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D O S S I E R

Outubro de 2003
País onde confluem as culturas árabe, africana e europeia, a Tunísia oferece não só belas praias banhadas pelo Mediterrâneo como elegantes urbes perfumadas a jasmim e flor de laranjeira. A tudo isto soma-se o deserto e uma extensa área habitada pelos berberes que, nas suas habitações ancestrais – os ksours –, desafiam as leis da globalização. Um mundo por descobrir (ainda) pleno contrastes

Texto de Sara Raquel Silva Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   


C
hegados de fresco de Lisboa, em 2003, via Tunes-Djerba, a incursão pelo Sul da Tunísia leva-nos a questionar se não teríamos por engano entrado num daqueles transmutadores temporais do cinema de ficção científica dos anos 70. Todo o cenário suscita estranheza: as planícies rochosas semidesérticas interrompidas por vales e montanhas; as aldeias construídas no interior do solo; o guarda-roupa exótico e ultracolorido das mulheres que passam, dobradas pelo peso da lenha que carregam às costas; o vagar sorridente e um tanto indiferente dos homens sentados à soleira das portas a bebericar chá de menta.

O tempo parece ter desacelerado e ganho o ritmo da morna cabo-verdiana, quando estávamos nós ainda há pouco no aeroporto a menear ao som de qualquer êxito pop “mastiga e deita fora”. Deixámos, afinal, o reino dos arranha-céus e entrámos no dos castelos de areia, ou seja, dos ksours, as construções de pedra, adobe e troncos de palmeira que abrigaram durante séculos os primeiros habitantes da Tunísia e servem, ainda hoje, de lar a algumas famílias berberes. O cenário inesperado reporta-se, então, à região de Dahar e constitui um itinerário alternativo para espíritos curiosos, para quem a doçura da costa mediterrânica tunisiana não basta para viajar até ao Norte de África.


A caminho do deserto

Jovem vestida
com os trajes tradicionais do Sudeste da Tunísia
Ao descer da ilha de Djerba em direcção ao Grande Erg oriental (deserto de dunas sahariano) num 4X4 – a forma mais prática e também mais interessante de viajar pelas pistas de terra batida –, vamos assistindo à transformação gradual da paisagem inicialmente verdejante em longas extensões de lagos salgados, areia e pedra, entrecortadas por pequenos diques, junto dos quais ainda se pratica alguma agricultura de subsistência. Imagens que anunciam a proximidade do deserto.

Damos assim entrada na região que vai de Medenine a Tataouine e Matmata, povoada pelos autóctones berberes, actualmente sedentarizados, e pelos nómadas beduínos (de origem árabe). Ambos povos que a Norte já se integraram por completo na cultura urbana do país, mas a Sul, mais arredios às influências externas, vivem de forma muito semelhante aos seus antepassados.

Mosaico do Museu do Bardo
Quase completamente arabizados, os berberes distinguem-se sobretudo pelo seu tom claro de pele e pelo cabelo. Embora seja ainda falada por alguns, a sua língua foi-se perdendo ao longo do tempo, principalmente desde que Bourguiba, o Presidente entre 1956 e 1987, procurou unificar o país promovendo a educação e o ensino do Árabe e do Francês nas zonas mais esconsas. A Tunísia ganhou uma nova unidade nacional, mas perdeu em diversidade cultural.

Sobreviveram, felizmente, uns poucos oásis de História: os ksours (castelos ou fortalezas) e as casas trogloditas, talvez os últimos redutos da cultura berbere e uma resposta engenhosa às características climatéricas, geográficas e socio-políticas desta zona, permitindo a continuação de todo um estilo de vida.


Casa troglodita de Matmata
Os ksours funcionavam, à data da sua construção, como autênticas fortalezas. Edificados com finalidades defensivas, para proteger um povo que durante parte do ano vivia em tendas no deserto ou para armazenar cereais (garantem a boa conservação dos grãos por sete anos), chegaram a atingir o número de 1500. Grande parte foi arrasada durante a Segunda Guerra Mundial ou abandonada devido ao êxodo rural das últimas décadas, pelo que sobra apenas uma centena e meia. E embora alguns sejam ainda habitados, a maioria encontra-se em avançado estado de degradação.


Paisagem rural
a caminho de Tataouine
As habitações trogloditas, verdadeiras acrobacias arquitectónicas operadas no interior do solo, em jeito de desafio aos caprichos da natureza, podem, por seu lado, ser encontradas numa área mais circunscrita, que vai de Matmata a Tamezret. Ao longe assemelham-se a crateras vulcânicas com cerca de cinco a 10 metros de profundidade – as aberturas são nada menos do que os pátios que dão acesso às divisões de cada casa – e revelam-se prodigiosas na forma como mantêm amenas as temperaturas no seu interior, independentemente dos picos de calor e frio do clima sahariano.


