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D O S S I E R

Outubro de 2003


Entre o sonho e a realidade

Os ksours habitados são bastante mais interessantes do que aqueles recuperados, mas desertos, que se assemelham a museus fantasma a céu aberto. Ezzahra e Chenini, este último situado mais a Norte, perto de Gabés, alojam ainda algumas famílias, que nas imediações cultivam produtos hortícolas, mas dependem, na maioria dos casos, do apoio de familiares empregados nas grandes cidades.



Casario azul e branco de Sidi Bou Saïd
O Ksar Ezzahra, típica construção de montanha, é composto por dois quarteirões de ghorfas recuperadas e pintadas com cores desmaiadas, as mesmas com que os habitantes masculinos se vestem. Quase todos de idade avançada, usam o tradicional albornoz castanho feito de pele de camelo ou lã e turbante branco ou azul. Movem-se com vagar, passando os dias sentados, como que à espera de algo que se escusam a revelar, apenas para nos intrigarem com a razão de tanta paz. Os mais sociáveis, enquanto preparam o chá, vão contando aos viajantes histórias da Segunda Guerra Mundial, deslumbrando com a realidade aqueles cujo imaginário tinha sido até aí preenchido e aguçado apenas pelo grande ecrã.

Chenini assemelha-se, de longe, a um formigueiro gigante construído ao redor de uma pequena montanha, composto por um misto de casas trogloditas escavadas na rocha e ghorfas em ruínas. Revelou-se, no entanto, um espaço mais colorido e agitado
do que o ksar anterior, apesar dos tons ocre da paisagem. Talvez pela presença

Bar em Hadaada
surpreendentemente elegante das mulheres com os seus vestidos rosados ou lilás, aqui mais notória dada a estrutura exposta das habitações, das crianças que pedem moedas e de uns senhores que interpelam as estrangeiras numa língua que elas agradecem aos céus lhes ser completamente desconhecida.

Uma incursão mais demorada pela povoação irá revelar que a viagem que
pensávamos de início evocar um recuo temporal, denota apenas um desvio espacial: os berberes que aqui vivem parecem fazê-lo não por falta de alternativas, mas por orgulho, não recusando o conforto do progresso científico. Algumas das habitações dispõem de electricidade e televisão e assuntos como política mundial poderiam ser discutidos caso dominássemos o Árabe. No entanto, se os idosos afirmam preferir estas casas singelas, revestidas com belíssimas tapeçarias, a qualquer habitação citadina, os mais jovens ambicionam profissões que implicam a deslocação para as grandes cidades. Questionamos, por esse motivo, até quando este ksar permanecerá vivo, apesar do esforço do Governo na criação de infra-estruturas, como escolas e pequenos mercados, com vista à fixação dos habitantes na sua terra natal.

 
Na hora da despedida, Chenini deixa um pequeno travo a absurdo: do pátio de uma das habitações chega-nos o último êxito de Shakira – cantado em Árabe, é certo. Embaladas pelo ritmo da cantora sul-americana, duas adolescentes bamboleiam-se, alheias ao peso da condição feminina herdado das suas avós. Este, também aos poucos, tem sido abandonado.

Quanto a nós, resta-nos, finalmente, descobrir as portas do deserto, deixando para trás a zona dos castelos, que aos poucos se instalam na fronteira do sonho com a realidade. Dirigimo-nos a um antigo forte romano, Ksar Ghilaine, o mais sahariano de todos os oásis da Tunísia, rodeado a Este por um deserto de rocha e a Oeste por dunas de areia. O ponto de partida para expedições a camelo no deserto ou para, simplesmente, descansar no fantástico resort Pansea Ksar Ghilaine, numa tenda com vista para a piscina e para um céu repleto de estrelas.


Djerba: dolce fare niente no Mediterrâneo
Conta-nos Homero, cerca do ano 1100 a. C., que Ulisses, quando se deparou com a ilha de Djerba, a terá encontrado povoada de “comedores de lótus”.
Piscina do Hotel Odyssé Resort, em Zarzis
E que, perante a beleza deste pedaço de terra tranquilo, pontilhado por figueiras e palmeiras e rodeado por praias de águas cálidas e clima sereno, o herói clássico terá vacilado na hora da partida. Três milénios passados sobre o relato, a beleza natural do lugar mantém-se, apesar da fortíssima exploração turística, mas os repastos aqui servidos versam mais o que se pode retirar do mar, ao invés da terra, ou seja, peixe fresco e marisco.

Na realidade, podemos referir-nos a Djerba como um oásis. Desta feita não como uma nascente em pleno deserto – na ilha nem sequer existe água doce, que é trazida do continente –, mas como um território que difere do país
Medina de Tunes
no que respeita tanto à paisagem natural – algures entre o Norte luxuriante e o Sul desértico – como à arquitectónica, dado que as habitações dos campos, as menzels, seguem uma estrutura única, assemelhando-se a pequenas fortalezas alvas com tectos abobadados e portadas azuis. Seguindo esta lógica de diferença encontramos aqui um ambiente extraordinariamente cosmopolita e liberal, levemente evocativo das ilhas gregas do Egeu, e uma diversidade religiosa significativa perante a hegemonia muçulmana de toda a Tunísia.

Vale por isso mesmo uma visita à sinagoga Ghriba,
Porta em Djerba; Segundo relato de Homero, perante a beleza de Djerba, Ulisses terá vacilado na hora da partida
presença um tanto inusitada, numa ilha célebre pelo seu elevado número de mesquitas. É o local de culto de referência dos judeus de Djerba, uma das comunidades hebraicas mais antigas do mundo. Descendem das tribos que partiram da Palestina no século VI a.C., no início da diáspora, a que se juntaram posteriormente, nos séculos XIV, XV, XVII e XVIII, refugiados de Espanha, Portugal, Livorno e Nápoles. O edifício, no entanto, foi construído há pouco mais de sete décadas, apresentando um interior surpreendentemente rico em faiança e mobiliário esculpido, além de exibir uma das Toras mais antigas que se conhecem.

