Subscrever
Rotas & Destinos




- - - - - - - - - - - - - - -
  Bloco de notas
   Hoteis, Restaurantes e Shopping
   Globetrotter 
   Livros e Discos
   Promoções 
   Agenda
   Dicas de Viagem
   Dicas de Saúde
 
  Secções
 • Fim-de-semana 
 • Estrada fora

 • 24 Horas
 • Hotéis
 • Em destaque
 • Especiais
 • Panorâmica
 • Lugares com história
 • Gourmet
 • As viagens de
  Pesquisar artigos


  Planear Viagem
 • Programas de Viagem
 
  Jogue online
 • Acção
 • Desporto

 • Plataformas
 • Puzzle
 • Shoot´Em Up
 
  Utilidades
  
Assinar a Revista
- - - - - - - - - - - - - - -
 Edições Anteriores
- - - - - - - - - - - - - - -
    XL >   Rotas & Destinos > Dossier Moscovo
D O S S I E R

Novembro de 2003
Será seguramente uma das dez cidades mais importantes do futuro próximo. Moscovo faz moda, é um espaço privilegiado de criatividade e constitui-se como um verdadeiro laboratório vivo da história do século XX

Texto de Ana Paula Lemos Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   


Quatro mulheres falavam umas com as outras debaixo de uma chuva miudinha e já era noite. Fazia frio, Moscovo bailava entre a letargia do álcool que alguns homens transportavam pelas ruas e a alegria de uma imensa minoria de jovens que começava a encher os lugares de entretenimento da cidade.

Artista na rua Arbat
As mulheres, entre os 50 e os 60 anos, conversavam sobre um concerto que as tinha emocionado. Discutiam os pormenores técnicos e a qualidade da execução. Ao cruzarmo-nos com elas, uma daquelas mulheres pediu-nos quatro rublos para comprar um pão. Na Rússia não existem papos secos mas pães grandes que enchem e alimentam. “Gastei o dinheiro na compra do bilhete para o concerto”, explicou. O nosso guia deu-lhe os quatro rublos.

Moscovo é um laboratório vivo da história recente, um lugar onde o paradoxo é rei e a emoção a única leitura possível do real.

Quando chegámos a Moscovo eu levava uma memória carregada de medo. Talvez a história do medo lida em vários livros – ainda este mês a Editorial Notícias publicou “Koba, o Terrível”, de Martin Amis, uma curiosa narrativa sobre Estaline, que nos fala da Rússia e também de Moscovo. Na verdade, a questão mantém-se: ainda existe medo? Sim, mas um medo provocado pelo desconhecido, o pisar de um território estranho, e pelo poder das mafias. É claro que há sempre histórias para contar. Basta pensar nas gotas de suor que corriam pela cara do fotógrafo Pedro Sampayo Ribeiro quando se preparava para fotografar as sumptuosas lojas da Prada, da Cartier e da Armani numa rua perto do célebre Bolshoi. De repente, dois grandes seguranças num russo nada simpático reprimiram, com notória agressividade, os seus esforços.

E no entanto, os responsáveis do turismo moscovita asseguraram-nos que Moscovo é uma cidade segura e que por isso mesmo se assistiu a um crescimento do sector turístico na ordem dos 13% durante o ano de 2002.


Acordar para um mundo novo
Os russos detestam falar outra língua que não a sua e os moscovitas não fogem à regra. Ao contrário da maioria dos povos do mundo, porém, sabem falar fluentemente Inglês, Francês e mesmo Alemão. O que se verifica é que a generalidade dos moscovitas ainda tem muita dificuldade em aproximar-se do outro, sobretudo se o outro for um turista, figura, aliás, absolutamente contrária aos valores com os quais construíram a sua existência durante os últimos 80 anos. Só muito recentemente os russos descobriram a palavra “lazer” e ainda hoje procuram o significado de “ócio”.

