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D O S S I E R

Novembro de 2002
São Petersburgo está a comemorar 300 anos de existência. Capital histórica da Rússia, a cidade associada a artistas como Tchaikovsky e Pushkin mantém viva a memória dos czares e da revolução de Lenine. As suas estonteantes beleza e grandiosidade, aliadas a um património cultural único, transformaram-na num dos destinos mais fascinantes da Europa

Texto de G.Y. Dryansky Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   


São Petersburgo nunca terá sido, nos últimos 300 anos, um lugar tão feliz como agora. É a cidade mais fascinante que alguma vez visitei. Tudo nela perdura na memória, muito depois de partir: as ruas onde vastos palácios coabitam com fábricas antiquadas, reflectindo-se nos rios e canais, e o perfil dos pináculos dourados recortando-se no céu – tudo iluminado por uma luz marinha esmaecida. Quem procura um refúgio íntimo encontrará na teatralidade de São Petersburgo, sob o sol da meia-noite ou na neve do Inverno, o ambiente propício ao romance.

Catedral de Cristo Ressuscitado
Para além da realidade visível da sua sublime beleza, nesta cidade a História está sempre presente. De resto, pode mesmo afirmar-se que São Petersburgo é actualmente a cidade europeia mais interessante para os cultores da arte.

Alexander Pushkin, que aqui morreu num duelo absurdo, chamava--lhe a “janela russa para o Ocidente”, mas a História escrita nas alvenarias e nos estuques dos edifícios é bem mais complexa e reveladora.

Quando lá estive no início deste ano, inúmeros operários trabalhavam apressadamente para aprontar a cidade para a celebração do seu tricentenário – comemorado em Maio passado –, recuperando e limpando o que o chefe da equipa de restauros, Nikita Yaveyn, me descreveu como “os oito mil objectos”. “Objectos”, na escala magna e sumptuosa de São Petersburgo, é um conceito que inclui palácios de tons pastel, pontes douradas e monumentos em bronze – enfim, todos os ex-libris que atraem um número sempre crescente de visitantes.

No que respeita à população, pareceu-me bastante mais feliz do que quando lá estive em 1999, em que pessoas apresentáveis da classe média, apanhadas pelo descalabro económico, me abordavam nas ruas de mão estendida. Mesmo assim pareciam, então, mais felizes do que na minha primeira visita no tempo de Brejnev. Os cartazes ao longo do Nevsky Prospect, mostrando o tradicional e corpulento bebedor de vodka, foram há muito substituídos pela balbúrdia de anúncios de coisas para comprar.

Detalhe do Quartel-general
Na rua, os olhares para os estrangeiros parecem mais autoconfiantes, sem o antigo ar de inveja dissimulada. Quando passeava ao luar pela margem do rio Fontanka, pude sentir o cheiro da lenha nas salamandras, o odor nocturno característico das cidades da Europa Ocidental de há meio século, mas, durante o dia, o trânsito intenso emanava uma poluição mais actualizada. Entre os carros que circulam com imprudente entusiasmo nas largas avenidas, já não há apenas os velhos Ladas e os brilhantes Mercedes com vidros fumados dos “novos russos”, mas também outros modelos de automóveis, evidência de que a abundância começa a atingir a classe média, que nunca contou muito na Rússia.

“O desemprego é metade do que era há cinco anos”, assegurou-me Vladimir Ugrumov, presidente do Sindicato dos Jornalistas da cidade, no seu escritório instalado num dos numerosos palácios das Colinas de Nevsky. “A guerra da Tchechenia ajudou a indústria militar. As exportações subiram e as cervejeiras prosperam. O salário médio subiu para 200 dólares por mês.”


300 anos de histórias
Catedral de Kazan, construída à imagem da Catedral de São Pedro
Durante os festejos que decorreram na última semana de Maio foram acendidos archotes ao longo dos elegantes cais, o rio foi palco de regatas de embarcações antigas e assistiu-se a um fabuloso fogo-de-artifício, num grandioso evento onde estiveram presentes Vladimir Putin e George W. Bush, bem como outros 32 governantes que aqui vieram para participar na cimeira dos G8. No último dia das celebrações, um cortejo de cem monges marchou seguindo o Metropolita, portador do ícone de Alexander Nevsky, que salvou de uma bala sueca a vida de Pedro, o Grande, até à Catedral de Pedro e Paulo. É aqui que jaz Pedro, o fundador da cidade, poderoso e terrível Czar, em cujo jazigo foi colocado um medalhão de ouro com a inscrição “a Pedro, o Grande, da Rússia agradecida”.

