E
V A S Õ E S

Sensual
e nostálgica, Zanzibar, ao largo da costa da Tanzânia, é um dos últimos
segredos do Índico. Uma ilha onde se vive devagar, ao sabor do vento
e a pensar na praia.
A
lenta aproximação por mar é normalmente a forma
mais encantadora de se chegar a uma ilha. A Zanzibar deve chegar-se
com o mesmo cuidado e sussurro com que Sherezade tentava adormecer
o seu recente esposo, contando-lhe histórias de mil e uma
noites

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Escola
primária de estudos corânicos na aldeia de Kendwa, na
ponta norte de Zanzibar
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Partir
de Dar-Es-Salam, e sobrevoar de avioneta o arquipélago, espelhando-nos
de atol em atol sobre Pungume, Kwale, Miwi, Chumbe e tantas outras
ilhas mergulhadas em turquesa provoca outro tipo de emoção:
a da visão global, de olho de peixe, em alternativa aos ferries
modernos que ligam hoje, três vezes por dia, o continente
a Stone Town, a capital de Zanzibar. São cerca de 40 quilómetros
de mar a separá-los, distância que se encurta agora
em 90 minutos.
Os velhos dhows do Índico, canoas de vela única, cozidas
e passajadas vezes sem conta, feitas de panos crus puídos
pelo tempo e pelo sal, carimbados ora na Tanzânia, ora na
Índia ou no Egipto, fazem também ainda diariamente
a mesma travessia, mas em trabalho e não para turistas. São
barcos de pesca e de transporte estes dhows que tão intimamente
uniram vários pontos banhados pelo Índico, o oceano
que permitiu ali unir e mesclar, de forma indelével, as culturas
árabes, indianas e africanas. Zanzibar é uma ilha
em África, mas repleta de influências e aromas orientais.
Um cadinho em que se derretem velhos amores e velhos ódios,
fundidos ao longo dos tempos e hoje tão multicolores como
os corais que a rodeiam.
Histórias
de outros tempos

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Plantação
de ananás na aldeia de Kendwa, na ponta norte de Zanzibar
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Não nos
encantamos com Zanzibar pelo que a ilha demonstra, mas sim pelo que
dela se intui, aceitando-a tal como é, fascinante pela sua
idiossincrasia, pelo seu intenso aroma de especiarias e peixe, pelo
apelo que faz a que nos deixemos com ela aprender. Dizem os velhos
marinheiros que existe uma ilha no Índico a que chamam "Paraíso".
Essa ilha de que sempre se fala, mas que dificilmente se descobre,
tem nome de mulher sensual e misteriosa, apesar de o seu sentido original
ser provavelmente o que lhe deram os árabes, algures no século
VII, ao se encontrarem com os primeiros habitantes bantú do
arquipélago: "zinzi-bar", terra dos de cor preta.
Foi por essa altura que ali chegaram os primeiros grupos de emigrantes
árabes, sobretudo de Shiraz, na Pérsia, e propagaram
o islamismo pelas ilhas. No entanto, rapidamente se misturaram com
a população bantú - actualmente suni-muçulmana
na sua quase totalidade, já que apenas 2% são hindus
ou cristãos - criando uma etnia mestiça que possui traços
persas, árabes e africanos e conhecida desde então como
swahili (designação curiosa, já que a palavra
swahili significa "qualquer coisa").

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Bungalows
no Kendwa Rocks e praia de Kendwa
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Zanzibar foi durante
muitos anos a porta de entrada da África Oriental. Os barcos
chegavam ao porto de Stone Town, desembarcando na cidade legiões
de aventureiros ansiosos por explorar o continente negro. Aqui chegaram,
daqui partiram em busca de aventuras, e aqui regressaram mais tarde,
exploradores como Burton, Speke, Stanley, Cameron, Livingstone e tantos
outros ao serviço de Inglaterra ou de si mesmos. Mas não
foram estes os primeiros. Depois dos persas e árabes, tinham,
entretanto, ali chegado os omanes e, depois deles, os portugueses.
Apesar de nunca ter sido de facto uma colónia lusitana, Pemba
e Unguja (nome original de Zanzibar, a maior ilha do arquipélago)
ficaram sob domínio de Portugal desde o início do século
XVI até 1668, altura em que foram expulsos pelas tropas árabes
do sultão de Omã. Foram eles os responsáveis
pela criação do primeiro mercado de escravos da ilha,
hoje transformado em museu, adjacente à catedral anglicana.
No lugar onde antes se erguia o mastro em que se chicoteavam os escravos
mais rebeldes levanta-se hoje o altar da catedral. Mais ao lado, uma
cruz com uma placa dourada sob a janela presta homenagem a Livingstone
pelo seu empenho na luta contra o fim da escravatura, que teve oficialmente
lugar em 1873 (meses após a morte do próprio Livingstone).
O encanto
das coisas simples

