Entre o sonho e a realidade
Os ksours habitados são bastante mais interessantes do que
aqueles recuperados, mas desertos, que se assemelham a museus fantasma
a céu aberto. Ezzahra e Chenini, este último situado
mais a Norte, perto de Gabés, alojam ainda algumas famílias,
que nas imediações cultivam produtos hortícolas,
mas dependem, na maioria dos casos, do apoio de familiares empregados
nas grandes cidades.
Casario
azul e branco de Sidi Bou Saïd
O
Ksar Ezzahra, típica construção de montanha,
é composto por dois quarteirões de ghorfas recuperadas
e pintadas com cores desmaiadas, as mesmas com que os habitantes masculinos
se vestem. Quase todos de idade avançada, usam o tradicional
albornoz castanho feito de pele de camelo ou lã e turbante
branco ou azul. Movem-se com vagar, passando os dias sentados, como
que à espera de algo que se escusam a revelar, apenas para
nos intrigarem com a razão de tanta paz. Os mais sociáveis,
enquanto preparam o chá, vão contando aos viajantes
histórias da Segunda Guerra Mundial, deslumbrando com a realidade
aqueles cujo imaginário tinha sido até aí preenchido
e aguçado apenas pelo grande ecrã.
Chenini assemelha-se, de longe, a um formigueiro gigante construído
ao redor de uma pequena montanha, composto por um misto de casas trogloditas
escavadas na rocha e ghorfas em ruínas. Revelou-se, no entanto,
um espaço mais colorido e agitado do
que o ksar anterior, apesar dos tons ocre da paisagem. Talvez pela
presença
Bar
em Hadaada
surpreendentemente elegante das mulheres com os seus vestidos rosados
ou lilás, aqui mais notória dada a estrutura exposta
das habitações, das crianças que pedem moedas
e de uns senhores que interpelam as estrangeiras numa língua
que elas agradecem aos céus lhes ser completamente desconhecida.
Uma
incursão mais demorada pela povoação irá
revelar que a viagem que
pensávamos
de início evocar um recuo temporal, denota apenas um desvio
espacial: os berberes que aqui vivem parecem fazê-lo não
por falta de alternativas, mas por orgulho, não recusando o
conforto do progresso científico. Algumas das habitações
dispõem de electricidade e televisão e assuntos como
política mundial poderiam ser discutidos caso dominássemos
o Árabe. No entanto, se os idosos afirmam preferir estas casas
singelas, revestidas com belíssimas tapeçarias, a qualquer
habitação citadina, os mais jovens ambicionam profissões
que implicam a deslocação para as grandes cidades. Questionamos,
por esse motivo, até quando este ksar permanecerá vivo,
apesar do esforço do Governo na criação de infra-estruturas,
como escolas e pequenos mercados, com vista à fixação
dos habitantes na sua terra natal.
Na
hora da despedida, Chenini deixa um pequeno travo a absurdo: do pátio
de uma das habitações chega-nos o último êxito
de Shakira – cantado em Árabe, é certo. Embaladas
pelo ritmo da cantora sul-americana, duas adolescentes bamboleiam-se,
alheias ao peso da condição feminina herdado das suas
avós. Este, também aos poucos, tem sido abandonado.
Quanto
a nós, resta-nos, finalmente, descobrir as portas do deserto,
deixando para trás a zona dos castelos, que aos poucos se instalam
na fronteira do sonho com a realidade. Dirigimo-nos a um antigo forte
romano, Ksar Ghilaine, o mais sahariano de todos os oásis da
Tunísia, rodeado a Este por um deserto de rocha e a Oeste por
dunas de areia. O ponto de partida para expedições a
camelo no deserto ou para, simplesmente, descansar no fantástico
resort Pansea Ksar Ghilaine, numa tenda com vista para a piscina e
para um céu repleto de estrelas.
Djerba: dolce fare niente no Mediterrâneo
Conta-nos
Homero, cerca do ano 1100 a. C., que Ulisses, quando se deparou
com
a ilha de Djerba, a terá encontrado povoada de “comedores
de lótus”.
