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D O S S I E R


Um périplo pela capital de Espanha. Enérgica e energética. Com as moradas onde se pode perder.

Texto de Cristina Pereira Fotos de Henrique Seruca
  



No restaurante, após o almoço, os sentidos, viciados no prazer da nicotina, reclamam por um Monte Cristo. O amigo do fotógrafo acende a cigarrilha com manifesta volúpia. O cheiro intenso do tabaco sobrepõe-se ao aroma discreto do café solo - que em Espanha bebem-no de preferência con leche. Na mesa ao lado, um homem já idoso termina, também ele, a refeição. O fotógrafo faz um sinal ao amigo que logo tenta contrariar a direcção do fumo, abanando desajeitadamente a mão em movimentos rápidos. Ao notar o embaraço, o caballero - mais do que o dramatismo da língua, o que aqui nos surpreende é o recorte preciso das palavras - logo exclama: No se preocupe! Fume lo que quiera. Yo ya no puedo fumar pero el humo me estimula! Este é o espírito.

Uma Capital Mestiça

Os espanhóis, é dos livros, falam alto e vivem na rua. O termo - espanhóis -, ao qual torcerão o nariz alguns "nacionalistas" mais politicamente correctos, ganha um sentido maior em Madrid, onde cerca de 80% da população é proveniente de outras regiões, ou do estrangeiro. Gentes de Castela, Astúrias, Andaluzia, Galiza, Málaga, Catalunha, País Basco... (no total são 20 possibilidades) mesclam-se nesta cidade, capital de um país feito de geografias e idiossincrasias várias. Tal mestiçagem é antiga. Notava já Calderón de la Barca, o conhecido dramaturgo madrileno do século XVII, que Es Madrid, patria de todos/ (pues en su mundo pequeño/ son hijos de igual cariño/ naturales y extranjeros...).

Apesar da gravidade arquitectónica e sobretudo da escala esmagadora (um exemplo: atravessar uma avenida quando o sinal passou a intermitente para os peões requer, no mínino, bravura e destreza de pernas), a lembrar-nos o passado imperial dos nossos vizinhos, Madrid só pode orgulhar-se do seu estatuto há relativamente pouco tempo. De facto, embora a sua fundação pelo quinto emir independente de Córdoba, Mohamed, recue à ocupação árabe da Península, a elevação a capital do reino apenas se dá em 1556 quando Filipe II (I dos nossos) assim o decide (Henrique Garcia Pereira, um português adepto do"ethos espanhol", sugere no seu livro Arte Recombinatória que a escolha teria recaído sobre Madrid, e não sobre Lisboa, por, diz-se, "aí não haver mosquitos"). Subtraída ao título entre 1601 e 1606, por decisão de outro Filipe (III, II dos nossos), no ano seguinte retoma a ordenação que mantém até hoje.


Centro cultural na Plaza Colon; à dir.:Plaza Mayor, o "coração" da cidade..
Seria agora chegado o momento de desenvolver matérias eruditas e listar datas e acontecimentos relacionados com a cidade (que, aliás, refira-se, não é ciudad mas villa) mas que me perdoem os leitores o conselho: qualquer guia de terceira grau os poderá informar, melhor do que eu, dos meandros historiográficos. Prefiro citar Antonio Ferres, romancista e poeta madrileno, que assim pontificou à saída da Casa del Libro, livraria obrigatória da capital espanhola onde marcáramos encontro no dia anterior: Madrid es un disparate. Na língua do autor de Los Confines del Reino isto quer dizer - um excesso.

Não nos precipitemos, contudo. Porque o rendez-vous com Ferres apenas se deu três dias depois da partida. Por enquanto ainda estou no Aeroporto da Portela às voltas com um B.I. caducado.

Apesar das medidas de segurança, passei o controlo preliminar da polícia mostrando o bilhete e a identificação fora de prazo. Foi só à chegada ao check-in que a funcionária, zelosa, repara na data ultrapassada e me informa que naquelas condições não posso embarcar. Os meus protestos e súplicas provaram-se incompetentes. Seguiu-se por isso uma corrida rocambolesca entre o aeroporto e a Praça do Areeiro, pontuada por telefonemas nervosos ao fotógrafo, de guarda à minha mala, a dar-lhe conta das movimentações. No Arquivo de Identificação, onde em meia hora me resolveram o problema, não podiam ter sido mais prestáveis. "Acalme-se! Acalme-se! Vamos fazer os possíveis! Dê cá o dedo! Vai ver que consegue! E as fotografias? Não tem?! Vá depressa aí ao lado! Deixe isso, nós pre- enchemos! Mas despache-se, despache-se!". Poupo-vos ao stress. Numa hora fui e voltei - devidamente identificada -, e à hora prevista sentava-me no avião rumo a Madrid. Tudo está bem quando acaba bem. O único senão é que serei com certeza obrigada a mudar de bilhete de identidade porque, resultado daquele caos matinal, a minha cara exibe uma expressão demasiado parecida à de uma perigosa meliante apanhada em flagrante delito.

