Em pleno Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, o ar puro e perfumado invade os sentidos do viajante que, entre mergulhos e caminhadas, na praia ou no campo, encontrará sempre um poiso tranquilo, mas distinto, onde pernoitar
Texto de sara raquel silva e fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
Atravessamos encostas areníticas, ora rosa, ora ocre, ora vermelhas. Descobrimos praias escondidas, troços de arriba baixa, cordões dunares, um infindável cortejo de ilhotas e recifes. Por todo o lado as plantas lutam contra a rudeza do solo e a franca exposição aos ventos e à salinidade marinha. Já as aves parecem pouco importadas. Nas falésias poisam corvos-marinhos, pombos-da-rocha, garças e até cegonhas aí nidificam, com vista para o mar. Mergulhamos num mundo de salgado silêncio e daí só saímos para o deleite das papilas gustativas. Que bem sabe o peixe fresco no sudoeste alentejano! Depois, à noite, em pleno Parque Natural, enveredamos por caminhos perfumados pela esteva e maresia, chegamos ao campo e rendemo-nos ao conforto de uma casa rural. Perfeito, perfeito, só se pudéssemos para sempre ficar.
Dia 1 Odeceixe > Zambujeira
Damos início ao passeio com um pé no Algarve e outro no Alentejo, uma vez que a vila de Odeceixe se desenvolve dos dois lados da ribeira de Seixe – a fronteira natural entre as duas regiões mais a sul do país.
É um bom lugar para ir acordando devagarinho, à medida que o Sol se levanta no horizonte, passear com vagar pelas ruas estreitas e, num assomo de coragem, ainda pela fresca, subir até ao Moinho de Vento. Em pleno funcionamento, deixa-nos observar todo o processo artesanal de moagem de cereais, onde o moleiro vigia a direcção do vento e vai transformando o trigo em farinha. Aos nossos pés abre-se um autêntico cartão postal feito pelo casario branco da vila e pela várzea atravessada pela ribeira serpenteante. Por detrás adivinha-se a Praia de Odeceixe, onde a manhã passará num ápice.
Possui Bandeira Azul e oferece tanto banhos de mar como de rio.
Na vazante formam-se correntes perigosas, sobretudo nos dois extremos da praia, mas na baixa-mar pode-se caminhar umas largas dezenas de metros com pé.
É uma das mais amplas e bonitas da região, o que se traduz em algum congestionamento nos meses de Julho e Agosto. Sobretudo familiar, dispõe de uma área legal naturista, na zona sul – um areal com cerca de 400 metros de comprimento, mais tranquilo.
Com o Sol a pino, há que regressar à vila, e, à sombra de uma esplanada, no Largo 1.º de Maio, delinear o percurso em direcção a norte. Antes, porém, passamos pela Adega-Museu de Odeceixe, um núcleo museológico que pretende recriar as antigas adegas da região. Era nestes espaços que os produtores de vinho convidavam os amigos para as provas dos néctares, selavam negócios ou ofereciam a “adiafa” (refeição ou merenda presenteada aos trabalhadores pela conclusão de uma tarefa agrícola ou de uma construção).
O adiantado da hora leva-nos de novo à estrada. O almoço será na Zambujeira do Mar, no restaurante O Sacas, a cerca de meia hora de caminho. Abriu as portas há mais de 20 anos como simples tasca de pescadores, instalada junto ao porto. Hoje “subiu” até junto da estrada (no mesmo local) e continua a ser frequentado pelos homens do mar (para quem há sempre um espacinho reservado na grelha), mas oferece, além dos antigos petiscos, propostas menos vulgares, à semelhança de bifes de pampo, raia à francesa e feijoada de búzios – uma das especialidades da casa – entre outros pratos de criação própria. Alguns são sonhados pela proprietária, Manuela Santos, que nem durante a noite se desliga dos tachos e panelas; outros congeminados pela filha, Sílvia, igualmente cozinheira de mão-cheia. De serviço no carvão fica sempre Fernando Santos, a quem ficámos a dever um belíssimo sargo grelhado.
Sargo, o proprietário do emblemático bar “Espera-me entrando”,
na Zambujeira do Mar; Herdade do Touril de Baixo;
e loja de artesanato em Odeceixe
Após semelhante repasto, a siesta parece-nos inevitável. Ainda para mais, a Herdade do Touril de Baixo, onde iremos pernoitar, é quase vizinha. Quem nos recebe é Luís, o dono desta propriedade, há cinco gerações na família, onde ainda se cria gado e faz crescer cereais.
