No
coração do Mediterrâneo, um arquipélago
onde o mar, a história,
os homens e as pedras se entrelaçam em memórias milenares.
Pátria de Corto Maltese, porto do apóstolo Paulo, prisão
de Ulisses seduzido por Calipso, um destino capaz de satisfazer todo
o tipo de viajantes
Texto
de Cristina Pereira Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
"Era uma vez um gato maltês
que tocava piano e falava francês.” A lengalenga recua
aos
tempos míticos da infância; a verdade é que gatos
não vimos. Ou, pelo menos, nada que chegasse para elucidar
a ladainha. Mas gatos houve. E cães. A palavra maltês
parece prestar-se a múltiplos mistérios.
A raça dos felinos perde-se em geografias que recuam ao Norte
da Europa. Julga-se terem sido os vikings a transportar esses gatos
de pêlo azul até Espanha, Inglaterra e Malta, e daí
o cognome de “gato maltês”. Quanto aos cães,
ainda hoje bastante reputados, são conhecidos há mais
de 20 séculos como “Cão Ancião de Malta”.
Minúsculos, brancos, aristocráticos, na corte isabelina
dizia-se que eram transportáveis nas luvas das damas.
No
que respeita à pouco distinta alcunha de “maltês”,
foram muitos a sublinhar-lhe a injustiça: “Maltez
Vista
panorâmica de Valetta,
a capital do arquipélago fundada pelos Cavaleiros
significa
natural da ilha de Malta
ou cavaleiro da Ordem
de Malta. Não sabemos nem atinamos o motivo pelo qual aos homens
desprezíveis se dá o nome de maltezes (mendigos de passagem,
indivíduos mal encarados, etc.).
Malta
serve também para designar a roupa, no geral a pior, que as
mulheres levam à cabeça numa trouxa para, vestidas com
ela, executarem os trabalhos agrícolas. Tratando-se de homens,
malta quer dizer os alforges e tudo o mais que lhes é indispensável
no trabalho. O que não há dúvida é que
a palavra é sempre empregada no sentido pejorativo” (in
“O Mirante”, 17 de Dezembro de 1977). Registe-se
ainda: “O que é preciso é animar a malta”
de Zeca Afonso; “Burgueses, malteses e às vezes”
do cineasta Artur Semedo; “Febre de Malta”, doença
transmitida pelos produtos lácteos, assim chamada por ter sido
o médico maltês Sir Temi Zammi a determinar-lhe a causa;
“O Falcão de Malta”, excelente policial escrito
por Dashiell Hammett, mesmo se de Malta só tem o título,
etc.
Peculiaridades à parte, o que a palavra na realidade significa
é refúgio. E refúgio foi, sobretudo para aqueles
que ainda hoje associamos a este arquipélago que, no conjunto
das suas ilhas (Malta, Gozo, Comino e as desertas Cominotto e Filfla)
perfaz não mais do que 316km2: os Cavaleiros da Ordem de Malta.
História e mais história...
Muitos
milhares de anos antes da chegada dos aguerridos defensores da cristandade
já Malta conhecia ocupação humana: os vestígios
arqueológicos permitem datá-la de 3800 a.C. Entre 2400
e 2000 a.C. os habitantes locais desenvolveram um complicado sistema
de culto cujo testemunho sobreviveu até hoje, ainda que o desaparecimento
dos seus arquitectos permaneça um enigma (tal cultura terá
sido destruída por invasão vinda de Itália).
Para
não maçar demasiado o leitor que, legitimamente, quer
que eu chegue depressa à parte das praias, diga-se que a história
de Malta se pode sintetizar em três períodos essenciais:
ocupação árabe entre 870 e 1090; chegada da Ordem
dos Cavaleiros de São João (mais tarde de Malta) em
1530, que ficarão no arquipélago até 1798; período
britânico, com início em 1801 e que só terminará
em 1964, ano em que Malta conquista a independência, a 21 de
Setembro. Depois de algumas alianças políticas polémicas,
nomeadamente com a Líbia e diversos países comunistas,
em Março último Malta deixou-se seduzir pela União
Europeia; os resultados do plebiscito geraram, porém, tal controvérsia
que o Partido Trabalhista local (laico e de pendor socialista e europeizante)
julgou prudente apelar a novo referendo.
