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D
O S S I E R

Amesterdão
é muita vezes mencionada pela sua organização singular. Esta cidade
do humanismo e da tolerância é das poucas sobreviventes ao crescimento
desmedido que descaracteriza as metrópoles. O encanto dos seus canais,
a arquitectura original das suas casas e um charme irresistível
fazem dela um lugar especial que nos deixa para sempre apaixonados.
Sem
querer baralhar, começava pelo fim para contar a grande odisseia
desta viagem. É que, no último dia, um curto percurso
sobre duas rodas deixou uma recordação que trouxe
para Portugal, onde agora me faço acompanhar por mais duas
pernas de metal auxiliares. A cidade das bicicletas tem destas coisas,
um pequeno acidente e um mês de repouso foi o resultado da
aventura. O objectivo era entrar no espírito dos holandeses
que, se pedalam tranquilamente e parecem desconhecer o stress e
outras "doenças" tão em voga. Foi exactamente
essa sensação, de que tudo vai ficar bem, que não
deixou lugar para arrependimentos sobre esta viagem apaixonante.
Um viver tão cool que nem dá para acreditar.

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Muntplein,
uma das praças centrais de Amesterdão (em cima); as
características bicicletas; Vondelpark
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A
maioria da população é jovem ou, pelo menos,
parece, vestem bem, são bonitos e poderiam até pertencer
ao elenco de uma qual-quer famosa série de televisão
tipo Friends.
Logo à chegada, a sensação é a de estarmos
num simpático bairro, onde os prédios não atingem
proporções desmedidas e os canais, generosamente distribuídos,
fazem com que quase todos gozem de uma vista inspiradora. Não
é por acaso que as suas casas têm enormes janelas a
aproveitar todos os raios da luz, que aqui nem sempre abunda. É
irresistível olhar lá para dentro, já que também
estas poderiam ser décor de filmes ou de sessões de
fotografia para revistas de design e interiores. E se imaginarmos
que todos estes edifícios estão assentes em estacas,
como aliás toda a cidade, construída quatro metros
abaixo do nível do Mar do Norte, torna-se ainda mais encantador
este cenário que nasceu das águas.
Apesar
de modesta, a arquitectura de Amesterdão é fascinante.
Devido a estas bases em fundações profundas, as casas
são inclinadas e, de uma construção para outra,
vêem-se enormes rachas, desníveis laterais que lhes
conferem um aspecto carismático. Estas inclinações
são, por vezes, propositadas, nomeadamente para a frente,
o que permite um melhor escoamento das águas e facilita as
mudanças. É que estes prédios estreitos de
escadas sinuosas possuem uma roldana no seu topo, que é a
forma utilizada para o transporte de mobiliário para o interior
das habitações, através dos grandes janelões.
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Um
cruzeiro pelos canais (em cima); galeria de arte no
quarteirão dos museus (centro); NewMetropolis (em baixo)
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Mais
uma prova de um espírito prático a viabilizar as melhores
soluções de conforto.
O resultado são construções muito semelhantes,
que nos fazem crer estar sempre em ruas parecidas, ou a andar no
mesmo lugar, até porque o traçado circular e paralelo
é comum aos canais, ruas, e as pontes também são
muito semelhantes. A distinguir os edifícios e a enriquecê-los
arquitectonicamente estão as empenas, mais elaboradas nas
avenidas dos canais principais. Tratam-se de ornamentos em pedra
na fachada dos telhados, com as mais variadas alusões, já
tidos como um ícone de Amesterdão.
Na Holanda, seja holandês
Para se orientar, o melhor será mesmo familiarizar-se com
as principais pleins, que é como dizer praças. A destacar
a Damsplein, a Leidseplein e a Waterlooplein. Se o tempo permitir,
estes serão mesmo locais mais propícios para um encontro.
Fique a saber que a cidade antiga está rodeada por quatro
canais principais, o Singel, o Herengracht, o Keizersgracht e o
Prinsengracht. De início pode parecer confuso, mas cedo encontra
a sua ponte, esquina, rua ou canal preferido e pouco a pouco tudo
começa a fazer sentido.
Em
menos de nada pode passar por um habitante, se adicionar o detalhe
importantíssimo da bicicleta. Velhas e ferrugentas, para
afastar os ladrões, estão por todo o lado e são
mais de 400 mil, número recorde da Europa. Só precisa
de um cadeado, que não faltam locais de estacionamento, ciclovias
e sinais de trânsito. Para
se juntar a esta grande família, pode alugar uma bicicleta
em vários pontos da cidade, caso contrário, não
deixe de apreciar este singular meio de transporte, que pode ter
atrelado para um carrinho de bebé ou até duas cadeirinhas
(uma à frente e outra atrás) para minipassageiros.
Tudo é possível neste veículo e a cestinha
de apoio mais parece "a mala do Sport-Billy", a transportar
plantas, caixas e até televisões. É vê-los
passar a conduzir só com uma mão enquanto a outra
segura a carga, um chapéu-de-chuva, um telemóvel ou
até um livro... mas não se aventure tanto, que os
holandeses,
esses sim, parecem ter nascido sobre duas rodas.
Se o bom tempo ajudar, enchem-se as esplanadas, os bancos, ou mesmo
os degraus dos passeios numa celebração diária
que compensa o sair das tocas. O comércio também é
frenético nesta cidade, onde se podem encontrar lojas de
quase tudo, quase todas com grande estilo. Até uma simples
mercearia poderia ganhar um prémio de vitrinismo. O bom gosto
abunda e a perdição está a um passo. Mas não
se distraia, é que às 18 horas fecha tudo e não
vale a pena sequer bater à porta.

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Uma
das formas de conhecer a cidade é pela água, num cruzeiro
pelos canais
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Restam
apenas os cafés, o que pode parecer pouca escolha, mas que
na verdade são cerca de 1400 estabelecimentos que noutro
lugar do mundo se chamariam restaurantes, snack-bars, pastelarias,
salões de chá, "antros de droga", bares
ou pubs e que em Amesterdão se designam simplesmente como
cafés, fiéis companheiros para todas as horas, gostos,
vícios, vontades e necessidades.
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