D
O S S I E R

Mais
vibrante que nunca, Nova Iorque está de volta. Recuperada do 11
de Setembro, aceitou a sua vulnerabilidade, mas não parou e continua
frenética, a abraçar o mundo, reinventando-se a cada segundo

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Times
Square, o movimentado e luminoso centro do Theater District
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Nova
Iorque é fascinante, a mais fascinante de todas as cidades.
Porquê? Não sei, diria que é uma questão
de paixão e que qualquer avaliação racional
deste sentimento viria aqui a despropósito. Foi apaixonada
que me senti na primeira viagem e também na segunda, na terceira
e na quarta vez que aqui cheguei. Caótica, barulhenta e poluída,
não tem a imponência aristocrática de Paris,
a beleza, a cor e a história de Roma ou a geografia, o clima
tropical e o ritmo descontraído do Rio de Janeiro. Também
não tem grandes monumentos, nem edifícios seculares
e não é propriamente acolhedora. E, no entanto, seduz
e vicia os nossos passos, atraindo-nos para o seu interior. Talvez
sejam as luzes que ofuscam, a energia electrizante que se vive nas
suas ruas, o desenfreado apelo ao consumo, a rapidez com que tudo
se passa, o turbilhão de gente, a sensação
de poder, de potência, de que ali tudo pode acontecer. Tentadora,
a "maçã" atrai, deixa-nos saboreá-la
e depois agarra-nos para sempre. Mas não
será esse o mistério e encanto de uma paixão?

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No coração
de Manhattan
Passado o primeiro impacto, a sensação é de
déjà vu. Por onde quer que andemos, tudo nos parece
familiar, os táxis amarelos, o fumo característico
que sai das condutas do metro nos dias frios, os edifícios,
as fardas dos polícias... O certo é que já
os vimos, já conhecemos quase ao pormenor alguns dos bairros,
das cores, dos hábitos e dos movimentos da cidade, tantos
foram os filmes aqui rodados.
Comecemos pelos lugares comuns. Nova Iorque está cheia deles.
A Quinta Avenida, ou se preferir, Fifth Avenue é um deles.
Muito pouco original como sugestão de passeio, mas absolutamente
obrigatória para qualquer turista que se preze, é
uma espécie de centro nevrálgico do consumo para ondeconvergem
multidões de passagem, às compras ou simplesmente
atraídas pela sumptuosidade e brilho das lojas. Foi aqui
que o milionário William Henry Vanderbilt construiu a sua
mansão em 1883, seguido por famílias poderosas como
os Astor ou os Gould. E foi também aqui que casas como a
Cartier e a lendária Tiffany, a Gucci, a Fendi, a Prada,
os armazéns Sak's Fifth Avenue, o chiquérrimo Bergdorf
Goodman e as mais
populares (e baratas) Banana Republic e Gap estabeleceram os seus
quartéis generais. E porque símbolos do poder não
faltam na principal das avenidas, vai deparar-se com a cintilante
Trump Tower, mandada construir pelo magnata Donald Trump nos anos
80 e com o Hotel Plaza, também ele um ícone do luxo
ostentador.
Outro dos grandes
marcos da Quinta Avenida e um dos lugares mais visitados de Nova
Iorque é, sem dúvida, o Rockefeller Center. O primeiro
complexo de edifícios do mundo a concentrar simultaneamente
escritórios, lojas, restaurantes, entretenimento e jardins,
foi construído entre 1931 e 1940 graças a John D.
Rockefeller Jr. Hoje continua a merecer uma visita, especialmente
em Dezembro, quando as iluminações de Natal são
colocadas e o ringue de patinagem fica repleto de gente de todas
as idades a deslizar ao som de músicas alusivas à
época. Cenário mais turístico não há,
mas este é um bom lugar para ir na primeira noite na cidade,
é divertido e dá-nos a primeira picadela da serpente.
Mal nos descuidamos, já estamos a trautear uma melodia e
com vontade de patinar. É verdade, meus senhores, o "american
way of life" contagia e depressa!
Estamos em Midtown,
o centro de Manhattan, onde coabitam os mais importantes marcos
da cidade e onde existe a maior concentração de diversidade
arquitectónica única no mundo, com alguns dos arranha-céus
mais inovadores e marcantes de todos os tempos. É impossível
ignorar o edifício Chrysler, uma torre, também ela,
art déco de aço inoxidável ornada com tampas
de radiador, volantes, automóveis e gárgulas inspiradas
num capot, construída para ser a sede, precisamente, da Chrysler;
ou, um pouco mais a sul, o Empire State Building, o arranha-céus
mais famoso de Nova Iorque (e do mundo) e que recentemente (após
os atentados ao WTC) recuperou o título de mais alto. Acredite,
vale a pena ganhar coragem, não perder a paciência
nas filas, e subir até ao terraço de observação
no 86.º andar onde Cary Grant esperou por Deborah Kerr em Affair
to Remember.
Outro dos locais de visita obrigatória para amantes de arquitectura
e nostalgia cinematográfica é a Grand Central Terminal,
a célebre estação de comboios que foi cenário
de um beijo entre o fugitivo Gregory Peck e Ingrid Bergman no Spellbound
de Hitchcock e onde, catorze anos depois, o mesmo mestre do suspense
filmou North by Northwest. Inaugurada em 1913, a Grand Central foi
projectada pela dupla de arquitectos Warren & Wetmore e transformou-se
numa referência, porta de entrada e saída na cidade,
recebendo diariamente um milhão e meio de pessoas. Até
há bem pouco tempo escondida pela poluição,
com o seu recente restauro - levado a cabo pela Beyer Blinder Belle,
empresa responsável pela obra no museu de Ellis Island -,
a Grand Central e o seu salão de tecto abobadado e grandes
escadarias de mármore inspiradas nas da Ópera de Paris,recuperaram
o seu esplendor neoclássico ao máximo.

