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L U G A R E S  C O M  H I S T Ó R I A

Novembro de 2002
Ficou célebre quando, no final dos anos 30, foi eleita a mais portuguesa das aldeias nacionais. Mais de seis décadas passadas, Monsanto conserva muita da beleza de outrora. Labiríntico mas acolhedor, este é um lugar que vale realmente a pena conhecer.

Texto de Teresa Frederico
Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   

Exibe-se, airosa, no alto da íngreme colina. Faz-se difícil, obrigando o visitante a uma subida esforçada, a primeira de muitas, para se deixar apreciar. Curva após curva, Monsanto vai-se revelando aos poucos, segura de que tem muito para oferecer.

Não é para menos: afinal, trata-se da aldeia mais portuguesa de Portugal, aquela que arrebatou a vitória do concurso promovido, em 1938, pelo Secretariado de Propaganda Nacional do Estado Novo, dirigido por António Ferro. Ser, na opinião do júri composto por etnógrafos, poetas e escritores, a mais característica povoação do país, a menos "penetrada pela civilização dos outros", valeu-lhe o Galo de Prata, troféu cuja réplica permanece até hoje no cimo da Torre do Relógio ou de Lucano, um dos seus mais conhecidos monumentos.

Algumas casas usam rochas como tecto ou parede

Embora tornada famosa por tal feito, Monsanto não é apenas uma espécie de "Miss Portugal" na reforma, que tenta envelhecer conservando a beleza de outrora. Lugar muito antigo, com registo de presença humana desde o Paleolítico, distingue-se, para além do seu passado histórico, pela população, pouco mais de uma centena de pessoas que persiste orgulhosamente em defender as tradições, em preservar a sua identidade.

É, também - e embora, infelizmente, não disponha de infra-estruturas suficientes para acolher o significativo número de turistas que ali ocorre regularmente - um óptimo destino para um fim-de-semana diferente, especialmente durante o Inverno, quando o frio aperta e o cheiro a lenha se propaga por toda a aldeia
.

Fôlego precisa-se
Para conhecer Monsanto não há como começar pelo princípio, ou seja, pelo Castelo, a 758 metros de altitude, cujas muralhas protegeram a povoação durante séculos. Encha-se de fôlego para a subida e siga as setas que indicam o caminho. Durante o percurso, contemple os enormes pedregulhos que ornamentam as bermas. Se for algo medroso, tranquilize-se: embora alguns pareçam estar em equilíbrio precário é pouco provável que se despenhem no momento exacto em que vai a passar por eles.

D. Emília, uma boa contadora de histórias

Os autores da edificação foram os Templários - sob ordens de D. Gualdim Pais, também responsável pela fundação dos castelos de Tomar e Almourol - aos quais D. Afonso Henriques doou, em 1165, estas terras conquistadas aos mouros. Várias vezes mandado reconstruir por sucessivos monarcas, o castelo medieval em pedra granítica viria a sofrer um terrível acidente no século XIX: foi parcialmente destruído, numa noite de Natal, pela explosão do paiol de munições, uma fatalidade à qual sobreviveram as duas torres, a do Peão, primitiva torre de vigia, e a de Menagem.

Visite, também, as ruínas da Capela de São Miguel, que ali resiste desde o século XII, e a Igreja de Santa Maria do Castelo, remodelada nos finais do século XVII, bem como as sepulturas antropomórficas e as covas escavadas na rocha, as duas últimas de origem ainda pouco esclarecida.

Mais do que a História, que nem todos conhecem com rigor, Monsanto cultiva os seus mitos. Conversando com as pessoas da aldeia rapidamente se fica a saber que as referidas covas são, afinal, gamelas nas quais a mulher de um antigo governador mandava servir sopa aos pobres.

O castelo é protagonista de uma festividade anual, a Festa de Santa Cruz, realizada no primeiro domingo de Maio, que inclui uma simulação de outra lenda, conhecida como do bezerro: depois de terem estado cercados pelos mouros durante longo período, os monsatinos terão decidido deitar, lá do alto, um bezerro com o estômago cheio de cereais, o que levou o invasor, convencido de que ainda lhes restavam muitos mantimentos, a desistir do cerco. Na reconstituição, o animal é actualmente substituído por cântaros de barro caiados de branco e decorados com fitas e flores.

