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Nacional Fim-de-Semana
Na Rota do Paiva

Marcada por uma topografia rigorosa e uma vegetação luxuriante que a confluência de rios e riachos alimenta, a região onde se anicha o concelho de Arouca surpreende pela diversidade de panorâmicas que proporciona.

Texto de Ana Guerra Fotos de Carlos Sereno

O céu de um azul puríssimo contrasta com a vegetação rasteira que cobre os pedregosos terrenos de granito e onde minúsculas flores avermelhadas dão um colorido suave a estes extensos descampados. Ali à frente, as pedras de uma anta incompleta, parecem rasgar o chão e o céu, mais adiante corre em suave murmúrio um riacho de águas cristalinas. Aqui é a serra da Freita, um recanto onde se pode apreciar a natureza no seu estado mais puro.

A serra da Freita faz parte do maciço da Serra da Gralheira, juntamente com a serra da Arada e do Arestal. É uma região de grandes contrastes, de relevo áspero e imponente. Ao austero planalto, onde só florescem os matos rasteiros, contrapõem-se os profundos vales encaixados, atapetados de espesso arvoredo, por entre o qual correm rios rebeldes e tumultuosos.
As pequenas aldeias que salpicam a serra, ora se escondem nos recônditos das rugas da montanha, ora se empoleiram a meia encosta, em airosos anfiteatros rodeados de socalcos laboriosamente talhados ao longo dos tempos. O casario de pedra confunde-se com o próprio monte, num perfeito mimetismo que a construção em pedra lhes dá. Apenas algumas casas pontuam pela diferença, destacando-se pela cor berrante das paredes ou por ostentarem uma arquitectura desajustada, fruto de novos tempos e gostos de outras paragens.

Partindo do planalto da Serra da Freita vou à descoberta desta região que se me afigura mágica. Perto do ponto mais alto da serra (1085 metros) encontro a povoação de Albergaria da Serra, que ainda há pouco tempo se chamava das Cabras. Por aqui passava a muito antiga rota dos almocreves que atravessavam estes campos ermos com as suas caravanas de mulas ou cavalos. O topónimo deriva da existência, na terra, em tempos muito recuados, de uma estalagem onde os viajantes descansavam das fadigas das longas e perigosas viagens. A pequena placa que há longos anos foi colocada no muro do cemitério pretendia invocar, precisamente, a existência desse velho alojamento. Apesar da origem remota de Albergaria da Serra, a povoação mostra-se de cara lavada, dominada por construções recentes, nem sempre respeitadoras dos valores da arquitectura tradicional. Nas proximidades da aldeia vou ao encontro de uma das mais vertiginosas quedas de água da península, a chamada Frecha da Mizarela. Devido à morfologia particular do solo desta região - uma zona de transição dos duros granitos para os muito menos consistentes micaxistos - produz-se um desnível repentino de mais de 60 metros de altura. O rio Caima, ainda próximo da nascente, precipita-se por abismo rochoso produzindo uma cascata de grande beleza, sobretuto nos meses em que o rio é mais caudaloso.


Pedras parideiras
Esta pequena parte do mundo parece reservar-nos ainda algumas surpresas no campo da geologia. Não longe da Mizarela, do outro lado, e nas proximidades da povoação de Castanheira, encontro um fenómeno geológico bastante raro no mundo e único no nosso país. São as chamadas pedras parideiras, afloramentos graníticos que têm incrustados nódulos de biotite. Este mineral vai-se soltando da rocha-mãe por acção da erosão, libertando umas pequenas esferas escuras que parecem nascer da própria pedra. Tanta graça as pessoas lhes acharam que foi necessário proteger o recinto onde se concentram estas curiosas pedras, caso contrário correr-se-ia o risco de, uma a uma, serem levadas do local, perdendo-se completamente todos os vestígios deste curiosidade natural. Procurando atentamente é possível, porém, encontrar algumas destas pedras, em muito menor densidade, é certo, em determinadas zonas espalhadas por alguns quilómetros em redor da concentração de Castanheira.

Afasto-me do planalto central da Freita, em busca de algumas das aldeias mais genuínas da serra. E não é preciso andar muito. Ali perto, quase escondido, fica o minúsculo lugar de Cando, uma dezena de casas em xisto que se confundem com a encosta e onde até as ruas são talhadas na dura e rude pedra. Passo por Tebilhão e Cabreiros, duas aldeias que se dispõem frente a frente mas que estão separadas por um profundo vale, sem grande possibilidade de ligação. Resta-lhes apenas a cada uma olhar o casario escuro e os verdejantes socalcos da outra. A estrada continua a serpentear pelas serranias.

Terras de volfrâmio
Estamos na fronteira do concelho de Arouca com o de S. Pedro do Sul, com a serra da Freita a dar lugar à Arada. Quase não se dá pela transição, tal a uniformidade paisagística que existe entre ambas. As povoações também não mudam, conservando uma tipologia austera, e por vezes tristonha, mas sempre bem adaptadas à realidade que as cerca.

