Se
isto é assim agora, como seria há 20 anos? Dir-se-á que do conceito - a noite
como instrumento de liberdade - se passou à indústria - os copos como forma de
fazer dinheiro. Sem querer entrar em pormenores ou polémicas, o que é indiscutível
é que, pelo menos para quem chega de fora, eles - os madrilenos - continuam tremendamente
frenéticos. Movendo-se. E arrastam-nos.
Jardim
tropical na renovada Estação Atocha
Há
os resistentes. Escueto reabriu depois de um longo interregno (só ao fim-de-semana)
precisamente no mesmo local onde a movida começou, em torno da Plaza dos de Mayo
no bair- ro de Malasaña ou de Maravillas. No Berlin Cabaret, numa ruela do La
Latina, uma das zonas mais castiças de Madrid, insiste-se em espectáculos independentes
e divertidos que pontuam uma noite de boa música e melhor ambiente. Por três vezes
- a primeira, à 01h00 - abre-se o palco e sobem à cena actores que fazem rir o
público com a sua irreverência. José María Calafat, um dos sócios, esclarece-me,
antes mesmo de termos tempo para ser apresentados, que No hablo de sexo! Quando
lhe peço para falar mais despacio (devagar), interroga-me sobre o meu espanhol.
Com la graciosa irrespetuosidad que es característica del madrileño (nas palavras
de Ortega y Gasset) quer saber se percebi o que perguntara a um dos presentes:
se deixara o namorado por ser importante ou por ser impotente. Esclareço-o que
em português as pala-vras só divergem na pronúncia e não no significado.
Café
Círculo de Bellas Artes Flamenco na Casa Pratas
No
Búho Real, abençoado por uma colecção de mais de um milhar de mochos (aqui, o
mocho é um animal que traz sorte... desde que seja oferecido), continuam a servir-se
as melhores caipirinhas de Madrid sob o lema sigue disfrutando de la noche. E
foi o que fizemos... No táxi, ainda no mesmo quarteirão, avistamos um espaço sem
história, o KWAI, que nos definem como o sítio de Madrid que vende as copas mais
baratas (250 pesetas). Garantem-nos que não têm efeitos secundários indesejáveis.
Depois das discotecas (mais do que a música, o que surpreende é a be-leza de locais
como o Palacio Gaviria ou Joy Eslava no antigo Teatro Eslava, "clássicos" da noite
madrilena), e dos clubes, que mudam de designação conforme o som, da~responsabilidade
de DJs mais ou menos conhecidos, é forçosa uma ida à Chocolatería San Ginés, aberta
desde 1894 e toda la noche, destino de peregrinação obrigatória na passagem de
ano. O chocolate quente é óptimo! e os churros (variante das nossas farturas)
acompanham.
Do mais Tradicional ao mais Contemporâneo
EDiscoteca
Joy Madrid
Palacio
Gaviria, uma discoteca no espaço belíssimo de um antigo palácio
O
que mais pasma nesta villa é, não só a imensa diversidade de opções, mas a mistura
de gentes e géneros que encontramos nos locais mais distintos. A ser verdade o
que me dizia Antonio Ferres - que em matéria de oferta ao consumidor hay El Corte
Inglés e hay los outros -, somos obrigados a concluir, ao fim de pouco tempo,
que os outros ainda devem ser muitos.
No
Mercado de Fuencarral e ruas adjacentes, sentimo-nos catapultados para o que uma
"atmosfera londrina" tem de mais livre e criativo. Lojas de roupa mais ou menos
alternativas, jovens descomplexados, pelo menos no que respeita à cor dos cabelos,
ruas pejadas de gente nova das mais diversas origens, contrastam radicalmente
com o "ambiente Champs Elysées" que se vive, por exemplo, no Bairro de Salamanca,
a excelência em matéria de compras (veja-se a concentração de lojas do mini-Centro
Comercial Jardines de Serrano). É neste bairro que estão reunidos os grandes da
moda internacional, ao lado dos estilistas espanhóis já conceituados. Para as
fashion-victims, uma visita demorada à Calle Serrano e arredores é uma obrigação
sem apelo nem recurso (durante os saldos, os preços descem a 60% e 70%).
Tenho
para mim, contudo, que a perspectiva de comer bem é ainda uma razão maior que
traz muitos portugueses à capital espanhola. (Isto, e assistir a um mítico Real
Madrid-Barcelona.)
A gastronomia
do país vizinho tem vindo a marcar pontos e alguns dos seus chefs ganharam fama
internacional. Nomes como Javier Iturralde, Martin Berasategui, Alberto Chicote
ou Pedro Larumbe souberam renovar uma cozinha de inspiração mediterrânica acrescentando-lhes
arrojados toques pessoais. Mas mesmo aos fãs mais convictos dos novos sabores
se impõe uma passagem pelo centenário Lhardy. Foi aí, por volta das 07h30m da
tarde, que deparei com um grupo de madrilenas já na casa dos sessenta, vestido
a rigor - calculo que em trânsito para o teatro, porque mesmo para o padrão local
o esmero era exagerado - to-mando chá em pé, encostado ao belíssimo aparador do
fundo. Estranhei a hora e o desconforto. E também a falta de acompanhamento. Onde
estavam os scones?
