|
- - - - - - - - - - - - - - -
|
|
| - - - - - - - - - - - - - - - |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
- - - - - - - - - - - - - - -
- - - - - - - - - - - - - - - |
|
|
|
XL
> Rotas & Destinos
> Em Destaque
> Estónia

 |
| D E S
T A Q U E |
Agosto
de 2010 |
|
 |
| |
|
Há muitas Estónias para contar. Mas a pequena república do Báltico tem histórias mais verídicas do que outras. O conforto do bairro de Kalamaja e a obsessão pela natureza. A genuína tradição hanseática e ilhas surpreendentes como Muhu. A crescente sofisticação gastronómica e os Verões de Pärnu. Bem-vindos a um país onde a rapidez da mudança só é comparável à identidade granítica. Teimosa mesmo
 |
Texto de JoÃo Lopes Marques | Fotografia de Nuno Filipe Oliveira |
 |
| |
|
 |
 |
|
 |
|

|
“MAS POR QUE RAIO VIVES TU NA ESTÓNIA?” A PERGUNTA REPETE-SE DIARIAMENTE, EMBORA PARTA SOBRETUDO DOS QUE NUNCA TIVERAM A SORTE DE PROVAR ESTE MANNAPUDER DO CAFÉ BOHEEM. A CREMOSA PAPA DE SÊMOLA TRAZ SEMPRE UM SORRISO BEM RASGADO, DE ORELHA A ORELHA, E TODOS OS DIAS DIFERENTE, DESENHADO COM A PRÓPRIA COMPOTA DE MORANGO. RENOVA-SE TODAS AS MANHÃS, REFORÇANDO A MINHA CONVICÇÃO DE QUE KALAMAJA, O MEU BAIRRO DE TALLINN, É HOJE UM DOS PARAÍSOS MAIS IMPROVÁVEIS DA TERRA. TALVEZ PORQUE NÃO SEJA ÓBVIO, REITERO-O COM UMA PONTINHA DE ORGULHO: SEJAM BEM-VINDOS AO MEU QUILÓMETRO ZERO.
As casas de madeira da Primeira República da Estónia, entre as duas Grandes Guerras, emprestam-nos uma rara tranquilidade. O período soviético, esse, imprimiu-lhe um suave toque proletário. A verdade é que somos assaltados por uma vertigem campestre, pela ilusão de uma aldeia litoral. Faz sentido: Kalamaja foi um porto piscatório até ao início do século XX e o topónimo significa “Casa do Peixe”. É fascinante vivê-la com todos os seus pequenos truques. Sem escamas.
 |
 |
| Kris Hammer no Boheem Kohvik: é lá que vai alimentando a sua paixão por São Tomé e Príncipe. Skyline de Tallinn visto do bairro de Pirita, a praia de Tallinn. Detalhe do Kaerajaan, localizado na Raekoja Plats e um dos expoentes da cozinha estónia moderna. O chef Igor Andrejev e respectiva brigada são as vedetas do Tchaikovsky, o restaurante do Telegraaf, hotel estrategicamente posicionado no casco histórico da capital |
 |
 |
Nada óbvias para o turista, de resto: as padarias e frutarias no mercado de Balti Jaam, estação de comboios onde podemos saltar para um comboio que nos leva a Moscovo; os botecos azeris com kebab e shashlik, as melhores espetadas de galinha de que há memória a norte do Danúbio; a Kalma Saun, uma discreta e despretensiosa instituição de Tallinn onde suamos com prazer de meio litro de cerveja na mão (Saku Kuld, preferencialmente); a curta caminhada até ao terminal dos ferries, de onde alcançamos o centro de Helsínquia em menos de 100 minutos.
Medievalândia total
Assaz mais vibrante do que Kalamaja, a Medievalândia jaz a meros dez minutos a pé. Vejo-a logo pela manhã: a torre da igreja de Santo Olavo faz as vezes de farol da cidade. E foi-o de certa maneira, o fumo que produziam no seu pináculo serviu para sinalizar a hanseática Reval aos mercadores bálticos. Dos 159 metros que já mediu encolheu para 124, mas ainda é ubíqua ao ponto de chatear. Não há semana em que o meu amigo Priit não repita a tal historieta. “Sabias que foi o edifício mais alto do mundo nos séculos XVI e XVII?” Às vezes chego a arreliar-me: se Priit ainda tem 25 anos, como será a devoção do moço pela espadaúda torre quando tiver netos? Pôr-se-á a fazer comparações com a Torre Eiffel?
