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D O S S I E R

Dezembro de 2003
Moçambique seduz pela diversidade cultural, a beleza da paisagem e a simpatia tranquila das suas gentes. Maputo, Pemba e Bazaruto, os destinos que lhe propomos, são apenas uma pequena amostra do colorido deste país. Verdadeiros arco-íris de sensações.

Textos de Sara Raquel Silva e fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   

Tesouro do índico. Assim era aclamado Moçambique nas décadas de 50 e 60 devido à beleza das suas praias – de areias brancas banhadas por águas cálidas a perder de vista –, diversidade de paisagens naturais, cidades de admirável arquitectura colonial, gastronomia gulosa, gentes de espírito aberto e múltiplas simpatias. O destino favorito de férias dos sul--africanos e de uma elite europeia em busca de um estilo de vida descontraído, de exotismo e do ardente clima africano.

Meio século passado, e apesar da guerra civil que assolou o país pouco após a independência política, em 1975, e se prolongou até 1992, a riqueza da paisagem mantém-se, assim como o sorriso das gentes, fácil e rasgado. E se, apesar do sólido clima de paz, nos pólos urbanos, caóticos, são visíveis as consequências nefastas (sobretudo sociais, mas também nos edifícios arruinados) dos conflitos armados, a orla marítima parece ter escapado incólume à fúria humana.

Indiferente, o Índico insiste em banhar as suaves areias com a delicadeza dos oceanos mornos, coqueiros e mangais permanecem ao longo de quilómetros junto à costa, pequenos barcos casca de noz fazem-se ao mar num gesto repetido desde há séculos, enquanto bandos de flamingos dão cor e movimento a paisagens que parecem arrastar-se num ritmo descompassado de tão lento, perante a avidez natural do viajante.

Moçambique aos poucos refaz-se. Parece ter ultrapassado o período de ressaca, em que, desejoso de esquecer o passado, não conseguia imaginar o futuro. Do país suspenso no limbo descrito por Mia Couto em Terra Sonâmbula já se espantaram alguns fantasmas e emergiu a vontade e a capacidade de abrir as fronteiras e criar condições propícias ao investimento estrangeiro, em particular no sector do turismo. E não é para menos. O seu vasto território reúne, neste domínio, condições invejáveis, tais como: 2500 quilómetros de costa banhada por águas cálidas em prodigiosos tons de verde e azul, dezenas de ilhas rodeadas por magníficos corais, praias semivirgens de areias finas, um clima que varia entre o tropical a Norte e o subtropical a Sul, e uma imensa área no interior coberta por matas de acácias e messassa, florestas subtropicais e pradarias de gramínea, espaços privilegiados para a observação de aves e animais selvagens no seu habitat natural.

Zonas protegidas como o Parque Nacional da Gorongosa, as Reservas de Zinave e Bahine, o Parque Nacional do Niassa, junto à fronteira com a Tanzânia, e a Reserva de Elefantes, em Maputo, ou o Arquipélago de Bazaruto (o único a dispor de infra-estruturas turísticas) exigem, por enquanto, aos exploradores uma boa dose de espírito aventureiro e de desenrasque, mas garantem, por outro lado, oportunidades únicas para desfrutar de todo um ecossistema em estado ainda selvagem.

Não se pense, porém, que é apenas a abundância de santuários naturais que surpreende: este país reúne um verdadeiro caldo de culturas, próprio dos territórios belos, ricos e... cobiçados.

Os primeiros humanóides fixaram-se em território moçambicano há cerca de dois milhões de anos, mas pensa-se que as primeiras grandes movimentações terão começado com os povos banto no século I d.C. Em meados do milénio chegaram indonésios, árabes, indianos e persas, julga-se que atraídos pelas potencialidades do território, rico em marfim, ouro e pérolas e pela sua localização estratégica como entreposto comercial. Até que, finalmente, surgiram os portugueses no século XV, que, interessados em dominar a costa moçambicana, onde abasteciam os navios de ouro e marfim que trocavam por especiarias nas Índias, estabeleceram alianças com os reinos locais e foram, gradualmente, expulsando os árabes. Nos séculos seguintes estenderam o seu domínio ao interior do país, até se instalarem definitivamente por todo o território, no século XIX, após a Conferência de Berlim.

Estas civilizações deixaram as suas marcas ao nível da linguagem (principalmente o Português, a língua oficial) e da religião (o catolicismo e o islamismo são professados por cerca de metade da população), na arquitectura dos centros urbanos, no vestuário e até nas técnicas agrícolas e piscatórias. Vestígios entretanto mesclados com a cultura das tribos africanas, que mantêm, além de costumes seculares – como os rituais de iniciação –, os seus dialectos próprios (13 são reconhecidos oficialmente, mas com as variantes incluídas ascendem a quase uma centena) e a religião tradicional, animista.

Infelizmente, a guerra civil conduziu à destruição de muitas comunidades locais, com o deslocamento de milhares de refugiados, e a orientação marxista do país procurou, após a independência, diluir as culturas locais em prol de uma unidade nacional. Destes dois fenómenos resultou uma estrutura cultural e social um tanto difusa – mas não destroçada –, baseada sobretudo nas divisões geográficas e nas variações linguísticas. Pelo que Moçambique, actualmente com cerca de 17 milhões de habitantes dispersos por 11 províncias, reúne tanto nos centros urbanos como nos ambientes rurais uma curiosa e concertada mistura de influências árabes, africanas e europeias, que lhe conferem uma atmosfera única em toda a África Austral.

Nuances que, por sua vez, variam consoante a província, a aldeia e a etnia que as absorveu e que, garantimos, não deixam seja quem for indiferente.

Agradecemos a colaboração dos hotéis Rani Africa e da LAM-Linhas Aéreas de Moçambique

 
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