País
onde confluem as culturas árabe, africana e europeia, a Tunísia
oferece não só belas praias banhadas pelo Mediterrâneo
como elegantes urbes perfumadas a jasmim e flor de laranjeira. A tudo
isto soma-se o deserto e uma extensa área habitada pelos berberes
que, nas suas habitações ancestrais – os ksours
–, desafiam as leis da globalização. Um mundo
por descobrir (ainda) pleno contrastes
Texto
de Sara Raquel Silva Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
Chegados
de fresco de Lisboa, em 2003, via Tunes-Djerba, a incursão
pelo Sul da Tunísia leva-nos a questionar se não teríamos
por engano entrado num daqueles transmutadores temporais do cinema
de ficção científica dos anos 70. Todo o cenário
suscita estranheza: as planícies rochosas semidesérticas
interrompidas por vales e montanhas; as aldeias construídas
no interior do solo; o guarda-roupa exótico e ultracolorido
das mulheres que passam, dobradas pelo peso da lenha que carregam
às costas; o vagar sorridente e um tanto indiferente dos homens
sentados à soleira das portas a bebericar chá de menta.
O tempo parece ter desacelerado e ganho o ritmo da morna cabo-verdiana,
quando estávamos nós ainda há pouco no aeroporto
a menear ao som de qualquer êxito pop “mastiga e deita
fora”. Deixámos, afinal, o reino dos arranha-céus
e entrámos no dos castelos de areia, ou seja, dos ksours, as
construções de pedra, adobe e troncos de palmeira que
abrigaram durante séculos os primeiros habitantes da Tunísia
e servem, ainda hoje, de lar a algumas famílias berberes. O
cenário inesperado reporta-se, então, à região
de Dahar e constitui um itinerário alternativo para espíritos
curiosos, para quem a doçura da costa mediterrânica tunisiana
não basta para viajar até ao Norte de África.
A caminho do deserto
Jovem
vestida
com os trajes tradicionais do Sudeste da Tunísia
Ao
descer da ilha de Djerba em direcção ao Grande Erg oriental
(deserto de dunas sahariano) num 4X4 – a forma mais prática
e também mais interessante de viajar pelas pistas de terra
batida –, vamos assistindo à transformação
gradual da paisagem inicialmente verdejante em longas extensões
de lagos salgados, areia e pedra, entrecortadas por pequenos diques,
junto dos quais ainda se pratica alguma agricultura de subsistência.
Imagens que anunciam a proximidade do deserto.
Damos assim entrada na região que vai de Medenine a Tataouine
e Matmata, povoada pelos autóctones berberes, actualmente sedentarizados,
e pelos nómadas beduínos (de origem árabe). Ambos
povos que a Norte já se integraram por completo na cultura
urbana do país, mas a Sul, mais arredios às influências
externas, vivem de forma muito semelhante aos seus antepassados.
Mosaico
do Museu do Bardo
Quase
completamente arabizados, os berberes distinguem-se sobretudo pelo
seu tom claro de pele e pelo cabelo. Embora seja ainda falada por
alguns, a sua língua foi-se perdendo ao longo do tempo, principalmente
desde que Bourguiba, o Presidente entre 1956 e 1987, procurou unificar
o país promovendo a educação e o ensino do Árabe
e do Francês nas zonas mais esconsas. A Tunísia ganhou
uma nova unidade nacional, mas perdeu em diversidade cultural.
Sobreviveram,
felizmente, uns poucos oásis de História: os ksours
(castelos ou fortalezas) e as casas trogloditas, talvez os últimos
redutos da cultura berbere e uma resposta engenhosa às características
climatéricas, geográficas e socio-políticas desta
zona, permitindo a continuação de todo um estilo de
vida.
Casa
troglodita de Matmata
Os ksours funcionavam, à data da sua construção,
como autênticas fortalezas. Edificados com finalidades defensivas,
para proteger um povo que durante parte do ano vivia em tendas no
deserto ou para armazenar cereais (garantem a boa conservação
dos grãos por sete anos), chegaram a atingir o número
de 1500. Grande parte foi arrasada durante a Segunda Guerra Mundial
ou abandonada devido ao êxodo rural das últimas décadas,
pelo que sobra apenas uma centena e meia. E embora alguns sejam ainda
habitados, a maioria encontra-se em avançado estado de degradação.
Paisagem
rural
a caminho de Tataouine
As
habitações trogloditas, verdadeiras acrobacias arquitectónicas
operadas no interior do solo, em jeito de desafio aos caprichos da
natureza, podem, por seu lado, ser encontradas numa área mais
circunscrita, que vai de Matmata a Tamezret. Ao longe assemelham-se
a crateras vulcânicas com cerca de cinco a 10 metros de profundidade
– as aberturas são nada menos do que os pátios
que dão acesso às divisões de cada casa –
e revelam-se prodigiosas na forma como mantêm amenas as temperaturas
no seu interior, independentemente dos picos de calor e frio do clima
sahariano.
