Périplo Cultural
Pelo
menos habitada desde há 3000 anos, a Tunísia possui
um imenso património cultural que merece ser assinalado.
As nossas sugestões contemplam alguns locais considerados
pela UNESCO Património Mundial e um dos melhores museus
de arqueologia de todo o mundo:
Cartago:
a cidade fundada pela princesa Dido e também
a maior potência comercial do Mediterrâneo
na Antiguidade
Museu
do Bardo – Situado em Tunes, este museu encontra-se
alojado no antigo palácio do bey (rei em árabe),
edifício que vale por si mesmo a visita. Exibe desde
vestígios pré-históricos e púnicos
a artefactos da época arabo-romana, sendo célebre
pela sua colecção de mosaicos encontrados em Cartago,
Dougga, Sousse e Madhia.
Medina de Kairouan – Foi
a primeira cidade muçulmana do Magrebe, constituindo
um autêntico monumento dada a riqueza dos tesouros arqueológicos
que encerra e a diversidade arquitectónica dos seus edifícios.
Cidade modelo para o mundo muçulmano durante pelo menos
cinco séculos, cuja escola de arte influenciou toda a
arquitectura magrebina, abriga espaços de visita obrigatória,
entre os quais a Grande Mesquita, a Mesquita de Três Portas
e os banhos públicos.
Anfiteatro D`El Jem – Dos
vestígios mais marcantes legados pela civilização
romana, o Anfiteatro é também considerado um dos
mais belos monumentos da África Antiga. Datado do século
II, surge ainda hoje imponente e solitário, sugerindo
a grandiosidade das pirâmides faraónicas e do coliseu
de Roma. Apesar de ter sido edificado numa cidade com apenas
15 mil habitantes tinha capacidade para acolher até 30
mil espectadores (é o terceiro maior anfiteatro romano
do mundo).
Dougga – Antiga cidade de
Thugga, esta escavação arqueológica situada
a 130 quilómetros de Cartago demonstra como seria uma
urbanização autóctone dado o seu
óptimo estado de conservação. Representativa
do Magrebe por altura da civilização Numídia
(séc. IV a.C.) e posterior domínio romano, conserva
ainda inúmeros edifícios , entre os quais templos,
teatros, termas e monumentos funerários num espaço
de 70 hectares.
Kerkouane – Cidade púnica
do final do século IV a.C., escavada entre 1953 e 1959,
permite obter uma imagem aproximada do que seria a arquitectura
urbana daquela época. Por nunca ter sido habitada posteriormente
à queda do Império Fenício guardou, até
à segunda metade do século passado a maioria das
suas riquezas. Situa-se a 12 quilómetros a norte de Kélibia.
Cartago:
de Dido à cidade ruína
Hotel
Vincci Alkantara Thalassa,
em Djerba
Atravessar
a metrópole que um dia imperou sobre o mundo antigo desperta
sempre alguma comoção. Apesar do pouco que resta. Apesar
do inevitável sentimento de desapontamento, mesmo quando já
não se alimentavam grandes expectativas. Pois aqui, no alto
da colina de Byrsa, onde se situava a cidadela púnica, impressionam
mais as vistas sobre o cabo Gammath e a cadeia montanhosa do Djebel,
do que propriamente as poucas colunas e capitéis (afinal romanos)
e os sarcófagos púnicos dispersos pela acrópole.
Tendas
e piscina do resort Ksar Ghilaine
Conta a lenda que a cidade rival de Roma e Atenas foi fundada por
Elissa-Didon no ano de 814 a. C., quando partiu exilada do reino de
Tyr, após o assassinato do seu marido. Dotada não só
de grande beleza como de maior astúcia, a princesa conseguiu
este pedaço de território ao rei numídia, transformando-o
na grande potência marítima e comercial que haveria de
dominar o Mediterrâneo Oriental nos séculos seguintes,
até à fatal derrota na terceira Guerra Púnica,
já em 146 a.C., às mãos dos romanos.
Delenda
est Carthago (é preciso destruir Cartago) foi a célebre
frase proferida por Catão ao senado que sentenciou o destino
dramático desta cidade. Reconstruída posteriormente
por ordem de Júlio César em 44 a. C., sofreu semelhante
devastação aquando do ataque dos vândalos no século
V e dos árabes dois séculos depois.
Uma
ilha pontilhada a figueiras e palmeiras e rodeada por
praias de águas cálidas e clima sereno
Do pouco que restou – os romanos, para além de arrasarem
os edifícios, escravizaram os sobreviventes e salgaram o solo
para que aí não crescesse nem mais uma erva daninha
–, parte foi entretanto desviada para os principais museus europeus,
pelo que o uso da imaginação para efeitos de reconstituição
histórica é útil e de salutar. Além de
alguns vestígios no topo da colina onde se encontram as ruínas
mais interessantes da época púnica (mosaicos, colunas
e murais), o Museu Nacional de Cartago reúne uma valiosa colecção
de artefactos e uma sala inteiramente dedicada aos vestígios
que restam do culto aos deuses Tanit e Baal Hammon. Há quem
sugira, entre os quais Flaubert no seu popular romance histórico
“Salammbô”, que aqui se terão realizado cerimónias
sacrificiais com crianças para acalmar a ira dos deuses. A
tese foi posteriormente contrariada por especialistas, que apontam
o Santuário de Tophet – o mais antigo espaço de
culto aos deuses fenícios da cidade – como uma necrópole
de crianças.