Nostalgia imperial, comercialismo despudorado, kitsch promocional e fervor religioso – o programa das festas parece ter sido um sucesso.

A verdade, porém, é que São Petersburgo fascina os visitantes mesmo sem todas estas encenações. Pode passar mais do que uma semana a visitar e voltar a visitar o Hermitage, o segundo maior museu do mundo depois do Louvre, e o melhor no que respeita à sua enciclopédica colecção de pintura. “Expomos cerca de cinco por cento do acervo que possuímos, mas gostaríamos de poder expor vinte por cento”, afirmou-me Mikhail Piatrovsky, director do Hermitage.

Com essa finalidade, uma ala do edifício do pessoal, fronteiro ao museu, está a ser modificada para acolher a colecção de arte dos séculos XIX e XX, composta a partir das obras expropriadas por Lenine a dois grandes coleccionadores russos. Piatrovsky, que tem procurado expandir a presença do Hermitage em todo o mundo, planeia também permitir a visita aos seis andares de armazéns do museu, onde se encontra algum mobiliário deslumbrante, entre muitas outras preciosidades.

A Companhia de Ballet Mariinsky é hoje tão boa como em tempos foi a Kirov, principalmente graças ao seu famoso director, Valery Gergiev. Os amantes de teatro que não entendam o Russo das actuais produções do Bolshoi da cidade podem ocupar muitas horas apreciando o guarda-roupa Baskt, as cenografias construtivistas e as recordações expostas no Museu do Estado de Teatro, Dança e Música. Aqui, num gabinete onde Nijinsky costumava vir receber os seus cheques, Natalya Melitsa, vice-directora, faz o possível para conseguir exibir dois por cento dos 480 000 objectos existentes.

No palácio Shemeretov, entre muitos outros instrumentos musicais, contam-se os pianos em que Haydn e Tchaikovsky compunham. Os apaixonados da literatura podem seguir os passos de Raskolnikov, personagem de “Crime e Castigo”, desde a sua casa, no nº 19 da Grazhdanskaya Ulitsa, até à casa da velha que assassinou no nº 104 do Griboedoev Canal. Pode também visitar o modesto apartamento de Dostoievsky e ver a secretária em que escrevia, noite dentro, quando lhe rebentou uma artéria. Não muito longe, fica o elegante apartamento que Pushkin abandonou de madrugada ao encontro de uma bala na neve, ou o andar do maior poeta russo no início do século XX, Alexander Blok, natural de São Petersburgo. Consta, entretanto, que o KGB tenciona tornar pública uma grande colecção de manuscritos e blocos de notas confiscados como “provas incriminatórias” a escritores, incluindo o famoso Ossip Mandelstam.


Quando os seus olhos e a sua mente ficam saciados com tanta cultura, o visitante pode recolher-se a um hotel de luxo – o Astoria é comparável a qualquer grande hotel na Europa – e seguir para um jantar delicioso no Dvorianskove Gnezdo (Ninho de Nobres), situado no palácio do Príncipe Yussopoff (o que matou Rasputin).


Grandiosa, magnífica e ... desumana
Seja como for, só vai começar verdadeiramente a apreciar São Petersburgo quando calçar uns sapatos confortáveis e iniciar um sério passeio a pé pela cidade. Joseph Brodsky, poeta galardoado com um prémio Nobel, escreveu que em São Petersburgo “há algo na textura granular da calçada de granito, a par da água sempre a brotar, que instila nas nossas almas um desejo quase sensual de caminhar”.

Os seus pés, tanto quanto os olhos, proporcionam um acesso tangível aos significados da cidade. Parta para o seu primeiro destino, avance 40 números para um ou outro sentido da rua e continuará a caminhada à medida que os números mudam com uma lentidão que o fará sentir-se como se tivesse fumado ópio. Os seus pés vão sentir-se cansados e ainda faltará muito para chegar ao seu destino. Assim, terá a percepção da medida sobre-humana da escala desta cidade, onde palácios de fachada ampla se sucedem uns aos outros e até os simples prédios de apartamentos são imensos.

