ilha, a paixão pelo mar e por uma rapariga da terra.

Depois conheceu João, um antigo vigia com demasiado medo do mar para ser pescador (mas de olho esperto), e descobriu um terceiro amor, as baleias. Actualmente, só espera que a dinâmica que trouxe aos Açores não se transforme numa ameaça, devido ao número crescente de empresas e expedições ao largo das ilhas. “Os recursos naturais estão a ser demasiadamente explorados”, lamenta. “Temos de respeitar os golfinhos e baleias, antes que seja tarde demais”.


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