Catedral Kazansky
O ministro adjunto para a Cultura, Denis V. Molchanov, disse-nos num encontro agendado no seu ministério que só em Setembro passado a nova Enciclopédia Russa tinha sido distribuída pelas escolas de todo o país. A anterior foi publicada em pleno auge do regime comunista. Ora, significa isto que, até há pouco mais de um mês, Estaline ainda era “oficialmente” um herói e os sovietes o único instrumento da felicidade humana.

Moscovo é justamente a metáfora desta experiência dual. Por um lado, ainda se pode ler na arquitectura, nos comportamentos e na vida quotidiana o imenso peso do seu passado histórico recente, mas, por outro, nesta mesma arquitectura, nos muitos milhões de pessoas, nas ruas e na nova organização social e política, encontramos um pulsar absolutamente inovador, ansioso por absorver o tempo psicológico do Ocidente, desejando ardentemente construir uma sociedade livre e aberta ao mundo.

Bailarina no Bolshoi
Muralhas do Kremlin

Talvez o desejo sexual seja a expressão máxima dessa íntima libertação. Em Moscovo, tal como no Portugal dos anos 70, sente-se que a promiscuidade da maioria dos adolescentes e dos jovens adultos corresponde mais a um direito recentemente conquistado do que à expressão responsável de uma sociedade de emoções amadurecidas.

Que o digam os homens que percorrem as ruas. Para além de encontrarem mulheres bonitas, caprichadas na aparência e caprichosas nos desejos materiais, eles próprios, ao contrário do que acontece nos países ocidentais, constituem-se facilmente em objectos de sedução, sem outros intentos que não o próprio prazer de ser seduzido.

Praça Vermelha
Começam a chegar ao hotel (uma das muitas unidades hoteleiras de dimensões gigantescas que recebem turistas estrangeiros) pelas 19 horas. São mulheres bonitas, muito elegantes e não escondem o sentido mercenário daquela troca de afectos. Primeiro sentam-se e pedem um chá. Depois, tiram das carteiras fantásticos estojos de maquilhagem e, num gesto iniciático, pintam-se. Os homens, nem todos hóspedes deste hotel, observam os gestos. A escolha é lenta, porque as mulheres são belas. Mas as intenções são claras. Existe uma espécie de código universalmente válido para o que se segue. No cartão que suporta a chave electrónica estão arrumados os rublos ou os dólares que fecharão os olhos ao segurança que controla os mil e seiscentos quartos. O tempo de retorno é curto, as mulheres voltam para repetirem durante a noite a mesma rotina. Outras vezes, só no dia seguinte, pela manhã, voltamos a encontrá-las nos corredores.

Curiosas, divertidas ou degradantes (depende do ponto de vista de cada um), estas são as características de um tecido social em vias de construção, isto é, de uma sociedade antiga, culta ou cultíssima, mas a quem só agora foi concedido o direito de experimentar as vicissitudes próprias do crescimento. Moscovo, nesta matéria, faz lembrar um “rato de biblioteca” que acordou para o sexo já com uma idade muito avançada. Claro que, nestas circunstâncias, os transtornos são enormes.

Moscovo é hoje uma cidade de contrastes: uma procissão ortodoxa
As galerias comerciais GUM
Táxi junto à Catedral de Cristo Salvador


Perspectivas de uma cidade
Aterrámos no aeroporto de Moscovo às 7 da manhã. A cidade estava fria e molhada. O voo fez-se bem. Cinco horas pela noite – partida às 22h30 e chegada às 7h00, hora local –, sobrevoando a Europa, um continente cheio de luzes, composto por inúmeras cidades, vilas e aldeias, muitas das quais – à medida que nos vamos aproximando do nosso destino – outrora membros do Pacto de Varsóvia, hoje lugares “livres”, como a Rússia de Putin.

