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[Santiago
Compostela: À procura de Santiago]
1º dia
- de Viseu a Lamego
Dos caminhos portugueses para Santiago de Compostela o eixo viário
que passava por Viseu era dos mais frequentados. A estrada romana
que ligava Mérida a Braga passava por esta cidade, bem como
a via medieval que, vinda de Coimbra, seguia depois para Lamego e
Chaves e daí para Santiago de Compostela. Como é este
o caminho que vamos tentar seguir, Viseu é o nosso ponto de
partida. Por incrível que possa parecer a cidade não
guarda nenhuma memória dos caminhos jacobeus. Nem o nome de
uma igreja, de uma feira ou de uma rua. Há apenas duas imagens
do santo expostas no Museu Grão-Vasco e a informação
de que haveria na Assembleia Municipal um marco miliário, proveniente
da zona de Oliveira de Frades, indicando a localização
de um albergue de peregrinos, não se confirmou.
A este primeiro desencontro iriam juntar-se muitos outros ao longo
da viagem. Estávamos a iniciar um caminho cheio de peripécias,
de enganos e de equívocos onde o santo Tiago, e por vezes também
os caminhos dos peregrinos, pareciam não se querer revelar,
pelo menos em Portugal. A estrada nacional que liga Viseu a Lamego
vai quase paralela ao antigo caminho. Frequentemente nos desviamos
da estrada para procurar vestígios jacobeus. Num subúrbio
de Viseu, a apenas um quilómetro, a capela de Santiago, recentemente
reconstruída, perdeu a traça original. É agora
uma igreja moderna onde só mora o nome do santo.
As primeiras Alminhas desta viagem, pequenos monumentos populares
que são uma profissão de fé na ressurreição
dos mortos, algumas delas aconchegadas por cruzes de Santiago, surgem
ao longo da estrada assim que deixamos o perímetro urbano.
Seguimos pelas faldas das serras da Arada e da Lapa. Junto a Pousa
Maria, uma pequena aldeia de casas rústicas a dez quilómetros
de Viseu, era suposto encontrarmos uma indicação da
"estrada romana de Pousa Maria". Não só a
placa não existe como as pessoas que ceifam os campos junto
à ponte de Almargem nesta manhã de sábado não
sabem dela. Durante imenso tempo percorremos todos os desvios à
estrada nacional, todos os caminhos de terra batida que encontramos
mas a estrada romana parece ter desaparecido.
Espera-nos
um cruzeiro jacobeu, situado no largo da igreja de Almargem, duvidosamente
embelezado por vasos com flores mortas. A eira é uma obra de
perfeito equilibrismo. Situada no topo de um enorme cabeço
granítico, o parapeito a toda a volta aconchega espigueiros
e palheiros. Os bancos servem certamente para descansar nos dias em
que se malha o pão. Por enquanto, vêem-se apenas algumas
medas de palha a secar. O profundo silêncio da aldeia é,
de vez em quando, cortado pelo chilrear de algum pássaro, pela
água do riacho que lhe passa ao lado e pelo resmalhar das folhas
das árvores. Ao longe, os sinos marcam o passar das horas.
Para Cabrum seguimos por uma estrada secundária, ladeada, ora
por enormes barrocais onde as raízes dos pinheiros rasgam a
rocha, ora por pedreiras. Num cruzamento, a placa que indica a aldeia
está caída no chão, cheia de ferrugem e quase
ilegível. Atenção porque em alturas de chuvas
esta estrada, que aqui é de terra, fica intransitável.
Foi esse o caso. As crateras são tão grandes que o carro
não as consegue atravessar. Não sabemos a que distância
estamos de Cabrum e por isso resolvemos desistir de visitar a ermida
de São José, uma das nove referidas nas Memórias
Paroquiais de 1758. Voltamos para trás, saímos do desvio
e passamos pelas termas do Carvalhal, só voltando a parar em
Mões, uma aldeia tipicamente serrana. Os três solares
da terra foram certamente abrigo para peregrinos.
Um deles, vê-se mal entramos na povoação. Ao pararmos
o carro, uma senhora de idade que vinha a sair da casa em frente cumprimenta-nos.
Solícita, faz-nos uma breve história da família
proprietária deste solar. Pertence aos descendentes do Comendador
Oliveira Baptista, figura ilustre deste concelho de Castro d'Aire
e foi construído na segunda metade do século xviii.
"É muito antigo", diz a senhora que nos indica
igualmente o caminho para o antigo pelourinho e para a igreja paroquial.
