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XL
> Rotas & Destinos
> Lugares
com história > Mértola
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| L U G A R E S C
O M H I S T Ó R I A |
Dezembro
de 2004 |
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Visita
à Vila Museu, onde a cada instante
se tropeça em vestígios de outras
épocas, formando um puzzle que aos
poucos revela uma história fascinante.
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Texto de Ana Pedrosa e fotos de António
Sá |
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| O
cão “Whisky” em frente
ao Café Guadiana |
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Mértola
parece ainda adormecida quando chego e a observo de longe,
na margem oposta do Guadiana. Apenas um pescador rasga
as águas tranquilas do rio, vigiado de perto por
duas cegonhas que sobrevoam o casario apertado entre as
muralhas. Nada, por enquanto, a distingue de outras povoações
alentejanas, igualmente alvas e pacatas. “Vila Museu”,
indica a placa de boas-vindas junto à estrada.
Com alívio, sei à partida que não
vou encontrar um daqueles lugares, tão comuns em
alguns países do Norte europeu, que servem de cenário
a recriações históricas, onde os
sorrisos, tal como as lojas, têm horários
de abertura. Desfaço as dúvidas num pequeno
café situado junto ao mercado, um animado local
de encontro segundo me parece. As respostas chegam prontas,
ainda mal acabada a pergunta, interrompidas por alguém
que entra e dá a sua achega.
Cá
fora, sob uma luz intensa reflectida nas paredes claras,
Mértola mostra-se semelhante a muitos locais do
Alentejo, com as ruas engalanadas de laranjeiras, pequenos
comércios com os produtos locais e trânsito
lento. Mas, aos poucos, conforme se entra na zona muralhada
e se pisam as gastas lajes, uma história grandiosa
revela-se sob os nossos pés e olhos, desmentindo
a aparente pequenez do burgo.
Da Myrtilis romana à
reconquista

| O
castelo e o casario da vila fotografados ao
amanhecer |
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Localizado na confluência
do Guadiana com um pequeno afluente – a ribeira
de Oeiras –, sobre um promontório rochoso,
o povoado já era mencionado por geógrafos
da Antiguidade que se referiam à imponência
das suas fortificações. Na encruzilhada
de vias terrestres e fluviais – 70 quilómetros
separam o Atlântico daquele que foi o porto mais
setentrional do grande rio do Sul –, este era, desde
o período pré-romano, um importante entreposto
comercial. Fenícios e cartagineses andaram por
aqui fazendo trocas de produtos e trazendo notícias
e influências de outros mundos. Com a chegada dos
romanos, a povoação foi baptizada de Myrtilis,
tornando-se uma das quatro municipia da Lusitânia.
Por aqui passava a importante estrada que ligava Baesuris
(Castro Marim) a Pax Julia (Beja). Seguem-se os suevos,
por volta do ano 400 d.C., e os visigodos, durante os
séculos VI e VII, altura em que a região
integra o reino de Toledo.
O ano de 712 assinala o aparecimento dos árabes.
É o começo de um longo período de
prosperidade para a Mirtolah muçulmana, que chega
a ser capital de um reino Taifa, tal como Silves e Faro.
Resultado do desmembramento do califado de Córdova,
as diversas taifas da península contribuíam
para o desenvolvimento cultural e artístico dos
respectivos territórios.
A
reconquista cristã chegou em 1238 com o exército
de D. Sancho II que, nesse mesmo ano, doou o burgo à
Ordem Militar de Santiago e Espada, para que fosse repovoado.
A primeira carta de foro foi outorgada por D. Afonso III
em 1250 e a segunda por D. Manuel II em 1512. Durante
o século XV e o início do XVI este seria
ainda um ponto de abastecimento cerealífero das
tropas do Norte de África. Com a concorrência
dos portos marítimos a vila entrou numa suave letargia,
de que tem vindo a sair com o dinamismo de gente de fora
que escolheu o concelho para viver.
Uma viagem no tempo

| A
parte nova de Mértola, com a Igreja
Matriz em primeiro plano, vista a partir do
castelo |
|
Foi para tentar desvendar os segredos
dos 550 anos do Gharb Al-andalus (o Ocidente do Andalus)
que Cláudio Torres se instalou em Mértola
em 1976, dando início à primeira escavação
contínua da arqueologia portuguesa. Desde então,
muitos artefactos têm visto a luz do dia, ajudando
finalmente a perceber os contornos da história
da ocupação árabe da península.
