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D O S S I E R Agosto de 2006   

Flores | Pico | São Jorge | São Miguel | Guia de Viagem

São Jorge
Dias bucólicos
"O
que faz um viajante de férias em São Jorge?”, perguntamos ao António, nosso guia. “Caminhadas”, responde sem hesitar. Pode parecer pouco, mas não é. Esta pequena ilha do grupo central possui com certeza mais trilhos rasgados nos campos do que estradas, a maioria construída nos últimos 40 anos. Ainda para mais, são acompanhados de paisagens únicas, que alternam o azul do mar com o verde da floresta e das pastagens, divididas por sebes de hortênsias azuis e cor-de-rosa.
   
Os Açores ficam onde a Europa acaba, mas parecem por vezes também apontar agulhas para o fim do mundo. A grande parte das vilas e aldeias desta ilha, por exemplo, situa-se à beira-mar, deixando os parcos quilómetros do interior à mercê dos pastos e das vacas, bem mais numerosas (30.000) que os humanos (10.000) – e constituindo terreno mais que favorável às revoltas preconizadas por Orwell.

Manhã cedo e ao fim da tarde o único movimento visível é o das gentes da ordenha; o resto de São Jorge parece adormecido. A indústria de lacticínios encontra--se em franca expansão, é verdade – produzem-se mais de duas toneladas de queijo anualmente –, mas

P U B L I C I D A D E
Velas, a maior vila de São Jorge, onde a tradição pesqueira se mantém. Fajã de Santo Cristo: grande parte das aldeias desta ilha situa-se à beira mar, deixando o interior à mercê dos pastos e das vacas
reporta--se apenas a cerca de nove pequenas unidades fabris dispersas e discretas em redor das principais vilas de Velas e da Calheta. Até os turistas parecem não querer perturbar esta estranha visão de um Portugal rural praticamente desaparecido, embrenhando-se manhã cedo nas encostas que descem até ao mar e à zona das Fajãs, e das quais regressam apenas ao final do dia.

Solicitamos a mesma experiência a António, determinados em compreender o que atrai milhares de nórdicos a esta ilha. Antes, porém, passamos por Manadas, com a sua fábrica de queijo e a graciosa igreja de Santa Bárbara, declarada Monumento de Interesse Nacional, e por Urzelina, onde os coloridos moinhos de vento assentes em bases caiadas evocam os tempos em que nas ilhas se produziam toneladas de cereais. Por fim, passamos pela torre da igreja que sobreviveu à erupção vulcânica de 1808 (toda a restante povoação foi sepultada num mar de lava). Urzelina situa-se na costa voltada a sul, de onde se avista a ilha do Pico, a apenas 15 km de distância. É curioso observar a estranha influência que a montanha mais alta de Portugal exerce não só sobre os picotos, mas também sobre os habitantes de São Jorge. “A primeira coisa que faço pela manhã, todos os dias do ano, é espreitar o Pico”, revelam tanto António como Luís, o motorista. Serve de ponto de referência meteorológico e, provavelmente, histórico, evocando a origem vulcânica do arquipélago, em tempos de tranquilidade.

Descida da Serra do Topo em direcção à Fajã de Santo Cristo, apenas acessível a pé, de burro ou moto quatro; e uma das queijarias onde se produz o conceituado queijo de São Jorge
Atravessada a ilha, cujo interior é trespassado por uma autêntica espinha dorsal feita de vulcões extintos, partimos à descoberta da Fajã de Santo Cristo, apenas acessível a pé, de burro ou moto quatro. A caminhada, que se prevê durar cerca de três horas e meia, tem início na Serra do Topo, envolta em nevoeiro, apesar de estarmos a largas centenas de metros do nível do mar.

Atravessamos propriedades particulares com os seus portões rústicos em madeira, saltitamos por entre ravinas e carreiros mais preparados para cascos de bovinos que para botas de montanha e deixamo-nos enredar no emaranhado verde de hectares infindáveis de pasto e da antiquíssima Laurissilva, relíquia valiosa de vegetação, existente no Sul da Europa e no Norte da África há mais de 15 milhões de anos.