Para concluir este breve resumo, acrescente-se apenas que também
os Romanos haviam pisado as ilhas: chegados em 218 a.C., em 395 Malta
é incorporada no Império Romano Oriental (talvez não
tenha sido por isso, mas vem a propósito informar que parte
do filme “O Gladiador” foi filmada em Malta, ilha onde,
aliás, a indústria da Sétima Arte ocupa lugar
de destaque). Seguiram-se
os Árabes (já mencionados), e depois os Normandos, responsáveis
pela expulsão de todos os “mouros” em 1245. Malta
ver-se-ia integrada, ainda no século XIII, no reino espanhol
de Aragão; finalmente, com a chegada dos Cavaleiros, que receberiam
a ilha das mãos do Imperador Carlos V, vivem-se mais de dois
séculos de grande estabilidade.
Napoleão poria cobro ao “idílio” ao expulsar
a Ordem em 1798. Poucos anos passados foi a vez de os franceses verem
Malta por um canudo. Os locais fizeram então uma aliança
com os britânicos e, na realidade (apesar da independência),
esta apenas foi quebrada com a adopção do regime republicano
em 1974. Antes disto tudo, note-se, já por lá tinham
passado Fenícios, Gregos e Cartagineses.
Confuso? Não menos do que nós, caro leitor, que, à
chegada, experimentámos ao vivo esta vertigem imensa da história.
Que língua
é esta? Que arquitectura é esta? Que povo é este?
Mas não será este turbilhão mediterrânico
que faz a riqueza, a atracção, a singularidade destas
ilhas?
Das gentes e da cultura
O
maltês é uma língua de origem semita que respeita,
com muito poucas variações, o alfabeto latino (alguns
linguistas sublinham as suas conexões com o fenício).
Incorporou elementos de siciliano, italiano, castelhano, francês
e inglês e só seria reconhecido como língua oficial
em 1934 (estatuto que partilha com o inglês). Quando se ouve,
lembra-nos um italiano
Basílica
de Ta’Pinu, em Dwejra
inexplicavelmente
obscuro. Ou um árabe bastante menos cerrado. O efeito é
de estranheza. O mesmo para as casas. A arquitectura exibe manchas
compactas de edifícios sem telhado, formas cúbicas cor
de pedra que nos transportam para a margem Sul do Mediterrâneo.
O insólito, porém, está na quantidade de cúpulas
que sobressai sobre as casas degoladas,
a cristandade recortando-se no céu. São mais de 360
igrejas num país cujo fervor católico, dizem-nos, só
é ultrapassado pelo próprio Vaticano (até as
profanas companhias de transporte garantem aqui uma “segurança
do outro mundo”)! Pela primeira vez, Portugal não se
vê associado a nenhuma estrela do futebol: é Fátima
que todos invocam quando a nossa nacionalidade vem à baila.
Em Gozo, sob um sol escaldante que despovoou as ruas onde só
eu e outra jornalista nos aventuramos, um ciciar indecifrável
lembra-nos uma oração árabe (só mais tarde
aprenderíamos que a única mesquita do país se
situa na ilha de Malta). Na curva da rua que atravessamos procurando
fugir ao calor, três velhas de negro rezam o terço. Descobrimo-las
para lá da cortina do postigo que desviam escrutando-nos como
Parcas. E na escadaria da igreja onde chegamos agora, apenas homens
se sentam no enquadramento das sombras.
Temas como o divórcio, o aborto ou a emancipação
femi-nina são polémicos. Um cartaz publicitário
anuncia cursos de engenharia rematando com a frase: “Girls can
do it too. It’s fun and it’s pay” (“As raparigas
também conseguem. É divertido e é pago”).
Mas não foi para isso que viemos. Estamos em férias.
Então... e as praias?