A maior parte dos trabalhos desenrola-se no bairro islâmico,
mesmo ao lado do castelo construído no século
XIII sobre a antiga alcáçova. De uma dezena
de habitações com algum piso intacto, ao
lado das quais se encontrava a oficina de um ourives de
prata, saem “cacos” com que os técnicos
do Campo Arqueológico reconstituem objectos magníficos,
em puzzles intrincados que requerem muita paciência.
Os historiadores, esses, vão lentamente juntando
as peças do fabuloso mosaico de uma cultura que
deixou muitas marcas na nossa história.

| Músicos
marroquinos durante o Festival Islâmico
|
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Este é o sítio ideal
para começar um passeio não só através
das ruas da vila, mas também do seu passado –
longínquo ou mais recente –, visitando os
seus inúmeros núcleos museológicos
e monumentos. Do topo da fortaleza avista-se uma paisagem
já mais algarvia do que alentejana. As planícies
dão lugar a um relevo acidentado, onde se destacam
as serras de Alcaria, S. Barão e S. Brissos –
o primeiro mertolense notável de que há
registo, martirizado e morto pelos romanos em 312. O olhar
desce até ao rio, acompanhando os telhados das
casas com os seus pátios interiores recheados de
limoeiros e canteiros de flores.
Uma cegonha ronda a Torre de Menagem, que alberga um conjunto
de fragmentos arquitectónicos da época pré-islâmica,
recolhido na região. Desce-se depois até
à Igreja Matriz, erguida no lugar de uma mesquita
do século XII. Dessa época, o belo interior
de abóbadas nervuradas conserva ainda quatro arcos
em ferradura e o mihrab (nicho que indica a direcção
de Meca). De uma das vezes que lá passei a Bíblia
do altar tinha por companhia o Corão. Cá
fora soavam tambores e ouvia-se o som de cantigas árabes.
Em frente ao templo, uma tenda com o chão forrado
de tapetes deixava entrar quem quisesse ouvir histórias
das Mil e Uma Noites, enquanto os cuspidores de fogo se
preparavam para o espectáculo nocturno.
Parecia
que tinha acabado de viajar no tempo, embora esta fosse
apenas mais uma edição do Festival Islâmico
que, a cada dois anos, dá à vila a oportunidade
de reviver uma época áurea. Algumas ruas
transformam-se num autêntico souk, com bancas onde
artigos vindos do Norte de África convivem com
os produtos locais. Os restaurantes aderem à iniciativa
servindo pratos como cuscuz e tajines e em vários
lugares pode provar-se a doçaria marroquina, acompanhada
por chá de menta, juntamente com os méis
e queijos da região.
Rota museológica
Enquanto se aguarda pela próxima
festa, em Maio de 2005, seguimos para o Núcleo
do Ferreiro, antiga forja recuperada de forma a mostrar
os artefactos da actividade. Continuamos junto à
muralha, passando pela sede do Parque Natural do Vale
do Guadiana, onde nos poderão ser indicados alguns
dos pontos mais interessantes da área protegida
como o Pulo do Lobo ou as Minas de S. Domingos. Perto
dali, o Núcleo de Arte Islâmica expõe
o resultado de mais de duas décadas de trabalho
arqueológico. São peças de osso e
metal, objectos de adorno e utensílios domésticos,
vasos e jóias que formam a melhor colecção
do género de todo o País. O contíguo
Núcleo de Arte Sacra, instalado na antiga Igreja
da Misericórdia, contém imagens e alfaias
litúrgicas recolhidas em igrejas do concelho.
Se,
como já se referiu, grande parte dos achados tem
sido o resultado de longas investigações,
outros acontecem por obra do acaso. É o caso do
incêndio ocorrido no edifício da câmara
municipal, que deixou à mostra vestígios
de uma casa romana, datada de 2000 a.C. O projecto de
recuperação do edifício acabou por
integrar mais este espaço museológico, albergando
outros objectos da mesma época.
Estamos praticamente no fim de um percurso que, por coincidência
ou não, segue sempre junto ao pano de muralhas.
Mas não se deve ir daqui sem nos deixarmos perder
pelas vielas do interior. Aí haverá sempre
tempo para dois dedos de conversa num bar, para relaxar,
e até em algumas oficinas (como a de joalharia
e a de cerâmica) que produzem objectos inspirados
nas técnicas e nas formas das coisas de outrora.
Terminado o passeio intramuros, é altura de regressar
ao relativo bulício de uma vila em lento crescimento.
