Tema
de Capa
Miragem Azul e Branca
Pode-se percorrer todo o território e
observar todas as tradições locais, mas não
se conhece a Tunísia se não se visitar esta pitoresca
aldeia. É a imagem que aparece em todas as brochuras de turismo
e tem boas razões para isso.
O azul das portas é intenso e as ornamentações
representam motivos tradicionais da cultura árabe
A
aldeia medieval de Sidi Bou Said, sobranceira à falésia
que domina Cartago e o Golfo de Tunes, foi o primeiro local do mundo
a ser considerado património protegido. Situa-se numa colina
e serviu de farol aos primeiros navegadores. Hoje é lugar
de inspiração para escritores e artistas. Trata-se
de um pequeno paraíso à beira do Mediterrâneo,
pintado com as cores do mar e do céu.
Durante
1500 anos (séculos viii a.C. a viii d.C.), a colina foi um
subúrbio da Cartago púnica, romana, vândala
e bizantina. Após a conquista de Cartago (700-701), foi construído
um Ribat (fortaleza), no cimo da colina Yebel Manar. Sobre as ruínas
deste Ribat, em 1840, instalou-se um farol moderno, completado vinte
anos mais tarde.
Sidi
Bou Said é uma abreviação em muçulmano
do nome do santo que aqui viveu no princípio do século
xiii, Abu Said. O santo deve ter abençoado o local, pois
é um dos mais apreciados na Tunísia. Regressando de
uma peregrinação a Meca, o santo instala-se na colina
para fazer um retiro espiritual. Morreu em 1236 e o seu túmulo
é objecto de peregrinação, assim como os túmulos
dos seus discípulos.
Uma
lenda islâmica conta que São Luís, fugindo do
exército de Byrsa, recolheu-se aqui e apaixonou-se por uma
princesa berbere. Mudou de nome e instalou-se para sempre em Sidi
Bou Said, tornando-se mais tarde o seu santo patrono. Ficou conhecido
por curar o reumatismo e impedir as picadas dos escorpiões.
Após uma visita a este idílio, a história de
como o santo se apaixonou por esta localidade parece lógica.
No entanto, São Luís só esteve neste local
em 1270, enquanto a mítica figura de Abu Said morreu em 1236.
Vá-se lá saber quem tem razão...
Sobre
o antigo Cabo Cartago foi construída na Idade Média
uma fortificação que defendia a costa contra as invasões
cristãs. Segundo a lenda, foi junto a esta edificação
que morreu São Luís. Por este motivo, os corsários
fizeram dele o santo patrono da pirataria anticristã.
Percorrendo o local
À
chegada observamos as centenas de turistas que aqui acorrem em busca
da beleza da aldeia. Por todo o lado, os vendedores de artesanato
apelam às nossas bolsas e à nossa resistência
a tais insistentes apelos. Artesãos trabalham o latão,
criando peças muito características do país.
As já conhecidas gaiolas tunisinas espreitam por todo o lado,
assim como a cerâmica pintada à mão. Se não
nos perdermos nas cores e brilhos das tendas de artesanato, passamos
à etapa seguinte que é a mais gratificante: atravessar
as ruas de Sidi Bou Said. Este local não é mais do
que uma estrada que sobe os montes
e se divide em pequenas ruas cheias de comerciantes, turistas e
cafés com uma vista deslumbrante. Se nos deixarmos perder
pelos caminhos da aldeia é certo que encontraremos sempre
pormenores inesperados e vistas surpreendentes.
Percorrendo
as suas ruas e calçadas estreitas, o visitante pode descobrir
mil e uma interpretações das casas brancas com portas
profusamente decoradas tão típicas da região.
O azul das portas é intenso e as ornamentações
representam motivos tradicionais da cultura árabe. Varandas
em estilo moçárabe e janelas com gradeamentos azuis
trabalhados são uma constante. Dentro das casas e à
sua volta, o colorido das buganvílias empresta ainda mais
exuberância ao local. O pormenor mais característico
é mesmo o facto de que aqui as paredes são todas imaculadamente
brancas e as portas de um azul radiante. Há uma harmonia
cromática muito grande.
Algumas
casas possuem pequenas varandas com detalhes de madeira e ferro
azuis e trabalhados com motivos típicos. As portas têm
formas geométricas árabes.
Paisagem popular
Estamos num país de contrastes. Aqui tanto podemos encontrar
múltiplas aldeias com casas que nunca ultrapassam os dois
andares de altura, como edifícios altamente sofisticados
e de arquitectura arrojada nas grandes cidades. Embora Tunes, a
capital, seja completamente caótica e cosmopolita, na Tunísia
o tempo corre mais devagar. Podemos observar isto quando vemos as
pessoas a caminho do trabalho. Sem pressas, sem stress... Vemos
o mesmo quando, no final da tarde, passamos pelas pequenas povoações
onde grandes grupos de homens se sentam à beira da estrada
ou nas esplanadas para conversar. Os grupos de crianças e
jovens que migram entre as suas casas e as escolas em uniformes
de um azul-escuro, emprestam alegria à região.
Os
tunisinos são pessoas simpáticas e prestáveis.
Os seus traços físicos são muito bonitos e
exóticos. As mulheres, em particular, possuem uma beleza
muito característica. Os seus olhos rasgados e a pele dourada
realçam o seu charme. São também muito atrevidas
e não fique muito espantado (se for homem) se, ao passar
por um grupo de jovens tunisinas, estas o assediarem. No geral,
o povo trata muito bem os turistas. Os tunisinos são pes-soas
calmas, excepto quando surge algum problema entre eles. Nessas alturas
elevam a voz num discurso sem fim de palavras exaltadas e incompreensíveis.
