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E V A S Õ E S

Dezembro de 2002
Sensual e nostálgica, Zanzibar, ao largo da costa da Tanzânia, é um dos últimos segredos do Índico. Uma ilha onde se vive devagar, ao sabor do vento e a pensar na praia.

Texto de Carla Fernandes
Fotos de Susana Rapazotes
   

A lenta aproximação por mar é normalmente a forma mais encantadora de se chegar a uma ilha. A Zanzibar deve chegar-se com o mesmo cuidado e sussurro com que Sherezade tentava adormecer o seu recente esposo, contando-lhe histórias de mil e uma noites…


Escola primária de estudos corânicos na aldeia de Kendwa, na ponta norte de Zanzibar

Partir de Dar-Es-Salam, e sobrevoar de avioneta o arquipélago, espelhando-nos de atol em atol sobre Pungume, Kwale, Miwi, Chumbe e tantas outras ilhas mergulhadas em turquesa provoca outro tipo de emoção: a da visão global, de olho de peixe, em alternativa aos ferries modernos que ligam hoje, três vezes por dia, o continente a Stone Town, a capital de Zanzibar. São cerca de 40 quilómetros de mar a separá-los, distância que se encurta agora em 90 minutos.

Os velhos dhows do Índico, canoas de vela única, cozidas e passajadas vezes sem conta, feitas de panos crus puídos pelo tempo e pelo sal, carimbados ora na Tanzânia, ora na Índia ou no Egipto, fazem também ainda diariamente a mesma travessia, mas em trabalho e não para turistas. São barcos de pesca e de transporte estes dhows que tão intimamente uniram vários pontos banhados pelo Índico, o oceano que permitiu ali unir e mesclar, de forma indelével, as culturas árabes, indianas e africanas. Zanzibar é uma ilha em África, mas repleta de influências e aromas orientais. Um cadinho em que se derretem velhos amores e velhos ódios, fundidos ao longo dos tempos e hoje tão multicolores como os corais que a rodeiam.

Histórias de outros tempos

Plantação de ananás na aldeia de Kendwa, na ponta norte de Zanzibar
Não nos encantamos com Zanzibar pelo que a ilha demonstra, mas sim pelo que dela se intui, aceitando-a tal como é, fascinante pela sua idiossincrasia, pelo seu intenso aroma de especiarias e peixe, pelo apelo que faz a que nos deixemos com ela aprender. Dizem os velhos marinheiros que existe uma ilha no Índico a que chamam "Paraíso". Essa ilha de que sempre se fala, mas que dificilmente se descobre, tem nome de mulher sensual e misteriosa, apesar de o seu sentido original ser provavelmente o que lhe deram os árabes, algures no século VII, ao se encontrarem com os primeiros habitantes bantú do arquipélago: "zinzi-bar", terra dos de cor preta.

Foi por essa altura que ali chegaram os primeiros grupos de emigrantes árabes, sobretudo de Shiraz, na Pérsia, e propagaram o islamismo pelas ilhas. No entanto, rapidamente se misturaram com a população bantú - actualmente suni-muçulmana na sua quase totalidade, já que apenas 2% são hindus ou cristãos - criando uma etnia mestiça que possui traços persas, árabes e africanos e conhecida desde então como swahili (designação curiosa, já que a palavra swahili significa "qualquer coisa").


Bungalows no Kendwa Rocks e praia de Kendwa
Zanzibar foi durante muitos anos a porta de entrada da África Oriental. Os barcos chegavam ao porto de Stone Town, desembarcando na cidade legiões de aventureiros ansiosos por explorar o continente negro. Aqui chegaram, daqui partiram em busca de aventuras, e aqui regressaram mais tarde, exploradores como Burton, Speke, Stanley, Cameron, Livingstone e tantos outros ao serviço de Inglaterra ou de si mesmos. Mas não foram estes os primeiros. Depois dos persas e árabes, tinham, entretanto, ali chegado os omanes e, depois deles, os portugueses. Apesar de nunca ter sido de facto uma colónia lusitana, Pemba e Unguja (nome original de Zanzibar, a maior ilha do arquipélago) ficaram sob domínio de Portugal desde o início do século XVI até 1668, altura em que foram expulsos pelas tropas árabes do sultão de Omã. Foram eles os responsáveis pela criação do primeiro mercado de escravos da ilha, hoje transformado em museu, adjacente à catedral anglicana. No lugar onde antes se erguia o mastro em que se chicoteavam os escravos mais rebeldes levanta-se hoje o altar da catedral. Mais ao lado, uma cruz com uma placa dourada sob a janela presta homenagem a Livingstone pelo seu empenho na luta contra o fim da escravatura, que teve oficialmente lugar em 1873 (meses após a morte do próprio Livingstone).

