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   XLRotas & DestinosDossier > Roma - Cidade Aberta


D O S S I E R Outubro de 2006   
   
Incontornável capital do Velho Continente, Roma é pátria dos romanos, das artes e de toda a História. Bela, decadente, grandiosa, caótica e intimista, a capital italiana desvenda-se num relato muito pessoal e revela-se irresistível

TEXTOs de catarina Palma e Miguel SatÚrio Pires Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   

P U B L I C I D A D E
Esta é uma cidade que tem de ser escrita na primeira pessoa, de uma forma personalizada. Porque Roma vive de uma inexplicável dimensão humana, tornando-se impossível não a olharmos e não a sentirmos como nossa, e à nossa escala. Aqui sente-se o peso da História, mas não nos sentimos intimidados. Nesta cidade de deuses romanos, as ruínas seculares e os sólidos monumentos que nos surgem a cada esquina convivem familiarmente com o mais comum dos mortais. E, mesmo completamente perdidos na sua malha labiríntica de vias, viales, vicolos e piazzas, encontramo-nos sempre... Nas suas vivências e personagens, nas suas histórias e memórias, que fazem da capital italiana uma metrópole cheia de adjectivos, simples e banais palavras usadas para lhe emprestar por escrito uma aura que tem tanto de mística como de mítica, tudo de romântica, mas também de trepidante e caótica.


O hotel Exedra oferece uma magnífica vista panorâmica de Roma.
A ânsia é de conhecer tudo numa só penada: entrar nos Museus do Vaticano para ver a Capela Sistina e não conseguir ver mais do que um mar de gente; ir num instante à Piazza Navona e não ter tempo para comer um gelato tartufo (a verdadeira bomba de chocolate!) no Tre Scalini; admirar à pressa o imponente Panteão sem sequer nos apercebermos de que ali jaz o brilhante Rafael; subir dois a dois os degraus rumo ao Capitólio ignorando que os mesmos foram desenhados por Miguel Ângelo; cumprir a tradição requentada de enfiar a mão na Bocca della Verità e não prestar atenção à adjacente e harmoniosa igreja de Santa Maria de Cosmedin; tirar a fotografia da praxe no Coliseu e esquecermo-nos de contemplar a magnitude de todo o Fórum Romano, sentados numa pedra... Aqui está uma espécie de roteiro-postal ideal para turistas de pacote. Acontece que “Roma e Pavia não se fizeram num dia” e, portanto, também não se vê uma cidade eterna em apenas 24 horas. E já agora, que caímos na inevitabilidade da frase feita, realmente todos os caminhos vão dar a Roma. Ou seja, não há como esgotar a capital italiana. Por todo o lado e em toda a parte há sempre qualquer coisa para ver, extractos e substratos de épocas que se sobrepõem sem qualquer receio, ao lado de esplanadas, lojas de griffe, restaurantes de excelência e uma mão-cheia de praças e fontes de água fresca.

Andar de motorini e em grande estilo são ícones locais
Mas eis que surge a pergunta inevitável: Como passar de principiante a especialista? Para lá chegarmos, em total estilo livre e sem guia de bandeirinha à nossa frente, vamos no sentido inverso. Admitamos passar o lugar-comum que é dizer “estivemos em Roma e vimos o Papa” – o que realmente aconteceu –; a descrição trivial das gloriosas poses dos muitos centuriões e Júlios Césares trajados a preceito que se passeiam a soldo de excursões de turistas; ou ainda as enchentes que se acotovelam junto à Fontana di Trevi, sempre grandiosa, mas onde falta a voluptuosa Anita Ekberg e a solidão estética do cenário de Fellini. Retomamos antes outro cliché local, que são as míticas Vespas (já não conduzidas de cabelos ao vento, mas com um seguro e capacete obrigatório, e também elas já ultrapassadas no tempo, substituídas por potentes “aceleras” de 400 cc e outras modernices de duas rodas) para entrar no espírito do local.