Os dois outros solares são setecentistas. De Mões, terra
fértil em estanho ainda hoje explorado, tomamos a direcção
de Vila Boa por uma estrada secundária que bifurca para a aldeia
que procuramos: Vila Franca, onde deverá haver ainda rasto
do caminho medieval.
O barulho das serras eléctricas que cortam os eucaliptos e,
quando o vento está de feição, o correr das águas
do rio Paiva acompanham-nos. Em Vila Franca embrenhamo-nos pelas ruas
da aldeia à procura de uma que nos leve até à
margem do Paiva. São caminhos íngremes, de calçada
irregular, onde não passam carros. Não há ponte.
A travessia faz-se à maneira antiga, por poldras, marcos de
pedra ou cimento colocados a distância regular através
de uma sucessão de rápidos de águas baixas, intercalados
com pesqueiras. Os campos de milho das margens estão naturalmente
bastante viçosos. Pela outra margem vai-se a pé para
Fareja e Baltar. Nós voltamos para trás, de volta à
estrada nacional onde serpenteamos a serra com o rio Paiva sempre
a acompanhar-nos no fundo do vale. Depois de Castro d'Aire, as Portas
de Montemuro, da serra com o mesmo nome, ficam à esquerda e
dão conta de um posto de controlo romano, já em ruínas
no século xviii.
Mouramorta
é uma pequena aldeia beirã, a um quilómetro da
nacional, encravada numa encosta com vista para a ribeira que corre
no fundo de um verdejante vale. A ponte, de origem incerta, deverá
ter sido construída pelos romanos e refeita na Idade Média.
De uma azenha onde se mói o pão sai um homem de idade
que sobe a encosta com uma saca de farinha às costas enquanto
nos campos alguns camponeses cavam a terra. A aldeia está completamente
deserta e é a custo que descobrimos a capela de Santiago, ao
fundo de um caminho que circunda o cemitério. Infelizmente,
está bastante degradada. As paredes perderam a cor e, lá
dentro, espreitando por uma pequena janela sem vidros mas gradeada,
salva-se apenas o altar embora sem imagens. De Mouramorta ao Mezio,
o velho caminho, paralelo à estrada nacional, é mais
uma parte do percurso pedestre.
Murado e em muitos sítios ainda com laje, pensa-se que segue
exactamente o trajecto da antiga estrada romana que vinha de Viseu,
através do planalto da Senhora da Ouvida. As duas mulheres,
que no Mezio cruzam o Largo do Cruzeiro, aconchegam as capuchas castanhas
para a cabeça, antes de desaparecerem num alpendre. A aldeia
parece estar dividida em duas partes: a mais antiga e típica
fica na encosta e mantém ainda as tradicionais casas da serra
de Montemuro com telhados de colmo; a outra, já no vale, é
mais moderna, apesar de ser aqui que se ergue a igreja paroquial,
de data incerta mas reconstruída no século xviii. No
santoral pintado nos caixotões do tecto vemos pela primeira
vez desde que saímos de Viseu uma figura de São Tiago.
É inevitável pensar: "Até que enfim!"
Os três cruzeiros existentes em Mezio são uma amostra
das várias dezenas que fomos encontrando.
São evidentemente representações do Calvário
de Cristo, mas ao longo dos séculos foram tendo outras funções.
Destas, a que nos interessa é a de orientadores dos viajantes
e peregrinos. Ao passarmos por Bigorne, já na estrada para
Lamego, mimosas amarelas salpicam o vale. O planalto acaba na Ponte
de Reconcos sobre a ribeira de Balsemão e a estrada ao longo
do vale passa ao lado de uma antiga Venda abandonada e em ruínas.
Em Magueija, paróquia de Santiago, ainda se pode ver a velha
Casa da Muda dos cavalos, memória do tempo de outras locomoções.
Uma placa que confirma estarmos a percorrer um caminho de Santiago
aparece, pela primeira vez, à entrada de Lamego. Já
não era sem tempo. Na cidade não há peugadas
de Tiago apesar de se saber ter aí existido um hospital para
peregrinos, com invocação de Santa Maria de Roquemador.
Ainda assim vale a pena visitar a Sé, o Museu e o Santuário
de Nossa Senhora dos Remédios. No centro histórico as
casas brasonadas terão provavelmente acolhido muitos devotos.
O nosso dia acaba aqui mas só depois de provarmos o famoso
presunto de Lamego.
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