Mas Quando é que Eles Dormem?

Noites na Kapital, uma megadiscoteca com 7 andares.
Berlin-Cabaret, uma surpresa diária.
A correria terá sido premonitória. Uma espécie de ritual de iniciação ao que nos esperava. Felizmente por melhores motivos. Assim, e para abreviar: na primeira noite recolhemos ao hotel à 01h30m. Chegáramos ao aeroporto de Barajas por vol- ta das 13h00 e tanto eu quanto o fotógrafo acumulávamos sonos atrasados, tornando-se humanamente impossível prosseguir as digressões madrilenas que todavia iniciámos logo na primeira noite com inegável espírito de missão. No segundo dia, desistimos pouco antes das 03h00; no terceiro, perto das 04h00; no quarto.... Creio que me fiz entender. Numa manhã de domingo, no Rastro, essa feira da ladra local em tamanho extra large, após algumas escassas horas de sono, submersos num mar de cabeças ondulantes entre dois flashs e incontáveis cafés sempre solos, deixei sem resposta o fotógrafo quando este, atónito, me interpelou: "Ele é de noite, ele é de dia. Mas quando é que estes tipos dormem?"

Dizia Rafael Alberti, a propósito de outras matérias:"A Espanha é um país passional. Misturamos tudo." Pois que também misturam a noite e o dia, está bem de ver.


Joy Eslava, um antigo teatro transformado em discoteca.
Esta cidade podia servir de mote a um anúncio do Red Bull (que nunca tomei mas imagino). Tente, pelo menos a partir de 5ª feira, apanhar um táxi às 05h00 da manhã e compreenderá do que falo (acrescente-se, para os incrédulos, que táxis é o que não falta). Ou jantar sem fazer marcação. Ou ir a um espectáculo sem ter reservado bilhete. O ritual começa pelas tapas - termo que segundo a tradição terá resultado do sensato "despacho" do rei Alfonso X de fazer acompanhar o vinho servido nas estalagens de Castela por um pequeno prato de comida (que era colocado a tapar o copo), diminuindo assim efeitos etílicos indesejáveis; e não será por acaso que este rei é conhecido pelo cognome de O Sábio - continua com as copas (copos), prossegue nas discotecas e termina nos after-hours. No domingo, por volta da uma da tarde, na Casa António La Cebada, olhos protegidos por impenetráveis óculos escuros denunciam muitas horas sem dormir. Enquanto uns bebem a última caña (imperial) outros aguardam (o que também fazemos) uma suculenta tortilla servida ao som de ritmos flamencos.


Jardins do Museu Rainha Sofia.
Foi assim que, incautos, nos vimos obrigados a desistir do Restaurante Los Girasoles, ao fundo da calle Hortaleza, zona que tem assistido nos últimos anos a acentuada renovação urbana, contígua à Chueca, bairro onde a comunidade gay marca pontos e prova o seu talento para fazer reviver as cidades. Não havia hipótese. Na noite anterior trocáramos, em boa hora, o jantar por uma ida ao Café Central, a catedral madrilena do jazz, mas hoje queríamos sentarmo-nos e comer "de faca e garfo". Eram quase 10h00 da noite - cheio - e as reservas estavam completas, mesmo para as 23h00. E para amanhã? Si, claro, por la mañana, si. O dono, de uma simpatia e profissionalismo a toda a prova (em geral, é isto que se passa, não há por que ficarmos admirados), passeia-me pelas duas salas, pergunta-me que mesa prefiro, toma nota da reserva. No dia seguinte acolhe-me como se me reconhecesse da primeira infância. Pronuncia o meu nome com as letras todas - Cris-ti-na! Sinto-me rebaptizada - nada do indistinto e tristonho "Crestina" português. Depois de sentados (eu e o fotógrafo), um telefonema. É Isabel, uma jornalista espanhola que se propõe fazer-nos companhia esta noite. Passamos a ser três a jantar. Sugerem-nos trocar de mesa. Passados cinco minutos, do meio da sala, ouço o meu nome ser novamente enunciado de forma claríssima: Cris-ti-na! e um gesto que me indica o novo lugar, Venga! Levanto-me de um ápice. Obedeço. (O leitor não me conhece mas eu sou mais do género rebelde.) Recordo-me de um álbum de Lucky Luke e do entusiasmo de Rantanplan obedecendo à mã Dalton que lhe ordena que se sente: "Finalmente alguém que sabe mandar!." As línguas, como a geografia, explicam muita coisa.

 
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