[ Roma vive de uma inexplicável dimensão humana. E, mesmo completamente perdidos na sua malha labiríntica de ruas, encontramo-nos sempre... nas suas vivências e personagens, nas suas histórias e memórias


A Piazza Navona, obra-prima do Barroco, com as grandiosas fontes de Bernini. É um cenário teatral, sempre repleto de gente
Vitesse oblige, lá vamos nós de scooter, ou motorino, em busca de trilhos para lá do turismo banal, esquecendo por momentos os museus mais badalados, as ruas repletas de marcas sonantes, os hot spots com enxames de máquina fotográfica em punho, e os já lidos e relidos relatórios turísticos da cidade. Aí voltaremos mais tarde, a pé, já sem mapas na mão e com alguns segredos no bolso para mais bem desfrutar o ambiente. Afinal, todos são livres de percorrer como bem entenderem este verdadeiro museu a céu aberto, del popolo, do povo, igual à piazza com o mesmo baptismo, para onde corre a vista a partir da colina verde de Pincio e do enorme Parco della Villa Borghese, um dos ex-líbris partilhados em dias de sol por locais e turistas, novos e velhos, punks e modelos, skaters e namorados para lá de enamorados...

É, portanto, nossa, e de toda a gente, a Roma que se apresenta como românica, medieval, barroca, renascentista e o que mais houver para classificar as várias cidades que pulsam numa só. É claro que, com o tempo, e conquistada a paixão, cada um tem a sua interpretação, o seu lugar especial, e o seu próprio itinerário romano por cada vez que a visitamos. Para mim, e para já, vejo Roma como um todo dividido em partes, transposto para uma crónica de ambientes e costumes escrita por um amador pasmado.


Cenas que (não) se repetem

As célebres escadarias da Piazza di Spagna
Bem-vindos, então, à milenar capital do Império Romano. Para mim uma estreia absoluta, lamentável lacuna só agora riscada no mapa do viajante, e ainda assim parece que já lá estive, que já palmilhei a cidade noutras ocasiões, mas num sonho desorientado. Sim, porque há que dizê-lo: na capital italiana, a orientação é difícil e labiríntica, eventualmente por tudo nos parecer igual, congelado no tempo. Aqui nada destoa. Roma (e Itália?) tem uma tonalidade ocre mais ou menos homogénea, envelhecida e esbatida pelos séculos que lhe pesam em cima das fachadas.

Este é o primeiro aviso à navegação de quem se aventure para lá da realidade dos mapas. Assim, num nosso sonho sussurrado em italiano, a lembrar as películas neo-realistas a preto e branco gravadas numa Roma parada no calendário, dou por mim para os lados de Testaccio, um antigo e degradado bairro operário e residencial (os borgate) na zona sul. Talvez não seja o primeiro local a aconselhar a um visitante ávido de postais, mas desde há algum tempo que este local está na rota dos mais concorridos restaurantes, bares e discotecas da cidade. Confesso, no entanto, que, no meu caso, contentei-me (temporariamente) com a mais recente novidade da cena cultural contemporânea: o MACRO al Mattatoio. É que, numa assumida tentativa de desviar o centro das atenções reunidas na sua entupida zona histórica, os romanos decidem agora levar a cultura para locais durante décadas esquecidos, sendo disso prova a recente inauguração da extensão mais progressista do MACRO, o Museu de Arte Contemporânea de Roma, nas instalações de um antigo mattatoio (matadouro), já com uma área de exposição de cerca de 100.000 m2, mas ainda numa primeira fase da recuperação e reaproveitamento deste complexo situado no n.º 4 da Piazza Orazio Giustiniani.

Ainda hoje os charmosos Fiat 500 são presença assídua nas ruas de Roma; o mesmo acontece com as lojas tradicionais e os antiquários, verdadeiros sobreviventes à passagem do tempo
Aqui em redor, saídos deste novo recinto cultural (está aberto das 16h00 às 00h00), o tal ambiente neo-realista dessa corajosa mas suja e cansada Roma Città Aperta, filmada por Rosselini logo após a II Guerra Mundial, traz-nos de volta à realidade, e num olhar mais atento repetem-se os takes.

Por baixo da arcada ao lado, onde confluem as entradas para os antigos serviços administrativos do matadouro, o habitual é ver-se um grupo de velhos em alegre cavaqueira e jogatana de cartas enquanto as horas passam. “C’è sempre un posto per qualcun altro”, dizem-nos, animados pela possibilidade de juntarem alguém à prole, e fazendo jus à fama romana de gente afável e de palavra solta. Fugindo à tentação de uns momentos de conversa, capta-nos a atenção, no outro lado do passeio, uma ligeira colina de 35 metros, que, reza a história, terá sido formada pelo amontoado de cacos de ânforas aqui depositados entre os séculos 140 a.C. e 250 d.C. Hoje, este local é abraçado por uma correnteza de armazéns, oficinas e inúmeros bares, discotecas e restaurantes da moda. É o caso do famoso Checchino, uma das moradas históricas da gastronomia popular romana, frequentado por muitos governantes italianos e demais individualidades que aqui acorrem em romaria para uma almoçarada entre iguais. Experimenta-se neste ristorante escavado nos sedimentos da colina uma das mais genuínas culinárias de Roma, em que, sensivelmente desde 1870, pratos típicos como rigatoni alla pajata (à base de intestinos de cordeiro) fazem as delícias dos comensais.