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Pier
17, exemplo da revitalização comercial do South Street
Seaport
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Depois, aterre
de olhos fechados em Times Square. Quando os abrir, vai acreditar
estar dentro do Blade Runner, vai olhar para todos os lados e, entre
a multidão que passa, o seu olhar vai dirigir-se para cima,
em direcção às luzes e aos cartazes coloridos
da Broadway. Vai parecer mesmo um turista recém-chegado tal
a sua expressão de espanto, mas também pouco importa
porque é impossível ficar indifente ao espectáculo
e ninguém vai reparar em si. Edifícios altíssimos,
cartazes e néons que iluminam a noite escura, várias
músicas de fundo, um cowboy sem roupa, mas de guitarra em
punho, um baterista à procura do sucesso, uma sirene pelo
meio... Compre a Time Out, decida-se por um musical ou prossiga
o seu caminho, a dançar...

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Local
de homenagem às vítimas do 11 de Setembro
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Histórias
da Village
Logo depois do Empire State e seguindo até Madison Square,
damos de caras com o Flatiron Building, um dos mais fantásticos
prédios nova-iorquinos. Construído em 1902, inaugurou
a moda dos arranha-céus e tornou-se polémico porque
todos achavam que iria ser derrubado pelas correntes de vento provocadas
pela a sua original forma triangular. Marca a entrada no Gramercy
e Flatiron District. A Union Square, onde Andy Warhol tinha a sua
"Fábrica", fica logo ali ao lado, recebe um animado
mercado semanal, com venda de fruta e legumes, e tem vindo a transformar-se
num dos novos locais da moda, em parte graças à abertura
do novo W Hotel. Entramos em Greenwich Village, que os nova-iorquinos
há muito baptizaram apenas de "Village". Aqui começa
uma outra Manhattan, com uma arquitectura muito própria,
de prédios baixos, praças e pátios arborizados,
mais acolhedora, descon-traída e boémia, mas não
menos vibrante.
Como
o próprio nome indica, em 1820 esta área não
passava de um vilarejo onde viviam imigrantes irlandeses, italianos
e afro-americanos. Atraídos pelas rendas baixas, um grande
número de artistas e boémios instalaram-se no local
que, por volta dos anos 20/30, ganhou ares de "Rive Gauche
americana". Por ali passaram Walt Whitman, Mark Twain, Edgar
Allan Poe, Dylan Thomas, Anais Nin, Jack Kerouac e Allen Ginsberg.
A
fundação da New York University - que ocupa vários
quarteirões em redor da Washington Square - neste local em
muito contribuiu para a manutenção do espírito
descontraído - são muitos os restaurantes e cafés
situados na zona. Mas a verdade é que parte do lado revolucionário
da geração beat e dos activistas dos direitos humanos
se perdeu nos anos 80, com a chegada de uma nova vaga de arrendatários,
yuppies e corretores da bolsa, únicos com dinheiro para pagar
os preços elevadíssimos que aqui se praticam e mantêm.
Ocupando
a área envolvente entre a rua 14 e a Houston Street, a Village
original fica na zona West e possui a aparência de bairro
residencial, com prédios de tijolo vermelho, ruas ladeadas
de árvores, pequenos jardins, muito cuidados, uma autêntica
vila dentro da grande metrópole. Do lado oposto, East Village
roubou-lhe o título de bairro fashionable, ex-perimental
e eclético. Inicialmente habitada por irlandeses, polacos,
ucranianos e porto-riquenhos, tem sido também albergue de
escritores, actores e músicos independentes, o mesmo é
dizer alternativos e fora do sistema. Aqui cresceu a cultura punk
e surgiram teatros e galerias que privilegiam a arte experimental.
Mais a leste, a Alphabet City, assim baptizada porque as ruas têm
o nome das primeiras letras do alfabeto foi a última área
decadente
a ser revitalizada. O que noutras cidades é underground faz
parte do quotidiano deste bairro, onde cyber-punks, drag queens,
body-piercing e dealers convivem com estudantes, publicitários
e modelos. Ficam aqui alguns dos bares e restaurantes mais disputados
de Nova Iorque, clubes e discotecas com moradas secretas, onde apenas
entram os ultra cool e se vendem todas as substâncias e todos
os devaneios que possa imaginar...
Chelsea, para onde fugiram as galerias de arte mais importantes
após a invasão burguesa do SoHo, é outro dos
bairros trendy de NY. Pelas ruas 20 e 26, entre a 10.ª e a
11.ª avenida, vive uma comunidade criativa que tem como cabeça
de cartaz o Dia Center for the

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Wall
Street, o centro nervoso das finanças mundiais
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Cemitério
da Trinity Church
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Arts (548 West
22nd St.), um centro (alojado desde 1981 numa fábrica desactivada)
onde expõem os nomes mais famosos e promissores das artes
plásticas contemporâneas.
Outro ícone desta área é o Hotel Chelsea, que
acolheu os artistas mais excêntricos do século e também
alguns dos mais importantes - Tennessee Williams, Arthur Miller,
Sam Shepard, Janis Joplin, Patti Smith, Al Pacino e Drew Barrymore...,
apenas para mencionar
alguns dos nomes
mais sonantes. O hotel foi cenário do filme Chelsea Girls,
de Andy Warhol, e palco de histórias loucas, festas selvagens
e episódios mais ou menos dramáticos, como suicídios,
com álcool e drogas e assassinatos. Actores, músicos,
bailarinos e pintores ainda continuam a habitar apartamentos equipados
com kitchenettes.
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