Também aí a terra guardou segredos. É
o caso da basílica paleo-cristã, escondida
sob a fachada de um edifício anónimo, onde
foram encontradas várias dezenas de lápides,
incluindo uma com inscrições em grego provando
o carácter cosmopolita dos habitantes de então.
Quem por aqui andar durante a semana poderá ainda
visitar a necrópole romana (século II a.C.)
e a ermida de S. Sebastião, de fundação
medieval, que se encontram dentro do perímetro
da escola EB 2,3 de Mértola.
Para finalizar em beleza, nada melhor do que visitar o
Convento de S. Francisco, situado na margem direita da
Ribeira de Oeiras, junto à estrada que segue para
Sul. Entre 1612 e 1834 o templo pertenceu à Ordem
de S. Francisco, tendo vindo a degradar-se até
ao estado ruinoso em que se encontrava quando foi adquirido,
em 1977, por um casal de artistas holandeses. Apesar de
ser propriedade particular, pode percorrer os seus jardins
e descansar no espaço da antiga capela, decorado
com obras de Geraldine Zwanikken. É um local de
muita paz, ideal para uma despedida a Mértola.
| A
|
Castelo construído no século XIII
sobre a alcáçova muçulmana.
A sala de armas da Torre de Menagem contém
diversos fragmentos arquitectónicos dos séculos
VI a IX |
| B |
Erguida
em terreno sagrado, onde existia um templo romano
e paleo-cristão, a Igreja Matriz ainda conserva
vestígios da antiga mesquita como um nicho
de oração |
| C |
Embora
não existam datas precisas da sua construção,
pensa-se que a Torre do Relógio tenha sido
erguida no início do século XII, sobre
um antigo torreão da muralha |
| D |
Centro
Arqueológico – O restauro de um vaso
islâmico requer uma atenção
de ourives. Quando estiver pronta, a peça
poderá integrar a colecção
do Museu Islâmico, a mais completa do País |
| E |
Datado
do século XVII, o Convento de S. Francisco,
na margem direita da Ribeira de Oeiras, é
hoje propriedade privada |
Informações
úteis
O Museu de Mértola divide-se por vários
núcleos espalhados pela vila. Sendo assim, pode
optar por adquirir um bilhete inteiro (€5) que dá
acesso a todos os espaços museológicos.
O bilhete para visitar um só núcleo custa
€2. As entradas são gratuitas para menores
de 12 anos, maiores de 65 e naturais e residentes no concelho.
Posto de Turismo de Mértola, tel. 286 610 1091
Actividades
O Posto de Turismo faculta uma brochura com a indicação
de vários percursos na região que podem
ser feitos a pé ou de automóvel. Não
deixe de visitar o Pulo do Lobo, a Norte de Mértola,
onde o Guadiana é apertado numa garganta rochosa
tão estreita que pode ser transposto por um só
salto de lobo, segundo dizem. Conheça ainda as
abandonadas Minas de S. Domingos e o antigo porto de Pomarão.
A terceira edição do Festival Islâmico
realiza-se entre os dias 19 e 22 de Maio de 2005.
Onde
dormir
Além de várias pequenas pensões,
a vila conta com duas unidades de turismo rural: a Casa
das Janelas Verdes (tel. 286 612 145), situada dentro
do núcleo muralhado, tem um agradável pátio
florido onde frequentemente são servidos os pequenos-almoços.
O preço do quarto duplo é de €50. A
Casa Rosmaninho (tel. 963 019 341) está localizada
numa rua calma do centro. Quartos duplos entre €35
e €45. No concelho, a cerca de uma dezena de quilómetros
da vila, existe ainda a Casa dos Loendros, em Alcaria
Ruiva (tel. 286 998 187), com duplos a partir de €45.
Onde
comer
Não é difícil encontrar restaurantes
que sirvam as especialidades locais: sopas de tomate e
de poejo, açorda de bacalhau, migas com carne de
porco, ensopado de borrego e, na época própria,
espargos bravos com ovos mexidos. Entre as várias
alternativas recomenda-se a Adega da Casa Amarela (tel.
286 612 681) que, pela sua localização na
margem esquerda do Guadiana, oferece um excelente panorama
da vila. O Migas (tel. 286 612 811) fica junto ao mercado,
sendo um dos mais tradicionais. O único problema
é que, quando a afluência é muita,
o serviço deixa a desejar. Experimente também
o Brasileiro (tel. 286 612 660), com uma boa cozinha regional.

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