Águas azuis, mesmo se silenciosas À
Sicília pode ir-se de ferry-boat. Uma viagem curta que muitos
fazem durante a noite e que será uma boa hipótese para
quem queira aproveitar a estada por mais tempo. Nós limitámo-nos
a ir a Gozo, a segunda ilha do arquipélago. Comino, a ilha
do meio e a mais pequena das ilhas habitadas, abriga apenas meia dúzia
de famílias, não tem carros e possui um único
hotel. As suas águas fazem as delícias dos adeptos do
mergulho – em especial na chamada Lagoa Azul –, desporto
que, aliás, pode ser praticado em todo o arquipélago.
O nome vem-lhe da planta cominho.
Escreveu Hugo Pratt: “Num mundo em que tudo é electrónico,
onde tudo é calculado e industrializado, não existe
espaço para um tipo como Corto Maltese.” Esta é
uma frase que prova como até os génios se enganam. Porque,
chegados a Gozo, bem podemos imaginar Corto olhando os barcos sentado
na varanda do Gleneagles Bar, prestes a partir para mais uma das suas
viagens compulsivas. Esse pirata de bom coração e princípios
escassos nasceu em Malta a 10 de Julho de 1870, filho de uma prostituta
cigana, La Niña, e de um comandante da Marinha Britânica
que desapareceu da história. O rabino de Malta, amante da mãe,
gostou do rapaz e enviou-o para um colégio hebraico, a expensas
próprias. Depois foi a aventura. Em mais de uma vintena de
álbuns, que só a morte de Hugo Pratt, em 1995, interromperia.
Talvez as origens de Corto, o seu percurso, a sua formação
não encaixem bem na mentalidade conservadora, visivelmente
dominante. Nenhuma referência vimos ao aventureiro. Entretanto,
mesmo se a contragosto de alguns, a geografia e a história
do lugar ligam na perfeição com o herói da “Balada
do Mar Salgado”. O
mar, aqui, é salgado, quente e muitas vezes azul. Gozo, porventura
mais do que Malta, tem algumas praias magníficas. Não
se esperem, contudo, grandes areais. Por vezes, a extensão
é tão irrisória que chega a ser risível.
“O primeiro a chegar
de manhã ocupa a praia. Estende a toalha e à vista de
mais alguma avança de peito aberto para o seu dono e desafia-o:
‘Make my day!’”; a rir alguém corrige: “Engano
teu. Esta é uma praia em que é proibido trazer toalha!”
Piadas à parte, a costa destas ilhas é lindíssima,
exibindo perfeitos refúgios de piratas, enseadas de acesso
nem sempre evidente, é certo, mas quando foi a última
vez que alguém chegou com facilidade ao paraíso?
Por
vezes as águas apresentam um azul turquesa absoluto. Por vezes
é difícil resistir ao apelo dos fundos. Em Gozo, durante
um curto passeio de barco no chamado Mar Interior (uma piscina natural
rodeada de escarpas com passagem para o mar), próximo de Dwejra
(onde avistamos a famosa Janela Azul,
um arco gigantesco talhado na rocha que é cartaz turístico
da ilha), uma parede a pique mostra-se à transparência
sob a água. A vertigem é indiscritível.
O
coral laranja bordeja a gruta e no grupo faz-se um silêncio
apenas entrecortado por ohs de admiração. Apesar do
desbarato de uma Natureza que, arrogantemente, pensamos poder dispensar,
ainda há a possibilidade de sítios como este.
Pôr-do-Sol
em Golden Bay e a famosa Janela Azul, um arco talhado
na rocha, em Gozo
O mesmo não se dirá da visita à chamada Gruta
Azul, Wied iz-Zurrieq, Malta, verdadeira fábrica de compactar
turistas (e com este episódio se prova também
que
à tranquilidade de Gozo se contrapõe já alguma
“invasão turística” em Malta, sobretudo
na zona de St. George’s Bay, conquistada por chusmas de adolescentes
chegados para aprender inglês). Sob a voz de comando de uma
sexagenária
intratável, o “Padrinho” do negócio, lá
nos vamos encaixando atarantados dentro do barco, sob os gritos de
“Go! Go! Go!”. Uma viagem acelerada pelas grutas, uma
explicação incompreensível, crianças e
adultos sem colete, e no fim somos despejados no ponto de partida
onde o “padrinho” continua a berrar “Go! Go! Go!”.
E a esta experiência se poderia chamar “desembarque simulado
na Normandia”.
Sobretudo, que o último parágrafo não afaste
o leitor de Malta. Porque se é
Passeio
de barco pela costa de Malta
verdade
que às ilhas falta cheiro (provavelmente por serem bastante
desertas), e às águas o remurejar das ondas (apesar
de estarmos numa ilha, é um mar e não um oceano que
nos rodeia), nem por isso o arquipélago deixará de agradar
a todos quantos gostem de conjugar passado e presente, bom vinho e
boa mesa, natureza e história...