Arco do Triunfo do imperador Sétimo Severo, um dos monumentos mais bem conservados do Fórum Romano

Lobby do Hotel Art, junto à Piazza di Spagna
Bem mais calmo e menos dado a confusões é o não muito distante Monte Aventino e respectivo bairro – aos pouco corajosos e nada dados a caminhadas aconselha-se que apanhem um táxi. De atmosfera a atirar para o pacato, reforçado pelas muitas mansões apalaçadas e pelos pequenos condomínios fechados (vive aqui a nata de Roma, entre políticos, empresários e cromos da bola) a percorrer a encosta sombreada por arvoredo, vale a pena o esforço para chegar ao seu cume. O primeiro cartão de visita é o Parco Savello e o seu simples Jardim das Laranjeiras, com um miradouro a debruçar-se sobre a cidade que oferece uma vista impressionante ao entardecer. Porém, o verdadeiro segredo das redondezas está guardado para depois de visitadas as vizinhas chiesas de Santa Sabina, São Alessio e de São Anselmo. Quase ao lado desta última encontra-se o palácio pertencente à Ordem dos Cavaleiros de Malta. É inacessível ao público e quase passa despercebido, caso não saiba ao que vai: a ideia é espreitar pelo buraco da fechadura da imponente porta com o número 3 para avistar lá ao fundo, em jeito de monóculo, a Basílica de São Pedro, acompanhada pela perspectiva de uma alameda de ciprestes!


Via Condotti, a mais elegante e cara rua comercial de Roma
Se tiver fôlego, o final do dia perfeito é do outro lado do rio, em Trastevere, um dos 22 bairros de Roma. Esta é a zona mais antiga, ainda calcetada com sampietrini, a pedra que mais se adequava à circulação das carroças cheias de víveres que se arrastavam pelas suas ruelas estreitas em épocas perdidas no calendário. Esse ambiente medieval resiste até aos dias de hoje e, pela calada da noite, enche-se de estudantina, que inunda primeiro as escadas da fonte na Piazza de Santa Maria de Trastevere e, de seguida, os muitos bares e restaurantes porta sim, porta sim... Pensado nisso, talvez não seja por acaso que estão aqui sediadas a John Cabot University, uma universidade privada norte-americana, e a canadiana University of Waterloo School of Architecture, a receber alunos de todo o mundo entre os meses de Setembro e Dezembro – todos com lugar marcado nos sempre lotados Augusto, familiar restaurante de cozinha tipicamente romana na Piazza de’Renzi, 15, ou na Taverna dei Mercanti, que, junto à Igreja de Santa Cecília, na Via dei Mercanti, 3A, possui uma agradável esplanada em plena rua.

[ Nesta cidade de deuses romanos, as ruínas seculares e os sólidos monumentos que nos surgem a cada esquina convivem familiarmente com o mais comum dos mortais

Cidade aos pedaços

Óbikà, um mozzarela bar muito popular ao almoço e no brunch de fim-de-semana
Sendo uma das tímidas evidências de que a Cidade Eterna vai aos poucos empreendendo um espírito renovador, ao Mattatoio juntam--se outras novas peças deste puzzle com quase 3000 anos de história. A verdade é que, em matéria de arquitectura, os romanos são algo avessos a grandes modernices, o que não será de estranhar se pensarmos que têm como ponto de comparação nomes como Miguel Ângelo, Bramante, Rafael e Bernini. Mas depois de muita polémica e discussão em praça pública, os romanos começam actualmente a abrir mão a composições mais contemporâneas, testemunhadas, por exemplo, nas linhas modernas, mas discretas (conforme mandam as regras do centro histórico), do edifício que agora protege o soberbo e mítico altar de Ara Pacis, encomendado pelo Senado em 13 a.C. para celebrar a Pax Romana conseguida por César Augusto nas suas campanhas na Gália e na Espanha. Trata-se de uma das mais importantes preciosidades da Roma Antiga, cuja reconstrução data de 1938, e que só agora parece ter um palco à altura. O reputado arquitecto Richard Meier – que fez grande parte dos seus estudos em Roma – é o autor deste espaço museológico à beira do rio Tibre (na Via Lungotevere in Augusta), onde predominam as linhas rectas e minimalistas, assim como o branco e as superfícies envidraçadas (contraste absoluto, o Mausoléu de Augusto fica mesmo ao lado, totalmente abandonado).

