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D O S S I E R



Da Sesta à Festa ou Vice-Versa
Plaza del Palacio Real
As grandes avenidas é que me matam. São 07h00 da noite e o fotógrafo teima num enquadramento em pleno caos da Plaza de Cibeles. Ossos do ofício. Prometo a mim mesma regressar dentro em breve só pelo plaisir des yeux. Ou outros. Mas decididamente sem máquina.

Uma multidão ciclópica invade as ruas.Some-se em direcção às bocas do metro. Emudece atrás dos vidros dos autocarros. Dispara nos semáforos. Os carros arrancam ao que se me afigura uma velocidade excessiva, obedecendo à polícia que comanda as operações. Deixam no ar um lastro de fumo e o eco cefálgico do barulho dos motores. Um helicóptero sobrevoa a praça. Por momentos sinto-me a viver o Blade Runner. Só falta a chuva. A sensação é tão real que quando o fotógrafo me toca no ombro e me diz Vamos? surpreendi-me à espera de ver o Harrison Ford.

Pormenor de um dos tectos. Apesar do nome, a família real já não mora aqui
Esta não é uma cidade amável, como poderemos dizer de Roma, por exemplo. Não respira a teatralidade delicada de Paris (apesar de arquitectonicamente existirem alguns pontos de contacto, é outra a cor, a luz... e outras as gentes). Ganhará a Londres em beleza mas não chega a ser tão cosmopolita. E contudo... Regresso a Antonio Ferres. Madrid é sobretudo um excesso. Aqui parecem fazer especial sentido os versos da canção de Joaquín Sabina, um dos nomes ligados à movida madrilena, las malas compañias son las mejores, o que, aliás, podemos interpretar como uma variante da ironia que se revela na frase de Montalbán: "Cada um de nós é má companhia para os outros."

O índice de ruído (um dos mais elevados da Europa) aconselha a pelo menos uma tarde no Parque del Buen Retiro para retemperar forças - embora possa não parecer à primeira vista, Madrid é uma "cidade verde": uma árvore por cada três habitantes. Ou a uma tranquila visita aos museus da cidade. Afinal, esta é pátria de Goya, Velázquez, el Greco, Miró, Dali e Picasso, citando só os axiomáticos.

Manhã no Rastro
Casa Alberto, uma das tabernas históricas de Madrid
Para nós é já meia-noite e o espectáculo na Casa Patas está prestes a começar. Alguns turistas, que aqui chegam guiados pela fama desta Fundación Conservatorio de Flamenco, contribuem para esgotar as entradas. Madrid é um dos me-lhores locais fora da Andaluzia para se assistir a uma exibição deste género celebrado por Carlos Saura. O grupo de hoje chega de Cadiz. O público vibra com o dramatismo das vozes. Aplaude a altivez dos gestos. A delicadeza das mãos. A beleza dos acordes. Depois da exibição abandona o local e dispersa-se pela espaçosa sala de entrada. Uns tapeiam na barra, outros ainda jantam nas mesas. Eu e o fotógrafo ficamo-nos pela conversa e pelas croquetas. Foi então que pela primeira vez na vida, confesso-o publicamente, digo a um empregado de bar para não me encher mais o copo. É que pedi um whisky que me está a ser servido como se fosse água da torneira. Comento depois o sucedido com Luísa, a republicana, dizendo-lhe que em Portugal as doses não são bem aquelas. Nem em Portugal nem em parte nenhuma do mundo, devolve-me. E assim é Madrid. Onde a "vida é demasiado importante para ser levada a sério". Oscar Wilde dixit. Para lhe "aguentar" o ritmo, o segredo, Rosa Maria dixit, está na siesta. Ou na fiesta. Como se preferir.



Os bairros das compras
Com 3 milhões de habitantes (com os arredores chega aos 5 mi-lhões), Madrid é um mundo. Nomeadamente em matéria de compras. Registe: Puerta del Sol, o bairro onde se concentram muitas das lojas mais antigas. Agitado e barulhento, nele poderá encontrar casas que já somam um século de existência. Bairro de Salamanca, bon chic, bon genre, zona que reúne os grandes estilistas, espanhóis e estrangeiros. Os saldos são uma perdição. Chueca e Hortaleza, duas áreas contíguas em pleno renascimento, com lojas alternativas, roupa e outras ofertas para gente mais jovem e irreverente. Não esquecer a calle Augusto Figueiroa, o paraíso dos sapatos.

A cultura no meio das árvores
Enquanto se passeia pelos jardins do Paseo del Prado visite três museus emblemáticos: Museo del Prado, Thyssen-Bornemisza e o Centro de Arte Reina Sofía. No primeiro, obras dos grandes espanhóis (El Greco, Velázquez, Goya), do Siglo de Oro e pinturas flamenga e italiana. No segundo, primitivos italianos, renascimento alemão, século XVII holandês e americanos. No terceiro, modernos e contemporâneos. Ao expressionismo alemão, cons-trutivismo russo, abstraccionismo e Pop juntam-se Picasso, Miró, Juan Gris, Dalí, Tàpies e Chillida, entre outros. Prado y Cason del Buen Retiro: Passeo del Prado, s/n, tel: 91 330 20 00. De 3ª feira a sábado, das 09h00 às 19h00, domingos e feriados das 09h00 às 14h00. Fecha à 2ª feira. Metro: Banco de España; Atocha. Entradas: 500 pesetas, 250 (estudantes), gratuito a partir das 14h30 de sábados e domingos, maiores de 65 anos e menores de 18. Thyssen Bornemisza: Passeo del Prado 8, tel.: 91 369 01 51. Todos os dias das 10h00 às 19h00, excepto 2ª feira. Metro: Banco de España. Entrada: 600 pesetas, 350 (estudantes e maiores de 65 anos). Centro de Arte Reina Sofía: calle Santa Isabel, 52, tel.: 91 467 50 62. De 2ª feira a sábado, das 10h00 às 21h00, domingos até às 13h30. Encerra à 3ª feira. Metro: Atocha. Entradas: (idênticas ao Prado).

Para se orientar no escuro
Por zonas. Alonso Martinez: ponto de encontro Plaza de Santa Bárbara com bares e pubs, do flamenco aos irlandeses, passando pelo rock. Azca: bairro moderno, junto ao Paseo de la Castellana. Muitos pubs e discotecas, note a Avenida de Brasil e calle Orense. Chueca: um dos mais animados onde domina a comunidade gay mas há de tudo para todos. Coração: Plaza de Chueca. Malasaña: foi aqui que começou a movida. Mantém locais "alternativos", com tertúlias e música ao vivo. Moncloa - Arguelles: ambiente jovem, onde se concentram escolas e universidade. Santa Ana e Huertas: as de sempre, perto da Puerta del Sol. Já mexiam nos tempos de Cervantes, Lope de Vega ou Quevedo. Restaurantes, casas de tapas, bares e pubs. Centro: Plaza de Santa Ana, alargando-se pela calle Huertas.


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