Hermitage
Destaque da coluna de Alexandre

Pedro, o Grande, o primeiro Czar a viajar para o estrangeiro, foi reconhecido por ter fundado uma cidade “ocidental” que colocou o seu império em pleno Iluminismo. Ele quis que o seu grandioso plano impressionasse os ocidentais e desse à Rússia o direito a ser considerada como igual, uma aspiração que continua a ser essencial para a auto-estima dos russos. Nesse aspecto, porém, São Petersburgo é um fracasso monumental: a sua magnificência desconfortável e, no limite, desumana, estigmatizou-a desde o início, e assim continuou pelos séculos fora.

Quarenta mil escravos morreram devido a maus tratos e doença para construir a capital do Czar. As grandes cidades ocidentais, inspiradoras da cultura humanista, não foram edificadas por ordem de um déspota. Desenvolveram-se pela actividade de uma classe média empenhada em transformar o mundo material de modo pragmático. Eram pessoas para quem o sucesso na vida dependia de astúcia, moderação, juízo ponderado e abertura de espírito. Na Rússia e em São Petersburgo, muito depois da morte deste Czar que assassinou o próprio filho, a escassa burguesia não podia influenciar a sucessão dos acontecimentos.

A movimentada Nevsky Prospekt
Pensa-se que Pedro construiu São Petersburgo a partir de esboços de arquitectos europeus para que resultasse ao estilo europeu. Foi o próprio Pedro quem desenhou as plantas, mas pouco do que foi construído nessa época se mantém. Foram a sua filha Isabel e Catarina, a Grande, as principais responsáveis pelo surgimento da cidade setecentista, cuja intensidade estética não se assemelha a qualquer cidade ocidental. Bartolomeo Rastrelli, o mais famoso dos arquitectos do período barroco, que projectou o Palácio de Inverno, pode considerar-se um russo, já que veio para a cidade com 16 anos. Carlo Rossi, o arquitecto responsável pelo desenvolvimento do estilo clássico no início do século XIX, tinha dois anos quando lá chegou. Entre as cidades da Europa, a ultra-enfática, mas inegavelmente atraente São Petersburgo, pode ser comparada a um arrivista talentoso a tentar dar nas vistas na alta sociedade.

Cruzador Aurora
Catarina competiu com Frederico, o Grande, para acumular a maior colecção de pintura ocidental da Europa. Constava que esta mulher, a quem mataram o marido, teve relações sexuais com um cavalo e assassinou inúmeros amantes de uma só noite.

Um raio de luz ocidental brilhou na cidade nos finais do século XIX durante o desenvolvimento da indústria e do comércio, mas, com algumas brilhantes excepções, a classe média manteve-se nos monótonos prédios de apartamentos ao longo dos canais, veraneando nas termas do Ocidente. Alguns dos seus membros maquinaram a destruição nihilista do Império – da sua aristocracia decrépita e da sua burocracia fossilizada – numa grande revolução purificadora. Como consequência, São Petersburgo recebeu Lenine que, regressado da Alemanha na sua famosa carruagem de comboio selada, aqui criou a sua primeira célula comunista. A tirania e a barbárie continuaram, porque o que era mais progressista no humanismo foi esquecido.

A grande fábrica de tanques e tractores Kirov na colina Statchek fica lado a lado com o delicado palácio de Ekaterina Dalkhova, uma confidente de Catarina, a Grande. Uma vez, em Cracóvia, um polaco disse-me que os comunistas construíram deliberadamente siderurgias junto desta preciosa cidade para a destruir com a poluição – para aniquilar a sua magnificência não proletária. Não creio que fosse verdade e certamente não pensavam assim os comunistas que reconstruíram com grande esforço e despesa, os assombrosos castelos imperiais fora de São Petersburgo.

Esta gente, que dava aos filhos nomes como “Dínamo”, adorava fábricas. Muito tempo depois de o Ocidente se envolver no humanismo do Renascimento, saíam eles, numa grande revolução, do mundo medieval. As fábricas eram as veneráveis catedrais da sua nova fé materialista e chegaram, mesmo, aos quarteirões residenciais. Na verdade, os extremos tristes da cidade e as extensas e largas avenidas que acolhem os pesados blocos de apartamentos parecem ter sido criados numa escala semelhante à do Czar fundador. Essas velhas fábricas mortas e os decrépitos blocos de apartamentos da grande São Petersburgo fazem lembrar as ruínas de uma civilização perdida.


