Capital
da Ucrânia e uma das cidades mais antigas do mundo, Kiev merece
ser descoberta, pois a história que tem para contar vai muito
além dos seus monumentos e museus. É a história
de um povo que passou por inúmeras provações
ao longo dos séculos, mas vive determinado em recuperar a glória
do passado
Texto
de Erica Cunha e Alves e fotos de Henrique Seruca/B.C. Imagens
Em
portugal pouco se sabe sobre aquela que é uma das mais antigas
cidades do mundo. O mesmo se passa em relação à
Ucrânia, cujo percurso ao longo da história foi simultaneamente
glorioso e dramático. O seu povo viveu sucessivas guerras,
ocupações e catástrofes, e ainda assim mantém-se
orgulhoso e determinado, mesmo quando tem de abandonar a pátria
para viver noutros países – em 2002, o número
de imigrantes ucranianos em Portugal já chegava aos 69 mil
(legalizados).
De facto, Kiev não faz parte dos roteiros turísticos
e não é particularmente bonita, mas a sua riqueza cultural
é enorme. Para compreender a cidade é preciso conhecer
a sua história.
Vikings, lendas e barbáries
Muito
antes da era cristã, o Sul do actual território da Ucrânia
era habitado por povos nómadas de origem indo-iraniana, os
Sármatas e os Citas, cujo domínio durou desde o século
VIII ao século IV a.C. As cidades-estado de Khersonnes, Olvia,
Pantikapeuss e Pheodossia dominavam esta vasta área e os seus
impérios baseados no comércio de escravos e alimentos
caracterizaram o desenvolvimento da região por quase 300 anos.
Por volta de 400 d.C., hordas de povos invasores começaram
a chegar. Os eslavos do Norte, a par dos futuros finlandeses e escandinavos,
fundaram a República de Novgorod no mar Báltico, enquanto
no Sul, a cidade-mercado de Kiev expandia a sua influência sobre
os povos indo-iranianos e parte dos eslavos do Oeste. Em meados do
século VIII, uma luta entre pagãos e cristãos
torna Oleg, que comandou um punhado de guerreiros vikings, no príncipe
de Kiev. Usando tropas mercenárias, Oleg subjuga o restante
dos eslavos do Leste impondo-lhes o seu domínio por meio de
um complicado sistema democrático-militar-tributário,
comanda enormes operações militares contra os Cázaros
e assusta o Império Bizantino e todo o mundo ocidental quando
o seu exército chega às portas de Constantinopla e a
toma de assalto. O mundo via nascer uma nova potência, a Rus
de Kiev.
Este
reino foi dos mais importantes da sua época, tendo mantido
ligações com algumas casas reais da Europa Ocidental
– a princesa Ana, filha de Yaroslav, casou com Henrique I de
França. Mas a paz não dura. A invasão tártaro-mongol
resulta numa longa ocupação que deixa marcas profundas
e Kiev só volta a ganhar novo esplendor no século XVIII,
quando a princesa Elizabete (filha de Pedro, o Grande) se encanta
por ela. Passa, então, a ser uma das cidades mais importantes
do Império Russo e torna-se incomparavelmente rica em termos
culturais e académicos.
Dá-se a revolução de 1917 e quando surge a URSS
a Ucrânia já desempenha um papel geoestratégico
fundamental. Na Segunda Guerra Mundial é o país a sofrer
mais baixas em todo o mundo, tendo perdido cerca de 25% da sua população.
O fantasma da desgraça não a larga. Em 1986, Chernobyl,
130 quilómetros a Norte de Kiev, é palco de um acidente
nuclear que ficará para sempre gravado na história mundial.
Em 1991 a Ucrânia torna-se independente e vive uma grave crise
económica.
A cidade dourada
Museu
de Arquitectura Popular e estátua aos combatentes
Roteiros
turísticos não existem em Kiev – apesar de alguém
com um sentido de humor algo mórbido já ter criado excursões
organizadas à famosa central nuclear de Chernobyl –,
mas a verdade é que a cidade esconde riquezas classificadas
como património mundial.
Comecemos pela Catedral de Santa Sofia, um dos mais preciosos tesouros
de Kiev. Este templo ortodoxo foi construído no local onde,
em 1037, o Rei Yaroslav, o Sábio, venceu uma tribo nómada.
