São
Petersburgo está a comemorar 300 anos de existência.
Capital histórica da Rússia, a cidade associada a artistas
como Tchaikovsky e Pushkin mantém viva a memória dos
czares e da revolução de Lenine. As suas estonteantes
beleza e grandiosidade, aliadas a um património cultural único,
transformaram-na num dos destinos mais fascinantes da Europa
Texto
de G.Y. Dryansky Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
São
Petersburgo nunca terá sido, nos últimos 300 anos, um
lugar tão feliz como agora. É a cidade mais fascinante
que alguma vez visitei. Tudo nela perdura na memória, muito
depois de partir: as ruas onde vastos palácios coabitam com
fábricas antiquadas, reflectindo-se nos rios e canais, e o
perfil dos pináculos dourados recortando-se no céu –
tudo iluminado por uma luz marinha esmaecida. Quem procura um refúgio
íntimo encontrará na teatralidade de São Petersburgo,
sob o sol da meia-noite ou na neve do Inverno, o ambiente propício
ao romance.
Catedral
de Cristo Ressuscitado
Para
além da realidade visível da sua sublime beleza, nesta
cidade a História está sempre presente. De resto, pode
mesmo afirmar-se que São Petersburgo é actualmente a
cidade europeia mais interessante para os cultores da arte.
Alexander Pushkin, que aqui morreu num duelo absurdo, chamava--lhe
a “janela russa para o Ocidente”, mas a História
escrita nas alvenarias e nos estuques dos edifícios é
bem mais complexa e reveladora.
Quando lá estive no início deste ano, inúmeros
operários trabalhavam apressadamente para aprontar a cidade
para a celebração do seu tricentenário –
comemorado em Maio passado –, recuperando e limpando o que o
chefe da equipa de restauros, Nikita Yaveyn, me descreveu como “os
oito mil objectos”. “Objectos”, na escala magna
e sumptuosa de São Petersburgo, é um conceito que inclui
palácios de tons pastel, pontes douradas e monumentos em bronze
– enfim, todos os ex-libris que atraem um número sempre
crescente de visitantes.
No
que respeita à população, pareceu-me bastante
mais feliz do que quando lá estive em 1999, em que pessoas
apresentáveis da classe média, apanhadas pelo descalabro
económico, me abordavam nas ruas de mão estendida. Mesmo
assim pareciam, então, mais felizes do que na minha primeira
visita no tempo de Brejnev. Os cartazes ao longo do Nevsky Prospect,
mostrando o tradicional e corpulento bebedor de vodka, foram há
muito substituídos pela balbúrdia de anúncios
de coisas para comprar.
Detalhe
do Quartel-general
Na
rua, os olhares para os estrangeiros parecem mais autoconfiantes,
sem o antigo ar de inveja dissimulada. Quando passeava ao luar pela
margem do rio Fontanka, pude sentir o cheiro da lenha nas salamandras,
o odor nocturno característico das cidades da Europa Ocidental
de há meio século, mas, durante o dia, o trânsito
intenso emanava uma poluição mais actualizada. Entre
os carros que circulam com imprudente entusiasmo nas largas avenidas,
já não há apenas os velhos Ladas e os brilhantes
Mercedes com vidros fumados dos “novos russos”, mas também
outros modelos de automóveis, evidência de que a abundância
começa a atingir a classe média, que nunca contou muito
na Rússia.
“O desemprego é metade do que era há cinco anos”,
assegurou-me Vladimir Ugrumov, presidente do Sindicato dos Jornalistas
da cidade, no seu escritório instalado num dos numerosos palácios
das Colinas de Nevsky. “A guerra da Tchechenia ajudou a indústria
militar. As exportações subiram e as cervejeiras prosperam.
O salário médio subiu para 200 dólares por mês.”
300 anos de histórias
Catedral
de Kazan, construída à imagem da Catedral
de São Pedro
Durante
os festejos que decorreram na última semana de Maio foram acendidos
archotes ao longo dos elegantes cais, o rio foi palco de regatas de
embarcações antigas e assistiu-se a um fabuloso fogo-de-artifício,
num grandioso evento onde estiveram presentes Vladimir Putin e George
W. Bush, bem como outros 32 governantes que aqui vieram para participar
na cimeira dos G8. No último dia das celebrações,
um cortejo de cem monges marchou seguindo o Metropolita, portador
do ícone de Alexander Nevsky, que salvou de uma bala sueca
a vida de Pedro, o Grande, até à Catedral de Pedro e
Paulo. É aqui que jaz Pedro, o fundador da cidade, poderoso
e terrível Czar, em cujo jazigo foi colocado um medalhão
de ouro com a inscrição “a Pedro, o Grande, da
Rússia agradecida”.