Victoria,
a capital de Gozo, onde dominam duas imponentes igrejas
barrocas
Por
enquanto percorremos a capital, Valletta, onde uma multidão
enche a rua exclusiva para peões, vaga humana cujos rostos
podiam ser portugueses, gregos, árabes, espanhóis...
O alvoroço é hispânico. Certas varandas lembram
os “balcões” andaluses e em cada porta há
um nicho para o santo protector privado. As ruas estão agalanadas
com panos religiosos e nos pedestais a imitar pedra erguem-se mártires
e apóstolos.
Conta-se que S. Paulo, no ano de 58, prisioneiro a caminho de Roma,
foi salvo de um naufrágio nas costas destas ilhas. Aqui seria
acolhido e pregou. Passados três milénios, nada mais
nos resta senão imaginar a eficácia do seu proselitismo.
Segundo as estatísticas, 98 por cento da população
é católica.
Muito mais que sol e praias
Situado a 93km a Sul da Sicília, 290km a Norte da Líbia
e praticamente à mesma distância de Tunes, o arquipélago
de Malta está bem no centro do Mediterrâneo, tendo desempenhado
durante séculos um papel fundamental na luta pelo domínio
deste mar que separa (ou aproxima) as culturas europeia, norte-africana
e do Médio Oriente. Dos vestígios desta confluência
sobram sobretudo marcos relacionados com a presença dos Cavaleiros.
As cidades muralhadas são de visita obrigatória, nomeadamente
as chamadas Três Cidades (Vittoriosa, Senglea e Cospicua), debruçadas
sobre o grande porto, e que constituem a Cottonera, do nome do seu
edificador, Nicolas Cottoner, mestre da Ordem que mandou muralhar
a zona no século XVII. Indispensável também uma
visita à antiquíssima cidade de Mdina, conhecida por
Città Notabile na Idade Média, ou ainda hoje Cidade
do Silêncio (dado o sossego das ruas), habitada por algumas
das famílias aristocráticas mais antigas. Um verdadeiro
regresso ao passado, onde nos perdemos (literalmente) por labirintos
estreitos e murados que escondem palácios magníficos,
e que proporciona de Malta uma vista de 350 graus.
A
passear em Valletta, sob um sol escaldante que despovoa
as ruas
Acrescente-se: Valletta, assim baptizada em honra do grão-mestre
da Ordem, Jean Parisot de la Vallette, e que, embora concebida antes
da vitória sobre os Turcos em 1565, só foi realmente
edificada com o tributo posterior do papa Pio V e de Filipe de Espanha
que, deste modo, recompensavam os Cavaleiros pela derrota da armada
de Solimão, o Magnífico. Walter Scott chamou-lhe uma
“cidade construída por cavaleiros para cavaleiros”
e a UNESCO brindou-a com o estatuto de património mundial;
Mosta, cuja catedral exibe a maior cúpula da Europa, que se
diz alojar duas bombas alemãs lançadas durante a Segunda
Guerra Mundial que só por milagre não explodiram.
E
a propósito: se é um facto que a resistência maltesa
durante o delírio nazi se aproximou do sacrifício sagrado
(com a Luftwaffe a despejar toneladas de explosivos a partir de Janeiro
de 1941), registe-se que os milagres fazem parte da vida corrente.
Na Basílica de Ta’Pinu (Gozo), estranhamente livre de
qualquer comércio, cuja construção está,
ela própria, ligada a uma aparição da Virgem,
os votos dos crentes preenchem paredes e expositores. São fotografias,
cartas de emigrantes, mechas de cabelos, roupas de crianças,
próteses de acidentados, promessas cumpridas expostas numa
igreja que se tornou local de peregrinação e recebeu
a visita do Papa (que já beijou o solo do arquipélago
por duas vezes).
E quanto à Máfia? Um autóctone, aparentemente
bem informado, esclarece-nos com prontidão: “Ah! isto
aqui não é nada que se compare à Sicília.
Às vezes há um ou outro que desaparece num acidente
na estrada; é raro. E desde que não nos vamos lá
meter com eles...”. Mas não foi para isso que viemos.
Estamos em férias. Precisamente, então e as praias?