L
U G A R E S C O M H I S T Ó R I A

Ficou
célebre quando, no final dos anos 30, foi eleita a mais portuguesa
das aldeias nacionais. Mais de seis décadas passadas, Monsanto conserva
muita da beleza de outrora. Labiríntico mas acolhedor, este é um lugar
que vale realmente a pena conhecer.
Exibe-se,
airosa, no alto da íngreme colina. Faz-se difícil,
obrigando o visitante a uma subida esforçada, a primeira
de muitas, para se deixar apreciar. Curva após curva, Monsanto
vai-se revelando aos poucos, segura de que tem muito para oferecer.
Não
é para menos: afinal, trata-se da aldeia mais portuguesa
de Portugal, aquela que arrebatou a vitória do concurso promovido,
em 1938, pelo Secretariado de Propaganda Nacional do Estado Novo,
dirigido por António Ferro. Ser, na opinião do júri
composto por etnógrafos, poetas e escritores, a mais característica
povoação do país, a menos "penetrada pela
civilização dos outros", valeu-lhe o Galo de
Prata, troféu cuja réplica permanece até hoje
no cimo da Torre do Relógio ou de Lucano, um dos seus mais
conhecidos monumentos.
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Algumas
casas usam rochas como tecto ou parede
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Embora
tornada famosa por tal feito, Monsanto não é apenas
uma espécie de "Miss Portugal" na reforma, que
tenta envelhecer conservando a beleza de outrora. Lugar muito antigo,
com registo de presença humana desde o Paleolítico,
distingue-se, para além do seu passado histórico,
pela população, pouco mais de uma centena de pessoas
que persiste orgulhosamente em defender as tradições,
em preservar a sua identidade.
É, também - e embora, infelizmente, não disponha
de infra-estruturas suficientes para acolher o significativo número
de turistas que ali ocorre regularmente - um óptimo destino
para um fim-de-semana diferente, especialmente durante o Inverno,
quando o frio aperta e o cheiro a lenha se propaga por toda a aldeia.
Fôlego
precisa-se
Para conhecer Monsanto não há como começar
pelo princípio, ou seja, pelo Castelo, a 758 metros de altitude,
cujas muralhas protegeram a povoação durante séculos.
Encha-se de fôlego para a subida e siga as setas que indicam
o caminho. Durante o percurso, contemple os enormes pedregulhos
que ornamentam as bermas. Se for algo medroso, tranquilize-se: embora
alguns pareçam estar em equilíbrio precário
é pouco provável que se despenhem no momento exacto
em que vai a passar por eles.
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D.
Emília, uma boa contadora de histórias
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Os
autores da edificação foram os Templários -
sob ordens de D. Gualdim Pais, também responsável
pela fundação dos castelos de Tomar e Almourol - aos
quais D. Afonso Henriques doou, em 1165, estas terras conquistadas
aos mouros. Várias vezes mandado reconstruir por sucessivos
monarcas, o castelo medieval em pedra granítica viria a sofrer
um terrível acidente no século XIX: foi parcialmente
destruído, numa noite de Natal, pela explosão do paiol
de munições, uma fatalidade à qual sobreviveram
as duas torres, a do Peão, primitiva torre de vigia, e a
de Menagem.
Visite,
também, as ruínas da Capela de São Miguel,
que ali resiste desde o século XII, e a Igreja de Santa Maria
do Castelo, remodelada nos finais do século XVII, bem como
as sepulturas antropomórficas e as covas escavadas na rocha,
as duas últimas de origem ainda pouco esclarecida.
Mais
do que a História, que nem todos conhecem com rigor, Monsanto
cultiva os seus mitos. Conversando com as pessoas da aldeia rapidamente
se fica a saber que as referidas covas são, afinal, gamelas
nas quais a mulher de um antigo governador mandava servir sopa aos
pobres.
O castelo é protagonista de uma festividade anual, a Festa
de Santa Cruz, realizada no primeiro domingo de Maio, que inclui
uma simulação de outra lenda, conhecida como do bezerro:
depois de terem estado cercados pelos mouros durante longo período,
os monsatinos terão decidido deitar, lá do alto, um
bezerro com o estômago cheio de cereais, o que levou o invasor,
convencido de que ainda lhes restavam muitos mantimentos, a desistir
do cerco. Na reconstituição, o animal é actualmente
substituído por cântaros de barro caiados de branco
e decorados com fitas e flores.
