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D O S S I E R

Outubro de 2003


Périplo Cultural
Pelo menos habitada desde há 3000 anos, a Tunísia possui um imenso património cultural que merece ser assinalado. As nossas sugestões contemplam alguns locais considerados pela UNESCO Património Mundial e um dos melhores museus de arqueologia de todo o mundo:

Cartago: a cidade fundada pela princesa Dido e também
a maior potência comercial do Mediterrâneo na Antiguidade
Museu do Bardo – Situado em Tunes, este museu encontra-se alojado no antigo palácio do bey (rei em árabe), edifício que vale por si mesmo a visita. Exibe desde vestígios pré-históricos e púnicos a artefactos da época arabo-romana, sendo célebre pela sua colecção de mosaicos encontrados em Cartago, Dougga, Sousse e Madhia.
Medina de Kairouan – Foi a primeira cidade muçulmana do Magrebe, constituindo um autêntico monumento dada a riqueza dos tesouros arqueológicos que encerra e a diversidade arquitectónica dos seus edifícios. Cidade modelo para o mundo muçulmano durante pelo menos cinco séculos, cuja escola de arte influenciou toda a arquitectura magrebina, abriga espaços de visita obrigatória, entre os quais a Grande Mesquita, a Mesquita de Três Portas e os banhos públicos.
Anfiteatro D`El Jem – Dos vestígios mais marcantes legados pela civilização romana, o Anfiteatro é também considerado um dos mais belos monumentos da África Antiga. Datado do século II, surge ainda hoje imponente e solitário, sugerindo a grandiosidade das pirâmides faraónicas e do coliseu de Roma. Apesar de ter sido edificado numa cidade com apenas 15 mil habitantes tinha capacidade para acolher até 30 mil espectadores (é o terceiro maior anfiteatro romano do mundo).
Dougga – Antiga cidade de Thugga, esta escavação arqueológica situada a 130 quilómetros de Cartago demonstra como seria uma urbanização autóctone dado o seu
óptimo estado de conservação. Representativa do Magrebe por altura da civilização Numídia (séc. IV a.C.) e posterior domínio romano, conserva ainda inúmeros edifícios , entre os quais templos, teatros, termas e monumentos funerários num espaço de 70 hectares.
Kerkouane – Cidade púnica do final do século IV a.C., escavada entre 1953 e 1959, permite obter uma imagem aproximada do que seria a arquitectura urbana daquela época. Por nunca ter sido habitada posteriormente à queda do Império Fenício guardou, até à segunda metade do século passado a maioria das suas riquezas. Situa-se a 12 quilómetros a norte de Kélibia.


Cartago: de Dido à cidade ruína
Hotel Vincci Alkantara Thalassa,
em Djerba
Atravessar a metrópole que um dia imperou sobre o mundo antigo desperta sempre alguma comoção. Apesar do pouco que resta. Apesar do inevitável sentimento de desapontamento, mesmo quando já não se alimentavam grandes expectativas. Pois aqui, no alto da colina de Byrsa, onde se situava a cidadela púnica, impressionam mais as vistas sobre o cabo Gammath e a cadeia montanhosa do Djebel, do que propriamente as poucas colunas e capitéis (afinal romanos) e os sarcófagos púnicos dispersos pela acrópole.

Tendas e piscina do resort Ksar Ghilaine
Conta a lenda que a cidade rival de Roma e Atenas foi fundada por Elissa-Didon no ano de 814 a. C., quando partiu exilada do reino de Tyr, após o assassinato do seu marido. Dotada não só de grande beleza como de maior astúcia, a princesa conseguiu este pedaço de território ao rei numídia, transformando-o na grande potência marítima e comercial que haveria de dominar o Mediterrâneo Oriental nos séculos seguintes, até à fatal derrota na terceira Guerra Púnica, já em 146 a.C., às mãos dos romanos.

Delenda est Carthago (é preciso destruir Cartago) foi a célebre frase proferida por Catão ao senado que sentenciou o destino dramático desta cidade. Reconstruída posteriormente por ordem de Júlio César em 44 a. C., sofreu semelhante devastação aquando do ataque dos vândalos no século V e dos árabes dois séculos depois.


Uma ilha pontilhada a figueiras e palmeiras e rodeada por praias de águas cálidas e clima sereno

Do pouco que restou – os romanos, para além de arrasarem os edifícios, escravizaram os sobreviventes e salgaram o solo para que aí não crescesse nem mais uma erva daninha –, parte foi entretanto desviada para os principais museus europeus, pelo que o uso da imaginação para efeitos de reconstituição histórica é útil e de salutar. Além de alguns vestígios no topo da colina onde se encontram as ruínas mais interessantes da época púnica (mosaicos, colunas e murais), o Museu Nacional de Cartago reúne uma valiosa colecção de artefactos e uma sala inteiramente dedicada aos vestígios que restam do culto aos deuses Tanit e Baal Hammon. Há quem sugira, entre os quais Flaubert no seu popular romance histórico “Salammbô”, que aqui se terão realizado cerimónias sacrificiais com crianças para acalmar a ira dos deuses. A tese foi posteriormente contrariada por especialistas, que apontam o Santuário de Tophet – o mais antigo espaço de culto aos deuses fenícios da cidade – como uma necrópole de crianças.