Nostalgia
imperial, comercialismo despudorado, kitsch promocional e fervor religioso
– o programa das festas parece ter sido um sucesso.
A verdade, porém, é que São Petersburgo fascina
os visitantes mesmo sem todas estas encenações. Pode
passar mais do que uma semana a visitar e voltar a visitar o Hermitage,
o segundo maior museu do mundo depois do Louvre, e o melhor no que
respeita à sua enciclopédica colecção
de pintura. “Expomos cerca de cinco por cento do acervo que
possuímos, mas gostaríamos de poder expor vinte por
cento”, afirmou-me Mikhail Piatrovsky, director do Hermitage.
Com essa finalidade, uma ala do edifício do pessoal, fronteiro
ao museu, está a ser modificada para acolher a colecção
de arte dos séculos XIX e XX, composta a partir das obras expropriadas
por Lenine a dois grandes coleccionadores russos. Piatrovsky, que
tem procurado expandir a presença do Hermitage em todo o mundo,
planeia também permitir a visita aos seis andares de armazéns
do museu, onde se encontra algum mobiliário deslumbrante, entre
muitas outras preciosidades.
A Companhia de Ballet Mariinsky é hoje tão boa como
em tempos foi a Kirov, principalmente graças ao seu famoso
director, Valery Gergiev. Os amantes de teatro que não entendam
o Russo das actuais produções do Bolshoi da cidade podem
ocupar muitas horas apreciando o guarda-roupa Baskt, as cenografias
construtivistas e as recordações expostas no Museu do
Estado de Teatro, Dança e Música. Aqui, num gabinete
onde Nijinsky costumava vir receber os seus cheques, Natalya Melitsa,
vice-directora, faz o possível para conseguir exibir dois por
cento dos 480 000 objectos existentes.
No palácio Shemeretov, entre muitos outros instrumentos musicais,
contam-se os pianos em que Haydn e Tchaikovsky compunham. Os apaixonados
da literatura podem seguir os passos de Raskolnikov, personagem de
“Crime e Castigo”, desde a sua casa, no nº 19 da
Grazhdanskaya Ulitsa, até à casa da velha que assassinou
no nº 104 do Griboedoev Canal. Pode também visitar o modesto
apartamento de Dostoievsky e ver a secretária em que escrevia,
noite dentro, quando lhe rebentou uma artéria. Não muito
longe, fica o elegante apartamento que Pushkin abandonou de madrugada
ao encontro de uma bala na neve, ou o andar do maior poeta russo no
início do século XX, Alexander Blok, natural de São
Petersburgo. Consta, entretanto, que o KGB tenciona tornar pública
uma grande colecção de manuscritos e blocos de notas
confiscados como “provas incriminatórias” a escritores,
incluindo o famoso Ossip Mandelstam.
Quando os seus olhos e a sua mente ficam saciados com tanta cultura,
o visitante pode recolher-se a um hotel de luxo – o Astoria
é comparável a qualquer grande hotel na Europa –
e seguir para um jantar delicioso no Dvorianskove Gnezdo (Ninho de
Nobres), situado no palácio do Príncipe Yussopoff (o
que matou Rasputin).
Grandiosa, magnífica e ... desumana
Seja como for, só vai começar verdadeiramente a apreciar
São Petersburgo quando calçar uns sapatos confortáveis
e iniciar um sério passeio a pé pela cidade. Joseph
Brodsky, poeta galardoado com um prémio Nobel, escreveu que
em São Petersburgo “há algo na textura granular
da calçada de granito, a par da água sempre a brotar,
que instila nas nossas almas um desejo quase sensual de caminhar”.
Os seus pés, tanto quanto os olhos, proporcionam um acesso
tangível aos significados da cidade. Parta para o seu primeiro
destino, avance 40 números para um ou outro sentido da rua
e continuará a caminhada à medida que os números
mudam com uma lentidão que o fará sentir-se como se
tivesse fumado ópio. Os seus pés vão sentir-se
cansados e ainda faltará muito para chegar ao seu destino.
Assim, terá a percepção da medida sobre-humana
da escala desta cidade, onde palácios de fachada ampla se sucedem
uns aos outros e até os simples prédios de apartamentos
são imensos.
