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 FBNet > Rotas & Destinos > À procura de Santiago

Santiago Compostela - À procura de Santiago

As alminhas são pequenos monumentos populares

Uma viagem entre Viseu e Santiago de Compostela, por caminhos velhos ou estradas nacionais, na rota dos peregrinos da Idade Média.
A confirmar o verso do poeta "...o caminho faz-se caminhando".



S
antiago, na verdade, chama-va-se Iago, e andava a lançar redes no mar da Galileia até que um dia Jesus Cristo o encontrou e o convidou para ser "pescador de homens". Com Pedro, André e João foi um dos primeiros apóstolos. Era conhecido como Iago, o Maior para o distinguir de um outro apóstolo com o mesmo nome, provável irmão de Jesus. Ao longo dos Evangelhos, Tiago (chamemos-lhe assim) aparece em momentos cruciais como a Transfiguração e a Agonia de Cristo no Monte das Oliveiras. Até ao ano de 44 perde-se-lhe o rasto, apesar de a tradição dizer que nos onze anos passados desde a morte de Cristo, Tiago terá pregado o Evangelho na Península Ibérica. Tradições à parte, sabe-se que em 44 Tiago se juntou a Pedro em Jerusalém para celebrar a Páscoa.

Um ano que lhe seria fatídico. Preso às ordens de Herodes Agripa I, senhor da Palestina, este manda-o decapitar, transforman-do-o assim no primeiro apóstolo a derramar sangue por Cristo. Antes disso ainda tem tempo para dois milagres: converte e baptiza o carcereiro e cura um paralítico. Começam depois as variações nas histórias sobre o apóstolo. A mais comum refere que os discípulos de Tiago, Teodoro e Atanásio, roubam o seu corpo e, numa barca sem leme nem velas, guia-dos por um anjo, regressam à Hispânia (Península Ibérica), chegando até à Ria de Arosa, na actual Galiza. Desta aventura marítima nasce o mito que fez das conchas de vieira um dos símbolos dos peregrinos a Santiago de Compostela.

Um cavaleiro que se afogou, quando seguia por terra a barca dos discípulos, regressou à superfície coberto por estes bivalves. É assim que desde a Idade Média, a concha de vieira, posta ao peito, se tornou a marca inequívoca que permite o acesso às hospedarias. À chegada à Ria de Arosa, Atanásio e Teodoro decidem subir o rio Sar (hoje Ulla) até Iria Flavia (a actual vila de Padrón), onde amarram a barca a uma coluna de pedra que se diz ser a mesma que está hoje sob o altar-mor da igreja de Santiago de Padrón. Entram então nos domínios da rainha Lupa. Pedem-lhe que os deixe sepultar o corpo de Tiago mas Lupa entrega-os a Filotro, governador romano. Presos, conseguem fugir e voltam de novo à presença de Lupa que, para os pôr à prova, os manda ao monte Ilcino (hoje Pico Sacro, a 15 km de Santiago de Compostela) em busca de bois que eram afinal touros selvagens.

Amansam-nos com o sinal da cruz, depois de terem derrotado um dragão com o mesmo gesto. Lupa acaba por se converter: oferece-lhes abrigo e deixa-os enterrar Tiago. Começa então uma outra jornada até Liberum Donum ou Libre-don, (actual Santiago de Compostela), feita numa carroça puxada a bois. É aí que colocam as relíquias numa arca de mármore e constroem uma pequena capela, entregue ao cuidado dos dois discípulos que, ao morrerem, são sepultados ao lado do apóstolo. As peregrinações ao túmulo sucedem-se ao mesmo ritmo das perseguições, estas ordenadas pelo imperador Vespasiano, que em 257 proibe qualquer manifestação do culto jacobeu. Abandonado por essa data, o túmulo só foi redescoberto em 813 quando um eremita, que pregava junto ao Libredon, viu sobre a sepultura uma estrela de brilho intenso acompanhada de cantos angélicos.

Os rumores desta visão rapidamente chegam até ao bispo Teodomiro, de Iria Flavia, que indo ao bosque encontra a capela com as três campas, as relíquias do apóstolo e uma lápide. Afonso II das Astúrias foi o primeiro peregrino deste novo ciclo do culto a Tiago. O Libredon ganha o nome de Campus Stellae. Compostela tornava-se, assim, um verdadeiro caminho europeu santificante, a par dos que rumavam à Terra Santa. Vindos dos quatro cantos do Velho Continente os peregrinos foram estabelecendo, ao longo dos séculos, rotas mais ou menos fixas, ainda que muito variadas. Com frequência, a peregrinação era uma pena imposta em resultado de algum crime cometido ou até mesmo uma forma de ganhar dinheiro, já que existiam casos em que o réu, sendo rico, enviava a Compostela um pobre pagando-lhe as despesas, com o compromisso de este dedicar uma parte da penitência à salvação do seu "cliente".

Comércio ou devoção, quem fazia estes caminhos seguia por estradas romanas ou medievais, caminhos que acompanhavam cursos de água ou curvas de nível, ao longo dos quais existiam locais de paragem e descanso, casas de pasto, albergarias, hospitais, casas nobres, igrejas e conventos. Alguns desses sítios ainda hoje mantêm o nome com que foram então baptizados: Albergaria, Mesão, Hospital, Venda, Pousada, (...) do Caminho. Dos cerca de dez percursos documentados em Portugal, apenas um o do Minho está hoje minimamente assinalado, com placas ao longo da estrada nacional, mas mesmo estas apenas indicam que se está no caminho certo. Percorrer todos os outros é um tiro no escuro, o que talvez explique o reduzido número de portugueses (72 em 1996) a quem o Centro de Acolhimento aos Peregrinos em Santiago de Compostela passou o certificado de peregrinação (exige-se pelo menos 100 quilómetros a pé, ou 200 quilómetros de bicicleta ou a cavalo).

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