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   XLRotas & DestinosPanorâmica > Longe de tudo e de todos


   
Parte do remoto arquipélago chileno de Juan Fernández e Reserva Mundial da Biosfera, esta ilha encantadora nunca acolheu o náufrago homónimo e imaginário, mas foi covil de piratas e o lar forçado de Alexander Selkirk, um orgulhoso marinheiro escocês, cuja história real inspirou Daniel Defoe a escrever Robinson Crusoe

Texto de Marco Cerdeira Pereira e fotos de Marco Cerdeira Pereira-Sara Wong/4seephoto.com
   

P U B L I C I D A D E
De Santiago a San Juan Bautista
A ilha vista do mar
Para trás tinham ficado, por esta ordem, a capital chilena, Valparaíso e o continente sul-americano. O céu mantinha-se quase limpo, salpicado apenas por pequenos tufos de nuvens muito brancas. Com o aproximar do arquipélago Juan Fernández, já a uns 640 quilómetros da costa, a nebulosidade aumentou e passou a cobrir as ilhas, mas o piloto, mais que batido naquela rota, achou facilmente o início da pista, bem no topo do penhasco. Apesar do vento forte, aterrou com uma suavidade surpreendente.

A bordo do Twin Otter, entre os 19 passageiros, iam o Alcalde da ilha – a quem chamam El Pollo –, vários outros habitantes e um pequeno grupo de visitantes, todos chilenos, exceptuando uma geóloga escocesa.


Lobos marinhos de dois pêlos
A sensação à chegada foi de estranheza. Não há um verdadeiro aeroporto, e não há sequer um aeródromo digno desse nome: apenas uma pista de asfalto que rasga o solo amarelo-torrado da pequena planície. Depois, o translado para a baía de Cumberland revelou-se complexo e lento. Só uma relíquia histórica de jeep estava disponível para transportar a bagagem entre a pista e o molhe onde nos esperava uma traineira adaptada, que, por sua vez, asseguraria o trajecto marítimo para San Juan Bautista, a única povoação de Robinson Crusoe

Litoral de pedra basalto
e onde se concentram os seus 500 habitantes. Enquanto o jeep ia e voltava, houve tempo para explorar e descer a pé para a enseada. Aliás, foi assim que descobrimos a única praia de areia da ilha. El Arenal fica no sopé de escarpas altíssimas e tem um acesso arriscado, por isso, e pelo desinteresse balnear dos locais, permanece dominada por uma colónia de milhares de lobos marinhos que, apesar períodos de autêntica chacina, resistem no arquipélago.
[ De origem vulcânica, Robinson Crusoe combina diferentes tipos de paisagens fascinantes, habitadas por algumas espécies animais e vegetais endémicas
Mais tarde, enquanto desembarcávamos em San Juan Bautista, depois de vencido o mar feroz da costa norte, uma pequena multidão preenchia por completo o pontão do cais, dividindo-se entre saudações aos recém-chegados e a incessante pescaria à linha, que, como viríamos a descobrir, garantia comida na mesa, fosse a que hora fosse. Assim que pisámos o pontão fomos recebidos pelas figuras tranquilas e simpáticas de Pedro Niada e Marco, que haveriam de nos guiar e contar alguns dos segredos mais fascinantes da ilha.

Alexander Selkirk e a Ilha do Tesouro

Varanda do Hotel El Pangal
Já instalados, com Tony, um estudante ERASMUS barcelonense de Biologia, numa das casas da CONAF – o organismo chileno protector das florestas –, no dia seguinte, aceitámos o convite de Pedro Niada e saímos de barco, com Marco e alguns outros amigos, para o Puerto Inglés, onde nos iríamos inteirar de alguns dos episódios mais misteriosos da história de Robinson Crusoe.

Achado em 1574, por Juan Fernández, um navegador castelhano de família portuguesa, o arquipélago homónimo, em vez de colónia espanhola, depressa se transformou num porto de abrigo dos corsários que atacavam os galeões carregados de ouro e pedras preciosas originários de Cartagena das Índias e outras paragens do vasto império hispânico. Mas, comecemos por esclarecer a razão de ser do nome Robinson Crusoe.