Hermitage
Destaque
da coluna de Alexandre
Pedro, o Grande, o primeiro Czar a viajar para o estrangeiro, foi
reconhecido por ter fundado uma cidade “ocidental” que
colocou o seu império em pleno Iluminismo. Ele quis que o seu
grandioso plano impressionasse os ocidentais e desse à Rússia
o direito a ser considerada como igual, uma aspiração
que continua a ser essencial para a auto-estima dos russos. Nesse
aspecto, porém, São Petersburgo é um fracasso
monumental: a sua magnificência desconfortável e, no
limite, desumana, estigmatizou-a desde o início, e assim continuou
pelos séculos fora.
Quarenta mil escravos morreram devido a maus tratos e doença
para construir a capital do Czar. As grandes cidades ocidentais, inspiradoras
da cultura humanista, não foram edificadas por ordem de um
déspota. Desenvolveram-se pela actividade de uma classe média
empenhada em transformar o mundo material de modo pragmático.
Eram pessoas para quem o sucesso na vida dependia de astúcia,
moderação, juízo ponderado e abertura de espírito.
Na Rússia e em São Petersburgo, muito depois da morte
deste Czar que assassinou o próprio filho, a escassa burguesia
não podia influenciar a sucessão dos acontecimentos.
A
movimentada Nevsky Prospekt
Pensa-se
que Pedro construiu São Petersburgo a partir de esboços
de arquitectos europeus para que resultasse ao estilo europeu. Foi
o próprio Pedro quem desenhou as plantas, mas pouco do que
foi construído nessa época se mantém. Foram a
sua filha Isabel e Catarina, a Grande, as principais responsáveis
pelo surgimento da cidade setecentista, cuja intensidade estética
não se assemelha a qualquer cidade ocidental. Bartolomeo Rastrelli,
o mais famoso dos arquitectos do período barroco, que projectou
o Palácio de Inverno, pode considerar-se um russo, já
que veio para a cidade com 16 anos. Carlo Rossi, o arquitecto responsável
pelo desenvolvimento do estilo clássico no início do
século XIX, tinha dois anos quando lá chegou. Entre
as cidades da Europa, a ultra-enfática, mas inegavelmente atraente
São Petersburgo, pode ser comparada a um arrivista talentoso
a tentar dar nas vistas na alta sociedade.
Cruzador
Aurora
Catarina
competiu com Frederico, o Grande, para acumular a maior colecção
de pintura ocidental da Europa. Constava que esta mulher, a quem mataram
o marido, teve relações sexuais com um cavalo e assassinou
inúmeros amantes de uma só noite.
Um raio de luz ocidental brilhou na cidade nos finais do século
XIX durante o desenvolvimento da indústria e do comércio,
mas, com algumas brilhantes excepções, a classe média
manteve-se nos monótonos prédios de apartamentos ao
longo dos canais, veraneando nas termas do Ocidente. Alguns dos seus
membros maquinaram a destruição nihilista do Império
– da sua aristocracia decrépita e da sua burocracia fossilizada
– numa grande revolução purificadora. Como consequência,
São Petersburgo recebeu Lenine que, regressado da Alemanha
na sua famosa carruagem de comboio selada, aqui criou a sua primeira
célula comunista. A tirania e a barbárie continuaram,
porque o que era mais progressista no humanismo foi esquecido.
A
grande fábrica de tanques e tractores Kirov na colina Statchek
fica lado a lado com o delicado palácio de Ekaterina Dalkhova,
uma confidente de Catarina, a Grande. Uma vez, em Cracóvia,
um polaco disse-me que os comunistas construíram deliberadamente
siderurgias junto desta preciosa cidade para a destruir com a poluição
– para aniquilar a sua magnificência não proletária.
Não creio que fosse verdade e certamente não pensavam
assim os comunistas que reconstruíram com grande esforço
e despesa, os assombrosos castelos imperiais fora de São Petersburgo.
Esta gente, que dava aos filhos nomes como “Dínamo”,
adorava fábricas. Muito tempo depois de o Ocidente se envolver
no humanismo do Renascimento, saíam eles, numa grande revolução,
do mundo medieval. As fábricas eram as veneráveis catedrais
da sua nova fé materialista e chegaram, mesmo, aos quarteirões
residenciais. Na verdade, os extremos tristes da cidade e as extensas
e largas avenidas que acolhem os pesados blocos de apartamentos parecem
ter sido criados numa escala semelhante à do Czar fundador.
Essas velhas fábricas mortas e os decrépitos blocos
de apartamentos da grande São Petersburgo fazem lembrar as
ruínas de uma civilização perdida.