Em mais de um par de horas eu e António cruzamo- -nos apenas com uma vaca solitária e com um jovem casal de mochileiros robustos. A paisagem, por seu lado, presenteia-nos com a visão das Graciosa e Terceira, vestidas por etéreos mantos de neblina. Algumas casas e pontes de pedra roubam o verde à vegetação que vamos aprendendo a chamar pelo nome, graças aos conhecimentos de botânica de António, enquanto cascatas cristalinas refrescam a descida, a páginas tantas, tão bela quanto extenuante. E após meia dúzia de subidas e descidas eis que chegamos à Fajã de Santo Cristo.

Nota Histórico-Geográfica
Com cerca de 56 km de comprimento por apenas 8 de largura máxima, a ilha de São Jorge foi criada por sucessivas erupções vulcânicas em linha recta, de que restam as crateras. A costa, escarpada, é interrompida por superfícies planas costeiras – as fajãs. O descobrimento e povoamento da ilha estão envoltos em mistério, embora se saiba que em 1470 já existiam núcleos de colonos. Viveu no século XVI grande vitalidade económica graças ao cultivo da vinha, trigo, pastel e urzela, mas a partir do século XVIII é vítima de dificuldades, como o ataque do corsário francês Duguay- -Trouin e os sismos de 1757 e 1808. Actualmente, aplica os seus recursos naturais na expansão da pecuária, dos lacticínios, da pesca e da indústria de conservas.
As fajãs consistem em pequenas planícies que se estendem pelo mar, resultado de abatimentos da falésia. Existem em várias ilhas, mas em São Jorge são particularmente numerosas (mais de 40) e férteis. Foram convertidas em pomares, em campos de cultivo de inhame, milho e legumes, por usufruírem de verdadeiros microclimas. Em algumas delas crescem café, vinhas ou frutos tropicais, mas devido ao terramoto de 80, que provocou o abatimento de ravinas, muitas foram abandonadas. Agora vão sendo ocupadas lentamente, nem que seja apenas ao fim-de-semana, por gente que cresceu a fazer vingar o sustento da terra.

Uma igreja, uma dezena de casas de pedra e outras tantas vacas e cabras compõem o cenário de Santo Cristo. A confirmar a vida no local, um barzinho – com paredes revestidas a testemunhos muito “fumados” dos surfistas que passam por aqui todos os anos no Verão –, oferece-nos um café de saco, já que a electricidade, assim como as multidões, ainda não chegou a este lugar.


São Miguel
Verde cosmopolita
A
pós termos passado alguns dias nas Flores, Pico e São Jorge, São Miguel pareceu-me uma escala desnecessariamente agitada antes de regressar ao continente. Como encarar o trânsito e as multidões, após uma semana a adormecer embalada pelo desmaiar do mar nas falésias de basalto?

Golfinho de Risso ao largo de São Miguel, uma das espécies que avistámos na nossa expedição de Whale Watching; restaurante A Colmeia, onde a cozinha local é reinventada; e passeio a cavalo, uma das actividades proporcionadas pela Quinta da Terça
Segui, então, a velha máxima “em Roma sê romano” e compensei a agitação da maior ilha açoriana pernoitando no “Hotel do Colégio”, um dos mais elegantes da ilha, situado no centro histórico da capital, Ponta Delgada. Sem qualquer tipo de remorsos, troquei o canto do tentilhão por uma hora de spa e um jantar sofisticado no restaurante do hotel, uma referência na ilha – “A Colmeia”.

Mas São Miguel não se encontra assim tão longe do verde. Até porque é mesmo essa a cor que o escritor Raul Brandão, de visita ao arquipélago, encontrou para “pintar” a ilha. Basta sair de Ponta Delgada ou da Ribeira Grande para encontrar os pastos e as fajãs que conhecemos de São Jorge, os trilhos secretos e lagoas formadas nos cones vulcânicos com que as Flores também nos encantaram ou um Atlântico morno e rico em peixe, cobiçado pelos cetáceos, que não tivemos a oportunidade de descobrir no Pico.

Aliás, para observar baleias e golfinhos nem é necessário sair de Ponta Delgada, pois no cais da marina são várias as empresas que organizam expedições diárias de “Whale Watching”. Ironicamente, as baleias e os cachalotes, após décadas de perseguição continuam a gerar riqueza nas ilhas. Desde a abolição da caça em meados dos anos 80, foram-se multiplicando e afirmam-se actualmente como uma das principais atracções turísticas do Pico e São Miguel. Cada expedição, precedida de um breve briefing, que não só nos elucida quanto às espécies que se podem avistar, como à tradição da pesca à baleia no passado, tem a duração de cerca de duas ou três horas, sendo quase certa a observação de golfinhos e mais ou menos provável a de cachalotes e baleias sardinheiras. Já a baleia azul, de todas a mais imponente, só de quando em quando dá um ar da sua graça.