Com mais de trezentos hectares, estende-se até ao mar e à belíssima Praia do Tonel – areal apenas acessível aos mais aventureiros, pois implica a descida a pique
por carreirinhos estreitos pouco aconselháveis a quem sofra de vertigens e (ou) bom senso. Caminhadas e passeios de bicicleta (sempre disponíveis para os hóspedes) são actividades alternativas aos mergulhos no Tonel.
De qualquer modo, caso não resista a estas praias despoluídas aninhadas em falésias imponentes, procure pelos areais da Zambujeira, dos Alteirinhos e do Carvalhal – não ficam longe.
Por ora sabe bem ficar a preguiçar junto à piscina ou na suite acabada de estrear, que, ao contrário dos clássicos quartos instalados na casa-mãe, foi decorada num estilo mais contemporâneo e despojado.
Quando a noite se abate sobre a vila da Zambujeira do Mar está na hora de percorrer as esplanadas, petiscar uns percebes e absorver o descontraído ambiente balnear.
Nas falésias poisam corvos-marinhos, pombos-da-rocha, garças
e até cegonhas, que aí nidificam, com vista para o mar
Ao lusco-fusco qualquer excesso de betão passará despercebido.
Só apreciamos a harmonia das casinhas tipicamente alentejanas e o “fresco” que sopra de oeste.
Pelo menos, até chegarmos ao mais popular bar das redondezas, o Espera-me Entrando...
Dia 2 Zambujeira do Mar >Vila Nova
de Milfontes > Cercal do Alentejo
É célebre pelas praias de mar, mas, até meados do século XX, a sua importância ficava a dever-se ao rio que aí desembocava. Era através do Mira que se recolhiam os cereais
pelo Alentejo profundo até Vila Nova de Milfontes, daí transportados para a capital do reino. Fundada em 1486 por D. João II, esta vila manteve, apesar da sua localização estratégica também como porto de abrigo, uma existência pacata até ser catapultada para a fama pelo turismo, há cerca de três décadas.
Praia do Torel, com acesso através da Herdade do Touril
Quer isto dizer que os seus areais são bastante populosos durante o Verão... Mas, por estas bandas, por cada praia lotada existem duas desertas, garantia de mergulhos solitários em plena comunhão com a natureza. Experimente, se for adepto do isolamento, as Praias do Almograve ou do Brejo Largo, a sul. No que toca a esta última, avisamos que não existe qualquer tipo de indicação e o caminho é tortuoso, prenúncio de um autêntico paraíso.
Siga pela aldeia da Longueira e, depois do depósito de água, entre na estrada de terra, no sentido da costa. Depois, é só seguir em linha recta. Deixe o carro junto à única casa das redondezas e siga por uma pequena ponte de cimento, continuando pelos degraus escavados na rocha. Será recompensado, no final, com um imenso areal, protegido por altas escarpas, das quais escorrem cascatas de água doce.
De regresso, para almoçar, escolhemos restaurante O Josué, na Longueira, onde, dizem os entendidos, se come o melhor peixe grelhado de toda a região.
Caminhadas e passeios de bicicleta são actividades alternativas aos mergulhos na Praia do Tonel, perto da Herdade do Touril
Nem só de mar se faz o Sudoeste alentejano, pelo que sugerimos como programa alternativo um passeio de barco pelo rio Mira – um dos mais despoluídos da Europa – organizado pela empresa DUCA – Actividades Náuticas de Recreio (tel. 96 3695200). O percurso tem início no Porto de Pesca e segue no sentido da nascente. As margens oferecem paisagens pintadas com o verde das estevas, azinheiras, pinheiros e dezenas de plantas endémicas, de denominação científica indizível. Algumas garças-reais entre um ou outro monte pontuam de branco a paisagem.
Praia dos Alteirinhos, na Zambujeira; quarto da Herdade da Matinha, no Cercal;
e esplanada da cafetaria do Marquês,
em Odeceixe. Ovos mexidos com linguiça na Tasca do Celso
No passado, o rio já ditou o ritmo da vida do Homem que habitava junto às margens. Comprovam-no os moinhos de maré, que, volta e meia, nos deixam com a impressão de ter voltado atrás no tempo.
Caso siga esta última sugestão, a Tasca do Celso – de regresso a Milfontes – será o restaurante aconselhado para uma refeição opípara. Este espaço é já uma referência na gastronomia alentejana, embora de tasca tenha pouco e o dono não se chame Celso, mas antes José Ramos Cardoso. Herdou a alcunha do nome do seu pai, figura respeitada pelos locais. Gambas al ajillo, açorda de camarão, migas e peixinho frito com um bom arroz malandro são uma amostra dos pratos regionais aqui servidos a primor.
A acompanhar não faltam alguns dos melhores vinhos produzidos no país, que “Celso” faz questão em sugerir, não possuísse uma das mais interessantes garrafeiras da região.