Pretendendo rivalizar com a sua homónima de Constantinopla,
a grandiosa catedral, com as suas cúpulas douradas, assumiu
de imediato a posição de centro religioso, cultural
e político da Rus de Kiev. E se a sua importância foi
grande na época, hoje a catedral é quase como um símbolo
da identidade e da capacidade de resistência dos ucranianos.
Património da UNESCO, sobreviveu miraculosamente até
hoje, tendo escapado intacta de vários ataques, desde a invasão
mongol de 1240 até à Segunda Guerra Mundial. Durante
este conflito uma bomba alemã atingiu-a, furando o tecto mesmo
em frente ao magnífico mosaico da Virgem Oranta e, inexplicavelmente,
não explodiu.
Por tudo isto, mesmo quem não acredita na intervenção
divina não poderá deixar de sentir uma emoção
especial dentro da catedral, olhando para a imagem da Virgem, que
parece velar afectuosamente por todos os que se queiram colocar sob
a sua protecção. E, milagre ou não, o mosaico
permanece intacto, sem que tivessem sido necessárias obras
de restauro profundo ao longo dos seus quase mil anos de existência.
A
forte identidade nacional dos kievitas levou-os
a reconstruir grande parte da cidade
Apesar de ter escapado a ataques hostis, a catedral não conseguiu
evitar as obras que transformaram a construção original.
Durante a governação de Pedro Movila, uma febre de remodelação
dominou a cidade e os poucos edifícios religiosos antigos ainda
existentes assumiram o estilo barroco ucraniano. A Santa Sofia ganhou
mais um andar de galerias, as cúpulas deixaram de ser em “forma
de cebola” (estilo barroco russo) para passar a ser em “forma
de pêra” e são acrescentadas outras seis às
13 originais – 12 dedicadas aos apóstolos e a maior a
Jesus. A tradição de dourar as cúpulas mantém-se
até hoje e é dispendiosa: para renovar a cobertura,
apesar de esta ter apenas 1 mícron, são necessários
mais de sete quilos de ouro puro a cada quatro anos.
Santa Sofia não está só. Do outro lado da praça,
a Catedral de S. Miguel das Cúpulas Douradas é capaz
de ofuscar o comum mortal num dia de sol. Infelizmente, o edifício
que hoje observamos é uma construção com apenas
dois anos de idade, feita segundo os registos do período barroco
ucraniano. Mas se o seu valor histórico se perdeu, S. Miguel
é um bom exemplo do empenho dos kievitas em ver a sua cidade
brilhar de novo. Vale, pois, a pena visitá-la.
Política e religião
O nosso passeio pela cidade leva-nos a subir até às
colinas e a conhecer a Igreja de Santo André, mandada construir
pela princesa Elizabete, filha de Pedro, o Grande, no local onde,
reza a lenda, o apóstolo ergueu a cruz. O edifício projectado
em 1754 pelo arquitecto italiano B. Rastrelli é menos exuberante
do que as catedrais, mas o azul intenso das suas cúpulas faz
com que pareça destacar-se no céu, pairando, altivo,
no topo da colina.
A densidade da atmosfera religiosa que, por vezes, se sente em Kiev
não deixa de ser bizarra. Quando a Ucrânia declarou a
independência a 24 de Agosto de 1991, o vácuo político
era imenso. Num esforço para recompensar a igreja, cujo papel
foi dominante durante tantos séculos, o Estado devolveu-lhe
a administração dos seus edifícios e procedeu
à recuperação de muitos que foram destruídos
durante a época soviética e a ocupação
alemã, reconstruindo alguns deles de raiz, como a já
mencionada Catedral de S. Miguel e a Catedral da Assunção,
inserida no complexo do Mosteiro de Kiev-Petchersk Lavra, também
classificado património da humanidade. Aliás, diz-se
em tom de brincadeira que fazer das ruínas um novo monumento
é uma tarefa em que Kiev se especializou.
Regressando ao “mosteiro das grutas”, como é conhecido,
importa dizer que este remonta ao século XI e alberga mais
de 80 edifícios (as grutas, o mosteiro novo e galerias de exposição,
além da já referida Catedral da Assunção).