A cúpula da Basílica de São Pedro vista a partir do buraco de fechadura mágico da Piazza dei Cavalieiri di Malta, no Monte Aventino
Outro exemplo de arrojo destemido é o Parco della Musica, desenhado por Renzo Piano. Inaugurado em 2002, o Auditorium e restantes salas de concertos – que surgem suspensos no ar, como naves extraterrestres – estão inseridos numa desafogada área residencial na zona norte da cidade, mas também suscitaram polémica, dadas as suas linhas vanguardistas, pouco habituais na escola romana.

No entanto, a aposta parece ter sido ganha, pois hoje este espaço reúne uma ampla oferta cultural, agendada em três salas de excelente acústica, sendo uma delas, a de Santa Cecília (baptizada em honra da padroeira dos músicos), a maior da Europa, contando com 2742 lugares sentados.


Piazza della Rotonda, em frente ao Panteão

Piscina panorâmica do Hotel Exedra
Segue-se, em desafio aos “velhos do Restelo”, ou do Capitólio, neste caso concreto, mais um projecto que vai romper com as fronteiras do convencional, situado no n.º 10 da Via Guido Reni, a cerca de cinco minutos a pé desde o Parco della Musica. Com inauguração marcada algures para 2008 (estava previsto abrir no ano passado), o Museu das Artes do Século XXI, nicknamed MAXXI, tem a assinatura de Zaha Hadid. Por enquanto apenas se adivinham em bruto as suas linhas orgânicas, como é hábito desta detentora de um Pritzker, ainda que mais angulosas e desafiantes das leis da física. Adivinha-se um espaço flexível e multidisciplinar com cerca de 26.000 m2 de área, que vai ser palco de exposições de arte contemporânea e mostras regulares de arquitectura moderna.

[ Não há como esgotar a capital italiana. Por todo o lado e em toda a parte há sempre qualquer coisa para ver, extractos e substratos de épocas que se sobrepõem sem qualquer receio


A beleza romana está em toda a parte, na arquitectura, nos museus e nas ruas
Praça do Capitólio, desenhada por Miguel Ângelo a pedido do papa Paulo III
Mas regressemos à História e aos vestígios do passado no presente, um tema inevitável e sempre recorrente quando se fala de Roma, pois os seus “pedaços” estão por todo o lado, e o mais certo é que ainda esteja muito por descobrir em escavações sucessivas. Estamos no século XXI e ainda é fácil desenterrar um qualquer dedo apontado de uma estátua em pedra travertino, material este sobejamente utilizado pela engenharia imperial da Roma Antiga. Por essa razão, as autoridades museológicas encontraram uma solução inteligente para escoar o excedente de História que tinham em mãos na Centrale Montemartini (Via Ostiense, 106). Não se trata, também aqui, de um museu mundialmente conhecido, mas esta antiga central eléctrica (a única que não foi bombardeada durante a II Grande Guerra por ter hasteado uma forjada bandeira do Vaticano) recebe, entre maquinaria industrial e geradores restaurados, dezenas de estátuas e vestígios arqueológicos ao bom estilo romano, parte integrante do espólio dos mais mediáticos Museus Capitolinos.