Flores de uma espécie única da ilha e um beija-flor vermelho, também endémico
Em 1704 fundeou no arquipélago um navio corsário inglês. O contramestre deste navio acabou por se envolver numa disputa com o capitão e, provavelmente, por orgulho, ficou abandonado na ilha apenas com uma bíblia, uma colher, uma espingarda, pólvora, algum tabaco e roupa. Tratava-se de Alexander Selkirk e a estadia solitária forçada acabou por durar 4 anos e 4 meses, até que outra expedição corsária o resgatou e levou de volta à Grã-Bretanha, onde a sua história e diário de vida acabariam por inspirar Daniel Defoe a escrever As Incríveis e Supreendentes Aventuras de Robinson Crusoe, com base numa personagem fictícia e passado nas Caraíbas. Desta relação surgiu o nome da ilha. Mas há mais. Um dos corsários que mais danos infligiu à coroa espanhola foi o inglês George Anson, que fez de Robinson Crusoe uma base operacional.

[ Ao contrário da ainda mais longínqua Ilha da Páscoa, Robinson Crusoe continua à parte das rotas turísticas da América do Sul
Foi Anson quem baptizou a baía onde se formou o povoado pirata de Cumberland e deu ao vale contíguo o nome de Lord Anson. Diz-se também que ali haveria de esconder um tesouro que muitos tentaram encontrar, sempre em vão.


Um barco com pescadores na enseada da baía de Cumberland
Bernard Kaiser entrou na história já nos nossos tempos. Milionário americano, passa actualmente metade do ano em investigação e escavações na ilha, em redor da Cueva de Robinson Crusoe, com o mesmo objectivo. Mediante a análise de documentos seculares, e a comparação satisfatória, no terreno, de pistas e marcas que coincidiam com descrições nesses documentos, empenhou parte do seu dinheiro e vida no projecto romântico de achar o tesouro.

O milionário foi, por vezes, acompanhado por Pedro Niada, e este último, durante a visita que fizemos ao Puerto Inglés, foi-nos explicando as convicções de Kaiser. Com paciência e ao pormenor, elucidou-nos sobre cada marca na rocha, cada medida e pista deixada pelos piratas com referência a pedras com formas curiosas, riachos ou árvores. A narração deixou-nos ainda mais fascinados pela ilha e pena foi que estivéssemos em Maio, em pleno semestre de restrição às escavações imposto pelo governo chileno...


À descoberta de Robinson Crusoe

O impressionante Cerro La Piramide visto do Miradouro de Selkirk.
Eram 15 horas do nosso segundo dia na ilha quando o Navarino surgiu, finalmente, no horizonte. Estava atrasado, mas isso não parecia provocar grande inquietação. Habituados a esperar por esta embarcação vermelha que assegura o abastecimento de algumas ilhas ao largo do Chile continental, os locais entretinham-se com a sua vida do costume: com a pesca das vitriolas, das barracudas e da lagosta, esta última a principal responsável pelo rendimento do arquipélago. Mas ao atracar no molhe, então sim, o Navarino causou um frenesim, que aumentou à medida que a nova pequena multidão se reunia para assistir à remoção dos cavalos, das bilhas de gás e dos congelados, a carga com prioridade.

Ficámos umas duas horas a acompanhar os acontecimentos, mas, dentro em pouco, estávamos a sair, mais uma vez com Pedro Niada e Marco, e acompanhados de Tony e de um casal de franceses que havia chegado a bordo do Navarino, onde, em breve, se viria a casar. Desta feita, o objectivo da excursão era mergulhar com os lobos marinhos.


O trajecto ao longo da ilha voltou a comprovar-nos a sua beleza rude, de origem vulcânica e facetas contrastantes, que mudavam consoante a orientação e a exposição aos ventos húmidos do Pacífico. A contemplação ficou-se, todavia, pelas escarpas elevadas, a única coisa que conseguíamos vislumbrar a partir do mar. Naquele momento não parecia preocupante, tínhamos mais alguns dias para ficar e os primeiros lobos começavam a vislumbrar-se, ao longe, nas rochas. Achado um local tranquilo para o mergulho, saltámos para a água e vimo-nos imediatamente cercados por dezenas, entre crias e adultos, curiosos e destemidos, que nadavam à nossa volta com à-vontade suficiente para nos encararem e morderem as barbatanas.