Em tempos assistiu-se por aqui a grande azáfama. Laboravam nesta região incontáveis minas de volfrâmio, as encostas fervilhavam de pessoas e máquinas na procura incessante do então valioso produto. A procura declinou, a rentabilidade das minas também, e agora só restam ruínas, como estas que encontro nas proximidade do antigo lugarejo de Gourim. A dois passos fica Drave, uma aldeia emblemática do concelho de Arouca, semi-abandonada, encravada nas pregas dos montes, com um riacho de águas claras atravessado por uma pontezita de pedra. Alcança-se Drave a pé, por uma vereda íngreme - aqui não chega qualquer estrada ou carreteiro. Ao avistar a aldeia do alto do monte sobranceiro - ou quando se calcorreiam as suas ruas desertas por entre as casas quase completamente arruinadas que rodeiam uma capelita ainda branca -, Drave emana um encanto estranho e misterioso que nos convida a reflectir.

Quase na mesma posição, parecendo ter sido lançada para um profundo poço, encontro Covas do Monte, esta, ao contrário, uma aldeia pujante de vida, pertencente ao concelho de S. Pedro do Sul. A estrada desce profundamente até chegarmos ao vale verdejante onde edificaram a povoação. Logo à entrada encontramos a escola primária em funcionamento, sinal da vitalidade da terra. Penetrar de carro na aldeia não é sensato. As ruas são estreitas e irregulares, além de se perder as possibilidades de conversa com os amáveis habitantes. Mostrando um contido orgulho na sua terra insistiram em mostrar-me o cruzeiro, a partir do qual se avistam as férteis hortas onde trabalham e se abarca outra perspectiva encantadora do verdejante vale. Lamentam que as crianças, uma vez cumpridos os primeiros anos de escola tenham, de partir para S. Pedro do Sul, o que é bastante penoso sobretudo no Inverno, mas não trocam a sua terra por nenhuma outra. Perante a tranquilidade do lugar e a amabilidade e franqueza das pessoas não posso deixar de pensar que tomaram a opção certa.

Perdidos nas serranias
As encostas norte da Arada vêem-se dominadas por uma região de vertentes declivosas e precipícios vertiginosos, conhecida localmente por Portal do Inferno. Posso compreender a origem de tal nome, mas ao atravessar a área não consigo ficar indiferente à grandiosidade da paisagem, de uma beleza agreste, que muito facilmente me obriga a ignorar quaisquer perigos que o estradão pudesse criar.

Algures nesta zona nasce o Paivô, rio que banha algumas das mais típicas aldeias de Arouca, antes de se juntar ao rio Paiva na sua viagem até ao Douro. Regoufe e Covelo de Paivô são duas dessas aldeias. Tal como noutros pontos destas serranias, também aqui existiram numerosas minas, há muito abandonadas, restando, num ou noutro lugar, alguma entrada de galeria ou qualquer edifício em ruínas. As aldeias, porém, apesar de cada vez mais desertas e envelhecidas, continuam a sua vida, talvez mais solitária mas certamente muito tranquila. Os habitantes que ainda vão resistindo aos encantos dos grandes burgos ou de algum país estrangeiro, perpetuam os labores agrícolas milenares, cuidando das pequenas hortas ou das folhas de cereais que, quase sempre, se avistam nas proximidades da aldeia. A criação de gado é, por seu lado, uma forte componente desta débil economia agrária. É vulgar cruzarmo-nos com manadas de vacas que se passeiam majestosamente pelas ruas estreitas e tortuosas das aldeias, ou avistar um pastor solitário, no cimo de um monte, a guardar o seu rebanho de ovelhas ou cabras, que vão mordiscando a parca vegetação rasteira que teima em crescer por entre as penedias.

Sigo o Paivô até ao seu inexorável encontro com o rio Paiva. O caminho sinuoso acompanha o leito do rio, por vezes mesmo à beira de água, outras elevado até meia encosta. As povoações surgem-me dispostas em anfiteatro, em equilíbrios que se me afiguram como precários, com inclinações que parecem desafiar as leis da gravidade, mas que são, de facto, apenas adaptações astuciosas à fisionomia áspera do terreno. É paradigmático o caso que me surge quase à entrada de Ponte de Telhe, quando a estrada fica ombro a ombro com os telhados das casas, que parecem constituir um prolongamento do caminho. Fica-me a dúvida sobre o que teria surgido primeiro, se a habitação se a via, já que a encosta íngreme - essa, está lá desde tempos imemoriais a desafiar o engenho e persistência do Homem.

Para radicais
Finalmente encontro o Paiva, esse rio inconstante de leito pedregoso e recurvado, um típico curso de água de montanha que ora mostra o seu lado rebelde de águas bravas, ora desliza mansamente em trechos ídilicos. As grandes variações sazonais de caudal do rio, a estreiteza e o acentuado desnível do seu leito provocam, em muitos sítios, o aparecimento de rápidos, que fazem as delícias dos apreciadores de desportos aquáticos radicais, os quais consideram o Paiva, muito justamente, um dos melhores locais do país para a prática das suas actividades.

