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E V A S Õ E S

Setembro de 2003

Águas azuis, mesmo se silenciosas
À Sicília pode ir-se de ferry-boat. Uma viagem curta que muitos fazem durante a noite e que será uma boa hipótese para quem queira aproveitar a estada por mais tempo. Nós limitámo-nos a ir a Gozo, a segunda ilha do arquipélago. Comino, a ilha do meio e a mais pequena das ilhas habitadas, abriga apenas meia dúzia de famílias, não tem carros e possui um único hotel. As suas águas fazem as delícias dos adeptos do mergulho – em especial na chamada Lagoa Azul –, desporto que, aliás, pode ser praticado em todo o arquipélago. O nome vem-lhe da planta cominho.

Escreveu Hugo Pratt: “Num mundo em que tudo é electrónico, onde tudo é calculado e industrializado, não existe espaço para um tipo como Corto Maltese.” Esta é uma frase que prova como até os génios se enganam. Porque, chegados a Gozo, bem podemos imaginar Corto olhando os barcos sentado na varanda do Gleneagles Bar, prestes a partir para mais uma das suas viagens compulsivas. Esse pirata de bom coração e princípios escassos nasceu em Malta a 10 de Julho de 1870, filho de uma prostituta cigana, La Niña, e de um comandante da Marinha Britânica que desapareceu da história. O rabino de Malta, amante da mãe, gostou do rapaz e enviou-o para um colégio hebraico, a expensas próprias. Depois foi a aventura. Em mais de uma vintena de álbuns, que só a morte de Hugo Pratt, em 1995, interromperia. Talvez as origens de Corto, o seu percurso, a sua formação não encaixem bem na mentalidade conservadora, visivelmente dominante. Nenhuma referência vimos ao aventureiro. Entretanto, mesmo se a contragosto de alguns, a geografia e a história do lugar ligam na perfeição com o herói da “Balada do Mar Salgado”.
O mar, aqui, é salgado, quente e muitas vezes azul. Gozo, porventura mais do que Malta, tem algumas praias magníficas. Não se esperem, contudo, grandes areais. Por vezes, a extensão é tão irrisória que chega a ser risível. “O primeiro a
chegar de manhã ocupa a praia. Estende a toalha e à vista de mais alguma avança de peito aberto para o seu dono e desafia-o: ‘Make my day!’”; a rir alguém corrige: “Engano teu. Esta é uma praia em que é proibido trazer toalha!” Piadas à parte, a costa destas ilhas é lindíssima, exibindo perfeitos refúgios de piratas, enseadas de acesso nem sempre evidente, é certo, mas quando foi a última vez que alguém chegou com facilidade ao paraíso?

Por vezes as águas apresentam um azul turquesa absoluto. Por vezes é difícil resistir ao apelo dos fundos. Em Gozo, durante um curto passeio de barco no chamado Mar Interior (uma piscina natural rodeada de escarpas com passagem para o mar), próximo de Dwejra (onde avistamos a famosa Janela Azul, um arco gigantesco talhado na rocha que é cartaz turístico da ilha), uma parede a pique mostra-se à transparência sob a água. A vertigem é indiscritível. O coral laranja bordeja a gruta e no grupo faz-se um silêncio apenas entrecortado por ohs de admiração. Apesar do desbarato de uma Natureza que, arrogantemente, pensamos poder dispensar, ainda há a possibilidade de sítios como este.

Pôr-do-Sol em Golden Bay e a famosa Janela Azul, um arco talhado na rocha, em Gozo
O mesmo não se dirá da visita à chamada Gruta Azul, Wied iz-Zurrieq, Malta, verdadeira fábrica de compactar turistas (e com este episódio se prova também que à tranquilidade de Gozo se contrapõe já alguma “invasão turística” em Malta, sobretudo na zona de St. George’s Bay, conquistada por chusmas de adolescentes chegados para aprender inglês). Sob a voz de comando de uma sexagenária intratável, o “Padrinho” do negócio, lá nos vamos encaixando atarantados dentro do barco, sob os gritos de “Go! Go! Go!”. Uma viagem acelerada pelas grutas, uma explicação incompreensível, crianças e adultos sem colete, e no fim somos despejados no ponto de partida onde o “padrinho” continua a berrar “Go! Go! Go!”. E a esta experiência se poderia chamar “desembarque simulado na Normandia”.

Sobretudo, que o último parágrafo não afaste o leitor de Malta. Porque se é

Passeio de barco pela costa de Malta
verdade que às ilhas falta cheiro (provavelmente por serem bastante desertas), e às águas o remurejar das ondas (apesar de estarmos numa ilha, é um mar e não um oceano que nos rodeia), nem por isso o arquipélago deixará de agradar a todos quantos gostem de conjugar passado e presente, bom vinho e boa mesa, natureza e história...