Alguns factos históricos
Apesar das dimensões reduzidas, devido à sua posição estratégica no Mediterrâneo, a Tunísia foi desde sempre um território disputado. Tanto fenícios como romanos, vândalos, bizantinos, árabes, otomanos e franceses dominaram a região, mas pensa-se que a zona é habitada desde a pré-história, tendo sido descobertos vestígios humanos com cerca de 200 mil anos de existência na cidade de Kebili.

Chenini assemelha-se, de longe, a um formigueiro gigante construído ao redor de uma pequena montanha
A civilização fenícia foi a primeira a estabelecer-se, a partir do porto de Tyra (actual Líbano) no ano 1100 a.C., altura em que fundou Cartago, na costa Norte. No século II a.C., os seus eternos rivais, os romanos, tomaram a cidade, arrasaram-na e deportaram os habitantes como escravos. Já no 44 a.C., repovoaram-na e Cartago assim permaneceu, romana, até à invasão dos vândalos no século V. Um século mais tarde foi a vez dos bizantinos, que expulsaram os anteriores invasores, mas prosseguiram por mais 150 anos com uma política semelhante de destruição, que acabaria por os separar do povo autóctone – os berberes – e dar origem a inúmeros pólos de resistência.
As incursões não ficariam por aqui: no século VII os árabes invadiram este pequeno território norte-africano e a actual cidade de Kairouan tornou-se a capital da região controlada pelo Islão. No entanto, algumas tribos berberes não aceitaram este domínio (apesar de alguns terem adoptado a religião) e deram início a violentos combates, primeiro contra a força ocupante e depois entre si. O Norte de África foi sendo lentamente reduzido a ruínas e as perspectivas futuras não se revelavam mais auspiciosas: a zona foi mais tarde disputada entre Espanha e o Império Otomano, durante algumas dezenas de anos, até ter passado definitivamente para as mãos dos turcos em 1574.
Passados quatro séculos foram os franceses que passaram a dominar o país, facto que só se viria a alterar já em 1956, ano em que a Tunísia foi declarada República e Bourguiba se tornou o primeiro Presidente. De imediato, procurou separar os poderes religioso e político, tendo efectuado uma série de reformas, entre as quais a abolição da shari’a e da poligamia e o reconhecimento legal da igualdade entre homens e mulheres. Bourguiba manteve o cargo até 1987, até ter sido substituído pelo ministro do Interior do seu Governo – Zine el-Abidine Ben Ali, o actual Presidente.


No reino dos ksours
Medenine é, para quem viaja a partir do Norte, a primeira cidade a exibir uns tantos exemplares de ghorfas, as células oblongas de vários níveis que formam os ksours. No local funciona um pequeno mercado berbere com alguns artefactos de marroquinaria e antiguidades a preços interessantes, mas que parece demasiado turístico. Há pouco mais de uma década, por altura da modernização da cidade, a maioria destas construções foi demolida, pelo que outras fortalezas bem mais interessantes nas redondezas – por permanecerem habitadas ou em melhor estado de conservação – merecem ser visitadas.


Ksar Haddada, local onde foram filmadas algumas cenas da série de filmes “Guerra das Estrelas”
e o Ksar Chenini

Já em Tatouine chegamos ao centro administrativo da zona dos castelos de areia. A cidade foi edificada em 1912 para acolher a Legião Estrangeira francesa encarregue da manutenção da paz, mas já nada resta do ambiente colonial de então. Neste pequeno núcleo urbano respira-se o ambiente mais magrebino possível: as habitações estão sempre meio construídas ou por construir, as lojas exibem bugigangas de todas as cores e materiais imagináveis espalhados pelos passeios e os espaços públicos – à excepção das feiras matinais – são dominados pela presença masculina.



O tempo desacelerou nestas terras semidesérticas interrompidas por montes pintados a ocre
Tatouine oferece algum interesse, sobretudo pelo seu pitoresco mercado, que remonta ao século XIX, quando as tribos seminómadas do deserto aí se deslocavam para venderem tapeçarias e produtos agrícolas, e por se apresentar como um excelente ponto de partida para os mais atractivos ksours da região.
Para os amantes do cinema valerá a pena visitar o Ksar (singular de ksours) Hadaada, parcialmente recuperado para a instalação de um hotel, onde foi rodada uma das sequelas de “Guerra das Estrelas”, de George Lucas. O Ksar Halouf merece também atenção, por se encontrar numa zona montanhosa pouco povoada e por proporcionar um ambiente de magnífica tranquilidade, colorida pela música tradicional que a telefonia de um barzito improvisado debita ao longo de todo o dia. O chá que aqui se serve é delicioso – feito de umas ervas que não conseguimos identificar –, sendo também possível comprar azeite caseiro e visitar o lagar onde é fabricado.

Partimos com a impressão de termos conhecido o bar mais kitsch que já vimos, decorado com uma jarra de vidro colorido e flores de plástico, naperons rendados e, claro está, a costumeira e gigantesca foto do actual Presidente Ben Ali. Outros bares adiante estarão encarregues de desfazer essa ideia.

 
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