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D O S S I E R

Novembro de 2002
Capital da Ucrânia e uma das cidades mais antigas do mundo, Kiev merece ser descoberta, pois a história que tem para contar vai muito além dos seus monumentos e museus. É a história de um povo que passou por inúmeras provações ao longo dos séculos, mas vive determinado em recuperar a glória do passado

Texto de Erica Cunha e Alves e fotos de Henrique Seruca/B.C. Imagens
   


Em portugal pouco se sabe sobre aquela que é uma das mais antigas cidades do mundo. O mesmo se passa em relação à Ucrânia, cujo percurso ao longo da história foi simultaneamente glorioso e dramático. O seu povo viveu sucessivas guerras, ocupações e catástrofes, e ainda assim mantém-se orgulhoso e determinado, mesmo quando tem de abandonar a pátria para viver noutros países – em 2002, o número de imigrantes ucranianos em Portugal já chegava aos 69 mil (legalizados).

De facto, Kiev não faz parte dos roteiros turísticos e não é particularmente bonita, mas a sua riqueza cultural é enorme. Para compreender a cidade é preciso conhecer a sua história.


Vikings, lendas e barbáries
Muito antes da era cristã, o Sul do actual território da Ucrânia era habitado por povos nómadas de origem indo-iraniana, os Sármatas e os Citas, cujo domínio durou desde o século VIII ao século IV a.C. As cidades-estado de Khersonnes, Olvia, Pantikapeuss e Pheodossia dominavam esta vasta área e os seus impérios baseados no comércio de escravos e alimentos caracterizaram o desenvolvimento da região por quase 300 anos.

Por volta de 400 d.C., hordas de povos invasores começaram a chegar. Os eslavos do Norte, a par dos futuros finlandeses e escandinavos, fundaram a República de Novgorod no mar Báltico, enquanto no Sul, a cidade-mercado de Kiev expandia a sua influência sobre os povos indo-iranianos e parte dos eslavos do Oeste. Em meados do século VIII, uma luta entre pagãos e cristãos torna Oleg, que comandou um punhado de guerreiros vikings, no príncipe de Kiev. Usando tropas mercenárias, Oleg subjuga o restante dos eslavos do Leste impondo-lhes o seu domínio por meio de um complicado sistema democrático-militar-tributário, comanda enormes operações militares contra os Cázaros e assusta o Império Bizantino e todo o mundo ocidental quando o seu exército chega às portas de Constantinopla e a toma de assalto. O mundo via nascer uma nova potência, a Rus de Kiev.

Este reino foi dos mais importantes da sua época, tendo mantido ligações com algumas casas reais da Europa Ocidental – a princesa Ana, filha de Yaroslav, casou com Henrique I de França. Mas a paz não dura. A invasão tártaro-mongol resulta numa longa ocupação que deixa marcas profundas e Kiev só volta a ganhar novo esplendor no século XVIII, quando a princesa Elizabete (filha de Pedro, o Grande) se encanta por ela. Passa, então, a ser uma das cidades mais importantes do Império Russo e torna-se incomparavelmente rica em termos culturais e académicos.

Dá-se a revolução de 1917 e quando surge a URSS a Ucrânia já desempenha um papel geoestratégico fundamental. Na Segunda Guerra Mundial é o país a sofrer mais baixas em todo o mundo, tendo perdido cerca de 25% da sua população. O fantasma da desgraça não a larga. Em 1986, Chernobyl, 130 quilómetros a Norte de Kiev, é palco de um acidente nuclear que ficará para sempre gravado na história mundial. Em 1991 a Ucrânia torna-se independente e vive uma grave crise económica.


A cidade dourada
Museu de Arquitectura Popular e estátua aos combatentes
Roteiros turísticos não existem em Kiev – apesar de alguém com um sentido de humor algo mórbido já ter criado excursões organizadas à famosa central nuclear de Chernobyl –, mas a verdade é que a cidade esconde riquezas classificadas como património mundial.