Seria excessivo. Desnecessário. Às vezes preocupo-me com estas coisas, mas vamos por partes. Antes de mais: o que é a Medievalândia? Refiro-me, naturalmente, ao singular casco medieval de Tallinn. A sala de estar da Estónia por excelência, onde a Internet gratuita sem fios consegue ser tão omnipresente como os torreões de pedra erguidos pelas tropas dinamarquesas há 800 anos. Bom, agora sou eu, também tenho o terrível vício de contar esta história: Tallinn deriva da contracção das palavras Taani (Dinamarca) e linn (cidade).
 |
| Todos os caminhos vão dar à Raekoja Plats, o Rossio de Tallinn, onde a traça hanseática original nos remete para as teutónicas Bremen ou Lubeque. |
Tudo muito lógico, portanto. Contudo, a etimologia perderá sempre muito para a orgia de sensações que a Velha Tallinn nos oferece. Brinda. A começar pelo prosaico Hell Hunt, cujos proprietários autodenominam de “primeiro pub verdadeiramente estónio”. É a pequena sala de estar incrustada na sala de estar maior. Mentiria se dissesse que os vinhos são baratos, mas a cozinha é um achado, as cervejas vêm de todo o mundo e a sidra de pêra da casa adquire contornos épicos. O problema, lá está, é sempre entornar a primeira.
Alternativas ao Hell Hunt existem. E são tantas que não cabem aqui, embora hoje todos se multipliquem em hossanas ao Aed: as suas batatas com recheio de queijo de cabra e arenque, devidamente acompanhadas com um tinto Bardolino da Sicília, são uma das melhores relações qualidade-preço-atmosfera desta pequena república báltica. Poderia ser exaustivo, mas permitam-me que acrescente apenas o Kaerajaan, restaurante típico estónio recentemente inaugurado na Raekoja Plats (o Rossio de Tallinn).
 |
 |
| O arenque, na sua variedade báltica, é o peixe nacional estónio, podendo ser cozinhado de mil e uma maneiras (panado, na foto); detalhe da Rua Harju, das mais charmosas de Tallinn |
Talvez esteja a servir demasiada comida ao leitor, mas esta parece ser uma tendência por aqui. “Sei que a Turkish Airlines está a estudar uma ligação directa com Istambul”, confidencia-me Michael Stenner: “Tudo indica que em breve começaremos a receber turcos abastados para fins-de-semana gastronómicos…” Acredito em cada palavra: além de director-geral do Telegraaf, o mais charmoso hotel de Tallinn, o teutónico Michael é um dos gurus da hospitalidade local. De Dusseldorf para aqui se mudou em 1997 para gerir os mais afamados cinco estrelas (Schlössle Hotel, Three Sisters, Telegraaf, entre outros).
Muhu encantada
Assim como as distâncias, ou o tempo, sabe-se como o tamanho também é relativo. Nesta Tallinn bem que podem viver meras 500 mil almas que já são muitas. Demasiadas, e nem aludo às tensões com os russófonos que para aqui se mudaram nos idos tempos da União Soviética. Não há estónio que não sonhe com uma escapadela na sua casa de campo, exista ela. Com um churrasco ao ar livre. Fim-de-semana em Paris, Roma ou Estocolmo. Contudo, o êxtase tem um nome bem curtinho: Muhu. À primeira, mais parecerá o mugido de uma vaca, embora se trate da mais peculiar das mil e muitas ilhas e ilhotas que a Estónia se orgulha de possuir no Mar Báltico.
