Subscrever
Rotas & Destinos




- - - - - - - - - - - - - - -
  Bloco de notas
   Hoteis, Restaurantes e Shopping
   Globetrotter 
   Livros e Discos
   Promoções 
   Agenda
   Dicas de Viagem
   Dicas de Saúde
 
  Secções
 • Fim-de-semana 
 • Estrada fora

 • 24 Horas
 • Hotéis
 • Em destaque
 • Especiais
 • Panorâmica
 • Lugares com história
 • Gourmet
 • As viagens de
  Pesquisar artigos


  Planear Viagem
 • Programas de Viagem
 
  Jogue online
 • Acção
 • Desporto

 • Plataformas
 • Puzzle
 • Shoot´Em Up
 
  Utilidades
  
Assinar a Revista
- - - - - - - - - - - - - - -
 Edições Anteriores
- - - - - - - - - - - - - - -
    XL >   Rotas & Destinos > Malta
E V A S Õ E S
Setembro de 2003
No coração do Mediterrâneo, um arquipélago onde o mar, a história,
os homens e as pedras se entrelaçam em memórias milenares.
Pátria de Corto Maltese, porto do apóstolo Paulo, prisão de Ulisses seduzido por Calipso, um destino capaz de satisfazer todo o tipo de viajantes


Texto de Cristina Pereira Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   

"Era uma vez um gato maltês que tocava piano e falava francês.” A lengalenga recua aos tempos míticos da infância; a verdade é que gatos não vimos. Ou, pelo menos, nada que chegasse para elucidar a ladainha. Mas gatos houve. E cães. A palavra maltês parece prestar-se a múltiplos mistérios.

A raça dos felinos perde-se em geografias que recuam ao Norte da Europa. Julga-se terem sido os vikings a transportar esses gatos de pêlo azul até Espanha, Inglaterra e Malta, e daí o cognome de “gato maltês”. Quanto aos cães, ainda hoje bastante reputados, são conhecidos há mais de 20 séculos como “Cão Ancião de Malta”. Minúsculos, brancos, aristocráticos, na corte isabelina dizia-se que eram transportáveis nas luvas das damas.

No que respeita à pouco distinta alcunha de “maltês”, foram muitos a sublinhar-lhe a injustiça: “Maltez

Vista panorâmica de Valetta,
a capital do arquipélago fundada pelos Cavaleiros
significa natural da ilha de Malta ou cavaleiro da Ordem de Malta. Não sabemos nem atinamos o motivo pelo qual aos homens desprezíveis se dá o nome de maltezes (mendigos de passagem, indivíduos mal encarados, etc.).   Malta serve também para designar a roupa, no geral a pior, que as mulheres levam à cabeça numa trouxa para, vestidas com ela, executarem os trabalhos agrícolas. Tratando-se de homens, malta quer dizer os alforges e tudo o mais que lhes é indispensável no trabalho. O que não há dúvida é que a palavra é sempre empregada no sentido pejorativo” (in “O Mirante”, 17 de Dezembro de 1977). Registe-se ainda: “O que é preciso é animar a malta” de Zeca Afonso; “Burgueses, malteses e às vezes” do cineasta Artur Semedo; “Febre de Malta”, doença transmitida pelos produtos lácteos, assim chamada por ter sido o médico maltês Sir Temi Zammi a determinar-lhe a causa; “O Falcão de Malta”, excelente policial escrito por Dashiell Hammett, mesmo se de Malta só tem o título, etc.

Peculiaridades à parte, o que a palavra na realidade significa é refúgio. E refúgio foi, sobretudo para aqueles que ainda hoje associamos a este arquipélago que, no conjunto das suas ilhas (Malta, Gozo, Comino e as desertas Cominotto e Filfla) perfaz não mais do que 316km2: os Cavaleiros da Ordem de Malta.




História e mais história...

Muitos milhares de anos antes da chegada dos aguerridos defensores da cristandade já Malta conhecia ocupação humana: os vestígios arqueológicos permitem datá-la de 3800 a.C. Entre 2400 e 2000 a.C. os habitantes locais desenvolveram um complicado sistema de culto cujo testemunho sobreviveu até hoje, ainda que o desaparecimento dos seus arquitectos permaneça um enigma (tal cultura terá sido destruída por invasão vinda de Itália).