Claro que o retrato histórico, arquitectónico e social de Moscovo ainda nos remete para um período anterior ao da Perestroika, que em Russo significa “abertura”, facto político protagonizado por Gorbachev, primeiro responsável pela queda do antigo regime soviético. Os edifícios, as ruas, os lugares e os sítios ainda estão impregnados de uma estética profundamente estalinista e pouco permeável à mudança. Às avenidas da capital russa chama-se “perspectiva” (“prospeckt”), o que não é por acaso. Falamos de uma cidade com 300 quilómetros de diâmetro (um quarto destes quilómetros está coberto de bosques). Na célebre Universidade de Moscovo é que nos apercebemos bem dessa perspectiva, um imenso edifício, daqueles que parecem construções de legos, sobre um manto verde composto de milhares de árvores.

Em Moscovo é justamente a dimensão urbanística que nos esmaga, mas, ao mesmo tempo, que nos transporta para a imensidão de uma Rússia onde se vive um tempo novo.

O desejo, latente na maioria dos comportamentos, torna o quotidiano moscovita num complexo lugar de originalidades sociais. Se é verdade que o luxo constitui uma verdadeira categoria social, contrastando os mais recentes modelos topo de gama da BMW, da Mercedes e da Audi com os velhos e ferrugentos Lada que ainda circulam em Moscovo, não deixa também de ser verdade que existe na cidade uma criatividade latente.


Nas ruas, nos olhares e nos dizeres do povo russo, testemunhámos por todos os cantos, recantos, ruas e becos que a descoberta de novas vivências inunda o dia-a-dia dos adolescentes e dos jovens adultos. A Rua Arbat é a mais consistente metáfora desta realidade social que emerge na cidade mas que se vive em toda a Rússia. Imagine uma Rua Augusta, em Lisboa, com mais quilómetros é certo, mas como a nossa, calcetada, sem carros, completamente entregue aos peões. A única diferença é que na Rua Arbat os fenómenos comerciais traduzem bem a dinâmica de uma sociedade que só vive em liberdade há apenas dez anos. Tudo se vende: cães, gatos, serigrafias, pines, t-shirts, fardas militares do antigo regime, isto a par do comércio tradicional e do moderno.

Galerias Tretyakov
Ao fim da tarde, a Rua Arbat transforma-se numa cimeira de jovens a confraternizar a modernidade. Sempre com uma lata de cerveja na mão, lá estão, enchendo a rua, conversando, combinando programas, geralmente musicais, ou trocando experiências artísticas, visíveis nas pinturas expostas na rua.


Festa vermelha
Para os lados da Praça Vermelha podemos encontrar algumas expressões do pós-modernismo. Até no modo como os jovens se vestem. A par das antigas galerias do povo, agora transformadas em lugares aristocráticos, requintados e cuidadosamente decorados, onde as marcas brilham e o preço do café selecciona o perfil social adequado ao espaço, saltam como cangurus rapazes e raparigas vestidos de calças de ganga Diesel, calçado Adidas ou Nike e blusão de cabedal Roberto Cavalli. Esta população, que se distribui na zona mais nobre da cidade, paredes-meias com o seu lado político e histórico, nomeadamente a Praça Vermelha e o Kremlin, procura a revista Vogue para se concertar com o mundo e compra a Face inglesa para parecer que vive no centro desse mesmo mundo.

Hotel Russia, junto às muralhas do Kremlin
Os Scorpion, a famosa banda de rock, foram as estrelas convidadas para a festa da cidade de Moscovo que se realiza todos os anos a 6 de Setembro. O grupo ergueu o altar-mor do ruído ao fundo da Praça Vermelha, quase ao lado da Catedral de São Basílio, mesmo junto ao Kremlin.

De facto, Moscovo mudou. Aqui está um bom exemplo. No coração da capital russa, sempre austera, porque o Kremlin não é outra coisa senão um fantástico hino arquitectónico à grandeza russa, uma peregrinação de jovens procurava a festa. Uma das festas. Porque Moscovo, nesta altura do ano, a par de um fortíssimo dispositivo de segurança, tem centenas de bandas a tocar pelas ruas, repletas de milhares de jovens sedentos de barulho e muitos líquidos.