A sua história é curiosa. Não tendo dinheiro
para comprar terras, os monges Antoniy e Feodosiy ocuparam um conjunto
de grutas, nas quais viria a ocorrer um estranho fenómeno que
garantiria para sempre a sobrevivência e a importância
do mosteiro. Por razões que a ciência actual pode explicar,
mas que à luz dos conhecimentos da época só podiam
dever-se a um milagre, os corpos enterrados nas grutas sofriam um
processo de mumificação natural. Consideradas santas
pela Igreja Ortodoxa, as múmias de Lavra tornaram-se famosas
e garantiram a notoriedade do mosteiro. A sua riqueza atingiu tais
proporções que Catarina II chegou a considerá-lo
um perigo para o Império. Com um património de 500 mil
hectares de terreno arável, além de edifícios
e tesouros, mais de 80 mil servos da gleba e uma influência
fortíssima, não é de admirar que “A Grande”
se tenha sentido insegura e achado por bem manter “a ameaça”
debaixo de olho. De qualquer modo, as grutas continuam a ser uma das
zonas mais visitadas do mosteiro, principalmente por fiéis
que acreditam assim purificar os seus pecados. A visita é,
no entanto, desaconselhável a quem sofre de claustrofobia,
já que, para aceder aos subterrâneos, é preciso
comprar uma vela e descer por túneis estreitos.
Para quem prefere visitas mais arejadas, existem dois museus que vale
a pena mencionar. A entrada é paga em separado, mas 1 euro
é muito pouco para a experiência de visitar o Museu das
Microminiaturas e o Museu dos Tesouros Históricos. No primeiro
poderá observar curiosidades só visíveis através
de uma potente lente de aumento, como o livro mais pequeno do mundo.
No segundo o destaque vai para as peças de ourivesaria de valor
inestimável encontradas nos túmulos Citas.
A
arquitectura austera de um edifício governamental
contrasta...
...com
o pitoresco da praia fluvial
Igualmente interessante é a visita ao Museu de Arquitectura
Popular, um complexo museológico ao ar livre, situado na periferia
de Kiev, que oferece a oportunidade única de ver como viviam
os ucranianos no século XVIII. São cerca de 150 hectares
de área verde onde se distribuem construções
típicas de várias regiões da Ucrânia, pequenas
“aldeias” (muitas das quais constituídas por edificações
originais para ali transportadas) que incluem casas de camponeses,
escolas, igrejas e moinhos, reproduzindo fielmente – até
os funcionários estão vestidos a rigor – o modo
de vida passado. O recinto possui várias lojas de artesanato
e um restaurante, onde pode saborear pratos típicos. Uma forma
agradável de passar umas horas, a lembrar como Kiev ainda possui
muito de rural.
Um quotidiano difícil
Por mais despropositado que nos possa parecer, sente-se actualmente
em Kiev uma estranha nostalgia em relação aos tempos
da União Soviética. A explicação chega-nos
por parte de uma kievita que faz uma analogia interessante: “Antes
tínhamos trela curta e não podíamos ladrar, mas
o prato estava perto e sempre cheio de comida. Agora a trela é
maior, podemos ladrar à vontade, mas o prato está longe
e quase sempre vazio.” Saber que o salário mínimo
nacional ronda os 26 euros explica muita coisa. É claro, porém,
que também aqui há novos ricos. O contraste é
enorme. Ao passear na avenida principal vemos lojas de marca e vendedores
de rua. Os cartazes da Coca-Cola são manchas de cor entre o
bege acinzentado dos edifícios do período pós-Guerra.
As
pessoas parecem ainda não ter encontrado o seu lugar entre
o “antes” e o “depois”. As mais velhas têm
um olhar desconfiado, mas os jovens sorriem despreocupadamente. Até
a moda é confusa nesta cidade. As mulheres apostam na exuberância,
misturando todo o tipo de estilos, padrões e cores, sem outra
regra que não a da abundância. Vestir jeans, ténis
e uma t-shirt branca parece-lhes extremamente banal, quase pobre.
O minimalismo em voga no Ocidente ainda vai demorar tempo a chegar,
aqui a regra é: “mais é mais”. Tal como
adolescentes que subitamente começam a ganhar liberdade, os
ucranianos parecem perdidos.
Aqui vive-se uma realidade completamente diferente da nossa, mas quando
percorremos as ruas de Kiev, os deslocados somos nós e temos
de fazer um esforço para compreender as motivações
e o passado desta gente sofrida e batalhadora. Eternamente renascida
das cinzas, a Ucrânia e a sua capital estão prontas para
um futuro melhor. Tal como Lisboa, Kiev também tem sete colinas
e um encanto especial.