 |
 |
| Funcionário do Pädaste Manor goza horas livres; alce no lobby do Ammende Villa; e detalhe e casa familiar naquele hotel. |
 |
 |
Pop Pädaste
É surpreendente que as ilhas estónias sejam fonte de inspiração dos Pet Shop Boys. Os mesmos que cantavam Go West. No entanto, tudo indica que o tema Between Two Islands nasceu em Muhu. Temos de recuar alguns anos na década, quando Martin Breuer preparou a festa de aniversário de Neil Tennant, um dos elementos do duo britânico. “Criámos um programa maravilhoso de dois dias. Ao início da tarde zarpámos até à Ilha dos Amantes, em frente à Baía de Pädaste, e dali fomos até à Ilha das Pêgas, algumas milhas mais longe”, recorda o proprietário do Pädaste. Foi a inesperada chuva que fez Neil Tennant tirar um bloco de notas e começar a rabiscar palavras avulsas. Martin Breuer recorda-se que Tennant nessa noite ainda se sentou ao piano do hotel e experimentou novos acordes. O pasmo chegaria dois meses depois. Martin nem queria acreditar quando ouviu Between Two Islands, uma das faixas do álbum da banda: “As duas ilhotas inocentes da nossa baía tornadas gigantes!” |
 |
 |
 |
Salão de beleza em Pärnu; a socióloga e jornalista Age Viira; e cais privativo do Pädaste |
Muhu encarna o zénite do bucolismo fino-úgrico e tem o condão de ficar a meras três horas de carro de Tallinn (com uma breve travessia de barco pelo meio). Por incrível que pareça, não teme a competição de Saaremaa e Hiiumaa, as duas irmãs maiores. Bem pelo contrário: o espaço exíguo faz com que as duas mil almas de Muhu tudo façam para que os cartógrafos se lembrem deste pedaço de terra rodeado de mar por todos os lados.
“Vivermos entalados entre dois vizinhos maiores afecta-nos muito: somos competitivos e ganhámos a fama de termos jardins bem cuidados e trajes tradicionais coloridos. Não queremos passar despercebidos”, explica-me Eva Kumpas, a gerente do Pädaste, casa senhorial que é de longe o mais procurado oásis da Estónia. Eva é o paradigma deste amor maiúsculo. Auto-estima insular: após alguns anos vividos em Espanha e Buenos Aires, decidiu regressar à Muhu natal.
Tal opção nem me intriga. Alguma magia exala este sofisticadíssimo Pädaste. Exemplo? Há letões e russos que aterram o helicóptero aqui só para tomar um cafezinho. Sentir as vibrações. É difícil competir regionalmente com o banho de água quente sob o céu estrelado da baía de Pädaste, devidamente acompanhado de uma garrafa de champanhe.
Martin Breuer, holandês de Amesterdão e co-proprietário da pousada, é outro caso. Decidiu investir em Muhu após um piquenique com amigos indígenas. Apaixonou-se pelo ritmo de vida de Muhu, pelas suas quatro bem definidas estações. “A Holanda rural já não é tão rural assim, até as nossas florestas foram planificadas e plantadas… A verdadeira Natureza e silêncio são difíceis de encontrar na Holanda. Pelo contrário, os estónios vivem próximos da Natureza, podes notá-lo não só através das tradições e hábitos do dia-a-dia como pelo respeito que mantêm pela Natureza. O Homem aqui ainda luta contra a Natureza. Na Holanda é o contrário, a Natureza foi submetida à vontade do Homem.
”Não, não é filosofia barata. Pädaste é isso mesmo: um respeito pagão pelo que brota da terra, pelo que troveja dos céus. Explora o vazio, amplifica a Natureza tão bruta quanto biodiversa. Um maná para o chef Peeter Pihel – nem por acaso um vizinho lá de Kalamaja – que encontra em Muhu os ingredientes para reinventar a gastronomia estónia. Arenque, batatas, cereais, frutos silvestres, cogumelos, javali, alce…
Alexander é o luxuoso restaurante onde Peeter actua de Março a Setembro – uma homenagem ao último nobre proprietário do solar, Alexander von Buxhoeveden. É também uma das jóias da coroa de Pädaste. De Muhu. Da Estónia inteira: tem sido sistematicamente considerado o melhor do país. Vemos como a paixão de Peeter pela já apodada Cozinha das Ilhas Nórdicas vai colhendo frutos. No seu estilo relaxado e simples, pontuado pela assertividade e perfeccionismo estónios, Peeter deixa escapar: “Estamos a caminhar na direcção da Escandinávia. Os chefs suecos e dinamarqueses, que há poucos anos nos ajudaram a descolar, agora olham-nos como competidores… Na Estónia tudo acontece muito depressa.”