O Lhardy
é conhecido pelo seu cocido, especialidade madrilena superior, a fim do nosso
quase homónimo cozido - mas que não se deixe de provar também um cochinillo ou
um cordero assados no forno de lenha do Botin, ao que parece o restaurante mais
antigo do mundo, cuja origem romonta a começos do século XVII. Diz a tradição
que Goya lavou pratos nas suas cozinhas e Hemingway, um cliente fiel, referiu-se-lhe
no seu romance Fiesta. E, já agora, confirme o humor madrileno na porta quase
ao lado, no El Cuchi, restaurante-bar mexicano que anuncia que Hemingwai never
ate here. Avisam-nos que ali não se fala francês, inglês ou alemão mas prometem-nos
também não se rirem do nosso espanhol.
Plaza
Mayor: os artistas continuam na rua
Voltemos
ao Lhardy. De arquitectura e decoração românticas, abriu as portas em 1839 e o
nome vem-lhe do seu fundador, um suíço que se radicou em Madrid e que já uma personagem
de Pérez Galdós (1843-1920) - escritor que está para os espanhóis como para nós
o Eça - descrevia como el primero en las artes del comer fino. À entrada, uma
imensa panóplia de tapas e irrepreensível charcutaria recebem os comensais que
podem, assim, ou tapear, ou levar para casa uma iguaria mais rara, ou aguardar
mesa para o restaurante. Tinham-me falado também do hábito madrileno de vir aqui
beber um caldo (do cocido, precisamente), a qualquer hora do dia. Quando interrogo
uma empregada sobre o assunto, ela aponta-me simpaticamente um samovar. Abro a
torneirinha e sirvo-me. Por 250 pesetas cumpro o ritual e esclareço o mistério
do chá. Como já devem ter concluído, tratara-se de um equívoco. Afasto-me para
deixar passar as damas de estômago proletariamente aconchegado pelo caldo caliente
e sorrio. Por momentos regresso à descontraída Casa Ciriaco, outro dos lugares
de referência da cidade (La más deliciosa y menos solemne de las doctrinas, es
la gastronomía, diz a publicidade deste Restaurante-Taberna), pejado de imagens
de famosos (comovente uma fotografia de Picasso cujo magnífico olhar se percebe
rendido ao peso dos anos), célebre pela sua garrafeira e por ser um dos lugares
eleitos da família real, e recordo o à-vontade, o tu cá, tu lá, desafectado e
simultaneamente orgulhoso, com que nos guiam pela adega e falam do rei. Nem sei
se serão monárquicos. Porque nesta terra onde humor parece não faltar (não por
acaso a Espanha é a pátria do pícaro), tudo é possível. Luísa, por exemplo, espanhola
apaixonada por Lisboa, resumira à mesa de um almoço: El rey está bien, pero yo
soy republicana a cien por cento.
Manhã
no Rastro
No As
de Los Viños, em frente ao Teatro Albéniz, há outra tradição. A de vir comer torrijas.
Aparentadas com as nossas fatias douradas, As de Los Viños
é o único estabelecimento em Madrid que as prepara, não com leite... mas com vinho.
O oposto da sofisticação do Lhardi, trata-se de uma taberna onde nos oferecem
um menu completo por 1100 pesetas. Provei e recomendo. Só faltou o café. As tabernas
estão impedidas de o vender. No princípio do século existiam mais de 100, agora
estão reduzidas a cerca de 50 mas é visível o esforço em renová-las.
Loja
de Amaya Arzuaga
Mercado
(alternativo) de Fuencarral
Rosa
Maria, uma madrilena bem-disposta que nos acompanhou no périplo pelas tabernas
"históricas", elege as mais afamadas. Casa Labra, onde foi fundado em 1879 o Partido
Socialista Operário Espanhol; Taberna Café La Fontana de Ouro, hoje transformada
em "bar irlandês", embora mantendo a traça e os azulejos originais; Casa Alberto,
no mesmo edifício onde se pensa ter vivido Cervantes... Já não estava connosco
quando entrámos na Taberna de Ángel Sierra - quase após um ano de aí ter estado
com amigos em final de tarde chuvoso e de boa memória -, e pude confirmar que
o vermú continua a ser servido do barril. É também isto que faz de uma cidade
um lugar onde apetece voltar. (Se for amante de sapatos, sugiro-lhe outro pretexto.
Junto à La Taberna de Ángel Sierra fica a calle Augusto Figueiroa onde se conseguir
encontrar outra coisa que não sejam sapatarias, com preços praticamente de revenda)
juro por Santo Isidro, o padroeiro de Madrid, que andarei um ano descalça!) Por
razões familiares, Rosa Maria agora sai menos à noite. Estamos sentados no Café
Salón El Prado, um dos muitos cafés madrilenos que nos faz sonhar com Viena. Pergunto-lhe
qual o segredo para tanta energia. A resposta não se fez esperar: Hombre, pues
no lo sé. Puede que sea la siesta. (Hombre, por estas paragens, parece ser um
substantivo sem género.)