Uma enorme fenda junto a El Puente

Bahia del Padre
Por exclusão de partes, o tempo que faltava teria de ser dedicado às partes altas da ilha. Assim sendo, fizemos caminhadas à Plazoleta del Yunque e ao Miradouro de Selkirk, este último, o local a que o marinheiro escocês ascendia com frequência para esquadrinhar o horizonte marítimo simultaneamente para norte e para sul, em busca de salvação. Ambas as subidas íngremes permitiram-nos apreciar a maravilhosa flora da ilha, cuja elevada taxa de espécies endémicas contribui para um exotismo luxuriante, reforçado pela presença de espécies animais autóctones como o beija-flor vermelho.

[ Luxuriante em certas zonas, árida noutras, a ilha surpreende pelos contrastes que exibe e pelo carácter genuíno da sua população
O percurso solitário para o Miradouro de Selkirk destaca-se pelos metros finais, em que o trilho fica subsumido em vários túneis de vegetação densa, que conduzem a uma aresta elevada da montanha. Daqui desvenda-se a beleza das várias paisagens de Robinson Crusoe, a começar pelas encostas verdejantes dos cerros em redor até à língua de terra inóspita que se estende para sul das Tres Puntas, terminando na vista longínqua e isolada da Isla de Santa Clara, a mesma visão que durante quatro anos e quatro meses fez companhia a Alexander Selkirk, não a Robinson Crusoe.
[ Em tempos denominada Masatierra, por ser a mais próxima do continente, a ilha foi posteriormente rebaptizada, graças ao romance de Daniel Defoe

GUIA DE VIAGEM

> Como ir
A Ibéria tem voos directos para Santiago do Chile, via Madrid, por tarifas a partir de €1100.
De Santiago para a Ilha Robinson Crusoe, o voo é assegurado pela companhia aérea Lassa e custa à volta de €500. Do aeródromo para San Juan Bautista, o transfere (incluído no preço do voo) é assegurado por um barco que contorna a costa norte da ilha até à baía de Cumberland. Por norma, Pedro Niada, da Endémica Expediciones, encarrega-se de receber em San Juan Bautista e acompanhar os visitantes enviados pela Lassa. www.robinsoncrusoetours.cl (actualmente em construção), tel. 0056 32 2731458.

> Onde ficar

O “aérodromo” da Ilha Robinson Crusoe
De momento, a melhor opção em termos de conforto é o Hotel Pangal, também explorado pela companhia Lassa. Apesar de não ser propriamente luxuoso, tem quartos duplos com vistas excelentes para a baía de Cumberland, incluindo um fabuloso pôr-do-sol. Apesar de o percurso a pé para San Juan Bautista demorar 40 minutos, se for feito de lancha, não chega a levar cinco.

>
O que fazer

A Endémica Expediciones (www.endemica.com), de Pedro Niada, é a agência mais habilitada para assegurar caminhadas, passeios guiados a cavalo e marítimos, mergulho e snorkeling, ou pesca desportiva. A ilha Robinson Crusoe é também um paraíso para geólogos e biólogos especializados em fauna e flora.

> Informações Úteis

Vista da baía El Pangal a partir do Miradouro de Selkirk

O guia Pedro Niada
Moeda Peso (1 euro = 686 pesos chilenos) Não existem bancos, nem caixas Multibanco. Não são possíveis pagamentos com cartões.
Indicativo 0056 (Chile) + 32 (Robinson Crusoe). Não há cobertura de rede móvel, apenas telefone fixo em vários estabelecimentos.
Para saber mais consulte os sites www.comunajuanfernandez.cl; www.turismochile.cl/parques_nac2/ fernande.htm

> Quando ir
De preferência de Outubro a Abril, quando a nebulosidade e a queda de chuva diminuem drasticamente. Nos restantes meses, o céu pode permanecer nublado por largos períodos e o vento sopra frequentemente forte.

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