 |
| Cais de Pädaste, mítico local da casa senhorial onde podemos tomar banho à luz das estrelas numa piscina natural com água aquecida. |
Peeter está coberto de razão, mas “muito depressa” continua a ser adjectivo curto: Tallinn será Capital Europeia da Cultura a partir de 1 de Janeiro de 2011; nesse mesmíssimo dia a Estónia entra oficialmente na Eurozona. Vivem-se tempos únicos no paralelo 59. Com um pingo de ironia, há quem veja nisso proeza irrepetível: eis o momento em que a Estónia deixará de ser uma “república báltica” para se converter num “país nórdico”. Uma questão de ângulo, ou conotação.
Pärnu gráfica
Antes de zarparmos do porto de Kuivastu, seis quilómetros a norte do Pädaste, há que parar em Liiva. Para um café, sidra ou sopa. As tartes de peixe do Kala Kohvik, essas, são obrigatórias. Kristjan, outro filho de Muhu, orgulha-se delas. O peixe, sempre o peixe, ou não estivéssemos numa ilha. E, curioso, bem aberta ao mundo. Três exemplos que me ajudam a explicar porque este cafezito à beira da estrada Kuressaare-Tallinn é o paradigma do Nordic cool que a Estónia tanto busca: o Kala Kohvik só abre quando há sol que se veja; em conjunto com cinco amigos, Kristjan está a dar a volta ao mundo de bicicleta por etapas anuais; a senha da Internet do cafetaria é vaata_maailm, sinónimo de “olha para o mundo”. É muito mais do que uma coincidência. Muhu olha para o mundo e adorava que o mundo olhasse para ela. Ninguém ficará a perder.
 |
 |
| As famosas “pirukas” de peixe do Kalakohvik e respectiva clientela; casa de madeira típica da Primeira República da Estónia, entre 1918 e 1940 |
 |
 |
Pela inusitada injecção de bucolismo, Muhu daria para uma dissertação de contornos ensaísticos. Contudo, é tempo de avançarmos para a praia. O Verão aqui dura seis ou sete semanas. “Praia”? Obviamente. Claro que também se faz praia na Estónia. E porque não se temos mar, sol e areia? Enfim, se Kalamaja é o meu supracitado quilómetro zero, Pärnu é a minha Manta Rota. Concordo que a comparação pode ser insultuosa para o turismo do sotavento algarvio, mas, quem não tem cão, caça com gato – e este consegue ser bem felino.
A Pärnu os estónios chamam “Capital de Verão” e as garotas que jogam vólei no areal dão o mote. Estrepitosas e loiríssimas quase todas, sublinhando desportivamente os ideais estéticos desta Estónia pós-soviética. Caminhar meia hora e ter a água pelo joelho? Não haver ondas? O sol minguar?
Bom, temos outros encantos, tal como o Rannakohvik, útil apoio de praia onde esta narrativa foi lançada. Ou o Steffani, a mais famosa pizzaria do Báltico é contígua às dunas. Ou ainda a surrealista “Praia das Mulheres”, um clássico de Pärnu que a minha amiga Mona garante frequentar: “Honestamente, é a única praia que me interessa aqui em Pärnu. Odeio marcas brancas no meu corpo e sinto-me melhor ali para fazer topless. Mas as mais velhas estão totalmente nuas e em posições bem interessantes… Havia até uma mulher polícia a controlar, mas ultimamente não a tenho visto.”
O repasto no Steffani corre bem, regado com um californiano qualquer de preço generoso, e evito considerações erráticas. Pärnu tem mais para ver, falar, e Mona vive hoje em Londres, onde termina um mestrado em Tradução. Pergunta-me onde estou hospedado e respondo-lhe “Ammende Villa”. Ela arregala os olhos e muito justificadamente: esta Ammende Villa é um dos locais mitológicos de Pärnu. Desde criança que Mona ouve as românticas histórias sobre o palacete junto à praia.