Plantação e fábrica do histórico chá Gorreana, que se mantém em funcionamento desde 1883
Decidimos experimentar. Após o embarque, a expectativa reina no ar à medida que avançamos por um mar extraordinariamente calmo – “mar de azeite”, na gíria de marinheiro – apesar da chuva. Mário, o skipper, vai contactando pelo rádio com os vigias estrategicamente colocados ao longo da costa. A primeira hora é consagrada à aproximação de um grupo de golfinhos de Risso, que Mário nos diz ser uma espécie um pouco menos sociável, mas que, ainda assim, brinca com as ondas a dois, três metros de distância, fingindo ignorar a nossa presença. Um casal no barco do lado atira-se corajosamente ao mar, cada vez mais encrespado, e, por alguns minutos, consegue nadar lado a lado com estes mamíferos enigmáticos. Entretanto uma voz de sobressalto faz-se ouvir pela rádio: “Vejo uma baleia, vejo uma baleia!” Mário acelera e lá vamos nós, em direcção a uma Sardinheira. “Olhem, lá está ela!”, exclama, entusiasmado.


Piscina do Hotel do Colégio, no centro histórico de Ponta Delgada
O repuxo vê-se ao longe e a baleia – ou baleias, pois há outra às três horas, do lado direito da embarcação – num instante já se encontram a deslizar, submersas, ao nosso lado. As Sardinheiras, ao contrário do Cachalote, são ariscas e vêm pouco à superfície. Estas, ainda assim, deixam-nos, por duas ou três vezes, entrever um dorso longo e luzidio, antes de nos desafiarem e acabarem por ganhar o jogo da “apanhada”.

Para compensar a emoção da manhã, seguimos para um tranquilo passeio de automóvel até à fábrica dos chás Gorreana, que se mantém em funcionamento desde o início da sua actividade, em 1883. Na propriedade de 23 hectares, situada perto da aldeia da Maia, entre a Ribeira Grande e as Furnas, podem-se observar não só os campos cultivados como todas as fases da produção; admirar as técnicas e as máquinas utilizadas (algumas quase tão antigas como a própria fábrica), além de experimentar in loco o aroma dos chás – preto ou verde – aí produzidos.

Nota Histórico-Geográfica
São Miguel, a maior ilha do arquipélago dos Açores, é composta por dois maciços vulcânicos separados por uma cordilheira central de baixa altitude, tendo o ponto mais alto, o Pico da Vara, 1080 metros. O seu povoamento iniciou-se no ano de 1444, depois de o Infante D. Henrique ter mandado lançar gado em sete das ilhas do arquipélago. A fertilidade do solo e a posição geográfica entre a Europa, África e a América contribuíram para uma rápida expansão, centrada no cultivo do trigo, da cana-de-açúcar e das plantas tintureiras pastel e urzela. Vítima de ataques de corsários durante o final do século XVI e parte do século XVII, foi ocupada por tropas espanholas em 1582. Actualmente, é um dos maiores centros de decisão política e administrativa da região.
Mas como é o turismo activo que aqui nos traz, dirigimo-nos, em seguida, à setecentista Quinta da Terça, no Livramento, a poucos minutos de Ponta Delgada, para um passeio a cavalo. A quinta funciona, igualmente, como um turismo em espaço rural, proporcionando aos apaixonadas pela equitação a possibilidade de passear pela floresta, bem como de aprender a montar. É actualmente gerida por Claude e Christina de Laval, um casal de suecos que adoptou a ilha como lar e acolhe os hóspedes como membros de uma grande família.

Obviamente que São Miguel – dada a sua dimensão e estado de desenvolvimento – é, no arquipélago, a ilha que mais actividades oferece ao viajantes. Desde o percurso em redor da Lagoa das Sete Cidades, às tardes de mergulho, ou passeios junto das nascentes de águas quentes e sulfurosas da Caldeira Velha, não dá descanso a qualquer mortal. Mas, caso lhe tentem ocultar este pequeno segredo, aqui vai: a despedida perfeita é feita na Ponta da Ferraria, onde as águas quentes termais invadem o mar de um azul profundo quase translúcido, levando-nos a questionar seriamente o momento da partida...


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