Será
seguramente uma das dez cidades mais importantes do futuro próximo.
Moscovo faz moda, é um espaço privilegiado de criatividade
e constitui-se como um verdadeiro laboratório vivo da história
do século XX
Texto
de Ana Paula Lemos Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
Quatro
mulheres falavam umas com as outras debaixo de uma chuva miudinha
e já era noite. Fazia frio, Moscovo bailava entre a letargia
do álcool que alguns homens transportavam pelas ruas e a alegria
de uma imensa minoria de jovens que começava a encher os lugares
de entretenimento da cidade.
Artista
na rua Arbat
As
mulheres, entre os 50 e os 60 anos, conversavam sobre um concerto
que as tinha emocionado. Discutiam os pormenores técnicos e
a qualidade da execução. Ao cruzarmo-nos com elas, uma
daquelas mulheres pediu-nos quatro rublos para comprar um pão.
Na Rússia não existem papos secos mas pães grandes
que enchem e alimentam. “Gastei o dinheiro na compra do bilhete
para o concerto”, explicou. O nosso guia deu-lhe os quatro rublos.
Moscovo é um laboratório vivo da história recente,
um lugar onde o paradoxo é rei e a emoção a única
leitura possível do real.
Quando
chegámos a Moscovo eu levava uma memória carregada de
medo. Talvez a história do medo lida em vários livros
– ainda este mês a Editorial Notícias publicou
“Koba, o Terrível”, de Martin Amis, uma curiosa
narrativa sobre Estaline, que nos fala da Rússia e também
de Moscovo. Na verdade, a questão mantém-se: ainda existe
medo? Sim, mas um medo provocado pelo desconhecido, o pisar de um
território estranho, e pelo poder das mafias. É claro
que há sempre histórias para contar. Basta pensar nas
gotas de suor que corriam pela cara do fotógrafo Pedro Sampayo
Ribeiro quando se preparava para fotografar as sumptuosas lojas da
Prada, da Cartier e da Armani numa rua perto do célebre Bolshoi.
De repente, dois grandes seguranças num russo nada simpático
reprimiram, com notória agressividade, os seus esforços.
E
no entanto, os responsáveis do turismo moscovita asseguraram-nos
que Moscovo é uma cidade segura e que por isso mesmo se assistiu
a um crescimento do sector turístico na ordem dos 13% durante
o ano de 2002.
Acordar para um mundo novo
Os russos detestam falar outra língua que não a sua
e os moscovitas não fogem à regra. Ao contrário
da maioria dos povos do mundo, porém, sabem falar fluentemente
Inglês, Francês e mesmo Alemão. O que se verifica
é que a generalidade dos moscovitas ainda tem muita dificuldade
em aproximar-se do outro, sobretudo se o outro for um turista, figura,
aliás, absolutamente contrária aos valores com os quais
construíram a sua existência durante os últimos
80 anos. Só muito recentemente os russos descobriram a palavra
“lazer” e ainda hoje procuram o significado de “ócio”.
Catedral
Kazansky
O
ministro adjunto para a Cultura, Denis V. Molchanov, disse-nos num
encontro agendado no seu ministério que só em Setembro
passado a nova Enciclopédia Russa tinha sido distribuída
pelas escolas de todo o país. A anterior foi publicada em pleno
auge do regime comunista. Ora, significa isto que, até há
pouco mais de um mês, Estaline ainda era “oficialmente”
um herói e os sovietes o único instrumento da felicidade
humana.
Moscovo
é justamente a metáfora desta experiência dual.
Por um lado, ainda se pode ler na arquitectura, nos comportamentos
e na vida quotidiana o imenso peso do seu passado histórico
recente, mas, por outro, nesta mesma arquitectura, nos muitos milhões
de pessoas, nas ruas e na nova organização social e
política, encontramos um pulsar absolutamente inovador, ansioso
por absorver o tempo psicológico do Ocidente, desejando ardentemente
construir uma sociedade livre e aberta ao mundo.
Bailarina
no Bolshoi
Muralhas
do Kremlin
Talvez
o desejo sexual seja a expressão máxima dessa íntima
libertação. Em Moscovo, tal como no Portugal dos anos
70, sente-se que a promiscuidade da maioria dos adolescentes e dos
jovens adultos corresponde mais a um direito recentemente conquistado
do que à expressão responsável de uma sociedade
de emoções amadurecidas.
Que o digam os homens que percorrem as ruas. Para além de encontrarem
mulheres bonitas, caprichadas na aparência e caprichosas nos
desejos materiais, eles próprios, ao contrário do que
acontece nos países ocidentais, constituem-se facilmente em
objectos de sedução, sem outros intentos que não
o próprio prazer de ser seduzido.