Para não maçar demasiado o leitor que, legitimamente, quer que eu chegue depressa à parte das praias, diga-se que a história de Malta se pode sintetizar em três períodos essenciais: ocupação árabe entre 870 e 1090; chegada da Ordem dos Cavaleiros de São João (mais tarde de Malta) em 1530, que ficarão no arquipélago até 1798; período britânico, com início em 1801 e que só terminará em 1964, ano em que Malta conquista a independência, a 21 de Setembro. Depois de algumas alianças políticas polémicas, nomeadamente com a Líbia e diversos países comunistas, em Março último Malta deixou-se seduzir pela União Europeia; os resultados do plebiscito geraram, porém, tal controvérsia que o Partido Trabalhista local (laico e de pendor socialista e europeizante) julgou prudente apelar a novo referendo.

Para concluir este breve resumo, acrescente-se apenas que também os Romanos haviam pisado as ilhas: chegados em 218 a.C., em 395 Malta é incorporada no Império Romano Oriental (talvez não tenha sido por isso, mas vem a propósito informar que parte do filme “O Gladiador” foi filmada em Malta, ilha onde, aliás, a indústria da Sétima Arte ocupa lugar de destaque). Seguiram-se os Árabes (já mencionados), e depois os Normandos, responsáveis pela expulsão de todos os “mouros” em 1245. Malta ver-se-ia integrada, ainda no século XIII, no reino espanhol de Aragão; finalmente, com a chegada dos Cavaleiros, que receberiam a ilha das mãos do Imperador Carlos V, vivem-se mais de dois séculos de grande estabilidade.
Napoleão poria cobro ao “idílio” ao expulsar a Ordem em 1798. Poucos anos passados foi a vez de os franceses verem Malta por um canudo. Os locais fizeram então uma aliança com os britânicos e, na realidade (apesar da independência), esta apenas foi quebrada com a adopção do regime republicano em 1974. Antes disto tudo, note-se, já por lá tinham passado Fenícios, Gregos e Cartagineses.

Confuso? Não menos do que nós, caro leitor, que, à chegada, experimentámos ao vivo esta vertigem imensa da história. Que língua
é esta? Que arquitectura é esta? Que povo é este? Mas não será este turbilhão mediterrânico que faz a riqueza, a atracção, a singularidade destas ilhas?



Das gentes e da cultura
O maltês é uma língua de origem semita que respeita, com muito poucas variações, o alfabeto latino (alguns linguistas sublinham as suas conexões com o fenício). Incorporou elementos de siciliano, italiano, castelhano, francês e inglês e só seria reconhecido como língua oficial em 1934 (estatuto que partilha com o inglês). Quando se ouve, lembra-nos um italiano

Basílica de Ta’Pinu, em Dwejra
inexplicavelmente obscuro. Ou um árabe bastante menos cerrado. O efeito é de estranheza. O mesmo para as casas. A arquitectura exibe manchas compactas de edifícios sem telhado, formas cúbicas cor de pedra que nos transportam para a margem Sul do Mediterrâneo. O insólito, porém, está na quantidade de cúpulas que sobressai sobre as casas degoladas, a cristandade recortando-se no céu. São mais de 360 igrejas num país cujo fervor católico, dizem-nos, só é ultrapassado pelo próprio Vaticano (até as profanas companhias de transporte garantem aqui uma “segurança do outro mundo”)! Pela primeira vez, Portugal não se vê associado a nenhuma estrela do futebol: é Fátima que todos invocam quando a nossa nacionalidade vem à baila.

Em Gozo, sob um sol escaldante que despovoou as ruas onde só eu e outra jornalista nos aventuramos, um ciciar indecifrável lembra-nos uma oração árabe (só mais tarde aprenderíamos que a única mesquita do país se situa na ilha de Malta). Na curva da rua que atravessamos procurando fugir ao calor, três velhas de negro rezam o terço. Descobrimo-las para lá da cortina do postigo que desviam escrutando-nos como Parcas. E na escadaria da igreja onde chegamos agora, apenas homens se sentam no enquadramento das sombras.
Temas como o divórcio, o aborto ou a emancipação femi-nina são polémicos. Um cartaz publicitário anuncia cursos de engenharia rematando com a frase: “Girls can do it too. It’s fun and it’s pay” (“As raparigas também conseguem. É divertido e é pago”). Mas não foi para isso que viemos. Estamos em férias. Então... e as praias?