Seguir-se-á uma digestão demorada, a aligeirar com um passeio pela vila. Pode-se visitar a Igreja Matriz e as capelas de São Sebastião e de Santo António da Cela. Imprescindível um passeio junto ao mar e do forte filipino da Boca do Rio, edificado no século XVII, popularmente conhecido por “Castelo”.
O destino é, agora, o Cercal. Queremos assistir ao cair do dia já instalados na Herdade da Matinha. Antes, porém, passamos pelo monte onde Tarik e Isa (tel. 96 5859232), professores de yoga, se encontram a desenvolver um projecto de permacultura. O conceito, quase desconhecido no país, refere-se a uma síntese de práticas agrícolas tradicionais, aproveitando ideias inovadoras. Proporciona o desenvolvimento auto-sustentável da propriedade rural, neste caso a aplicar igualmente num espaço que visa acolher workshops de yoga e cerâmica, entre outros, nos meses de Agosto e Setembro.
Quando a noite se abate, está na hora de percorrer as esplanadas, petiscar uns percebes e absorver o descontraído ambiente balnear
E, assim, por entre searas e pinhais, alcançamos a estrada de terra batida rumo ao refúgio de Alfredo Moreira da Silva e de Mónica Belleza de Miranda e dos seus três filhos. O sol começa a dourar a vegetação que envolve a antiga casa rural, transformada numa unidade de turismo rural de excepção. A Herdade da Matinha é um daqueles lugares onde rapidamente nos sentimos em casa. São as pinturas do Alfredo, o mobiliário antigo, as portas sempre abertas de uma casa de família com vista para um jardim aparentemente espontâneo...e os repastos (assinalados no conceituado guia da Michelin) com que o pintor e admirável mestre de cozinha nos mima. A degustar, de preferência, no alpendre, ao luar.
Dia 3 Cercal do Alentejo >Porto Covo > Sines
Com umas sanduíches gourmet na bagagem seguimos para Porto Covo. A caminho, não resistimos a visitar a Ilha do Pessegueiro, acessível de barco na época estival. Situada a cerca de 250 metros da linha da costa, foi ocupada quer na Idade do Ferro, quer no período Romano, como local de salga de peixe. Actualmente desabitada, acolhe as ruínas de um forte filipino inacabado do século XVII, bastante afectado pelo sismo de 1755. Em terra, é melhor avistada a partir de uma fortificação gémea da que se encontra na ilha, também construída durante o reinado de Filipe III, como protecção contra as incursões de piratas e corsários. Já em Porto Covo, deixamo-nos encantar pelo largo principal, com a sua igreja e respectivo adro, uma das maravilhas do urbanismo e da arquitectura popular alentejana, datado do século XVIII.
Em Sines podemos frequentar a escola de surf, passear pelo centro histórico e visitar o recente Centro de Artes, ir à Praia de São Torpes e satisfazer o apetite no Trinca-Espinhas
Foi inspirado no modelo pombalino da baixa lisboeta, daí ter por nome Largo Marquês de Pombal. Dele parte uma avenida rumo à pequenina Praia dos Buizinhos, de areias finas e águas transparentes e tranquilas. À direita a Praia Grande, dotada de bandeira azul e ondulação mais forte, convida à prática de surf, entre outros desportos náuticos.
Apesar do actual carácter cosmopolita, Porto Covo esteve, até à década de 80 do século passado, sempre associado à pesca artesanal. A começar pelo seu próprio nome, que deriva dos “covos” – armadilhas para polvos e mariscos, ali introduzidos por pescadores de Setúbal, Peniche ou Aveiro.
Prosseguindo em direcção a norte, Sines oferece uma paisagem mais urbana. O Parque do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina termina aqui.
Neste passeio de maresia, descobrimos praias escondidas, troços de arriba baixa, cordões dunares e um infindável cortejo de ilhotas e recifes
A zona histórica, que se estende pela falésia desde o Castelo ao Forte de Revelim, preserva o seu encanto. Destacam-se os núcleos medievais (Rua Cândido dos Reis e Teófilo Braga), o Largo da Atalaia e, claro, o recém instalado Centro de Artes de Sines, já considerado um marco na história da arquitectura contemporânea nacional (Atelier Aires Mateus). Foi galardoado com os distintos Prémio Enor 2006, entregue em Vigo, e o Prémio alemão ContractAward, na categoria Educação.
Um salto à Praia de São Torpes para petiscar uma saladinha de povo no restaurante Trinca-Espinhas torna a despedida mais doce. E deixa que levemos connosco o retrato deste magnífico oceano, companhia constante nestes últimos dias.
