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Tânger
Fragmentos
de Tânger
Tem
aquele encanto melancólico das cidades portuárias. Veio
das planícies nórdicas no bico de uma ave e foi largada
em pleno voo no continente africano. Diz a lenda. Onde dois oceanos
se fundem. Encruzilhada de mitos, culturas e religiões. Viu
passar caravanas, peregrinos, conquistadores e aventureiros. Fugitivos
e desenraizados elegeram-na como lugar de exílio. Fronteiriça
e misteriosa, calhou-lhe um estranho destino.
Sete
horas da manhã. Adoro assistir ao despertar das cidades. Uma
brisa de terra remetia para o largo os odores adocicados dos mercados
e dos jardins. Pássaros escondidos nas altas palmeiras ofereciam
um melodioso concerto de trinados. Do miradouro, onde um exército
de engraxadores e fotógrafos ambulantes começava a ocupar
o seu posto, observo os barcos atracados no cais. Em cima do horário,
um ferry arrancava entre remoinhos de espuma rumo a Algeciras ou Gibraltar.
Desaparecidos os paquetes de longo curso, a navegação
cinge-se agora à rotineira travessia do Estreito.
De repente, o sol irrompe atirando chispas de oiro sobre as carruagens
do comboio, vermelho e creme, que está parado na estação.
Tânger, um destino escrito a negro no traçado branco
da arquitectura modernista. Um vulto feminino envolto num caftan carmesim
resvala pela beira do dia, e logo desaparece como se fosse uma miragem.
Desenhos geométricos, o caprichoso rendilhado do henné,
ornamentam-lhe as palmas das mãos que seguram um viçoso
ramo de hortelã brava.
Sinto
o cheiro da praia próxima, o apelo da areia molhada, um impulso
empurra-me até esse lugar de saudade, onde um grupo de esqueléticos
rapazes joga futebol. Olhando o mar adivinham-se os contornos da costa
espanhola, atingida pelo bafo viscoso e doentio do vento sueste. A
levantar-se lá nos confins do Sahara, do deserto que devorou
os personagens de road movie criados por Paul Bowles. Fugiam da tragédia
das suas vidas sem saberem que levavam dentro deles um veneno subtil
e mortífero. Escrito em 47, o romance viria a ser adaptado
ao cinema 40 anos depois por Bernardo Bertolucci, com o nome O Chá
no Deserto.
Um plano genérico da Praça de Espanha, que piso numa
vertigem temporal, mostra um táxi da época estacionado
frente ao Grand Hotel. A câmara desce na grua e capta o perfil
de uma mulher morena. Dos olhos escuros de Debra Winger, no papel
de Kit Moresby, ou de Jane Bowles, desprendem-se prenúncios
de desvario. É esta Tânger secreta do antes, separada
dos intrusos por uma cortina opaca, que persigo. Rasguemo-la com a
ajuda dos djins, dos génios que exercem uma espantosa influência
sobre a conduta humana.
Um fantasma magnífico deambulava solitário na praia.
Era Samuel Beckett, um discreto veraneante. Nos passeios matinais
cruzou-se algumas vezes com Jean Genet mas nunca trocaram uma palavra,
nem sequer um cumprimento furtivo. Truman Capote e Tennessee Wiliams,
sentados em cadeiras de lona, faziam gala da sua notória instabilidade
emocional. "Tinham um sensibilidade epidérmica",
dizia-me Paul Bowles à hora do chá.
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