Victoria, a capital de Gozo, onde dominam duas imponentes igrejas barrocas
Por enquanto percorremos a capital, Valletta, onde uma multidão enche a rua exclusiva para peões, vaga humana cujos rostos podiam ser portugueses, gregos, árabes, espanhóis... O alvoroço é hispânico. Certas varandas lembram os “balcões” andaluses e em cada porta há um nicho para o santo protector privado. As ruas estão agalanadas com panos religiosos e nos pedestais a imitar pedra erguem-se mártires e apóstolos.

Conta-se que S. Paulo, no ano de 58, prisioneiro a caminho de Roma, foi salvo de um naufrágio nas costas destas ilhas. Aqui seria acolhido e pregou. Passados três milénios, nada mais nos resta senão imaginar a eficácia do seu proselitismo. Segundo as estatísticas, 98 por cento da população é católica.
Muito mais que sol e praias

Situado a 93km a Sul da Sicília, 290km a Norte da Líbia e praticamente à mesma distância de Tunes, o arquipélago de Malta está bem no centro do Mediterrâneo, tendo desempenhado durante séculos um papel fundamental na luta pelo domínio deste mar que separa (ou aproxima) as culturas europeia, norte-africana e do Médio Oriente. Dos vestígios desta confluência sobram sobretudo marcos relacionados com a presença dos Cavaleiros. As cidades muralhadas são de visita obrigatória, nomeadamente as chamadas Três Cidades (Vittoriosa, Senglea e Cospicua), debruçadas sobre o grande porto, e que constituem a Cottonera, do nome do seu edificador, Nicolas Cottoner, mestre da Ordem que mandou muralhar a zona no século XVII. Indispensável também uma visita à antiquíssima cidade de Mdina, conhecida por Città Notabile na Idade Média, ou ainda hoje Cidade do Silêncio (dado o sossego das ruas), habitada por algumas das famílias aristocráticas mais antigas. Um verdadeiro regresso ao passado, onde nos perdemos (literalmente) por labirintos estreitos e murados que escondem palácios magníficos, e que proporciona de Malta uma vista de 350 graus.

A passear em Valletta, sob um sol escaldante que despovoa as ruas
Acrescente-se: Valletta, assim baptizada em honra do grão-mestre da Ordem, Jean Parisot de la Vallette, e que, embora concebida antes da vitória sobre os Turcos em 1565, só foi realmente edificada com o tributo posterior do papa Pio V e de Filipe de Espanha que, deste modo, recompensavam os Cavaleiros pela derrota da armada de Solimão, o Magnífico. Walter Scott chamou-lhe uma “cidade construída por cavaleiros para cavaleiros” e a UNESCO brindou-a com o estatuto de património mundial; Mosta, cuja catedral exibe a maior cúpula da Europa, que se diz alojar duas bombas alemãs lançadas durante a Segunda Guerra Mundial que só por milagre não explodiram.

E a propósito: se é um facto que a resistência maltesa durante o delírio nazi se aproximou do sacrifício sagrado (com a Luftwaffe a despejar toneladas de explosivos a partir de Janeiro de 1941), registe-se que os milagres fazem parte da vida corrente. Na Basílica de Ta’Pinu (Gozo), estranhamente livre de qualquer comércio, cuja construção está, ela própria, ligada a uma aparição da Virgem, os votos dos crentes preenchem paredes e expositores. São fotografias, cartas de emigrantes, mechas de cabelos, roupas de crianças, próteses de acidentados, promessas cumpridas expostas numa igreja que se tornou local de peregrinação e recebeu a visita do Papa (que já beijou o solo do arquipélago por duas vezes).

E quanto à Máfia? Um autóctone, aparentemente bem informado, esclarece-nos com prontidão: “Ah! isto aqui não é nada que se compare à Sicília. Às vezes há um ou outro que desaparece num acidente na estrada; é raro. E desde que não nos vamos lá meter com eles...”. Mas não foi para isso que viemos. Estamos em férias. Precisamente, então e as praias?

 
Pesquisas relacionadas com este artigo:
                

 

Anunciar on-line | Assinaturas | Contactos | Notícias por RSS | Promoções | Serviços Móveis Record | Serviços Móveis CM
ADSL.XL | Classificados | Emprego | Directórios | Jogos | Horóscopo | Tempo

Copyright ©. Todos os direitos reservados. É expressamente proíbida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Edirevistas, S.A. , uma empresa Cofina Media - Grupo Cofina.
Consulte as condições legais de utilização.