Piscina
do Hotel Odyssé Resort, em Zarzis
E
que, perante a beleza deste pedaço de terra tranquilo, pontilhado
por figueiras e palmeiras e rodeado por praias de águas cálidas
e clima sereno, o herói clássico terá vacilado
na hora da partida. Três milénios passados sobre o relato,
a beleza natural do lugar mantém-se, apesar da fortíssima
exploração turística, mas os repastos aqui servidos
versam mais o que se pode retirar do mar, ao invés da terra,
ou seja, peixe fresco e marisco.
Na realidade, podemos referir-nos a Djerba como um oásis. Desta
feita não como uma nascente em pleno deserto – na ilha
nem sequer existe água doce, que é trazida do continente
–, mas como um território que difere do país
Medina
de Tunes
no
que respeita tanto à paisagem natural – algures entre
o Norte luxuriante e o Sul desértico – como à
arquitectónica, dado que as habitações dos campos,
as menzels, seguem uma estrutura única, assemelhando-se a pequenas
fortalezas alvas com tectos abobadados e portadas
azuis. Seguindo esta lógica de diferença encontramos
aqui um ambiente extraordinariamente cosmopolita e liberal, levemente
evocativo das ilhas gregas do Egeu, e uma diversidade religiosa significativa
perante a hegemonia muçulmana de toda a Tunísia.
Vale
por isso mesmo uma visita à sinagoga Ghriba,
Porta
em Djerba; Segundo relato de Homero, perante a beleza
de Djerba, Ulisses terá vacilado na hora da partida
presença um tanto inusitada, numa ilha célebre pelo
seu elevado número de mesquitas. É o local de culto
de referência dos judeus de Djerba, uma das comunidades hebraicas
mais antigas do mundo. Descendem das tribos que partiram da Palestina
no século VI a.C., no início da diáspora, a que
se juntaram posteriormente, nos séculos XIV, XV, XVII e XVIII,
refugiados de Espanha, Portugal, Livorno e Nápoles. O edifício,
no entanto, foi construído há pouco mais de sete décadas,
apresentando um interior surpreendentemente rico em faiança
e mobiliário esculpido, além de exibir uma das Toras
mais antigas que se conhecem.
Desvendar
os encantos que seduziram Ulisses implica antes de tudo partir à
d escoberta
do interior rural e deixar para trás os luxuosos e enormes
resorts, que felizmente se encontram concentrados na zona Nordeste
de Djerba. A paisagem é dominada pelas árvores
de
fruto e as típicas habitações – de tão
dispersas nem chegam a constituir aldeias –, cada uma detentora
de poço, lagar de azeite e mesquita. Tal como acontece no Sul
com os ksours, a estrutura das menzels – construídas
sem janelas para preservarem a frescura do seu interior e equipadas
com cisternas para aproveitamento da água das chuvas –
ajudam a compreender a comunhão estabelecida entre estes homens,
a terra e o ambiente, desde há séculos. Relação
que se tem vindo a quebrar nas últimas décadas devido
à crescente desertificação dos campos e do êxodo
dos jovens para as grandes cidades, que, para além da agricultura,
vão abandonando actividades desde sempre praticadas na ilha
como a cerâmica, a ourivesaria e a pesca.
O
centro urbano de Djerba, Houmt Souq, apenas a 10 quilómetros
da praia, é o
único
pólo classificável como cidade, apesar de alojar pouco
mais de quatro mil habitantes. Significa literalmente “quarteirão
dos mercados” e, apesar de constituir uma das maiores atracções
turísticas da ilha, preserva o encanto dos souks medievais.
A estrutura da pequena Medina permanece intocada – os edifícios
e as ruas estreitas não foram ainda profanados pelos alumínios
e a fórmica –, proporcionando visões algo anacrónicas
como a dos alfaiates que costuram, debruçados sobre velhas
máquinas, em vielas mal iluminadas.