Desvendar os encantos que seduziram Ulisses implica antes de tudo partir à d escoberta do interior rural e deixar para trás os luxuosos e enormes resorts, que felizmente se encontram concentrados na zona Nordeste de Djerba. A paisagem é dominada pelas árvores
de fruto e as típicas habitações – de tão dispersas nem chegam a constituir aldeias –, cada uma detentora de poço, lagar de azeite e mesquita. Tal como acontece no Sul com os ksours, a estrutura das menzels – construídas sem janelas para preservarem a frescura do seu interior e equipadas com cisternas para aproveitamento da água das chuvas – ajudam a compreender a comunhão estabelecida entre estes homens, a terra e o ambiente, desde há séculos. Relação que se tem vindo a quebrar nas últimas décadas devido à crescente desertificação dos campos e do êxodo dos jovens para as grandes cidades, que, para além da agricultura, vão abandonando actividades desde sempre praticadas na ilha como a cerâmica, a ourivesaria e a pesca.

O centro urbano de Djerba, Houmt Souq, apenas a 10 quilómetros da praia, é o
único pólo classificável como cidade, apesar de alojar pouco mais de quatro mil habitantes. Significa literalmente “quarteirão dos mercados” e, apesar de constituir uma das maiores atracções turísticas da ilha, preserva o encanto dos souks medievais.

A estrutura da pequena Medina permanece intocada – os edifícios e as ruas estreitas não foram ainda profanados pelos alumínios e a fórmica –, proporcionando visões algo anacrónicas como a dos alfaiates que costuram, debruçados sobre velhas máquinas, em vielas mal iluminadas.

A rematar este cenário, as pracetas preenchidas por esplanadas e cafés, e coloridas por buganvílias luxuriantes pendentes dos varandins, transmitem um calor e uma animação estival próprios do Mediterrâneo. Incitam a tal culto da preguiça que nem os gatos da rua se atrevem a competir com os veraneantes humanos. Ponto de passagem perfeito, afinal, para quem regressa das paisagens pacíficas e desérticas do Sul e se prepara para rumar à agitação da capital.


Tunes, cidade charneira

Festival dos Ksours
A maioria dos viajantes passa por Tunes apressadamente em direcção às praias da costa ou à antiga metrópole, entretanto desfeita em ruínas – a célebre Cartago. O que não desagrada de todo a quem prefere encontrar a genuinidade das cidades organizadas apenas à medida dos seus habitantes.
Razoavelmente ordenada, Tunes apresenta três núcleos arquitectónicos distintos: o da cidade antiga, a Medina, o da cidade nova, edificada pelos franceses, e o da zona moderna, onde nos últimos anos cresceram arranha-céus desafiadores das leis da gravidade.


Medina de Tunes; Património da Humanidade, a Medina de Tunes é uma das mais belas de todo o Mediterrâneo
Para tentar absorver um pouco da atmosfera desta urbe magrebina é obrigatória a visita à nouvelle ville, marcada pela arquitectura colonial, seguida de um passeio pelos labirínticos souks que compõem a Medina. Constituem os cenários ideais para observar o vaivém dos habitantes, que passam geralmente absortos, mas pouco apressados. Vestem-se na sua maioria à ocidental – não há adolescente que não exiba um belo par de ténis da moda –, embora algumas mulheres ainda usem o tradicional véu branco de Tunes. A amálgama de estilos e de traços fisionómicos de quem passa reflecte na perfeição o carácter da cidade que, situada na encruzilhada do Ocidente com o Oriente, da tradição com a modernidade, encontra um equilíbrio que não ousaríamos prever.


Matmata,
na região do Grande Erg oriental
A Medina de Tunes constitui o modelo acabado da civilização árabe por terras do Magrebe. Considerada uma das mais belas de toda a bacia do Mediterrâneo, foi classificada pela UNESCO como Património da Humanidade, tendo sido fundada no século VII e elevada a capital duzentos anos mais tarde, substituindo Kairouan e Madhia, os primeiros centros urbanos muçulmanos no Norte de África. Autêntico dédalo de vielas, ocupa uma área bastante vasta, dividida pelos mercados de cada grémio, pelos bairros residenciais e pelo centro administrativo e religioso, no qual se destaca a Grande Mesquita Ez-Zitouna (Mesquita da Oliveira). O lugar onde ainda hoje se sente o pulsar da grande capital.

Apesar de os preços praticados na Medina não serem especialmente apelativos, o prazer que se descobre ao deambular nestes becos

Loja num souk de Sidi Bou Said
pouco iluminados condenam à monotonia futuras tardes de compras em qualquer centro comercial. Onde, senão no souk das essências, mais precisamente no corredor das noivas, poderíamos encontrar preciosidades kitsch como cestinhos de alianças, coroas, sapatinhos, lingerie ou vestidos, confeccionados com tule em tons que vão do branco virginal ao rosa muito rosa? Curiosidades à parte, existem, de facto, alguns recantos onde o prazer da contemplação só seria comparável ao do consumismo. É o caso dos antiquários, das livrarias, das lojas de discos e cassetes piratas, das bancas de produtos frescos e de artesanato, perfumes e outros produtos de beleza como o khôl e o henné genuínos. Um mundo aromatizado por especiarias picantes, que se deve ir desfiando, da forma que melhor sabe – ao acaso – até que os instintos nos guiem até uma das portas em arco, que indicam a saída.
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