O lado doce da vida
Ilha Tiberina, que na antiguidade ostentava uma estrutura em travertino branco em cada extremidade, construída para imitar a popa e a proa de um navio, pois, segundo a lenda, a ilha deve a sua forma a um barco que partiu da Grécia em busca do deus da medicina, Esculápio. Desde o século XVI que esta pequena porção de terra é ocupada por um hospital e por uma pequena igreja barroca.
Poderá até ser um daqueles clichés já mais do que batidos, mas não há volta a dar e tem de ser aqui repetido: Roma é o anagrama de amor. Uma e outra palavra, gémeas na retórica e nas sensações, confundem-se. Confundem-nos. Trocam-nos as voltas. Nos sentimentos e nos sentidos. É uma daquelas felizes coincidências gramaticais que parecem propositadas e feitas à medida. Prosseguindo este (impossível) roteiro de aspirante a romano, não há como falhar os próprios romanos. Gente de paixões, trato fácil e palavra doce, eles e elas são fiéis às suas origens. Vaidosos, mas não emproados, têm hábitos bem enraizados no que toca aos prazeres do estômago. Ainda são fanáticos de bem comer, mas manter a linha e o visual delgado parece ser uma obrigação, pelo menos à hora do almoço, quando apenas comem um panino e um sumo, refeição leve compensada só ao jantar – por todos os motivos, o momento alto do dia. Ao cair da noite, tanto homens como mulheres não saem de casa sem olhar para o espelho, vaidade assumida e adornada por um estilo apurado e decotes generosos. Se esquecer o mês de Agosto, quando os romanos abandonam em massa a cidade, gente bonita é o que se vê nas ruas, vistas cinematográficas personificadas e tonificadas por multidões de romanos ruidosos. Elas com vestidos colados ao corpo e de estilizadas botas de cowboy, e eles com uma pequena barbicha sobre o queixo. Com modas passageiras ou não, assim se apresentam as novas personagens da Roma de Fellini, luminosa, radiante, exuberante, decadente e sofisticada na sua anarquia ao estilo da dolce vita.

O Caffè della Pace, um dos pontos de paragem obrigatórios antes e durante a noite romana. Fica mesmo por detrás da Piazza Navona.
Café-restaurante da T.A.D., uma loja multi-marcas em plena Via del Babuino
Mercado do Campo dei Fiori
Tal como no passado, os verdadeiros romanos vivem na rua e não dispensam, por exemplo, a frequência dos cafés e das suas esplanadas. Ao acordar, por exemplo, ou para uma simples pausa, não há como perder o Sant’Eustachio, aparentemente um café banalíssimo e de instalações modestas – apesar da sua esplanada localizada a segundos do Panteão –, mas que serve simplesmente o melhor café e o mais cremoso cappuccino de Roma.

[ Nas noites de fim-de-semana, Gente bonita é o que se vê nas ruas. vistas cinematográficas, personificadas e tonificadas por multidões de romanos ruidosos.

A grandiosa Praça de São Pedro, construída segundo projecto de Bernini entre 1656 e 1667. Se tiver sorte, poderá assistir aqui à audiência papal de quarta-feira
Mercado do Campo dei Fiori, que preserva a atmosfera boémia dia e noite, sob o olhar vigilante do filósofo Giordano Bruno
Depois, se quiser saber qual é o melhor bar ou enoteca da cidade, não há que enganar: dirija-se sem receio ao Campo dei Fiori, onde se ergue a estátua do filósofo Giordano Bruno, queimado vivo no local por heresia. Já em tempos remotos este era um dos locais mais animados da cidade, reunindo nobres e peixeiros no seu mercado diário de flores, frutas, legumes e especiarias, que ainda hoje se mantém intacto e tão tradicional como sempre. A novidade é que, na actualidade, esta praça vive a mesma alegria contagiante pela noite dentro, sendo há já alguns anos um dos principais hot spots dos mais jovens, que aqui se reúnem para beber um copo antes ou depois de se dedicarem à arte del struscio, que nada mais é do que andar a ver as vistas, ou seja, o circuito nocturno praticado por todos os romanos, antes e depois de jantar.

Mitologia romana
O Museu Ara Pacis, desenhado por Richard Meyer
O estilo italiano
Tudo o resto é recorrente nas lendas e narrativas da capital romana: o transito é caótico, todos os milímetros são aproveitados para estacionar e os motorini continuam a não parar nas passadeiras, desviando-se habilmente dos peões. Persistem os piropos e os gelados, que aqui têm mais encanto. E em vez dos escravos, patrícios (os grandes proprietários no topo da escala hierárquica), clientes (os “assessores”, dependentes dos senhores da terra) e plebeus (cidadãos livres que se dedicavam ao comércio, ao artesanato ou à agricultura), os puros romanos de uma Roma Antiga foram copiados para a nova era, e continuam a dar vida a esta cidade, que não seria eterna se não tivesse os seus habitantes de sangue quente e natural born style.