A mais celebrada, porque verídica, fora-me contada na véspera pela própria Merit Miller, que tem o mérito de saber preservar esta máquina do tempo. “A família Ammende era de origem alemã, fizeram fortuna na indústria têxtil. Contudo, e apesar de o dinheiro não ser problema, quando Hermann Ammende quis casar uma das filhas constatou que nesta região não havia nenhuma casa digna da boda. E porque Hermann queria ter sempre o mais moderno, o mais belo, o mais imponente, mandou erguer esta mansão.”
 |
 |
| Paisagem de Muhu e nadadoras-salvadoras da praia de Pärnu, a mais famosa da Estónia e o “Algarve” da pequena república báltica |
Em 1905 seria finalmente inaugurado o mais faustoso edifício de Pärnu, onde os Ammende viveriam nas duas décadas seguintes. No entanto, a família decide regressar à Alemanha em 1927 e a villa é vendida ao Estado. Após ter sido ora casino nazi, ora posto de vigia soviético, ora biblioteca durante a Estónia ocupada, só recuperará a intenção original há 12 anos. Obra de um grupo de investidores locais, que decidiu restaurá-la e convertê-la em hotel.
Fizeram-no com extremado zelo: até os animais caçados por Hermann Ammende e respectiva pandilha estão lá embalsamados e nas devidas posições que ocupavam em 1905. “Inspirámo-nos nas fotos da época que fomos encontrando”, justifica-me Merit, que ainda acrescenta: “Claro que estes são outros animais, mas mais de 80 por cento da mobília do hotel é original.”
Após visita ao salão de caça, belíssimo, detenho-me no lobby do hotel, ele próprio um verdadeiro museu de Arte Nova com um piquinho balto-germânico. Em jeito panorâmico, dou comigo a contemplar todas estas pérolas de taxidermia, a mais admirável de todas o alce empalhado aposto à lareira de azulejo. Ou o javali sorridente na parede simétrica. Isto já para não mencionar a águia temerária dependurada no mastodôntico candelabro apenso à recepção. Isto dá-me um prazer tremendo, confesso. Consigo ficar horas nisto.
Não, não devo estar totalmente louco. Já imaginaram o conforto deste salão aquecido numa noite de invernia? O crepitar das chamas na imponente lareira? Algures entre o mágico e o fantasmagórico. Ou assombroso. Claro que há sítios muito melhores por esse mundo fora do que a sossegada e verdejante Pärnu, mas este meu fetiche nórdico trai-me sempre. Aposto que o senhor Walt Disney me entenderia. Convenhamos, do que eu gosto mesmo é de neve bruta, muita neve, uma orgia de neve.
Mas isso fica para a próxima. Kalamaja espera-me a norte: altura de recolher ao quilómetro zero do meu auto-imposto exílio. Chamem-lhe “lar”.
COMO IR
Não existem voos directos para a Estónia. A melhor ligação é por Helsínquia com a Finnair (www.finnair.pt; Melair, tel. 213 522 689), que custa desde €264, já com taxas, em Agosto. Boa alternativa é a Lufthansa (www.lufthansa.pt), com voos via Frankfurt desde €244.
INFORMAÇÕES ÚTEIS
Idioma: Estónio
Formalidade: BI válido
Moeda: Coroa estónia (15,64 EEK = €1,00) até 31 de Dezembro de 2010; o euro entrará em circulação a partir de 1 de Janeiro de 2011.
Clima: Verões com temperaturas entre os 10º e os 25º. A partir de finais de Agosto dá-se uma notória descida das temperaturas.
TRANSPORTES
Definitivamente, os táxis ou o eléctrico. Atenção às companhias de táxi, as tarifas são bem diferentes. Sõbra Takso ou Marabu Takso são algumas das mais populares, com a bandeirada a começar nas 35 EEK. Dentro de Tallinn, espere uma corrida entre os €4 e os €6, não mais. Quanto aos eléctricos, são um tudo-nada toscos e custam 10 EEK (compre módulos nos quiosques). Para sair de Tallinn, tente os autocarros ou o comboio em Balti Jaam. As carruagens em primeira classe têm Wi-Fi e preços muito acessíveis.