As ilhas respiram uma inegável “austeridade” que lhes virá da pedra. E isto, apesar de viverem, pelo menos metade do ano, em festa permanente. Por uma vez, uma citação inserida num prospecto publicitário não se mostra exagerada: “Algumas pedras são sagradas.” E plagiando Roger Caillois se diz tudo.



Os Cavaleiros
Ordem de Malta
A Ordem dos Cavaleiros foi, na origem, uma congregação militar e hospitalar sediada na Terra Santa, então com o nome de Ordem de São João de Jerusalém, por ser dedicada a São João Baptista. Criada na Idade Média, em 1312 ser-lhe-ia cedida a Ilha de Rodes, e aí assentou com o estatuto de Estado soberano até 1523, ano em que se verifica a sua expulsão da ilha pela armada turca. Expatriados e perseguidos, os Cavaleiros instalar-se-iam em Malta, tendo conseguido conter o cerco que lhes foi movido pouco tempo depois por Solimão, o Magnífico. A vitória sobre as tropas turcas con-solidou o poder dos Cavaleiros. Porém, se sobreviveram às intrigas inquisitórias, não resistiram aos soldados de Napoleão que os expulsariam do novo território mais de 200 anos depois de o terem ocupado. A aliança com Inglaterra levaria, por sua vez, à saída dos franceses de Malta, mas o regresso ao poder dos Cavaleiros foi vetado pelos malteses, que ameaçaram “chamar” de novo os jacobinos. A Ordem refugiar-se-ia no Vaticano, que actualmente a reconhece como um Estado (e não apenas como uma ordem religiosa), embora sem território. Emite passaportes, que são aceites por alguns países. Segundo afirma, dedica-se a obras humanitárias. Luís Mendes de Vasconcelos (1622), António Manuel de Vilhena (1722) e Manuel Pinto da Fonseca (1741), de origem portuguesa, foram grão-mestres da Ordem, tendo deixado obra, nomeadamente Manuel de Vilhena. Quanto a Pinto da Fonseca, reza a tradição que terá morrido octogenário, na cama... e acompanhado. Uma morte santa!


Guia de Viagem

Como ir
A Air Malta (tel. 213 139 110; www.airmalta.com; representada em Portugal pela Ampliar, tel. 213 139 115) possui voos directos de Lisboa e Porto, a partir de E318 (mais taxas). Gozo e Comino têm acesso por barco a partir de Malta. A travessia para Gozo demora cerca de 30 minutos, em horários regulares mesmo durante a noite ao fim-de-semana. Possui um heliporto em Xewkija. Para Comino aconselha-se o contacto com o único hotel (tel. 356 21 529821). Há carreiras de barco, a partir de Malta, para Itália e Sicília. Existem pacotes nas agências de viagens que incluem voo e alojamento. É o caso da Mapamundo/Club Vip com programas de quatro dias a partir de E446 por pessoa.

Informações
Documentos: passaporte.
Língua: maltês e inglês.
Moeda: Libra maltesa. 1 euro equivale a 0,43 libras
Diferença horária: Mais uma hora do que em Portugal.
Indicativo telefónico: 00 356 (Malta)
Clima: Verões quentes, a ultrapassar os 30°C, invernos suaves, com chuva em Dezembro e Janeiro. A água do mar sobe aos 26°C em Agosto.
Gastronomia: A cozinha faz justiça à localização do arquipélago. Óptimos vinhos, temperos deliciosos e uma qualidade irrepreensível dos produtos. Mistura de influências, não se deixou corromper pela sensaboria dos pratos ingleses. Obrigatória uma ida ao Rubino, Valletta, para provar cozinha autêntica. Preços equivalentes aos portugueses.
Transportes: A rede pública é eficiente e cobre as ilhas. No que respeita ao aluguer de carros, assinale-se que a condução é pela esquerda. A melhor maneira de conhecer as ilhas será alugando um jeep ou uma mota, o que permitirá passeios por estradas secundárias e uma maior acessibilidade à costa. A entrada dos carros nas cidades está em alguns casos condicionada, obrigando a um selo especial. Aconselham-se os passeios a pé. Para uma visita guiada menos convencional contacte Roger Cauchi Inglott pelo e-mail: navigatormalta@yahoo.com 

