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Madrid

Nas Alturas

Já que esta vida são dois dias, nada como a capital espanhola para nos ensinar a gozá-los o melhor possível (e isto sem esquecer, claro está, as suas respectivas noites).


A pior coisa que o visitante de Madrid pode fazer, na sua ânsia para aderir ao ritmo da cidade, é levantar-se cedo. E não adianta os madrilenos jurarem a pés juntos que cumprem horários perfeitamente europeus, pois a mais superficial observação revela que, na melhor das hipóteses, o fazem com extrema relutância — o comércio tradicional de Madrid, diapasão da vida da cidade, é disso um bom exemplo, já que só começa a abrir as suas portas, ensonadamente, por volta das dez da manhã, para logo voltar a fechá-las entre as duas e as cinco da tarde (período reservado à instituição nacional da siesta).

Uma coisa é certa: com euro ou sem euro, Madrid não abdica das suas prioridades e, sendo a cidade industrial quanto baste, ali entende-se a palavra no seu sentido literal, que é o de negação do ócio. Assim sendo, não é de espantar que o trabalho seja encarado pelos madrilenos como algo que deve subordinar-se a uma ética manifestamente superior, a do lazer.

Como as descobertas não se ficam por aqui, depressa concluímos que outro dos valores realmente importantes de Madrid é o convívio — a cidade parece acreditar que o prazer do ócio se intensifica na proporção directa do número de pessoas envolvidas —, pelo que ver um típico grupo de amigos a conversar desenfreadamente num comprido mesón enquanto partilham tapas e raciones (seguramente a forma de passar mais tempo a tomar uma refeição) é ficar-se com a sensação de que, se calhar, eles é que estão certos e que no mundo não existe qualquer fonte de preocupação.

Deve, porém, esperar-se pelo lusco-fusco para começar a entender o verdadeiro sentido da expressão , pois, ao que tudo indica, os madrilenos não vão para casa após o trabalho, mas sim para a calle. Com efeito, pelo final da tarde, as ruas começam a enxamear de gente e o zumbido das conversas vai subindo de tom e frequência — são os madrilenos que antecipam e combinam os encontros para a noite, tão excitados como se fossem praticar o ritual pela primeira vez. Caída a noite, a cidade sucumbe a um estado de voluptuoso relaxamento, já que o avanço da madrugada não perturba esses verdadeiros animais noctívagos que são os madrilenos (muito pelo contrário, como atestará quem já teve dificuldade em conseguir uma mesa numa churrería ou esplana-da às cinco da manhã). , observou Hemingway bem a propósito, mas o que este profundo conhecedor da cidade não sabia é que no seu tempo Madrid ainda não tinha inventado os after hours...

Mas, se a apetência que Madrid sente pela noite pode ser facilmente justificada pelo calor — é o adágio citado para descrever o clima da cidade — o mesmo já não se pode dizer do segredo que permite aos madrilenos aguentarem, sem desfalecer, este ritmo festivo de vida. Há quem avance a possibilidade de tal facto estar relacionado com uma ordenação castrense de há séculos atrás, a qual obrigava os militares de Madrid a acompanhar a ingestão de bebidas alcoólicas com rações alimentares para moderar os efeitos perniciosos daquelas. Ironicamente, porém, o carácter ocioso de Madrid tem origem num acto da mais cinzenta burocracia.

Com efeito, em 1561, o rei Felipe II proclamou que esta urbe no desolado planalto castelhano, então obscura e pouco apetecível, seria doravante a capital de todos os reinos de Espanha. A distinção era motivada unicamente pela localização de Madrid, no exacto centro geográfico da Península Ibérica, pois a partir dali o correio real podia alcançar qualquer ponto da reinado em cinco dias (ainda hoje, é a partir do marco do , na Puerta del Sol, que se contam as várias distâncias em Espanha).

Presenteada com a coroa do centralismo absoluto, Madrid passou a usá-la com salero, mas não sem adquirir os vícios inerentes a ser o coração de um dos maiores impérios de sempre. Como dá conta um panfleto escrito em 1888, intitulado Guerra Contra Madrid, ainda nessa época tardia a capital não conseguira livrar-se da imagem de ser .

De tudo isto resultou uma cidade que cultiva a teatralidade, usando a arquitectura com a mesma desenvoltura com que as madrilenas se maquilham. Na sua ânsia de fazer peito às capitais europeias — principalmente a Paris, sua eterna nemésis —, Madrid mistura espalhafato e requinte, não se coibindo de cair, por vezes, numa monumentalidade exagerada. Exemplos disso é o Palacio de Comunicaciones e a central dos correios de Madrid, situado na Plaza de Cibeles.

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