ONDE DORMIR
 |
| Hotel Ammende Villa, Pärnu |
Na Estónia ainda encontramos bons hotéis a preços comportáveis. Em Tallinn, aposte no Hotel Telegraaf, adjacente à praça principal e numa rua medieval bem charmosa (quartos duplos a partir de €151 em época alta). O seu restaurante Tchaikovsky merece uma visita. Em Muhu, deleite-se com o Pädaste, que tem os mais altos padrões mundiais (duplos a partir dos €171). Quanto a Pärnu, o Ammende Villa é de todos o mais genuíno, apesar de o tom museológico não encaixar em gostos mais modernos (duplos a partir dos €160).
ONDE COMER
É no Boheem (www.boheem.ee) que meia-Kalamaja se encontra diariamente, e não só por causa da qualidade da comida. Os preços ainda são uma pechincha. Experimente os crepes e as panquecas ou uma salada de salmão. Se for até ao meio-dia ainda tem direito às papas de cereais com compota. Para saborear a cozinha estónia mais sofisticada, avance até ao Kaerajaan (www.kaerajaan.ee), onde uma boa refeição com bebidas lhe ficará por cerca de €20. Não longe, o Aed funciona anexo ao Von Krahl (www.vonkrahl. ee) e é um lounge com três pisos que facilmente se desdobra em cafetaria ou restaurante. Em Muhu, tem o sofisticadíssimo Alexander (www.padaste.ee) e a sedutora simplicidade do Kala Kohvik (www.kalakohvik.onepagefree. com), embora este só para almoços. Ambos fecham em Setembro e reabrem na Primavera. Em Pärnu, conte com o Steffani (www.steffani.ee), aberto todo o ano e com pizzas e vinhos deliciosos e em conta. O único senão é que não aceita reservas.
ONDE COMPRAR
Sobretudo “onde não comprar”: abundam as lojas de souvenirs, de gosto duvidoso e preços estratosféricos. Para algo mais a sério, vá até ao Centro Comercial Solaris, a cinco minutos do casco medieval, ou até ao Viru Keskus e Kaubamaja, também ali ao lado. Em Pärnu, tente o Port Artur.
ONDE SAIR
 |
| Museu KUMU |
Apesar da pequenez e da fleuma nórdica, os estónios adoram diversão. O circuito perfeito é uma tarde numa boa esplanada na Raekoja Plats, no Boheem de Kalamaja ou no Kalev Yacht Club de Pirita, e seguir para o Elevant, um restaurante indiano em conta com uns laivos fínicos. Depois, um copo no Hell Hunt e um pé de dança no BonBon (para os mais conservadores) ou Kuku Klubi (para os mais alternativos). A meio da semana, sobra o Amigo. Não é fantástico, mas já mexe. Se em Muhu, quede-se pelo exigente restaurante Alexander e, para algo mais simples, o Kala Kohvik. Em Pärnu, nada como o Sugar, embora o decadente Mirage mantenha a centelha. Grandes festas, essas são no SunSet, já na praia.
A NÃO PERDER
O Museu de Arte Contemporânea, ou KUMU, é um dos orgulhos da nação (www.ekm.ee). Merece uma visita antes de zarpar para as ilhas, uma entrada única para todas as exposições fica-lhe a 85 EEK. Da mesma forma, tente um pulinho às galerias que vão pululando no centro de Tallinn. Os estónios levam a arte – e sobretudo o design – muito a sério. É no que dá um povo esteta.
MAIS INFORMAÇÕES
Visite o site do Turismo de Tallinn (www.tourism.tallinn.ee ou www.tallinn.ee) e o estónio (www.welcometoestonia.com). O mais popular guia é a versão local do In Your Pocket (www.inyourpocket.com/estonia), que pode descarregar em pdf.

O AUTOR
Nascido em Lisboa em 1971, o jornalista João Lopes Marques mudou-se para Tallinn em 2006. Foi já na Estónia que se iniciou como romancista: O Homem que queria ser Lindbergh, em 2007, e Terra Java, em 2008, ambos editados pela Oficina do Livro, antecederam Minu ilus eksiil Eestis (O meu exílio dourado na Estónia). Trata-se da selecção de crónicas que o autor vem publicando desde 2007 no Eesti Ekspress, o principal jornal da Estónia. É também o guionista do programa “Cuidado com a Língua!”, na RTP, e assina nesta revista a crónica mensal Espécies na Origem.

| Pesquisas relacionadas
com este artigo: |
 |
 |
 |
|
|
|
|