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As
cores fortes são uma constante nos trajes das mulheres
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Mercado
nos jardins Foradhani, em Stone Town
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Ao subirem a costa
oriental africana, os portugueses tinham descoberto Zanzibar, instalando-se,
em 1505, em Unguja, que não por acaso significa "cesta
de especiarias e frutas" trazidas da Índia e de outras
paragens africanas como Moçambique. A fama que Zanzibar desde
então adquiriu como a "ilha das especiarias" ficou
a dever-se à sua intensa produção e comércio
de cravinho, também designado por cravo-da--índia. E
assim foi até hoje, já que Zanzibar (sobretudo a ilha
de Pemba) continua a ser responsável por 90% do cultivo de
cravinho em todo o mundo.
As fragrâncias do arquipélago são, no entanto,
muitas mais do que a daquela especiaria indiana, a do gengibre, da
pimenta, da noz-moscada ou da canela. São também as
das redes dos pescadores, as das algas que secam ao sol, as do salitre
nas paredes das casas velhas, as da chuva quente caindo em bátega
sobre a terra, as do peixe frito sobre mandioca nas aldeias de pescadores,
as das kangas em que se enrolam as mulheres e os bebés que
carregam às costas, as da palha de coqueiro que reveste o tecto
das casas de barro

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ou as das
bandas de algumas praias, cabanas sobre a areia originalmente construídas
para casas de pescadores, algumas já transformadas em turísticos
bungalows paradisíacos.
"Kendwa Rocks", na ponta norte de Unguja, é um desses
lugares em que a sensibilidade para a preservação do
ambiente e da cultura local e o bom gosto turístico se juntaram.
Tudo graças à intervenção de uma finlandesa
que há sete anos se casou com um zanzibari e decidiu comprar
uma parcela de terra re-clinada sobre o mar. O terreno pertencia a
uma família tradicional de Kendwa e não foi fácil
convencê-los a vendê-lo, já que a cultura muçulmana
não via com bons olhos nem aquele casamento, nem a ideia de
uma mulher, mesmo estrangeira, vir a ser dona de parte da terra deles.
Hannin, apesar disso, conseguiu. Conseguiu construir um pequeno aldeamento
de bandas tradicionais bem integradas na paisagem da praia e na aldeia,
apenas a um quilómetro.

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Crianças
na escola de estudos corânicos, na aldeia de Kendwa
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Cravo-da-índia,
a principal produção agrícola da ilha
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Kendwa é
uma pequena aldeia de casas de pau-a-pique na sua maioria, ruas de
terra batida e avermelhada, aparentemente de estrutura africana e
não denotando à primeira vista o seio muçulmano
da sua organização social. Num perímetro que
se percorre em meia hora existem cinco mesquitas improvisadas em casas
de cimento cru e janelas sem vidro e onde todos os habitantes cumprem
ainda as cinco rezas diárias do Corão. Entrámos
pela primeira vez na aldeia pela mão de Kombo, um homem de
25 anos ali nascido e que trabalha agora em "Kendwa Rocks".
Como é dos poucos que fala inglês, tinha já sido
ele que nos esperara em Nungwy, última aldeia da estrada que
vem de Stone Town até ao Norte, e nos levara de barco (uma
canoa com motor) até Kendwa. Aqui na aldeia, não só
foi o nosso intérprete, como nos abriu a porta para que pudéssemos
ser aceites pelos mais velhos e pelas crianças, que inicialmente
se mostraram totalmente hostis à máquina fotográfica.
Quando
entramos na aldeia estamos no segundo dos quatro dias da celebração
do fim do Ramadão. Nesta altura são permitidas as festas
em conjunto, reunindo homens, mulheres e crianças, estas vestidas
com as roupas mais estimadas e de cores absolutamente florescentes,
escolhidas de acordo com a estrutura familiar: as filhas da mesma
mãe e pai usam vestidos da mesma cor e feitio, normalmente
laranja, vermelho ou rosa-choque. Dançam e cantam numa roda
sob os embondeiros, deixando-nos pressentir passo a passo a harmonia
reinante na aldeia.