A Rússia agradecida de Pedro
e Lenine
Lenine ainda ali está, em bronze, falando a uma multidão
fantasmagórica, defronte do gabinete do presidente da câmara,
em tempos o Instituto Smolny, a partir do qual avançou para
cometer o golpe de Estado erradamente chamado revolução.
Outro Lenine está no seu carro blindado, defronte da Estação
da Finlândia, onde se encontra preservada a verdadeira locomotiva
que o trouxe até ali. Há ainda outra estátua
de Vladimir Illich na Estação de Varsóvia, e
está de pé, de braço espetado com um entusiasmo
inadequado, fora de um vasto edifício hoje conhecido como Centro
de Negócios. O que faz este homem ainda por aqui, agora que
a ex-Leninegrado voltou a ter o seu velho nome?
Uma
das 310 pontes que ligam as 50 ilhas de São Petersburgo
Durante
a minha estada na cidade, o jornal “Times” de São
Petersburgo, em Inglês, anunciava a descoberta, nos arredores,
de um campo de extermínio, onde os restos de 40 mil pessoas,
algumas adolescentes, foram encontrados com sinais de tiros na nuca.
Foi o resultado de uma acção, nos anos 30, dos protegidos
de Felix Djerjinsky, fundador da polícia política soviética,
cuja estátua ainda se mantém perto do mosteiro Smolny.
Meses mais tarde, Irina Frige, chefe da organização
local para a memória dos direitos humanos, queixou-se na imprensa
francesa que as autoridades, depois de terem impedido a descoberta
do sítio durante anos, continuavam a ignorá-lo.
Se inquirir a população de São Petersburgo sobre
as estátuas de Lenine e de Djerjinsky, continuarão a
dizer-lhe que fazem parte da História. Nas minhas conversas
nesta cidade, pude verificar, igualmente, orgulho pelo comunismo,
que, tendo sido tão mau como foi, foi-o numa proporção
tão grande que tornou a Rússia importante por isso mesmo.
Um impulso semelhante parece estar a conduzir os russos de agora a
retirar alguma glória do passado czarista. Uma amiga parisiense,
Stroganoff de nascimento, foi cumprimentada com respeito quando visitou
parte da enorme porção dos Urais que a sua família
possuiu em tempos. E quando o Palácio Stroganoff, projectado
por Rastrelli, for restaurado este ano, ela irá lá ter
o seu próprio apartamento.
Coluna
de Rostral, rio Neva e fortaleza de Pedro e Paulo, ao
fundo
Volto
a lembrar as palavras: “A Pedro, o Grande, da Rússia
agradecida”. Porquê? A tirania alcoólica do grande
Czar Pedro, o fervor de Lenine e a incompetência de todos os
déspotas entre eles e depois tiveram como consequência
que o maior feito comum do povo desta perversamente encantadora cidade
seja a sua corajosa capacidade de suportar. Uma capacidade que atingiu
o seu auge durante o cerco de 872 dias feito pelos nazis, que vitimou
pela fome, pela doença e pelos bombardeamentos um milhão
e meio de cidadãos. Os velhos que sobreviveram a esse cerco
sentem-se orgulhosos do seu sofrimento e olham sobranceiramente os
que vieram depois para a cidade a fim de substituir os mortos.
A arte cria-se na privação, diz-se, e esta cidade orgulha-se
de ter produzido algumas grandes obras a nível mundial nos
domínios da literatura, da dança e da música.
Pushkin, Dostoievsky, Akhmatova, Gogol, Tchaikovsky, Moussorgsky,
Rimsky-Korsakov, Petitpas, fundador do ballet clássico de origem
francesa, e muitos outros grandes artistas percorreram estas ruas
de granito. Mais recentemente, São Petersburgo tem sido um
dos melhores locais para apreciar música rock inovadora. Moscovo,
que recebe oito vezes mais dinheiro do Governo, é incontestavelmente
a capital dos negócios e do mundo do espectáculo, mas
os habitantes de São Petersburgo orgulham-se do seu mais elevado
nível cultural.
Vontade de um povo
Hoje, esta população, cuja vida económica é
dominada por alguns dos mais ferozes mafiosos da história universal,
continua a procurar como poderá impressionar ainda mais o mundo,
para além da sua capacidade de resistência.
“Perdemos um mito com o comunismo e não criámos
outro”, considera o jornalista Ugrimov. “Somos um país
menos esfomeado, mas quanto à vida espiritual, temos razões
para sentir que a Rússia está a perder a energia que
a distinguia do resto da Europa”, confessou-me.