As ilhas respiram uma inegável “austeridade” que
lhes virá da pedra. E isto, apesar de viverem, pelo menos metade
do ano, em festa permanente. Por uma vez, uma citação
inserida num prospecto publicitário não se mostra exagerada:
“Algumas pedras são sagradas.” E plagiando Roger
Caillois se diz tudo.
Os Cavaleiros Ordem
de Malta A
Ordem dos Cavaleiros foi, na origem, uma congregação
militar e hospitalar sediada na Terra Santa, então com o nome
de Ordem de São João de Jerusalém, por ser dedicada
a São João Baptista. Criada na Idade Média, em
1312 ser-lhe-ia cedida a Ilha de Rodes, e aí assentou com o
estatuto de Estado soberano até 1523, ano em que se verifica
a sua expulsão da ilha pela armada turca. Expatriados e perseguidos,
os Cavaleiros instalar-se-iam em Malta, tendo conseguido conter o
cerco que lhes foi movido pouco tempo depois por Solimão, o
Magnífico. A vitória sobre as tropas turcas con-solidou
o poder dos Cavaleiros. Porém, se sobreviveram às intrigas
inquisitórias, não resistiram aos soldados de Napoleão
que os expulsariam do novo território mais de 200 anos depois
de o terem ocupado. A aliança com Inglaterra levaria, por sua
vez, à saída dos franceses de Malta, mas o regresso
ao poder dos Cavaleiros foi vetado pelos malteses, que ameaçaram
“chamar” de novo os jacobinos. A Ordem refugiar-se-ia
no Vaticano, que actualmente a reconhece como um Estado (e não
apenas como uma ordem religiosa), embora sem território. Emite
passaportes, que são aceites por alguns países. Segundo
afirma, dedica-se a obras humanitárias. Luís Mendes
de Vasconcelos (1622), António Manuel de Vilhena (1722) e Manuel
Pinto da Fonseca (1741), de origem portuguesa, foram grão-mestres
da Ordem, tendo deixado obra, nomeadamente Manuel de Vilhena. Quanto
a Pinto da Fonseca, reza a tradição que terá
morrido octogenário, na cama... e acompanhado. Uma morte santa!
Guia de Viagem
Como ir A
Air Malta (tel. 213 139 110; www.airmalta.com;
representada em Portugal pela Ampliar, tel. 213 139 115) possui voos
directos de Lisboa e Porto, a partir de E318 (mais taxas). Gozo e
Comino têm acesso por barco a partir de Malta. A travessia para
Gozo demora cerca de 30 minutos, em horários regulares mesmo
durante a noite ao fim-de-semana. Possui um heliporto em Xewkija.
Para Comino aconselha-se o contacto com o único hotel (tel.
356 21 529821). Há carreiras de barco, a partir de Malta, para
Itália e Sicília. Existem pacotes nas agências
de viagens que incluem voo e alojamento. É o caso da Mapamundo/Club
Vip com programas de quatro dias a partir de E446 por pessoa.
Informações
Documentos:
passaporte.
Língua: maltês e inglês.
Moeda: Libra maltesa. 1 euro equivale
a 0,43 libras
Diferença horária: Mais
uma hora do que em Portugal.
Indicativo telefónico: 00 356
(Malta)
Clima: Verões quentes, a ultrapassar
os 30°C, invernos suaves, com chuva em Dezembro e Janeiro. A água
do mar sobe aos 26°C em Agosto.
Gastronomia: A cozinha faz justiça
à localização do arquipélago. Óptimos
vinhos, temperos deliciosos e uma qualidade irrepreensível
dos produtos. Mistura de influências, não se deixou corromper
pela sensaboria dos pratos ingleses. Obrigatória uma ida ao
Rubino, Valletta, para provar cozinha autêntica. Preços
equivalentes aos portugueses.
Transportes: A rede pública é
eficiente e cobre as ilhas. No que respeita ao aluguer de carros,
assinale-se que a condução é pela esquerda. A
melhor maneira de conhecer as ilhas será alugando um jeep ou
uma mota, o que permitirá passeios por estradas secundárias
e uma maior acessibilidade à costa. A entrada dos carros nas
cidades está em alguns casos condicionada, obrigando a um selo
especial. Aconselham-se os passeios a pé. Para uma visita guiada
menos convencional contacte Roger Cauchi Inglott pelo e-mail: navigatormalta@yahoo.com
O que visitar
Malta: Valletta, capital do arquipélago, fundada pelos Cavaleiros.