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Pescador
a tecer cesto de pesca
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Foram precisas
muitas horas para fotografar uma aula na escola primária de
estudos corânicos, apesar de o professor árabe, Maabadi
Juma Musa, ter sido encantadoramente receptivo, sorriso aberto, olhar
terno e profundo, apenas lamentando não falar inglês.
As crianças vão de manhã àquela escola
para aprender os suras em árabe e ler o Corão, mas à
tarde vão à escola laica, onde a língua de comunicação
é o swahili. Escola secundária só existe em Nungwy
e os jovens de Kendwa que a frequentam fazem diariamente a pé
o percurso de seis quilómetros.
A escola é de cimento e não há bancos, nem carteiras,
apenas o quadro de ardósia na parede. O professor tem uma cadeira
que nos oferece de imediato, depois de Kombo lhe ter explicado que
queríamos fotografar uma aula, que é interrompida por
alguns minutos perante o espanto, agitação e nervosismo
das crianças. Não conseguimos tirar uma única
foto, a recusa dos alunos parece ser total. Riem-se bastante desconfiados
e levantam imediatamente a mão sobre a cara de cada vez que
tentamos pegar na câmara. Só ao terceiro dia se começam
a habituar à nossa presença e é só quando
lhes passamos as máquinas para as mãos e lhes explicamos
como funcionam que se descontraem um pouco. O mesmo receio e timidez
se encontra nas mulheres da aldeia, que
sorriem sempre, mas só ficam à vontade connosco na presença
de Kombo. Curiosamente,
são os homens que mais facilmente se deixam fotografar e nos
cumprimentam com mais descontracção e curiosidade. Num
fim de tarde em que nos aproximámos de uma mesquita onde só
homens rezavam a última das cinco preces diárias, surpreenderam-nos
para além das
expectativas: ao
saírem da mesquita para comerem a farinha de mandioca e o peixe
frito que as mulheres lhes tinham deixado à porta alguns minutos
antes (as refeições também se tomam em separado)
sentam-se ali mesmo em círculo no chão e os mais velhos
convidam-nos a comer com eles, puxando duas pedras para nos sentarmos.
A magia do
entardecer
Da intimidade da aldeia passamos à baía onde os pescadores
guardam as canoas, remendam as redes de pesca, tão verdes
e turquesa como o mar, e constroem gaiolas de palha de bambu usadas
na captura de lagosta e de alguns peixes. O peixe que pescam é
vendido sobretudo em Nungwy, excepto o mais miudinho, preferido
pelas mulheres que o secam e fritam para acompanhar a mandioca.
E até na venda do peixe a coesão e equilíbrio
da aldeia são notáveis: uma canoa chega carregada
desse mesmo peixe e nenhuma mulher pode comprar um balde mais cheio
do que o das outras, pois o próprio pescador se encarrega
de encher em igual medida todos os baldes.
A rota destes pescadores é bem mais curta do que a dos que
seguem nos dhows para Stone Town, directos ao porto e ao mercado
matinal de Malindi. À noite é ainda outro mercado
que concentra grande parte dos habitantes e turistas da capital,
uma espécie de barbecue africano, ao ar livre, onde se vende
peixe e marisco grelhado sobre as brasas para se comer no próprio
local. São dezenas de bancadas de exposição
de peixe fresco dispostas ao longo da marginal dos jardins Foradhani,
mesmo em frente da fortaleza e da "House of Wonders" (primeiro
edifício em África a ter um elevador e palácio
onde se instalou o célebre sultão Bargash, no século
XIX, amigo e aliado dos ingleses) e sob a luz quente e incerta dos
candeeiros a petróleo. Sim, porque toda a electricidade,
proveniente de Dar-Es-Salam, é racionada na ilha e a potência
é fraca.

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Centro
cultural de Stone Town
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Escolhe-se o
que se deseja e pouco tem de se esperar para que o peixe seja grelhado
e servido com mandioca assada, batatas fritas, chapatis (espécie
de pão sem fermento, muito fino, semelhante a um crepe redondo),
pastéis de peixe ou mesmo legumes frescos. Tudo isto em pé,
de prato de papel na mão, ou sentados em bancos improvisados
de tábuas corridas por detrás das bancadas, olhando
o mar tranquilo à nossa frente.
O famoso pôr do Sol incandescente de Stone Town, mágico
como é, não poderia acontecer todos os dias. No entanto,
todas as tardes, a partir das cinco, a esplanada no terraço
do velho hotel "Africa House" - em reconstrução,
mas sempre de portas abertas, tão resistente como o povo
desta ilha - se enche de sonhadores inquietos, que, ignorando o
chamamento cantado dos minaretes das mesquitas da cidade, se dirigem
àquela casa numa outra devoção. Talvez a da
espera pelo ansiado milagre do Sol ou a da esperança num
outro futuro para Zanzibar, solto das rédeas de Tanganica.
De olhar levantado para as mil e uma histórias que ainda
têm por contar
como Sherezade.
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