A Rússia agradecida de Pedro e Lenine
Lenine ainda ali está, em bronze, falando a uma multidão fantasmagórica, defronte do gabinete do presidente da câmara, em tempos o Instituto Smolny, a partir do qual avançou para cometer o golpe de Estado erradamente chamado revolução. Outro Lenine está no seu carro blindado, defronte da Estação da Finlândia, onde se encontra preservada a verdadeira locomotiva que o trouxe até ali. Há ainda outra estátua de Vladimir Illich na Estação de Varsóvia, e está de pé, de braço espetado com um entusiasmo inadequado, fora de um vasto edifício hoje conhecido como Centro de Negócios. O que faz este homem ainda por aqui, agora que a ex-Leninegrado voltou a ter o seu velho nome?

Uma das 310 pontes que ligam as 50 ilhas de São Petersburgo
Durante a minha estada na cidade, o jornal “Times” de São Petersburgo, em Inglês, anunciava a descoberta, nos arredores, de um campo de extermínio, onde os restos de 40 mil pessoas, algumas adolescentes, foram encontrados com sinais de tiros na nuca. Foi o resultado de uma acção, nos anos 30, dos protegidos de Felix Djerjinsky, fundador da polícia política soviética, cuja estátua ainda se mantém perto do mosteiro Smolny. Meses mais tarde, Irina Frige, chefe da organização local para a memória dos direitos humanos, queixou-se na imprensa francesa que as autoridades, depois de terem impedido a descoberta do sítio durante anos, continuavam a ignorá-lo.

Se inquirir a população de São Petersburgo sobre as estátuas de Lenine e de Djerjinsky, continuarão a dizer-lhe que fazem parte da História. Nas minhas conversas nesta cidade, pude verificar, igualmente, orgulho pelo comunismo, que, tendo sido tão mau como foi, foi-o numa proporção tão grande que tornou a Rússia importante por isso mesmo. Um impulso semelhante parece estar a conduzir os russos de agora a retirar alguma glória do passado czarista. Uma amiga parisiense, Stroganoff de nascimento, foi cumprimentada com respeito quando visitou parte da enorme porção dos Urais que a sua família possuiu em tempos. E quando o Palácio Stroganoff, projectado por Rastrelli, for restaurado este ano, ela irá lá ter o seu próprio apartamento.

Coluna de Rostral, rio Neva e fortaleza de Pedro e Paulo, ao fundo
Volto a lembrar as palavras: “A Pedro, o Grande, da Rússia agradecida”. Porquê? A tirania alcoólica do grande Czar Pedro, o fervor de Lenine e a incompetência de todos os déspotas entre eles e depois tiveram como consequência que o maior feito comum do povo desta perversamente encantadora cidade seja a sua corajosa capacidade de suportar. Uma capacidade que atingiu o seu auge durante o cerco de 872 dias feito pelos nazis, que vitimou pela fome, pela doença e pelos bombardeamentos um milhão e meio de cidadãos. Os velhos que sobreviveram a esse cerco sentem-se orgulhosos do seu sofrimento e olham sobranceiramente os que vieram depois para a cidade a fim de substituir os mortos.

A arte cria-se na privação, diz-se, e esta cidade orgulha-se de ter produzido algumas grandes obras a nível mundial nos domínios da literatura, da dança e da música. Pushkin, Dostoievsky, Akhmatova, Gogol, Tchaikovsky, Moussorgsky, Rimsky-Korsakov, Petitpas, fundador do ballet clássico de origem francesa, e muitos outros grandes artistas percorreram estas ruas de granito. Mais recentemente, São Petersburgo tem sido um dos melhores locais para apreciar música rock inovadora. Moscovo, que recebe oito vezes mais dinheiro do Governo, é incontestavelmente a capital dos negócios e do mundo do espectáculo, mas os habitantes de São Petersburgo orgulham-se do seu mais elevado nível cultural.


Vontade de um povo
Hoje, esta população, cuja vida económica é dominada por alguns dos mais ferozes mafiosos da história universal, continua a procurar como poderá impressionar ainda mais o mundo, para além da sua capacidade de resistência.

“Perdemos um mito com o comunismo e não criámos outro”, considera o jornalista Ugrimov. “Somos um país menos esfomeado, mas quanto à vida espiritual, temos razões para sentir que a Rússia está a perder a energia que a distinguia do resto da Europa”, confessou-me.