[ Em matéria de arquitectura, os romanos são algo avessos a grandes modernices, o que não é de estranhar se pensarmos que têm como ponto de comparação Miguel Ângelo, bramante e bernini

As arrojadas estruturas do Parco della Musica, com assinatura de Renzo Piano
Castel Sant’Angelo, o antigo mausoléu de Adriano, visto a partir da ponte S. Angelo
E assim chegamos a mais um dos temas sensíveis por estas bandas. É um facto que há muito que Milão roubou a Roma o título de capital da moda italiana, mas não há romano que se preze que não dedique uma parte do seu tempo e do seu dinheiro à manutenção do seu visual e do seu guarda-roupa – o que, diga-se de passagem, não será muito difícil. E também aqui, mesmo sabendo à partida que não tendo nascido italiano(a) vai ter alguma dificuldade em copiar o(s) modelo(s), basta abrir os olhos. O chamado “tridente dourado” do shopping romano, formado por três ruas – Via di Ripetta, del Corso e del Babuino – reúne as principais marcas da moda mundial, da alta costura ao pronto-a-vestir, mas não esgota tudo o a cidade tem para oferecer. Porque outra característica impossível de esquecer ou passar ao lado é o facto de Roma se desmultiplicar em igrejas, às centenas, dos mais variados estilos, tamanhos e estados de conservação. O mesmo acontece no que diz respeito aos hotéis, não sendo mito que existem para todos os gostos e bolsas, uns em frente aos outros, a garantir a lei da concorrência.

Uma das sempre movimentadas ruas do centro histórico e a área sacra do Largo Torre Argentina
Na sua maioria de aspecto clássico ou de qualidade duvidosa face aos preços praticados, aqui e ali vão aparecendo agradáveis surpresas, como é o caso do Hotel Aleph, unidade do grupo Boscolo Hotels (também proprietária do luxuoso Exedra), inaugurada há cerca de dois anos e localizada a poucos metros da histórica Via Veneto. Com 96 quartos de traços contemporâneos (incluindo 24 deluxe e outras seis suites e junior suites, duas delas com um enorme terraço com jacuzzi) distribuídos pelo edifício de uma antiga instituição bancária, apresenta logo à entrada um cenário que se assume digno do Inferno de Dante, trajado de negro e encarnado, e ornamentado por peças cinematográficas. A concepção deste novo hotel coube ao reputado arquitecto Adam D. Tihany (entre muitos outros projectos internacionais, é da sua autoria o famoso restaurante nova-iorquino Le Cirque), que organizou uma dinâmica de espaços quentes, intimistas e algo cénicos entre a sala de estar, o bar e a área de refeições. Nada mais do que uma zona baptizada como Sin/Pecado, ocupada pelo restaurante Maremoto para culinárias de fusão, pelo Dionisio para experimentar un vino e pelo Angelo Bar para acabar ou começar a noite. No último andar, precisamente no terraço descoberto, recomenda-se um jantar à luz das velas no 7 Heaven, em ambiente descontraído e com vista sobre a cidade.

[ Com modas passageiras ou não, assim se apresentam as personagens de uma roma luminosa, radiante, decadente e sofisticada, na sua anarquia ao estilo da dolce vita

A sala-lounge ao estilo do Inferno de Dante, o spa e terraço do Hotel Aleph, membro do grupo Boscolo Hotels e uma das mais recentes e originais unidades hoteleiras de Roma
Já agora, recomenda-se uma visita aos subterrâneos, mais concretamente ao Paradise Spa, onde antes se situava a caixa-forte do banco, memória recuperada na descomunal porta blindada que dá acesso à sala de relax, decorada por camas e com um ambiente zen. Em busca das origens romanas e das suas termas privadas, dispõe de sauna, banhos turcos e de uma piscina de águas termais, a que se acrescenta uma área com máquinas de fitness, podendo ainda os hóspedes marcar uma massagem com chocolate derretido ou mel, bem como sessões de shiatsu ou reflexologia.

As bicicletas, os motorini, os Fiat 500 e os smart são meios de locomoção muito populares numa cidade onde o tamanho – muito reduzido – conta.
O Exedra, a uns quinze minutos de caminhada do Aleph, oferece outro cenário. Mais imponente, de um classicismo apurado pelos mármores luminosos que percorrem este monumental palazzo do século XIX, este hotel de luxo com vista para Piazza della Repubblica e a dois passos da estação Termini, conta com 240 quartos (as suas três major suites são de um luxo invejável, uma delas ocupada durante dois meses consecutivos pela família real saudita), dois restaurantes e o irresistível Living Bar, num terraço com piscina alinhada com o horizonte, onde também pode tomar o pequeno-almoço enquanto assiste ao caos romano, que passa lá em baixo. Boas propostas, que não serão as únicas, mas podem bem suster-lhe o ímpeto de se tornar quanto antes um verdadeiro romano.

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