O encanto das coisas simples

As cores fortes são uma constante nos trajes das mulheres
Mercado nos jardins Foradhani, em Stone Town
Ao subirem a costa oriental africana, os portugueses tinham descoberto Zanzibar, instalando-se, em 1505, em Unguja, que não por acaso significa "cesta de especiarias e frutas" trazidas da Índia e de outras paragens africanas como Moçambique. A fama que Zanzibar desde então adquiriu como a "ilha das especiarias" ficou a dever-se à sua intensa produção e comércio de cravinho, também designado por cravo-da--índia. E assim foi até hoje, já que Zanzibar (sobretudo a ilha de Pemba) continua a ser responsável por 90% do cultivo de cravinho em todo o mundo.

As fragrâncias do arquipélago são, no entanto, muitas mais do que a daquela especiaria indiana, a do gengibre, da pimenta, da noz-moscada ou da canela. São também as das redes dos pescadores, as das algas que secam ao sol, as do salitre nas paredes das casas velhas, as da chuva quente caindo em bátega sobre a terra, as do peixe frito sobre mandioca nas aldeias de pescadores, as das kangas em que se enrolam as mulheres e os bebés que carregam às costas, as da palha de coqueiro que reveste o tecto das casas de barro

Praia de Kendwa
ou as das bandas de algumas praias, cabanas sobre a areia originalmente construídas para casas de pescadores, algumas já transformadas em turísticos bungalows paradisíacos.

"Kendwa Rocks", na ponta norte de Unguja, é um desses lugares em que a sensibilidade para a preservação do ambiente e da cultura local e o bom gosto turístico se juntaram. Tudo graças à intervenção de uma finlandesa que há sete anos se casou com um zanzibari e decidiu comprar uma parcela de terra re-clinada sobre o mar. O terreno pertencia a uma família tradicional de Kendwa e não foi fácil convencê-los a vendê-lo, já que a cultura muçulmana não via com bons olhos nem aquele casamento, nem a ideia de uma mulher, mesmo estrangeira, vir a ser dona de parte da terra deles. Hannin, apesar disso, conseguiu. Conseguiu construir um pequeno aldeamento de bandas tradicionais bem integradas na paisagem da praia e na aldeia, apenas a um quilómetro.


Crianças na escola de estudos corânicos, na aldeia de Kendwa
Cravo-da-índia, a principal produção agrícola da ilha
Kendwa é uma pequena aldeia de casas de pau-a-pique na sua maioria, ruas de terra batida e avermelhada, aparentemente de estrutura africana e não denotando à primeira vista o seio muçulmano da sua organização social. Num perímetro que se percorre em meia hora existem cinco mesquitas improvisadas em casas de cimento cru e janelas sem vidro e onde todos os habitantes cumprem ainda as cinco rezas diárias do Corão. Entrámos pela primeira vez na aldeia pela mão de Kombo, um homem de 25 anos ali nascido e que trabalha agora em "Kendwa Rocks". Como é dos poucos que fala inglês, tinha já sido ele que nos esperara em Nungwy, última aldeia da estrada que vem de Stone Town até ao Norte, e nos levara de barco (uma canoa com motor) até Kendwa. Aqui na aldeia, não só foi o nosso intérprete, como nos abriu a porta para que pudéssemos ser aceites pelos mais velhos e pelas crianças, que inicialmente se mostraram totalmente hostis à máquina fotográfica.

Quando entramos na aldeia estamos no segundo dos quatro dias da celebração do fim do Ramadão. Nesta altura são permitidas as festas em conjunto, reunindo homens, mulheres e crianças, estas vestidas com as roupas mais estimadas e de cores absolutamente florescentes, escolhidas de acordo com a estrutura familiar: as filhas da mesma mãe e pai usam vestidos da mesma cor e feitio, normalmente laranja, vermelho ou rosa-choque. Dançam e cantam numa roda sob os embondeiros, deixando-nos pressentir passo a passo a harmonia reinante na aldeia.


Pescador a tecer cesto de pesca
Foram precisas muitas horas para fotografar uma aula na escola primária de estudos corânicos, apesar de o professor árabe, Maabadi Juma Musa, ter sido encantadoramente receptivo, sorriso aberto, olhar terno e profundo, apenas lamentando não falar inglês. As crianças vão de manhã àquela escola para aprender os suras em árabe e ler o Corão, mas à tarde vão à escola laica, onde a língua de comunicação é o swahili. Escola secundária só existe em Nungwy e os jovens de Kendwa que a frequentam fazem diariamente a pé o percurso de seis quilómetros.