Comecemos pela Catedral de Santa Sofia, um dos mais preciosos tesouros de Kiev. Este templo ortodoxo foi construído no local onde, em 1037, o Rei Yaroslav, o Sábio, venceu uma tribo nómada. Pretendendo rivalizar com a sua homónima de Constantinopla, a grandiosa catedral, com as suas cúpulas douradas, assumiu de imediato a posição de centro religioso, cultural e político da Rus de Kiev. E se a sua importância foi grande na época, hoje a catedral é quase como um símbolo da identidade e da capacidade de resistência dos ucranianos. Património da UNESCO, sobreviveu miraculosamente até hoje, tendo escapado intacta de vários ataques, desde a invasão mongol de 1240 até à Segunda Guerra Mundial. Durante este conflito uma bomba alemã atingiu-a, furando o tecto mesmo em frente ao magnífico mosaico da Virgem Oranta e, inexplicavelmente, não explodiu.

Por tudo isto, mesmo quem não acredita na intervenção divina não poderá deixar de sentir uma emoção especial dentro da catedral, olhando para a imagem da Virgem, que parece velar afectuosamente por todos os que se queiram colocar sob a sua protecção. E, milagre ou não, o mosaico permanece intacto, sem que tivessem sido necessárias obras de restauro profundo ao longo dos seus quase mil anos de existência.

A forte identidade nacional dos kievitas levou-os a reconstruir grande parte da cidade

Apesar de ter escapado a ataques hostis, a catedral não conseguiu evitar as obras que transformaram a construção original. Durante a governação de Pedro Movila, uma febre de remodelação dominou a cidade e os poucos edifícios religiosos antigos ainda existentes assumiram o estilo barroco ucraniano. A Santa Sofia ganhou mais um andar de galerias, as cúpulas deixaram de ser em “forma de cebola” (estilo barroco russo) para passar a ser em “forma de pêra” e são acrescentadas outras seis às 13 originais – 12 dedicadas aos apóstolos e a maior a Jesus. A tradição de dourar as cúpulas mantém-se até hoje e é dispendiosa: para renovar a cobertura, apesar de esta ter apenas 1 mícron, são necessários mais de sete quilos de ouro puro a cada quatro anos.

Santa Sofia não está só. Do outro lado da praça, a Catedral de S. Miguel das Cúpulas Douradas é capaz de ofuscar o comum mortal num dia de sol. Infelizmente, o edifício que hoje observamos é uma construção com apenas dois anos de idade, feita segundo os registos do período barroco ucraniano. Mas se o seu valor histórico se perdeu, S. Miguel é um bom exemplo do empenho dos kievitas em ver a sua cidade brilhar de novo. Vale, pois, a pena visitá-la.


Política e religião
O nosso passeio pela cidade leva-nos a subir até às colinas e a conhecer a Igreja de Santo André, mandada construir pela princesa Elizabete, filha de Pedro, o Grande, no local onde, reza a lenda, o apóstolo ergueu a cruz. O edifício projectado em 1754 pelo arquitecto italiano B. Rastrelli é menos exuberante do que as catedrais, mas o azul intenso das suas cúpulas faz com que pareça destacar-se no céu, pairando, altivo, no topo da colina.

A densidade da atmosfera religiosa que, por vezes, se sente em Kiev não deixa de ser bizarra. Quando a Ucrânia declarou a independência a 24 de Agosto de 1991, o vácuo político era imenso. Num esforço para recompensar a igreja, cujo papel foi dominante durante tantos séculos, o Estado devolveu-lhe a administração dos seus edifícios e procedeu à recuperação de muitos que foram destruídos durante a época soviética e a ocupação alemã, reconstruindo alguns deles de raiz, como a já mencionada Catedral de S. Miguel e a Catedral da Assunção, inserida no complexo do Mosteiro de Kiev-Petchersk Lavra, também classificado património da humanidade. Aliás, diz-se em tom de brincadeira que fazer das ruínas um novo monumento é uma tarefa em que Kiev se especializou.