Dada a diversidade de povos que acolheu, a Tunísia
é uma verdadeira manta de retalhos cultural
Da
Cartago romana, por seu lado, restam alguns vestígios impressionantes,
a maioria visível nas Termas de Antonino, o mais notável
conjunto escavado até hoje. Foi arrasado pelos vândalos,
que apenas deixaram algumas colunas – gigantescas que baste
para calcular a grandiosidade do local – e as caldeiras, que
se tornaram na maior atracção do parque. No Museu Nacional
pode, ainda, ser apreciada uma colecção notável
de estátuas, artefactos e mosaicos relativos a este período.
Djerba
é o ponto de passagem perfeito para quem regressa
das paisagens pacíficas e desérticas
do Sul
De resto, em Cartago conta mais o que eventualmente se possa sentir
e não tanto ver. Foi aí, afinal, que, segundo Virgílio,
a princesa Dido (ou Elissa-Didon), autorizada pelo rei local a edificar
uma cidade que coubesse dentro da pele de um bovino, retalhou o couro
em tiras tão fininhas que, no perímetro formado pelo
conjunto dos retalhos, fundou a célebre colónia fenícia.
Lenda que não sendo confirmada pelos anais da História,
não deixamos, em todo o caso, de acreditar.
Sidi Bou Saïd: lugar de poesia
É
quando o Sol começa a desmaiar no horizonte e a luz adquire
tonalidades
O
branco e o azul das casas de Sidi Bou Saïd
rosadas
que o viajante se deve atrever pelas ruas desertas de Sidi Bou Saïd.
Por essa altura, a poesia espreita e vai-se estendendo aos espaços
antes ocupados pelos turistas. Estes desaparecem na hora do lusco-fusco
em autocarros sobrelotados, deixando o caminho aberto ao chilrear
dos pardais que anuncia o anoitecer e aos tunesinos que, após
um dia de trabalho, se deslocam ao elegante subúrbio da capital
para tomar o quotidiano chá de menta com pinhões ou
saborear um pouco de “chicha” (tabaco fumado em cachimbo
de água).
Sidi
Bou Saïd, aldeia bastião do sufismo, interdita até
1820 aos cristãos, conquistou um lugar especial no coração
dos tunesinos e da elite intelectual
O
porto da ilha de Djerba, onde a pesca tem grande tradição
europeia
desde há mais de um século, convertendo-se num dos locais
mais glamourosos do Magrebe. Colette, Beauvoir, Sartre, Paul Klee
e outros contribuíram para a criação do mito,
mas é a composição resultante da displicência
mediterrânica do seu ambiente com o extraordinário casario
pintado a azul e branco que tornam este local único.
Não
sendo costume reservado apenas a Sidi Bou Saïd, mas uma característica
extensível a outras povoações do Mediterrâneo,
esta coloração das portadas e janelas, num perfeito
jogo de contrastes com paredes imaculadamente caiadas, torna-se neste
lugar ainda mais impressionante dada a ausência de excepções.
Não fossem as buganvílias fúchsia que pendem
dos terraços e janelas e as flores que espreitam dos pátios
andaluzes, a aldeia não conheceria outras cores.
Perante
tantos encantos não é de admirar que acumule pelo menos
três patronos. O primeiro, conta-se, teria sido um eremita marroquino
– Abou Saïd – que aqui encontrou o lugar ideal para
professar os princípios do sufismo. O segundo, S. Luis, ter-se-á
perdido de amores por uma berbere durante a sua fuga do exército
de Byrsa, tendo optado por viver na aldeia, onde ficou conhecido pelos
seus poderes curativos. Por fim, o último dos protectores,
o barão inglês Rudolfo Erlanger, que apaixonou pela beleza
da povoação, mandou edificar para sua residência
um palácio fabuloso – acolhe actualmente o Museu da Música
Mediterrânica – e, pensa-se, terá instituído
o hábito de pintar de azul as portas e janelas, no início
do século passado (há quem atribua o costume à
influência do Mediterrâneo ou à vaga de emigrações
do El Andaluz).
Dada a diversidade de povos que tem acolhido no seu pequeno território,
a Tunísia é uma verdadeira manta de retalhos cultural.
O
tempo desacelerou nestas terras semidesérticas
interrompidas por montes pintados a ocre
Os
episódios de miscigenação daí decorrentes
contribuíram não só para a extraordinária
abertura do país às influências do Ocidente, como
para
a emergência de fenómenos de elegância e sensualidade
como Sidi
Bou Saïd.
Como
numa tela, a população dispõe-se
nas esplanadas, revelando a poesia de um mundo em transição
Respira-se essa especial atmosfera por toda a povoação,
mas, nas esplanadas, onde os mais belos parecem ter lugar cativo,
ganha especial intensidade. Basta olhar de relance para as escadarias
do Café des Nattes ou para os recantos com vista para o mar
do Café Sidi Chebbaâne: longe do ruído dos congéneres
espaços europeus, dezenas de jovens sentam-se num alegre mas
contido convívio. Elas, coquetes, aspiram o perfume dos raminhos
de jasmim e flor de laranjeira, enquanto eles procuram o toque das
suas mãos fugidias. Disposta como numa tela, a paisagem humana
revela a poesia de um mundo em transição.