Por todo o lado nos dizem que a fonte dessa energia é a “alma
russa”. O povo de São Petersburgo faz alarde da sua ocidentalidade
em relação aos outros russos. Tal como os nobres da
cidade que falavam Francês entre si no passado, eles praticam
um discurso mais refinado, uma educação mais vitoriana
que os outros russos. Mas, com os ocidentais, assumem uma superioridade
baseada na crença de que os russos estão espiritualmente
numa via que menospreza o mercantilismo do Ocidente.
É inevitável nas conversas com os estrangeiros vir à
baila a tal “alma russa”, algo que ninguém parece
ser capaz de definir. A expressão traz-me sempre a imagem de
um nó de espirais e cúpulas multicoloridas, vejo a Catedral
do Sangue Derramado que comemora o assassínio do Czar Alexandre
II, em contraste com uma vasta sucessão de edifícios
clássicos.
Boris Eifman, director artístico e coreógrafo principal
do Teatro de Ballet de São Petersburgo, disse-me, frontalmente,
que a alma russa é “uma música no ar que provém
da comunicação com o génio”. Pouco depois
de me ter encontrado com ele, saí eu do mais profundo metropolitano
do mundo para a Ispitatelej Prospekt e deixei-me levar por aquela
larga avenida bordada de grandes moradias até onde vivia Ignti
Ivanovsky, um notável tradutor de Shakespeare. A mulher dele
era neta de Alexei Tolstoy, o outro notável escritor da família.
Considerando que cerca de 800 000 residentes da cidade ainda moram
em apartamentos comunitários, Ivanovsky tem razão para
se orgulhar do seu velho apartamento de quatro assoalhadas, onde uma
fotografia da poetisa Anna Akhmatova, assinada e dedicada, é
o ornamento dominante. Mesmo assim, não pude deixar de reflectir
no facto de o meu almoço nouvelle cuisine, no restaurante neo-barroco
de um casino onde os “novos russos” brilham, ter custado
provavelmente o equivalente a quase todo o rendimento mensal deste
culto cavalheiro.
Ivanovsky viveu o cerco de 1941-1944, durante o qual o pai morreu
de fome, e recorda o tempo em que o som do telefone a tocar lhe trazia
arrepios de apreensão. Hoje, pode falar sobre tudo isso com
uma elegante ironia e pode também pensar no futuro com prazer.
“Os filhos dos novos russos serão bem-educados, melhor
que os seus pais – serão poetas e romancistas e também
mais organizados, capazes de fazer coisas como revistas literárias
de um milhão de exemplares”, antevê Ivanovsky.
Falámos de literatura e logo me disse que Boris Pasternak,
Blok, Mandelstam e Brodsky, como judeus que eram, não podiam
exprimir a Rússia no que se refere à alma russa. Admirava,
no entanto, da mesma forma a sua escrita e sentia compaixão
por eles: “É uma tragédia viver na Rússia
e não ser russo pelo sangue.”
Depois de o deixar, encontrei gente de tez escura que vendia melancias
trazendo mais vida a Ispitatelej e lembrei-me que, dias antes, um
vendedor do Azerbeijão tinha sido morto na cidade por skinheads.
O ressentimento racista contra imigrantes do Cáucaso, que não
páram de chegar, está a tornar-se crítico, mesmo
nos círculos educados. Ocorre-me pensar que a agressividade
contra outra etnia é o último recurso do ego para aqueles
que têm demasiadas razões para se sentirem humilhados.
Mas creio que Ivanovsky tem razão em ter fé nas novas
gerações de São Petersburgo, cuja população
é das mais jovens entre as cidades russas.
Tenho visto esses jovens a divertirem-se. São Petersburgo tem
uma vida nocturna optimista e não falo das discotecas dos tais
“novos russos”, com controlo à porta. Estou a pensar
nos clubes muito frequentados, onde gente na casa dos 20 vem ouvir
música, dançar e conversar. Penso particularmente na
Purga, uma cave num edifício em Fontanka, que se enche todas
as noites. À meia-noite a conversa pára e um televisor
passa uma gravação do discurso de demissão de
Boris Yeltsin, tocam os sinos e aparece alguém vestido de Pai
Natal, as bebidas são por conta da casa e as pessoas dançam.
Noite após noite.
O Pai Natal não é propriamente aquilo a que os russos
chamem nash, “coisa nossa”, e até se pode argumentar
que a figura se tornou demasiado comercial. Bem vistas as coisas,
porém, creio que em São Petersburgo haverá em
breve uma geração na vida activa que não terá
memória do tempo em que o Pai Natal nunca vinha à cidade.