CONTA-QUILÓMETROS
Dia 1 | 19 km
Odeceixe > Zambujeira do Mar
Tome a N120 por 11 km. Em São Teotónio continue por mais
400 m até chegar
a uma rotunda. Aí, siga pela EM500-2,
por mais 4 km. Encontrará outra rotunda, onde deverá voltar à esquerda e prosseguir até chegar ao centro da vila.
Para a Herdade do Touril de Baixo, siga em direcção ao Cabo Sardão. A partir daí encontrará placas indicativas. Fica a 4 km da Zambujeira do Mar.
Dia 2 | 49 km
Zambujeira do Mar > Vila Nova de Milfontes > Cercal do Alentejo
Tome a N393-1. Passados cerca de 5 km, volte à esquerda para a N393, seguindo as placas indicativas de Milfontes.
Após a ponte sobre o rio Mira, vire à esquerda, rumo ao centro da vila.
Para chegar ao Cercal do Alentejo retome a N393 e siga sempre em frente ao longo de 20 km. A Herdade da Matinha fica um pouco antes desta localidade. Terá de voltar à esquerda e seguir a sinalização.
Dia 3 | 47 km
Cercal do Alentejo > Porto Covo > Sines
Tome a IC4 em direcção a Sines e volte à esquerda para a EM554, na placa indicativa. Em cinco minutos estará no centro da vila.
Para seguir para Sines, retome a EM554 em direcção a norte até chegar de novoà IC4. Prossiga por 13 km até chegar ao centro da cidade.
Onde dormir Herdade do Touril de Baixo
Com quase uma dezena de quartos e três pequenas casas independentes com terraços privativos, esta antiga casa agrícola está equipada com aquecimento central e ligação wireless à Internet por ADSL. A piscina de água salgada é servida pelo bar ao longo da tarde e dispõe de três quilómetros ao longo da costa, pelo que os seus hóspedes desfrutam de um ambiente tão rural quanto ligado ao mar. Os pequenos-almoços são servidos entre as 9h00 e o meio-dia.
Existem sempre bicicletas à disposição e trilhos para os amantes das caminhadas.
Quartos duplos a partir de €65. Contactos: Herdade do Touril de Baixo,
Zambujeira do Mar, tel. 283950080, www.touril.pt
Herdade da Matinha
Com oito quartos coloridos e decorados
com as obras de pintura e patchwork do proprietário, esta antiga casa agrícola encontra-se rodeada por um fabuloso jardim semi-selvagem,
rico em ervas de cheiro e arbustos aromáticos.
Com ligação wireless à Internet nas salas comuns, deixa que os hóspedes se deliciem com o pequeno-almoço ao longo de toda a manhã. Serve refeições ligeiras ou gourmet, apenas a quem se encontra hospedado, organiza concertos de jazz, workshops de cozinha, de yoga e tudo o que um espírito romântico possa desejar para um fim-de-semana
a dois.
Quartos duplos a partir de €70. Contactos: Herdade da Matinha, Cercal do Alentejo, tel. 932944285, www.herdadedamatinha.com
Onde comer O Sacas
Restaurante situado no cimo
de uma falésia com uma magnífica vista para o oceano. O ambiente
é muito agradável e descontraído, com mesas e bancos corridos
de madeira. Serve grelhados
de peixe; caldeirada de peixe; feijoada de búzios; bife de peixe; arroz de polvo; ensopado e fricassé de safio e de raia e raia à francesa, entre muitos petiscos.
Preço médio por refeição: €20 Contacto: Entrada da Barca, Zambujeira do Mar, tel. 283961151
Tasca do Celso
Uma casa escondida no meio
do casario de Milfontes,
já muito perto da foz do rio.
De tasca terá apenas alguma decoração e o menu escrito a giz nas lousas colocadas na parede. Pratos regionais como as açordas, as migas e outros que tais. Sobremesas típicas não faltam, nem uma carta onde
os vinhos alentejanos
têm presença garantida.
Preço médio por refeição: €22 Contacto: Rua dos Aviadores, Vila Nova de Milfontes, tel. 283996753
Restaurante O Josué
Restaurante despretensioso,
mas onde, dizem os locais,
se pode degustar o melhor peixe da região. Experimente os percebes ou as amêijoas, o sargo grelhado ou a massa de cherne.
Preço médio por refeição: €22 Contacto: Rua José António Gonçalves, 87, Longueira/Almograve, tel. 283647119
Trinca-Espinhas
Restaurante com uma magnífica esplanada com vista para o mar, em plena praia de São Torpes.
Tem como especialidades
o peixe fresco para grelhar,
a saladinha de polvo e as amêijoas.
Preço médio por refeição: €20 Contacto: Praia de São Torpes,
tel. 269636379