Regressando ao “mosteiro das grutas”, como é conhecido, importa dizer que este remonta ao século XI e alberga mais de 80 edifícios (as grutas, o mosteiro novo e galerias de exposição, além da já referida Catedral da Assunção). A sua história é curiosa. Não tendo dinheiro para comprar terras, os monges Antoniy e Feodosiy ocuparam um conjunto de grutas, nas quais viria a ocorrer um estranho fenómeno que garantiria para sempre a sobrevivência e a importância do mosteiro. Por razões que a ciência actual pode explicar, mas que à luz dos conhecimentos da época só podiam dever-se a um milagre, os corpos enterrados nas grutas sofriam um processo de mumificação natural. Consideradas santas pela Igreja Ortodoxa, as múmias de Lavra tornaram-se famosas e garantiram a notoriedade do mosteiro. A sua riqueza atingiu tais proporções que Catarina II chegou a considerá-lo um perigo para o Império. Com um património de 500 mil hectares de terreno arável, além de edifícios e tesouros, mais de 80 mil servos da gleba e uma influência fortíssima, não é de admirar que “A Grande” se tenha sentido insegura e achado por bem manter “a ameaça” debaixo de olho. De qualquer modo, as grutas continuam a ser uma das zonas mais visitadas do mosteiro, principalmente por fiéis que acreditam assim purificar os seus pecados. A visita é, no entanto, desaconselhável a quem sofre de claustrofobia, já que, para aceder aos subterrâneos, é preciso comprar uma vela e descer por túneis estreitos.

Para quem prefere visitas mais arejadas, existem dois museus que vale a pena mencionar. A entrada é paga em separado, mas 1 euro é muito pouco para a experiência de visitar o Museu das Microminiaturas e o Museu dos Tesouros Históricos. No primeiro poderá observar curiosidades só visíveis através de uma potente lente de aumento, como o livro mais pequeno do mundo. No segundo o destaque vai para as peças de ourivesaria de valor inestimável encontradas nos túmulos Citas.

A arquitectura austera de um edifício governamental contrasta...
...com o pitoresco da praia fluvial

Igualmente interessante é a visita ao Museu de Arquitectura Popular, um complexo museológico ao ar livre, situado na periferia de Kiev, que oferece a oportunidade única de ver como viviam os ucranianos no século XVIII. São cerca de 150 hectares de área verde onde se distribuem construções típicas de várias regiões da Ucrânia, pequenas “aldeias” (muitas das quais constituídas por edificações originais para ali transportadas) que incluem casas de camponeses, escolas, igrejas e moinhos, reproduzindo fielmente – até os funcionários estão vestidos a rigor – o modo de vida passado. O recinto possui várias lojas de artesanato e um restaurante, onde pode saborear pratos típicos. Uma forma agradável de passar umas horas, a lembrar como Kiev ainda possui muito de rural.


Um quotidiano difícil
Por mais despropositado que nos possa parecer, sente-se actualmente em Kiev uma estranha nostalgia em relação aos tempos da União Soviética. A explicação chega-nos por parte de uma kievita que faz uma analogia interessante: “Antes tínhamos trela curta e não podíamos ladrar, mas o prato estava perto e sempre cheio de comida. Agora a trela é maior, podemos ladrar à vontade, mas o prato está longe e quase sempre vazio.” Saber que o salário mínimo nacional ronda os 26 euros explica muita coisa. É claro, porém, que também aqui há novos ricos. O contraste é enorme. Ao passear na avenida principal vemos lojas de marca e vendedores de rua. Os cartazes da Coca-Cola são manchas de cor entre o bege acinzentado dos edifícios do período pós-Guerra.

As pessoas parecem ainda não ter encontrado o seu lugar entre o “antes” e o “depois”. As mais velhas têm um olhar desconfiado, mas os jovens sorriem despreocupadamente. Até a moda é confusa nesta cidade. As mulheres apostam na exuberância, misturando todo o tipo de estilos, padrões e cores, sem outra regra que não a da abundância. Vestir jeans, ténis e uma t-shirt branca parece-lhes extremamente banal, quase pobre. O minimalismo em voga no Ocidente ainda vai demorar tempo a chegar, aqui a regra é: “mais é mais”. Tal como adolescentes que subitamente começam a ganhar liberdade, os ucranianos parecem perdidos.

Aqui vive-se uma realidade completamente diferente da nossa, mas quando percorremos as ruas de Kiev, os deslocados somos nós e temos de fazer um esforço para compreender as motivações e o passado desta gente sofrida e batalhadora. Eternamente renascida das cinzas, a Ucrânia e a sua capital estão prontas para um futuro melhor. Tal como Lisboa, Kiev também tem sete colinas e um encanto especial.


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