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Prazeres - Lugares com História
Os bastidores de Westminster

"Order, Order.” O grito de ordem da presidente da Câmara dos Comuns durante os barulhentos debates no parlamento britânico ressoa tão forte neste novo milénio como nos séculos passados. Enquanto os deputados deliberam projectos de lei, membros do público alojados na galeria sussurram comentários sobre a arquitectura do prédio e os curiosos rituais que fazem desta Casa não só o centro do poder político da Grã-Bretanha como também uma das principais atracções turísticas do país. Estamos no Palácio de Westminster.

Texto de Helena Carone e fotos de Parliamentary Education Unit e Fototeca

E
ste ano, pela primeira vez na sua história, a sede do parlamento britânico abriu as suas portas ao público com ingresso pago. É bem verdade que britânicos e visitantes interessados já podiam acompanhar os debates parlamentares - era só entrar na fila à porta e torcer para os lugares não se esgotarem logo. Mas para visitar as outras instalações do fantástico prédio histórico, de que faz parte o famoso relógio Big Ben, até agora o único recurso do turista era tentar organizar a visita através de sua embaixada em Londres (um processo burocrático que exigia muito tempo e boa vontade).

A abertura oficial a tours guiados durante o recesso parlamentar, entre Agosto e Setembro passados, começou de forma experimental mas tem tudo para se transformar num dos pontos altos do calendário turístico de Londres. O curioso é que houve deliberação dos deputados até para decidir quanto cobrar pelo ingresso. Eles fizeram questão de que o preço fosse determinado sem objectivo de lucro, o mínimo necessário para cobrir os gastos administrativos, segundo a assessoria do Palácio de Westminster.

O programa prometia acesso, entre outras coisas, à Câmara dos Comuns; à fantástica Câmara dos Lordes; ao salão onde a rainha se paramenta quando abre o parlamento; à Galeria Real; e ao Westminster Hall, a parte mais antiga do palácio, datada do século XI e principal residência real até o século XVI. Depois de passar por um esquema de segurança semelhante ao dos aeroportos, junto-me a um grupo que se deixa conduzir em estado de grande curiosidade.

A engrenagem do sistema democrático britânico - cheia de idiossincrasias e excentricidades - é explicada durante a visita pelo guia credenciado que se revela profundo conhecedor do assunto. Quem não sabia ficou a saber que a Grã-Bretanha é uma monarquia parlamentarista. A rainha Elizabeth II é a chefe de Estado e o primeiro-ministro é o chefe de governo. O legislativo é formado pela Câmara dos Comuns (com 659 deputados eleitos pelo voto directo) e a Câmara dos Lordes (quase 700 representantes da nobreza e do clero, com títulos vitalícios e hereditários, e personalidades da vida pública nomeadas pelo chefe de governo e agraciadas com um título de nobreza). As duas câmaras, ou casas, têm como sede o Palácio de West-minster desde a primeira metade do século xvi, quando Henrique VIII mudou-se dali para Whitehall.

Mas durante séculos as salas de debates foram espaços improvisados. Os debates parlamentares só ganharam salões permanentes, e especificamente dedicados a esta função, depois do incêndio que destruiu o palácio em 1834. O prédio em estilo gótico que se vê hoje em dia (à moda de um castelinho de areia) e que podemos agora visitar por dentro foi erguido das cinzas pelos arquitectos Charles Barry e Auguste Pugin.

Como as visitas pagas acontecem durante o recesso parlamentar, infelizmente o turista não tem a oportunidade de assistir da Galeria dos Visitantes às sessões da Câmara dos Lordes (soporíferas) ou da Câmara dos Comuns (mais animadas e engraçadas). Mas podemos constatar que a Câmara dos Comuns é bem menor do que se imagina.

O palácio de Westminster sofreu vários bombardeios, durante a Segunda Guerra Mundial, e a Câmara dos Comuns foi totalmente destruída durante uma blitz dos aviões alemães sobre Londres no dia 10 de Maio de 1941. Churchill fez questão de que fosse reconstruída no espírito do salão original - o que foi feito pelo arquitecto Sir Giles Gilbert Scott.

Decorada de forma bastante simples, despida de qualquer luxo, a Câmara dos Comuns oferece o cenário perfeito para debates calorosos. Ao contrário da maioria dos parlamentos mundo afora - que, em geral, seguem um desenho circular - as duas bancadas britânicas sentam-se em lados opostos. De certa forma, a arquitectura do lugar contribui para controlar ânimos exaltados.

Para evitar que os ânimos dos parlamentares fiquem demasiado acesos, como acontece com frequência em muitos países, os deputados são proibidos de cruzar duas linhas vermelhas traçadas no chão. A distância entre elas é o comprimento da lâmina de duas espadas - o que revela que, em outros tempos, adversários políticos apelavam para a força física quando as palavras ou alianças partidárias eram insuficientes para garantir a vitória. É curioso imaginar que a tão propalada fleuma britânica era subvertida também na Galeria dos Visitantes, a galeria pública, palco de ruidosos e violentos protestos. No passado, deputados foram bombardeados com trigo, esterco e até gás lacrimogéneo. Mas a rígida segurança actual impede manifestações do género.
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