O que visitar
Malta: Valletta, capital do arquipélago, fundada pelos Cavaleiros. Na cidade, obrigatória uma ida aos Upper Barrakka Gardens, cuja vista sobre o grande porto e as Três Cidades é espectacular; Catedral de St. John (onde os túmulos dos Cavaleiros, em mármore, forram o chão) e respectivo museu, no qual se destacam dois quadros de Caravaggio, pintados durante a estadia deste em Malta, onde, condenado pela justiça por desacatos, aportou em 1608; Palácio dos Grandes Mestres, sede do Parlamento e da Presidência; Albergue de Portugal e Castela, mandado construir pelo grão-mestre Manuel Pinto da Fonseca; o Manoel Theatre, 1731, um dos mais antigos da Europa; impõe-se uma ida ao mercado de St. James Ditch. Mdina, a antiga capital medieval de Malta, povoada de casas nobres e que respira uma tranquilidade inexcedível ao final da tarde; mantém a sua alma milenar apesar do violento tremor de terra de 1693. Junto a Mdina, em Rabat (palavra que significa arrabalde), visite-se a igreja e a gruta de São Paulo (onde, segundo a tradição, o apóstolo se refugiou) e ainda as catacumbas de São Paulo e Santa Ágata. Marsaxiokk, pitoresca vila piscatória, em cujo mercado se podem encontrar produtos típicos de Malta: rendas, reproduções das coloridas camionetas locais, vidros ou o delicioso licor de figos de piteira, Bajtra Liqueur. As Três Cidades fortificadas, que dão ainda pelos nomes antigos de Bormla,
L-Isla e Birgu, construções muralhadas de defesa do Mediterrâneo, onde visitámos o Forte de St. Angelo e o Palácio do Inquisidor e se localiza o Museu Marítimo, num edifício que, durante a Guerra, servia para a distribuição de pão à população sitiada. A poucos quilómetros, em Paola, Hypogeum, uma rede subterrânea de túneis, com cerca de 4400 anos, utilizada como abrigo durante os bombardeamentos alemães. Templos de Hagar Quim, exemplares pré-históricos impressionantes e, quase ao lado, os de Mnajdra.
Gozo: Mais verde que Malta, proporciona uma estada tranquila e passeios magníficos. Visitem-se os templos megalíticos de Ggantija; a capital, Victoria (em honra da Rainha Vitória, mas que muitos insistem em continuar a denominar Rabat), na qual dominam duas imponentes igrejas barrocas: a Cidadela, mandada erguer pelos Cavaleiros em defesa da ilha; a vila piscatória de Xlendi; o Mar Interior, em Dwejra, para um mergulho ou para um passeio de barco; ao lado, o Fungus Rock, um rochedo que foi exclusivo dos Cavaleiros dadas as plantas medicinais que crescem no seu solo, de modo que todos os que fossem apanhados a pisá-lo eram condenados à morte; a Gruta de Calipso, local onde, segundo a lenda, Ulisses foi feito prisioneiro durante sete anos. Para descer até lá terá de munir-se de uma lanterna ou pagar ao guardião previdente que fornece as velas; apesar da vista, confirma-se que nem sempre o real supera a imaginação. Quanto a templos católicos, realcem-se as igrejas de Xewkija, Xaghra Parish e Ta’Pinu.


Onde ficar
Ampla oferta hoteleira, mesmo se a maioria dos hotéis se fica pelo serviço eficaz mas desprovido de charme dos grandes empreendimentos. Sublinhe-se a localização do L-Imgarr Hotel (tel: 21560455/6/7/fax: 21557589), em Mgarr, Gozo, e o belíssimo Xara Palace (tel.: 21450560/fax:21452612), do grupo Relais & Chateaux, em Mdina. O turismo de habitação é uma alternativa. Informação disponível em www.gozofarmhouses.com

Actividades
Praias e mergulho – A melhor forma de conhecer a costa é partir à aventura e ir descobrindo o seu recorte. Quanto a praias de areia (Malta): Ghajn Tuffieha, Mellieba, Golden Bay, Paradise Bay, Armier e Selmun. Noutro “estilo”, assistir a um pôr-do-sol na pequena praia de Fomm Ir-Rih, onde uma casa se esconde nas escarpas no que é um famoso “clássico” da boa arquitectura, mostra-se uma experiência inesquecível. Em Gozo, In-Ramla l-Hamra é uma praia de areia vermelha famosa pela sua beleza. Outras, onde as rochas servem de enquadramento, são as de Ghar Qawqla, Mgarr ix-Xini e Il-Qbajjar. O mergulho é possível em todas as ilhas e há várias escolas no arquipélago. Visite www.digigate.net/divers
Estudar inglês – Destino privilegiado, já que às aulas se aliam o clima, as praias e os des-
portos ao ar livre; indicado para quem queira aperfeiçoar o inglês durante o Verão. Os preços podem ficar pelos 50 por cento em relação ao Reino Unido. consulte www.feltom.org

Mais informações
Na Internet:
www.visitmalta.com
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