A "ex-miss" tem encanto a qualquer hora do dia

Mesmo que tal episódio nunca tenha acontecido, dados históricos confirmam que este era um povo difícil de sitiar: resistiu, no século XVII a uma tentativa dos espanhóis e, no século seguinte, a outra liderada pelo Duque de Berwick. Espera-se que os derrotados tenham tido, como consolação, tempo para apreciar a paisagem, grandiosa, que dali se avista.

Grandes pedras
Relaxe, pois, por esta altura, já subiu praticamente tudo o que havia para subir. Depois da primeira abordagem, a Miss Portugal 1938 baixa a guarda, dá-se a conhecer sem exigir especial esforço físico. O melhor é percorrer a aldeia histórica tranquilamente, apreciando cada recanto. Vá observando as casas, em especial aquelas que usam grandes penedos
graníticos como tecto ou parede - mais uma prova do engenho da população local - e que deram origem à quadra "Nunca se sabe em Monsanto/Que as águias roçam com a asa/Se a casa nasce da rocha/Se a rocha nasce da casa".

Evento
Há festa na aldeia

Em Monsanto e algumas localidades vizinhas, Novembro vai começar em festa. Para o Dia de Todos-os-Santos, o primeiro do mês, estão previstos vários acontecimentos, essencialmente de carácter religioso.
As primeiras festividades realizam-se em Penha Garcia, situada a poucos quilómetros, onde, pelas 9h30, será benzida a capela do Espírito Santo, recentemente restaurada. Logo de seguida, na Igreja Matriz local, terão início as comemorações dos seus 50 anos.
Depois as celebrações transferem-se para Monsanto: às 11h30 terá lugar a bênção da Igreja da Misericórdia, alvo de restauro no ano passado, a que se seguirá um cortejo até à Igreja de São Salvador, a mais importante da aldeia, cujas principais obras de recuperação foram concluídas em Outubro último. Seguidamente, será inaugurada a Igreja da Senhora da Azenha, localizada nas imediações. Para a hora do almoço está agendado um convívio, com muita comida e bebida.
Às 17h30, a festa prossegue em Medelim, com a bênção e inauguração da Igreja Matriz local, também restaurada durante este ano. Ao fim do dia, mais concretamente às 20h30, terá início um concerto de música clássica na Igreja Matriz de Monsanto. Todos os interessados podem participar nas festividades.

Aproveite para se deixar contagiar pelo sossego reinante e sentir o cheiro da povoação, tão diferente daqueles com que convive no quotidiano. E, sobretudo, não hesite em falar com a população local, hospitaleira, quase sempre disposta a esclarecer as dúvidas do visitante.

Para não perder pitada, o melhor é passar, de seguida, pelo Posto de Turismo para obter um mapa do percurso urbano. É que, para além dos pontos de interesse facilmente identificáveis, há lugares discretos mas cheios de significado que também merecem a sua atenção.

Detenha-se na Igreja Matriz ou de São Salvador, provavelmente construída no século XV. Alvo de reforma três séculos depois, a sua fachada ainda conserva elementos antigos, nomeadamente o portal românico. A entrada faz--se pela porta lateral, à esquerda do edifício. O interior surpreende, pois, graças ao restauro agora concluído, tudo reluz, dos bancos ao altar-mor e aos vitrais, antes inexistentes.

Um dos novos vitrais da Igreja Matriz

Prossiga para a já referida Torre de Lucano (que poderá ter sido de vigia quando a povoação desceu do castelo, nos séculos XV ou XVI), passando pelo Pelourinho (datado, crê-se, do início do século XVI e cujo remate cilíndrico foi encontrado na parede de uma casa vizinha nos finais da década de 30, quando foi reconstituído) e a Igreja da Misericórdia, de características essencialmente românicas.

Um pouco mais acima fica o consultório onde Fernando Namora exerceu clínica, entre 1944 e 1946. Do lado oposto da aldeia situa-se a casa deste romancista, ensaísta, poeta e pintor falecido em 1989. Sinalizada por uma humilde placa, apenas ganha vida no Verão, quando a família vem à aldeia passar férias.

 
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