Dada a diversidade de povos que acolheu, a Tunísia é uma verdadeira manta de retalhos cultural
 
Da Cartago romana, por seu lado, restam alguns vestígios impressionantes, a maioria visível nas Termas de Antonino, o mais notável conjunto escavado até hoje. Foi arrasado pelos vândalos, que apenas deixaram algumas colunas – gigantescas que baste para calcular a grandiosidade do local – e as caldeiras, que se tornaram na maior atracção do parque. No Museu Nacional pode, ainda, ser apreciada uma colecção notável de estátuas, artefactos e mosaicos relativos a este período.


Djerba é o ponto de passagem perfeito para quem regressa das paisagens pacíficas e desérticas do Sul

De resto, em Cartago conta mais o que eventualmente se possa sentir e não tanto ver. Foi aí, afinal, que, segundo Virgílio, a princesa Dido (ou Elissa-Didon), autorizada pelo rei local a edificar uma cidade que coubesse dentro da pele de um bovino, retalhou o couro em tiras tão fininhas que, no perímetro formado pelo conjunto dos retalhos, fundou a célebre colónia fenícia. Lenda que não sendo confirmada pelos anais da História, não deixamos, em todo o caso, de acreditar.


Sidi Bou Saïd: lugar de poesia
É quando o Sol começa a desmaiar no horizonte e a luz adquire tonalidades

O branco e o azul das casas de Sidi Bou Saïd
rosadas que o viajante se deve atrever pelas ruas desertas de Sidi Bou Saïd. Por essa altura, a poesia espreita e vai-se estendendo aos espaços antes ocupados pelos turistas. Estes desaparecem na hora do lusco-fusco em autocarros sobrelotados, deixando o caminho aberto ao chilrear dos pardais que anuncia o anoitecer e aos tunesinos que, após um dia de trabalho, se deslocam ao elegante subúrbio da capital para tomar o quotidiano chá de menta com pinhões ou saborear um pouco de “chicha” (tabaco fumado em cachimbo de água).

Sidi Bou Saïd, aldeia bastião do sufismo, interdita até 1820 aos cristãos, conquistou um lugar especial no coração dos tunesinos e da elite intelectual

O porto da ilha de Djerba, onde a pesca tem grande tradição
europeia desde há mais de um século, convertendo-se num dos locais mais glamourosos do Magrebe. Colette, Beauvoir, Sartre, Paul Klee e outros contribuíram para a criação do mito, mas é a composição resultante da displicência mediterrânica do seu ambiente com o extraordinário casario pintado a azul e branco que tornam este local único.

Não sendo costume reservado apenas a Sidi Bou Saïd, mas uma característica extensível a outras povoações do Mediterrâneo, esta coloração das portadas e janelas, num perfeito jogo de contrastes com paredes imaculadamente caiadas, torna-se neste lugar ainda mais impressionante dada a ausência de excepções. Não fossem as buganvílias fúchsia que pendem dos terraços e janelas e as flores que espreitam dos pátios andaluzes, a aldeia não conheceria outras cores.


 
Perante tantos encantos não é de admirar que acumule pelo menos três patronos. O primeiro, conta-se, teria sido um eremita marroquino – Abou Saïd – que aqui encontrou o lugar ideal para professar os princípios do sufismo. O segundo, S. Luis, ter-se-á perdido de amores por uma berbere durante a sua fuga do exército de Byrsa, tendo optado por viver na aldeia, onde ficou conhecido pelos seus poderes curativos. Por fim, o último dos protectores, o barão inglês Rudolfo Erlanger, que apaixonou pela beleza da povoação, mandou edificar para sua residência um palácio fabuloso – acolhe actualmente o Museu da Música Mediterrânica – e, pensa-se, terá instituído o hábito de pintar de azul as portas e janelas, no início do século passado (há quem atribua o costume à influência do Mediterrâneo ou à vaga de emigrações do El Andaluz).

Dada a diversidade de povos que tem acolhido no seu pequeno território, a Tunísia é uma verdadeira manta de retalhos cultural.


O tempo desacelerou nestas terras semidesérticas interrompidas por montes pintados a ocre

Os episódios de miscigenação daí decorrentes contribuíram não só para a extraordinária abertura do país às influências do Ocidente, como para
a emergência de fenómenos de elegância e sensualidade como Sidi
Bou Saïd.



Como numa tela, a população dispõe-se nas esplanadas, revelando a poesia de um mundo em transição

Respira-se essa especial atmosfera por toda a povoação, mas, nas esplanadas, onde os mais belos parecem ter lugar cativo, ganha especial intensidade. Basta olhar de relance para as escadarias do Café des Nattes ou para os recantos com vista para o mar do Café Sidi Chebbaâne: longe do ruído dos congéneres espaços europeus, dezenas de jovens sentam-se num alegre mas contido convívio. Elas, coquetes, aspiram o perfume dos raminhos de jasmim e flor de laranjeira, enquanto eles procuram o toque das suas mãos fugidias. Disposta como numa tela, a paisagem humana revela a poesia de um mundo em transição.
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