Praça
Vermelha
Começam
a chegar ao hotel (uma das muitas unidades hoteleiras de dimensões
gigantescas que recebem turistas estrangeiros) pelas 19 horas. São
mulheres bonitas, muito elegantes e não escondem o sentido
mercenário daquela troca de afectos. Primeiro sentam-se e pedem
um chá. Depois, tiram das carteiras fantásticos estojos
de maquilhagem e, num gesto iniciático, pintam-se. Os homens,
nem todos hóspedes deste hotel, observam os gestos. A escolha
é lenta, porque as mulheres são belas. Mas as intenções
são claras. Existe uma espécie de código universalmente
válido para o que se segue. No cartão que suporta a
chave electrónica estão arrumados os rublos ou os dólares
que fecharão os olhos ao segurança que controla os mil
e seiscentos quartos. O tempo de retorno é curto, as mulheres
voltam para repetirem durante a noite a mesma rotina. Outras vezes,
só no dia seguinte, pela manhã, voltamos a encontrá-las
nos corredores.
Curiosas, divertidas ou degradantes (depende do ponto de vista de
cada um), estas são as características de um tecido
social em vias de construção, isto é, de uma
sociedade antiga, culta ou cultíssima, mas a quem só
agora foi concedido o direito de experimentar as vicissitudes próprias
do crescimento. Moscovo, nesta matéria, faz lembrar um “rato
de biblioteca” que acordou para o sexo já com uma idade
muito avançada. Claro que, nestas circunstâncias, os
transtornos são enormes.
Moscovo
é hoje uma cidade de contrastes: uma procissão
ortodoxa
As
galerias comerciais GUM
Táxi
junto à Catedral de Cristo Salvador
Perspectivas de uma cidade
Aterrámos no aeroporto de Moscovo às 7 da manhã.
A cidade estava fria e molhada. O voo fez-se bem. Cinco horas pela
noite – partida às 22h30 e chegada às 7h00, hora
local –, sobrevoando a Europa, um continente cheio de luzes,
composto por inúmeras cidades, vilas e aldeias, muitas das
quais – à medida que nos vamos aproximando do nosso destino
– outrora membros do Pacto de Varsóvia, hoje lugares
“livres”, como a Rússia de Putin.
Claro que o retrato histórico, arquitectónico e social
de Moscovo ainda nos remete para um período anterior ao da
Perestroika, que em Russo significa “abertura”, facto
político protagonizado por Gorbachev, primeiro responsável
pela queda do antigo regime soviético. Os edifícios,
as ruas, os lugares e os sítios ainda estão impregnados
de uma estética profundamente estalinista e pouco permeável
à mudança. Às avenidas da capital russa chama-se
“perspectiva” (“prospeckt”), o que não
é por acaso. Falamos de uma cidade com 300 quilómetros
de diâmetro (um quarto destes quilómetros está
coberto de bosques). Na célebre Universidade de Moscovo é
que nos apercebemos bem dessa perspectiva, um imenso edifício,
daqueles que parecem construções de legos, sobre um
manto verde composto de milhares de árvores.
Em Moscovo é justamente a dimensão urbanística
que nos esmaga, mas, ao mesmo tempo, que nos transporta para a imensidão
de uma Rússia onde se vive um tempo novo.
O desejo, latente na maioria dos comportamentos, torna o quotidiano
moscovita num complexo lugar de originalidades sociais. Se é
verdade que o luxo constitui uma verdadeira categoria social, contrastando
os mais recentes modelos topo de gama da BMW, da Mercedes e da Audi
com os velhos e ferrugentos Lada que ainda circulam em Moscovo, não
deixa também de ser verdade que existe na cidade uma criatividade
latente.
Nas ruas, nos olhares e nos dizeres do povo russo, testemunhámos
por todos os cantos, recantos, ruas e becos que a descoberta de novas
vivências inunda o dia-a-dia dos adolescentes e dos jovens adultos.
A Rua Arbat é a mais consistente metáfora desta realidade
social que emerge na cidade mas que se vive em toda a Rússia.
Imagine uma Rua Augusta, em Lisboa, com mais quilómetros é
certo, mas como a nossa, calcetada, sem carros, completamente entregue
aos peões. A única diferença é que na
Rua Arbat os fenómenos comerciais traduzem bem a dinâmica
de uma sociedade que só vive em liberdade há apenas
dez anos. Tudo se vende: cães, gatos, serigrafias, pines, t-shirts,
fardas militares do antigo regime, isto a par do comércio tradicional
e do moderno.
Galerias
Tretyakov
Ao fim da tarde, a Rua Arbat transforma-se numa cimeira de jovens
a confraternizar a modernidade. Sempre com uma lata de cerveja na
mão, lá estão, enchendo a rua, conversando, combinando
programas, geralmente musicais, ou trocando experiências artísticas,
visíveis nas pinturas expostas na rua.
Festa vermelha
Para
os lados da Praça Vermelha podemos encontrar algumas expressões
do pós-modernismo. Até no modo como os jovens se vestem.
