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Paris - Hotéis
Bon chic, bon genre

Mal entrei no Lancaster, fui inundado por um estranho sentimento de familiaridade.

Onde é que já tinha visto aquele vestíbulo, com dois bancos de madeira de espaldar alto e vários guarda-chuvas verde-musgo para os dias mais cinzentos? Nalguma revista, certamente.

E o lobby, logo a seguir, por que não me surpreendeu o facto de ao lado de peças bastante elegantes e de um arranjo de orquídeas naturais estarem penduradas na parede luminárias em forma de lanternas e arreios de cavalo? Provavelmente por já ter ouvido algures que era por ali que, em tempos idos, passavam as carruagens...

No entanto, nada como estar de corpo presente para sentir tudo na pele, pois se há um lugar que merece ser vivido em pleno, esse lugar é o hotel Lancaster, um Small Leading Hotel of the World na verdadeira acepção da palavra.

É que por mais completas que sejam as reportagens ou os testemunhos alheios, é difícil reproduzir em palavras ou imagens a cortesia dos empregados do hotel, formados pela famosa Ecole des Clés d'Or, à chegada na recepção, uma divisão ao mesmo tempo sumptuosa e sóbria, graças a um bem conseguido jogo entre a madeira escura de carvalho, dominante, e os tons de verde-pistáchio e mel ou entre uma mesa Louis XVI e gravuras de paisagens campestres.

Isto já para não falar na dificuldade em descrever o delicioso pequeno-almoço - composto por croissants, compotas (a marmelada é preparada de fresco todas as manhãs), queijos, cereais, salada de frutas, ovos e sumo de laranja ou de toranja a acompanhar o café -, que tive o prazer de saborear na sala de refeições do Lancaster, um espaço requintado com mobiliário de madeira de iroko, quadros com caligrafia chinesa, acessórios refinadíssimos (faqueiro de prata Ercuis, porcelanas de Limoges assinadas por Raynaud e guardanapos com monogramas do hotel), onde também funciona um bar e são servidos almoços e jantares à la carte (o puré de trufas negras daqui tem uma reputação inigualável!).

Totalmente renovado em 1995, num tempo recorde de quatro meses, o Lancaster é hoje gerido por Grace Leo-Andrieu, uma senhora que entende como poucos de hotéis de luxo e que soube respeitar a memória do seu proprietário mais célebre, o hoteleiro suíço Emile Wolf (a suite com o seu nome, com um piano de cauda Erard que Orson Welles gostava de dedilhar, é, juntamente com a suite onde viveu Marlene Dietrich, a preferida das celebridades), já que manteve a sua vasta colecção de objectos de arte e conseguiu dotar os 47 quartos e 11 suites de um cunho muito pessoal.

As casas de banho também merecem uma menção, já que apesar de existirem cinco tipos diferentes, todas elas primam pelo recurso à madeira de wenge e ao mármore cinzento. Seja como for, uma estada no Lancaster não deve cingir-se ao quarto, por mais especial que ele seja, pois é em áreas abertas a todos os hóspedes (mas só a eles) como o Salon Berri (intimista, com as paredes revestidas a seda cor de anis, esta pequena sala de estar está recheada de relíquias como frascos de perfume produzidos em Grasse a servirem de bases a candeeiros, uma belíssima escrivaninha de limoeiro ou um relógio fabuloso) ou o Grand Salon (cortinados em seda adamascada, poltronas coquelicot, bancos canelados Louis XVI e canapés violino) que o Lancaster melhor recria o sentimento de estarmos, de facto, numa bela e serena mansão privada de Paris, a dois passos da fervilhante Champs Elysées.

Emile Wolf gostava de dizer que "nunca teve clientes, mas sim amigos". Ao ver alguns hóspedes americanos a lerem tranquilamente no jardim interior do hotel, onde existem várias mesas e cadeirões de madeira de teca, como se tivessem em suas próprias casas, até me apetece concordar, mas depressa caio em mim. Para quê fingir que o Lancaster foi meu por uma noite ou duas, se tudo o que preciso é ter dinheiro para poder usufruir de todas as suas mordomias por muitos e bons anos. Afinal, os bons hotéis existem para nos darem prazer e não para nos darem dores de cabeça e preocupações.

COMO IR: a Air France tem voos para Paris. Lancaster, 7, rue de Berri (Champs Elysées), 75008 Paris, tel.: (00.33.1) 40764076, fax: 40764000, e-mail: reservations@hotel-lancaster.fr, Internet: www.hotel-lancaster.fr/ Possibilidade de efectuar a sua reserva através da linha verde 00 800 1928 1928 de The Leading Hotels of the World.

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