Para
quem gosta de música, eis um país a visitar. As suas
raízes culturais são tão variadas que se reflectem
na sua música. Durante o Verão realizam-se muitos
festivais, pelo que não é difícil conseguir
assistir a um. O de Cartago é famoso e é uma boa oportunidade
de entrar em contacto com as tradições árabes.
Outra forma é apreciar o chá de menta e a deliciosa
gastronomia. E, claro, uma ou várias visitas às ruínas
das antigas cidades púnicas e romanas.
Chá por cima
do mar
Por entre as ruas e casas vislumbramos um mar azul-turquesa com
as praias da baía de Tunes por baixo e a montanha de Bou
Kornine no fundo. Somos guiados para um
terraço onde nos espera uma amostra daquilo que toda a nossa
vida nos habituámos a chamar paraíso sem saber como
seria. É uma esplanada com o nome de Sidi Chebaane. Situada
sobre a falésia e com uma vista indescritível sobre
o mar e as montanhas, é o sítio ideal para beber um
chá de hortelã com pinhões. Quem nos serve
é o dono do estabelecimento, um senhor com cerca de cinquenta
anos e vestido com roupas tradicionais tunisinas. Graças
à sua boa disposição e simpatia até
já entrou em alguns filmes americanos rodados em Sidi Bou
Said. É uma verdadeira estrela.
Sentados
nos bancos do Sidi Chebaane, o tempo parece parar. Aliás,
nem nos lembramos que tudo o resto ainda existe.
A visão é tão deslumbrante que ficamos embriagados
com a sua beleza. Aqui o mar funde-se com o céu, intercalados
pela grandiosidade das montanhas e recortados pelas praias e a marina
em baixo. Nas tardes quentes de Verão podemos assistir aqui
a concertos de música tradicional tunisina. Se estiver cheio,
tente um lugar no Café des Nattes, outro famoso poiso paradisíaco.
Existem
outros pontos de interesse em Sidi Bou Said, como o santuário,
em tempos dedicado aos criminosos, ou o antigo palácio do
Barão d'Erlanger. Este foi convertido num museu onde os visitantes
podem maravilhar-se com o esplendor das mil e uma noites árabes.
Em 1912, Rodolphe d'Erlanger (1872-1932), musicólogo reputado
e rico mecenas, instalou-se em Sidi Bou Said e construiu o Palácio
de Nejma Ezzahra, hoje Centro de Música Árabe e Mediterrânea.
Comprou e restaurou palácios e mansões, com o propósito
de perpetuar a arquitectura e o artesanato tunisinos. Foi graças
a ele que Sidi Bou Said foi declarado como lugar de interesse artístico.
Pequenas
lojas vendem antiguidades, artesanato tunisino e joalharia tradicional
de prata. A galeria de arte exibe trabalhos de artistas tunisinos
e internacionais. De referir também o hotel Dar Said e o
restaurante Dar Zarrouk, com terraço panorâmico. No
sopé do monte está situado o porto de Sidi Bou Said,
uma marina moderna com restaurantes e hotéis, tipicamente
para turistas. Aproveite também para dar um mergulho nas
suas praias tropicais e depois relaxe ao sol.
Pontos Cardeais
Plantada no Norte de África, à beira do Mediterrâneo,
a Tunísia aparece como uma mistura de todos os símbolos
desta região. As praias de águas quentes e azuis,
a simpatia das pessoas, o calor, o colorido e os aromas levam-nos
a uma viagem pelos sentidos. Neste país respira-se o ar de
tempos remotos. Por todo o lado, testemunhos de épocas passadas
lembram-nos do passado histórico e cultural de um país
que ainda se mantém desconhecido para muitos.
Sendo
desde 1960 um grande centro turístico, a Tunísia é
também um dos países mais liberais e abertos do Norte
de África. O desenvolvimento de escolas, estradas, indústrias,
complexos turísticos e caminhos de ferro fazem com que este
seja um estado deveras sofisticado. No entanto, mantém as
características genuínas da sua cultura e da sua beleza
natural.
A Tunísia tem como vizinhos a Argélia a Oeste e a
costa marítima a este, recortada pelos golfos de Tunes, Hammamet
e Gabes. A norte a costa estica-se no promontório de Cap
Blanc e acompanha a sul o deserto do Sara, em Borj al-Hatabba, onde
começa a Líbia. Na parte Norte do país existe
uma cadeia montanhosa, com florestas de pinheiros e sobreiros, que
desce até ao vale de Mejerda, fértil e agrícola.
As pequenas colinas do planalto Tell dão lugar, a este, a
uma grande cultura de cereais que vai até Tunes e Cap Bon.
Mais a sul, a região do Sahel, com as suas oliveiras sem
fim que nos guiam até Sousse, Monastir e Sfax.
O
Sul do país encontra-se preenchido pela areia do deserto
do Sara, enquanto o Norte é húmido e de elevações
geográficas irregulares. No centro existe uma zona de estepes
onde se encontra a maior montanha da Tunísia, o Jabal. O
Sul começa na zona das colinas entre Metlaui e Maknassi.
Após a passagem pelos lagos e pântanos dos oásis,
resta-nos o imponente e árido Sara com as suas dunas. As
várias ilhas, como que pequenos paraísos, são
também de referir. A mais famosa delas é a de Jerba.
Se nos deixarmos perder pelos caminhos da aldeia é certo
que encontraremos sempre pormenores inesperados e vistas surpreendentes
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