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A
"ex-miss" tem encanto a qualquer hora do dia
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Mesmo
que tal episódio nunca tenha acontecido, dados históricos
confirmam que este era um povo difícil de sitiar: resistiu,
no século XVII a uma tentativa dos espanhóis e, no
século seguinte, a outra liderada pelo Duque de Berwick.
Espera-se que os derrotados tenham tido, como consolação,
tempo para apreciar a paisagem, grandiosa, que dali se avista.
Grandes
pedras
Relaxe,
pois, por esta altura, já subiu praticamente tudo o que havia
para subir. Depois da primeira abordagem, a Miss Portugal 1938 baixa
a guarda, dá-se a conhecer sem exigir especial esforço
físico. O melhor é percorrer a aldeia histórica
tranquilamente, apreciando cada recanto. Vá observando as
casas, em especial aquelas que usam grandes penedos
graníticos como tecto ou parede - mais uma prova do engenho
da população local - e que deram origem à quadra
"Nunca se sabe em Monsanto/Que as águias roçam
com a asa/Se a casa nasce da rocha/Se a rocha nasce da casa".
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Evento
Há
festa na aldeia
Em Monsanto
e algumas localidades vizinhas, Novembro vai começar
em festa. Para o Dia de Todos-os-Santos, o primeiro do mês,
estão previstos vários acontecimentos, essencialmente
de carácter religioso.
As primeiras festividades realizam-se em Penha Garcia, situada
a poucos quilómetros, onde, pelas 9h30, será
benzida a capela do Espírito Santo, recentemente restaurada.
Logo de seguida, na Igreja Matriz local, terão início
as comemorações dos seus 50 anos.
Depois as celebrações transferem-se para Monsanto:
às 11h30 terá lugar a bênção
da Igreja da Misericórdia, alvo de restauro no ano
passado, a que se seguirá um cortejo até à
Igreja de São Salvador, a mais importante da aldeia,
cujas principais obras de recuperação foram
concluídas em Outubro último. Seguidamente,
será inaugurada a Igreja da Senhora da Azenha, localizada
nas imediações. Para a hora do almoço
está agendado um convívio, com muita comida
e bebida.
Às
17h30, a festa prossegue em Medelim, com a bênção
e inauguração da Igreja Matriz local, também
restaurada durante este ano. Ao fim do dia, mais concretamente
às 20h30, terá início um concerto de
música clássica na Igreja Matriz de Monsanto.
Todos os interessados podem participar nas festividades.
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Aproveite
para se deixar contagiar pelo sossego reinante e sentir o cheiro
da povoação, tão diferente daqueles com que
convive no quotidiano. E, sobretudo, não hesite em falar
com a população local, hospitaleira, quase sempre
disposta a esclarecer as dúvidas do visitante.
Para não perder pitada, o melhor é passar, de seguida,
pelo Posto de Turismo para obter um mapa do percurso urbano. É
que, para além dos pontos de interesse facilmente identificáveis,
há lugares discretos mas cheios de significado que também
merecem a sua atenção.
Detenha-se na Igreja Matriz ou de São Salvador, provavelmente
construída no século XV. Alvo de reforma três
séculos depois, a sua fachada ainda conserva elementos antigos,
nomeadamente o portal românico. A entrada faz--se pela porta
lateral, à esquerda do edifício. O interior surpreende,
pois, graças ao restauro agora concluído, tudo reluz,
dos bancos ao altar-mor e aos vitrais, antes inexistentes.
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Um
dos novos vitrais da Igreja Matriz
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Prossiga
para a já referida Torre de Lucano (que poderá ter
sido de vigia quando a povoação desceu do castelo,
nos séculos XV ou XVI), passando pelo Pelourinho (datado,
crê-se, do início do século XVI e cujo remate
cilíndrico foi encontrado na parede de uma casa vizinha nos
finais da década de 30, quando foi reconstituído)
e a Igreja da Misericórdia, de características essencialmente
românicas.
Um pouco mais acima fica o consultório onde Fernando Namora
exerceu clínica, entre 1944 e 1946. Do lado oposto da aldeia
situa-se a casa deste romancista, ensaísta, poeta e pintor
falecido em 1989. Sinalizada por uma humilde placa, apenas ganha
vida no Verão, quando a família vem à aldeia
passar férias.
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