Era cedo – finalmente o Sol raiava pela cidade depois de 50 dias de chuva consecutiva – quando entrámos nas muralhas do Kremlin, o ponto nevrálgico de Moscovo. Esta fortaleza (kreml) do século XII transformou-se no símbolo palpável do poder russo – simultaneamente um baluarte, um santuário, um harém, uma necrópole e uma prisão – foi palco de vários momentos cruciais da história do país, dos terrores de Ivan, o Terrível às torturas de Estaline. Ao entrar sente-se plenamente que este é o espaço onde ainda hoje se exerce o poder do país. Continua severamente policiado. Putin trabalha a pouco mais de duzentos metros do sítio onde milhares de turistas descobrem a maravilha das catedrais de Moscovo.

Luxuoso parque automóvel junto a um casino
As atracções sucedem-se: a Catedral da Assunção, a Torre do Sino, o gigantesco Canhão e Sino do Czar, a Catedral do Arcanjo e da Anunciação, o Grande Palácio... Mesmo em frente à janela onde Lenine trabalhava, já depois de atravessarmos o pátio principal onde se espelha o palácio presidencial, existe um pomar de maçãs pequenas mas sumarentas. Encontrar um pomar no Kremlin, religiosamente tratado – de Inverno submerso na mais gelada solidão, mas de Verão repleto de maçãs –, é perturbador. As maçãs são demasiado humanas para aquele espaço. Talvez por isso ali estejam...

Acredito que Moscovo será uma das dez capitais do futuro, porque é das poucas cidades do mundo que ainda nos torna protagonistas da história recente do século XX. Moscovo é uma metrópole esmagadora e um destino cultural imperdível. Um sítio onde podemos encontrar a explicação para tantas utopias.


Bolshoi
Um teatro com alma

A sala estava escura e vazia. Ao centro, com um microfone na mão, a directora artística comentava passo-a-passo os gestos dos bailarinos. O ensaio não corria bem ao primeiro bailarino. Nikolay Tsiskaridze caía mal ao executar as piruetas. O coreógrafo dançou no palco para lhe explicar as falhas. O bailarino não se conformava. Falava alto e baixava a cabeça, apavorado com a ideia de que a estreia de “Bayadere” lhe corresse tão mal como este ensaio.

Existem poucos momentos na vida de um jornalista que podem competir com a sensação absolutamente única de estar no Bolshoi, um dos melhores teatros do mundo, de palco aberto, com a maquinaria à mostra, com a companhia de bailado e a orquestra a actuarem só para si.

À noite, quando regressámos para assistir à ópera mais cantada na Rússia, “Khovanshchina”, do grande compositor Modest Mussorgsky, o teatro revelou-se, então, na sua majestática personalidade. Nobilíssimo, de cor adamascada, com a talha dourada manchando o vermelho sangue das cortinas decoradas com a sigla CCCP da antiga União Soviética.

É inevitável: o Bolshoi remete-nos para a memória de uma instituição que exportou para todo o mundo os clássicos “Lago dos Cisnes”, “Quebra-Nozes”, “A Bela Adormecida” ou “Romeu e Julieta”. Por isso, percorrer a plateia, ouvir o sussurrar dos artistas, admirar os lustres e os dourados dos balcões e sentir o cheiro a antigo dos veludos é como beber uma poção mágica e enveredar por uma viagem na História.

• Teatro Bolshoi, praça Teatralnaya 1 (metro: Okhotniy Ryad, Teatralnaya), tel. (00 7) 095 2929986. A bilheteira está aberta das 12h00 às 15h00 e das 16h00 às 19h00. Também pode fazer reservas ou consultar a programação através da Internet em www.bolshoi.ru

página anterior
Pesquisas relacionadas com este artigo:
                

 

Anunciar on-line | Assinaturas | Contactos | Notícias por RSS | Promoções | Serviços Móveis Record | Serviços Móveis CM
ADSL.XL | Classificados | Emprego | Directórios | Jogos | Horóscopo | Tempo

Copyright ©. Todos os direitos reservados. É expressamente proíbida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Edirevistas, S.A. , uma empresa Cofina Media - Grupo Cofina.
Consulte as condições legais de utilização.