Alguns factos históricos
Apesar
das dimensões reduzidas, devido à sua posição
estratégica no Mediterrâneo, a Tunísia foi
desde sempre um território disputado. Tanto fenícios
como romanos, vândalos, bizantinos, árabes, otomanos
e franceses dominaram a região, mas pensa-se que a zona
é habitada desde a pré-história, tendo
sido descobertos vestígios humanos com cerca de 200 mil
anos de existência na cidade de Kebili.
Chenini
assemelha-se, de longe, a um formigueiro gigante
construído ao redor de uma pequena montanha
A
civilização fenícia foi a primeira a estabelecer-se,
a partir do porto de Tyra (actual Líbano) no ano 1100
a.C., altura em que fundou Cartago, na costa Norte. No século
II a.C., os seus eternos rivais, os romanos, tomaram a cidade,
arrasaram-na e deportaram os habitantes como escravos. Já
no 44 a.C., repovoaram-na e Cartago assim permaneceu, romana,
até à invasão dos vândalos no século
V. Um século mais tarde foi a vez dos bizantinos, que
expulsaram os anteriores invasores, mas prosseguiram por mais
150 anos com uma política semelhante de destruição,
que acabaria por os separar do povo autóctone –
os berberes – e dar origem a inúmeros pólos
de resistência.
As incursões não ficariam por aqui: no século
VII os árabes invadiram este pequeno território
norte-africano e a actual cidade de Kairouan tornou-se a capital
da região controlada pelo Islão. No entanto, algumas
tribos berberes não aceitaram este domínio (apesar
de alguns terem adoptado a religião) e deram início
a violentos combates, primeiro contra a força ocupante
e depois entre si. O Norte de África foi sendo lentamente
reduzido a ruínas e as perspectivas futuras não
se revelavam mais auspiciosas: a zona foi mais tarde disputada
entre Espanha e o Império Otomano, durante algumas dezenas
de anos, até ter passado definitivamente para as mãos
dos turcos em 1574.
Passados quatro séculos foram os franceses que passaram
a dominar o país, facto que só se viria a alterar
já em 1956, ano em que a Tunísia foi declarada
República e Bourguiba se tornou o primeiro Presidente.
De imediato, procurou separar os poderes religioso e político,
tendo efectuado uma série de reformas, entre as quais
a abolição da shari’a e da poligamia e o
reconhecimento legal da igualdade entre homens e mulheres. Bourguiba
manteve o cargo até 1987, até ter sido substituído
pelo ministro do Interior do seu Governo – Zine el-Abidine
Ben Ali, o actual Presidente.
No reino dos ksours
Medenine é, para quem viaja a partir do Norte, a primeira cidade
a exibir uns tantos exemplares de ghorfas, as células oblongas
de vários níveis que formam os ksours. No local funciona
um pequeno mercado berbere com alguns artefactos de marroquinaria
e antiguidades a preços interessantes, mas que parece demasiado
turístico. Há pouco mais de uma década, por altura
da modernização da cidade, a maioria destas construções
foi demolida, pelo que outras fortalezas bem mais interessantes nas
redondezas – por permanecerem habitadas ou em melhor estado
de conservação – merecem ser visitadas.
Ksar
Haddada, local onde foram filmadas algumas cenas da
série de filmes “Guerra das Estrelas”
e o Ksar Chenini
Já
em Tatouine chegamos ao centro administrativo da zona dos castelos
de areia. A cidade foi edificada em 1912 para acolher a Legião
Estrangeira francesa encarregue da manutenção da paz,
mas já nada resta do ambiente colonial de então. Neste
pequeno núcleo urbano respira-se o ambiente mais magrebino
possível: as habitações estão sempre meio
construídas ou por construir, as lojas exibem bugigangas de
todas as cores e materiais imagináveis espalhados pelos passeios
e os espaços públicos – à excepção
das feiras matinais – são dominados pela presença
masculina.
O
tempo desacelerou nestas terras semidesérticas
interrompidas por montes pintados a ocre
Tatouine oferece algum interesse, sobretudo pelo seu pitoresco mercado,
que remonta ao século XIX, quando as tribos seminómadas
do deserto aí se deslocavam para venderem tapeçarias
e produtos agrícolas, e por se apresentar como um excelente
ponto de partida para os mais atractivos ksours da região.
Para os amantes do cinema valerá a pena visitar o Ksar (singular
de ksours) Hadaada, parcialmente recuperado para a instalação
de um hotel, onde foi rodada uma das sequelas de “Guerra das
Estrelas”, de George Lucas. O Ksar Halouf merece também
atenção, por se encontrar numa zona montanhosa pouco
povoada e por proporcionar um ambiente de magnífica tranquilidade,
colorida pela música tradicional que a telefonia de um barzito
improvisado debita ao longo de todo o dia. O chá que aqui se
serve é delicioso – feito de umas ervas que não
conseguimos identificar –, sendo também possível
comprar azeite caseiro e visitar o lagar onde é fabricado.
Partimos com a impressão de termos conhecido o bar mais kitsch
que já vimos, decorado com uma jarra de vidro colorido e flores
de plástico, naperons rendados e, claro está, a costumeira
e gigantesca foto do actual Presidente Ben Ali. Outros bares adiante
estarão encarregues de desfazer essa ideia.