A escola é de cimento e não há bancos, nem carteiras, apenas o quadro de ardósia na parede. O professor tem uma cadeira que nos oferece de imediato, depois de Kombo lhe ter explicado que queríamos fotografar uma aula, que é interrompida por alguns minutos perante o espanto, agitação e nervosismo das crianças. Não conseguimos tirar uma única foto, a recusa dos alunos parece ser total. Riem-se bastante desconfiados e levantam imediatamente a mão sobre a cara de cada vez que tentamos pegar na câmara. Só ao terceiro dia se começam a habituar à nossa presença e é só quando lhes passamos as máquinas para as mãos e lhes explicamos como funcionam que se descontraem um pouco. O mesmo receio e timidez se encontra nas mulheres da aldeia,
que sorriem sempre, mas só ficam à vontade connosco na presença de Kombo. Curiosamente, são os homens que mais facilmente se deixam fotografar e nos cumprimentam com mais descontracção e curiosidade. Num fim de tarde em que nos aproximámos de uma mesquita onde só homens rezavam a última das cinco preces diárias, surpreenderam-nos para além das

Praia de Kendwa
Kangas sempre coloridas
expectativas: ao saírem da mesquita para comerem a farinha de mandioca e o peixe frito que as mulheres lhes tinham deixado à porta alguns minutos antes (as refeições também se tomam em separado) sentam-se ali mesmo em círculo no chão e os mais velhos convidam-nos a comer com eles, puxando duas pedras para nos sentarmos.

A magia do entardecer
Da intimidade da aldeia passamos à baía onde os pescadores guardam as canoas, remendam as redes de pesca, tão verdes e turquesa como o mar, e constroem gaiolas de palha de bambu usadas na captura de lagosta e de alguns peixes. O peixe que pescam é vendido sobretudo em Nungwy, excepto o mais miudinho, preferido pelas mulheres que o secam e fritam para acompanhar a mandioca. E até na venda do peixe a coesão e equilíbrio da aldeia são notáveis: uma canoa chega carregada desse mesmo peixe e nenhuma mulher pode comprar um balde mais cheio do que o das outras, pois o próprio pescador se encarrega de encher em igual medida todos os baldes.
A rota destes pescadores é bem mais curta do que a dos que seguem nos dhows para Stone Town, directos ao porto e ao mercado matinal de Malindi. À noite é ainda outro mercado que concentra grande parte dos habitantes e turistas da capital, uma espécie de barbecue africano, ao ar livre, onde se vende peixe e marisco grelhado sobre as brasas para se comer no próprio local. São dezenas de bancadas de exposição de peixe fresco dispostas ao longo da marginal dos jardins Foradhani, mesmo em frente da fortaleza e da "House of Wonders" (primeiro edifício em África a ter um elevador e palácio onde se instalou o célebre sultão Bargash, no século XIX, amigo e aliado dos ingleses) e sob a luz quente e incerta dos candeeiros a petróleo. Sim, porque toda a electricidade, proveniente de Dar-Es-Salam, é racionada na ilha e a potência é fraca.


Centro cultural de Stone Town

Escolhe-se o que se deseja e pouco tem de se esperar para que o peixe seja grelhado e servido com mandioca assada, batatas fritas, chapatis (espécie de pão sem fermento, muito fino, semelhante a um crepe redondo), pastéis de peixe ou mesmo legumes frescos. Tudo isto em pé, de prato de papel na mão, ou sentados em bancos improvisados de tábuas corridas por detrás das bancadas, olhando o mar tranquilo à nossa frente.

O famoso pôr do Sol incandescente de Stone Town, mágico como é, não poderia acontecer todos os dias. No entanto, todas as tardes, a partir das cinco, a esplanada no terraço do velho hotel "Africa House" - em reconstrução, mas sempre de portas abertas, tão resistente como o povo desta ilha - se enche de sonhadores inquietos, que, ignorando o chamamento cantado dos minaretes das mesquitas da cidade, se dirigem àquela casa numa outra devoção. Talvez a da espera pelo ansiado milagre do Sol ou a da esperança num outro futuro para Zanzibar, solto das rédeas de Tanganica. De olhar levantado para as mil e uma histórias que ainda têm por contar… como Sherezade.

 
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