Na cidade, obrigatória uma ida aos Upper Barrakka Gardens,
cuja vista sobre o grande porto e as Três Cidades é espectacular;
Catedral de St. John (onde os túmulos dos Cavaleiros, em mármore,
forram o chão) e respectivo museu, no qual se destacam dois
quadros de Caravaggio, pintados durante a estadia deste em Malta,
onde, condenado pela justiça por desacatos, aportou em 1608;
Palácio dos Grandes Mestres, sede do Parlamento e da Presidência;
Albergue de Portugal e Castela, mandado construir pelo grão-mestre
Manuel Pinto da Fonseca; o Manoel Theatre, 1731, um dos mais antigos
da Europa; impõe-se uma ida ao mercado de St. James Ditch.
Mdina, a antiga capital medieval de Malta, povoada de casas nobres
e que respira uma tranquilidade inexcedível ao final da tarde;
mantém a sua alma milenar apesar do violento tremor de terra
de 1693. Junto a Mdina, em Rabat (palavra que significa arrabalde),
visite-se a igreja e a gruta de São Paulo (onde, segundo a
tradição, o apóstolo se refugiou) e ainda as
catacumbas de São Paulo e Santa Ágata. Marsaxiokk, pitoresca
vila piscatória, em cujo mercado se podem encontrar produtos
típicos de Malta: rendas, reproduções das coloridas
camionetas locais, vidros ou o delicioso licor de figos de piteira,
Bajtra Liqueur. As Três Cidades fortificadas, que dão
ainda pelos nomes antigos de Bormla,
L-Isla e Birgu, construções muralhadas de defesa do
Mediterrâneo, onde visitámos o Forte de St. Angelo e
o Palácio do Inquisidor e se localiza o Museu Marítimo,
num edifício que, durante a Guerra, servia para a distribuição
de pão à população sitiada. A poucos quilómetros,
em Paola, Hypogeum, uma rede subterrânea de túneis, com
cerca de 4400 anos, utilizada como abrigo durante os bombardeamentos
alemães. Templos de Hagar Quim, exemplares pré-históricos
impressionantes e, quase ao lado, os de Mnajdra.
Gozo: Mais verde que Malta, proporciona uma estada tranquila e passeios
magníficos. Visitem-se os templos megalíticos de Ggantija;
a capital, Victoria (em honra da Rainha Vitória, mas que muitos
insistem em continuar a denominar Rabat), na qual dominam duas imponentes
igrejas barrocas: a Cidadela, mandada erguer pelos Cavaleiros em defesa
da ilha; a vila piscatória de Xlendi; o Mar Interior, em Dwejra,
para um mergulho ou para um passeio de barco; ao lado, o Fungus Rock,
um rochedo que foi exclusivo dos Cavaleiros dadas as plantas medicinais
que crescem no seu solo, de modo que todos os que fossem apanhados
a pisá-lo eram condenados à morte; a Gruta de Calipso,
local onde, segundo a lenda, Ulisses foi feito prisioneiro durante
sete anos. Para descer até lá terá de munir-se
de uma lanterna ou pagar ao guardião previdente que fornece
as velas; apesar da vista, confirma-se que nem sempre o real supera
a imaginação. Quanto a templos católicos, realcem-se
as igrejas de Xewkija, Xaghra Parish e Ta’Pinu.
Onde ficar
Ampla oferta hoteleira, mesmo se a maioria dos hotéis se fica
pelo serviço eficaz mas desprovido de charme dos grandes empreendimentos.
Sublinhe-se a localização do L-Imgarr Hotel (tel: 21560455/6/7/fax:
21557589), em Mgarr, Gozo, e o belíssimo Xara Palace (tel.:
21450560/fax:21452612), do grupo Relais & Chateaux, em Mdina.
O turismo de habitação é uma alternativa. Informação
disponível em www.gozofarmhouses.com
Actividades
Praias e mergulho – A melhor forma de conhecer a costa é
partir à aventura e ir descobrindo o seu recorte. Quanto a
praias de areia (Malta): Ghajn Tuffieha, Mellieba, Golden Bay, Paradise
Bay, Armier e Selmun. Noutro “estilo”, assistir a um pôr-do-sol
na pequena praia de Fomm Ir-Rih, onde uma casa se esconde nas escarpas
no que é um famoso “clássico” da boa arquitectura,
mostra-se uma experiência inesquecível. Em Gozo, In-Ramla
l-Hamra é uma praia de areia vermelha famosa pela sua beleza.
Outras, onde as rochas servem de enquadramento, são as de Ghar
Qawqla, Mgarr ix-Xini e Il-Qbajjar. O mergulho é possível
em todas as ilhas e há várias escolas no arquipélago.
Visite www.digigate.net/divers
Estudar inglês – Destino privilegiado, já que às
aulas se aliam o clima, as praias e os des-
portos ao ar livre; indicado para quem queira aperfeiçoar o
inglês durante o Verão. Os preços podem ficar
pelos 50 por cento em relação ao Reino Unido. consulte
www.feltom.org