Por todo o lado nos dizem que a fonte dessa energia é a “alma russa”. O povo de São Petersburgo faz alarde da sua ocidentalidade em relação aos outros russos. Tal como os nobres da cidade que falavam Francês entre si no passado, eles praticam um discurso mais refinado, uma educação mais vitoriana que os outros russos. Mas, com os ocidentais, assumem uma superioridade baseada na crença de que os russos estão espiritualmente numa via que menospreza o mercantilismo do Ocidente.

É inevitável nas conversas com os estrangeiros vir à baila a tal “alma russa”, algo que ninguém parece ser capaz de definir. A expressão traz-me sempre a imagem de um nó de espirais e cúpulas multicoloridas, vejo a Catedral do Sangue Derramado que comemora o assassínio do Czar Alexandre II, em contraste com uma vasta sucessão de edifícios clássicos.

Boris Eifman, director artístico e coreógrafo principal do Teatro de Ballet de São Petersburgo, disse-me, frontalmente, que a alma russa é “uma música no ar que provém da comunicação com o génio”. Pouco depois de me ter encontrado com ele, saí eu do mais profundo metropolitano do mundo para a Ispitatelej Prospekt e deixei-me levar por aquela larga avenida bordada de grandes moradias até onde vivia Ignti Ivanovsky, um notável tradutor de Shakespeare. A mulher dele era neta de Alexei Tolstoy, o outro notável escritor da família.

Considerando que cerca de 800 000 residentes da cidade ainda moram em apartamentos comunitários, Ivanovsky tem razão para se orgulhar do seu velho apartamento de quatro assoalhadas, onde uma fotografia da poetisa Anna Akhmatova, assinada e dedicada, é o ornamento dominante. Mesmo assim, não pude deixar de reflectir no facto de o meu almoço nouvelle cuisine, no restaurante neo-barroco de um casino onde os “novos russos” brilham, ter custado provavelmente o equivalente a quase todo o rendimento mensal deste culto cavalheiro.

Ivanovsky viveu o cerco de 1941-1944, durante o qual o pai morreu de fome, e recorda o tempo em que o som do telefone a tocar lhe trazia arrepios de apreensão. Hoje, pode falar sobre tudo isso com uma elegante ironia e pode também pensar no futuro com prazer. “Os filhos dos novos russos serão bem-educados, melhor que os seus pais – serão poetas e romancistas e também mais organizados, capazes de fazer coisas como revistas literárias de um milhão de exemplares”, antevê Ivanovsky.

Falámos de literatura e logo me disse que Boris Pasternak, Blok, Mandelstam e Brodsky, como judeus que eram, não podiam exprimir a Rússia no que se refere à alma russa. Admirava, no entanto, da mesma forma a sua escrita e sentia compaixão por eles: “É uma tragédia viver na Rússia e não ser russo pelo sangue.”

Depois de o deixar, encontrei gente de tez escura que vendia melancias trazendo mais vida a Ispitatelej e lembrei-me que, dias antes, um vendedor do Azerbeijão tinha sido morto na cidade por skinheads. O ressentimento racista contra imigrantes do Cáucaso, que não páram de chegar, está a tornar-se crítico, mesmo nos círculos educados. Ocorre-me pensar que a agressividade contra outra etnia é o último recurso do ego para aqueles que têm demasiadas razões para se sentirem humilhados. Mas creio que Ivanovsky tem razão em ter fé nas novas gerações de São Petersburgo, cuja população é das mais jovens entre as cidades russas.

Tenho visto esses jovens a divertirem-se. São Petersburgo tem uma vida nocturna optimista e não falo das discotecas dos tais “novos russos”, com controlo à porta. Estou a pensar nos clubes muito frequentados, onde gente na casa dos 20 vem ouvir música, dançar e conversar. Penso particularmente na Purga, uma cave num edifício em Fontanka, que se enche todas as noites. À meia-noite a conversa pára e um televisor passa uma gravação do discurso de demissão de Boris Yeltsin, tocam os sinos e aparece alguém vestido de Pai Natal, as bebidas são por conta da casa e as pessoas dançam. Noite após noite.

O Pai Natal não é propriamente aquilo a que os russos chamem nash, “coisa nossa”, e até se pode argumentar que a figura se tornou demasiado comercial. Bem vistas as coisas, porém, creio que em São Petersburgo haverá em breve uma geração na vida activa que não terá memória do tempo em que o Pai Natal nunca vinha à cidade.


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