O rio Paiva está rodeado, em significativa parte do seu percurso, por uma frondosa e luxuriante galeria vegetal, que alberga ecossistemas diversificados e de grande importância. A uma rica comunidade piscícola e de insectos aquáticos vem juntar-se um grande número de aves ripícolas e espécies tão esquivas e enigmáticas como a lontra, que só com muita sorte e paciência poderemos avistar. A faceta selvagem e agitada que tornou o Paiva conhecido, por vezes dá lugar a uma completa transfiguração do seu carácter, quando o rio atravessa zonas de mosaico agrícola. Surgem aqui as pequenas aldeias ribeirinhas, criadas em estrita sintonia com o rio.

Uma estradita de terra leva-me a seguir, praticamente, os meandros do Paiva. A primeira aldeia que encontro é Janarde, avisto-a ainda a uma certa distância ao transpor uma curva do caminho. A povoação surge disposta sobre um pequeno promontório rochoso, em posição dominante de um remanso do rio, uma meia dúzia de casas de pedra cinzenta, por entre as quais sobressai o alvor de uma pequena capela caiada. Estou num vale relativamente largo rodeado de cerros, densamente cobertos de arvoredo, que se impõem pelas suas dimensões fazendo ainda parecer mais diminutas estas, já de si pequenas, povoações.

Mais adiante, seguindo eu para montante, vou encontrar Meitriz, aldeia bastante pitoresca e que tem a particularidade de se distribuir por dois núcleos distintos, um de cada lado do rio, não existindo, contudo, qualquer ponte ou pontão que os una. Nodar, ou Nobar, dependendo da fonte toponímica, apresenta já uma descaracterização acentuada, mantendo, porém, um certo encanto pela disposição do seu casario, anichado no interior de um prolongado meandro do Paiva. Já tinha avistado Nodar algumas horas antes, quando subi até umas cumeeiras que se desenrolam em crista alongada, dominando o vale do rio. Lá de cima abarca-se um panorama fabuloso de serranias, com a imponente massa de Montemuro a dominar parte significativa do horizonte, e, um pouco a toda a volta, descortinam-se um sem número de pequenas aldeias sem nome, esbatidas pela distância.

A urbe
Pouco antes da zona de Alvarenga - a afamada terra dos bons bifes - o Paiva inflecte decididamente para norte, ao encontro do rio Douro. O rio corre estrangulado por imponentes penedias por sob a velha ponte de Alvarenga, uma construção do século XVIII, em granito, que transpõe o estreito desfiladeiro com um poderoso arco assente nos rochedos das margens. Atravesso a ponte e acompanho o Paiva durante mais alguns quilómetros. No meu caminho surgem duas conhecidas aldeias, Canelas e Espiunca, ambas com pequenas e agradáveis praias fluviais, muito frequentadas nos meses estivais quando o calor aperta e se torna bem vinda a frescura destes recantos sombreados por denso arvoredo.

Arouca surge no interior de um recôncavo abrigado, rodeado, a toda a volta, por biombos de montanhas. O acesso pela estrada sinuosa, mas agradável, revela um vale verdejante com a vila em primeiro plano, numa paisagem que Herculano comparou à de Sintra. Apesar dos sinais evidentes de crescimento urbano recente, consubstanciados no grande número de novas construções, sobretudo nos bairros periféricos, continua a ser marcante na fisionomia da terra a volumosa massa do velho mosteiro de origem Beneditina. Arouca é uma terra antiga que muito ficou a dever, no que respeita ao seu desenvolvimento, à grande casa religiosa, fundada em príncipios do século VIII por dois nobres visigodos, numa época anterior à génese do reino de Portugal. A história regista, mais tarde, a concessão de foral à vila em 1151. A infanta D. Mafalda, filha de Sancho I, que após as suas desventuras em terras de Castela aqui professou em 1220, promoveu a alteração da regra do mosteiro de Arouca, que passou a ser a de S. Bernardo. Simultaneamente, com a mudança de padroeiro o mosteiro foi transferido para a localização actual, e foi destinado unicamente, desde então, ao recolhimento de monjas Cisterciences, quando antes acolhia religiosos dos dois sexos. Desse segundo edifício monacal quase nada resta, já que a casa foi alvo de sucessivas transformações, acrescentos e obras de recuperação de outros tantos incêndios que a devastaram em diversas ocasiões ao longo dos séculos. Uma boa parte do espólio acumulado pelo rico mosteiro de Císter pode agora ser apreciado no museu de Arouca, com colecções notáveis de pintura, mobiliário, ourivesaria, tapeçaria, livros e alfaias litúrgicas.

Após disfrutar dos grandes espaços que as grandes serranias aqui em volta me abriram, do ar puro e fresco das alturas do planalto, de um contacto privilegiado com bravios rios de montanha e com a natureza na sua ainda pureza ancestral, é para mim, de certo modo, um choque enfrentar o ambiente urbano que domina Arouca. Não me desagrada, contudo, descansar um pouco e entregar-me aos irresistíveis prazeres da doçaria conventual.

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