A rematar este cenário, as pracetas preenchidas por esplanadas
e cafés, e coloridas por buganvílias luxuriantes pendentes
dos varandins, transmitem um calor e uma animação estival
próprios do Mediterrâneo. Incitam a tal culto da preguiça
que nem os gatos da rua se atrevem a competir com os veraneantes humanos.
Ponto de passagem perfeito, afinal, para quem regressa das paisagens
pacíficas e desérticas do Sul e se prepara para rumar
à agitação da capital.
Tunes, cidade charneira
Festival
dos Ksours
A
maioria dos viajantes passa por Tunes apressadamente em direcção
às praias da costa ou à antiga metrópole, entretanto
desfeita em ruínas – a célebre Cartago. O que
não desagrada de todo a quem prefere encontrar a genuinidade
das cidades organizadas apenas à medida dos seus habitantes.
Razoavelmente ordenada, Tunes apresenta três núcleos
arquitectónicos distintos: o da cidade antiga, a Medina, o
da cidade nova, edificada pelos franceses, e o da zona moderna, onde
nos últimos anos cresceram arranha-céus desafiadores
das leis da gravidade.
Medina
de Tunes; Património da Humanidade, a Medina
de Tunes é uma das mais belas de todo o Mediterrâneo
Para
tentar absorver um pouco da atmosfera desta urbe magrebina é
obrigatória a visita à nouvelle ville, marcada pela
arquitectura colonial, seguida de um passeio pelos labirínticos
souks que compõem a Medina. Constituem os cenários ideais
para observar o vaivém dos habitantes, que passam geralmente
absortos, mas pouco apressados. Vestem-se na sua maioria à
ocidental – não há adolescente que não
exiba um belo par de ténis da moda –, embora algumas
mulheres ainda usem o tradicional véu branco de Tunes. A amálgama
de estilos e de traços fisionómicos de quem passa reflecte
na perfeição o carácter da cidade que, situada
na encruzilhada do Ocidente com o Oriente, da tradição
com a modernidade, encontra um equilíbrio que não ousaríamos
prever.
Matmata,
na região do Grande Erg oriental
A
Medina de Tunes constitui o modelo acabado da civilização
árabe por terras do Magrebe. Considerada uma das mais belas
de toda a bacia do Mediterrâneo, foi classificada pela UNESCO
como Património da Humanidade, tendo sido fundada no século
VII e elevada a capital duzentos anos mais tarde, substituindo Kairouan
e Madhia, os primeiros centros urbanos muçulmanos no Norte
de África. Autêntico dédalo de vielas, ocupa uma
área bastante vasta, dividida pelos mercados de cada grémio,
pelos bairros residenciais e pelo centro administrativo e religioso,
no qual se destaca a Grande Mesquita Ez-Zitouna (Mesquita da Oliveira).
O lugar onde ainda hoje se sente o pulsar da grande capital.
Apesar
de os preços praticados na Medina não serem especialmente
apelativos, o prazer que se descobre ao deambular nestes becos
Loja
num souk de Sidi Bou Said
pouco
iluminados condenam à monotonia futuras tardes de compras em
qualquer centro comercial. Onde, senão no souk das essências,
mais precisamente no corredor das noivas, poderíamos encontrar
preciosidades kitsch como cestinhos de alianças, coroas, sapatinhos,
lingerie ou vestidos, confeccionados com tule em tons que vão
do branco virginal ao rosa muito rosa? Curiosidades à parte,
existem, de facto, alguns recantos onde o prazer da contemplação
só seria comparável ao do consumismo. É o caso
dos antiquários, das livrarias, das lojas de discos e cassetes
piratas, das bancas de produtos frescos e de artesanato, perfumes
e outros produtos de beleza como o khôl e o henné genuínos.
Um mundo aromatizado por especiarias picantes, que se deve ir desfiando,
da forma que melhor sabe – ao acaso – até que os
instintos nos guiem até uma das portas em arco, que indicam
a saída.