A par das antigas galerias do povo, agora transformadas em lugares
aristocráticos, requintados e cuidadosamente decorados, onde
as marcas brilham e o preço do café selecciona o perfil
social adequado ao espaço, saltam como cangurus rapazes e raparigas
vestidos de calças de ganga Diesel, calçado Adidas ou
Nike e blusão de cabedal Roberto Cavalli. Esta população,
que se distribui na zona mais nobre da cidade, paredes-meias com o
seu lado político e histórico, nomeadamente a Praça
Vermelha e o Kremlin, procura a revista Vogue para se concertar com
o mundo e compra a Face inglesa para parecer que vive no centro desse
mesmo mundo.
Hotel
Russia, junto às muralhas do Kremlin
Os Scorpion, a famosa banda de rock, foram as estrelas convidadas
para a festa da cidade de Moscovo que se realiza todos os anos a 6
de Setembro. O grupo ergueu o altar-mor do ruído ao fundo da
Praça Vermelha, quase ao lado da Catedral de São Basílio,
mesmo junto ao Kremlin.
De
facto, Moscovo mudou. Aqui está um bom exemplo. No coração
da capital russa, sempre austera, porque o Kremlin não é
outra coisa senão um fantástico hino arquitectónico
à grandeza russa, uma peregrinação de jovens
procurava a festa. Uma das festas. Porque Moscovo, nesta altura do
ano, a par de um fortíssimo dispositivo de segurança,
tem centenas de bandas a tocar pelas ruas, repletas de milhares de
jovens sedentos de barulho e muitos líquidos.
Era cedo – finalmente o Sol raiava pela cidade depois de 50
dias de chuva consecutiva – quando entrámos nas muralhas
do Kremlin, o ponto nevrálgico de Moscovo. Esta fortaleza (kreml)
do século XII transformou-se no símbolo palpável
do poder russo – simultaneamente um baluarte, um santuário,
um harém, uma necrópole e uma prisão –
foi palco de vários momentos cruciais da história do
país, dos terrores de Ivan, o Terrível às torturas
de Estaline. Ao entrar sente-se plenamente que este é o espaço
onde ainda hoje se exerce o poder do país. Continua severamente
policiado. Putin trabalha a pouco mais de duzentos metros do sítio
onde milhares de turistas descobrem a maravilha das catedrais de Moscovo.
Luxuoso
parque automóvel junto a um casino
As
atracções sucedem-se: a Catedral da Assunção,
a Torre do Sino, o gigantesco Canhão e Sino do Czar, a Catedral
do Arcanjo e da Anunciação, o Grande Palácio...
Mesmo em frente à janela onde Lenine trabalhava, já
depois de atravessarmos o pátio principal onde se espelha o
palácio presidencial, existe um pomar de maçãs
pequenas mas sumarentas. Encontrar um pomar no Kremlin, religiosamente
tratado – de Inverno submerso na mais gelada solidão,
mas de Verão repleto de maçãs –, é
perturbador. As maçãs são demasiado humanas para
aquele espaço. Talvez por isso ali estejam...
Acredito que Moscovo será uma das dez capitais do futuro, porque
é das poucas cidades do mundo que ainda nos torna protagonistas
da história recente do século XX. Moscovo é uma
metrópole esmagadora e um destino cultural imperdível.
Um sítio onde podemos encontrar a explicação
para tantas utopias.
Bolshoi Um
teatro com alma
A sala estava escura e vazia. Ao centro, com um microfone na
mão, a directora artística comentava passo-a-passo
os gestos dos bailarinos. O ensaio não corria bem ao
primeiro bailarino. Nikolay Tsiskaridze caía mal ao executar
as piruetas. O coreógrafo dançou no palco para
lhe explicar as falhas. O bailarino não se conformava.
Falava alto e baixava a cabeça, apavorado com a ideia
de que a estreia de “Bayadere” lhe corresse tão
mal como este ensaio.
Existem poucos momentos na vida de um jornalista que podem competir
com a sensação absolutamente única de estar
no Bolshoi, um dos melhores teatros do mundo, de palco aberto,
com a maquinaria à mostra, com a companhia de bailado
e a orquestra a actuarem só para si.
À noite, quando regressámos para assistir à
ópera mais cantada na Rússia, “Khovanshchina”,
do grande compositor Modest Mussorgsky, o teatro revelou-se,
então, na sua majestática personalidade. Nobilíssimo,
de cor adamascada, com a talha dourada manchando o vermelho
sangue das cortinas decoradas com a sigla CCCP da antiga União
Soviética.
É inevitável: o Bolshoi remete-nos para a memória
de uma instituição que exportou para todo o mundo
os clássicos “Lago dos Cisnes”, “Quebra-Nozes”,
“A Bela Adormecida” ou “Romeu e Julieta”.
Por isso, percorrer a plateia, ouvir o sussurrar dos artistas,
admirar os lustres e os dourados dos balcões e sentir
o cheiro a antigo dos veludos é como beber uma poção
mágica e enveredar por uma viagem na História.
• Teatro Bolshoi, praça Teatralnaya 1 (metro: Okhotniy
Ryad, Teatralnaya), tel. (00 7) 095 2929986. A bilheteira está
aberta das 12h00 às 15h00 e das 16h00 às 19h00.
Também pode fazer reservas ou consultar a programação
através da Internet em www.bolshoi.ru