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ver estrelas em Masai Mara
[Quénia:
A ver estrelas em Masai Mara]
De madrugada
se começa o dia
Jambo!
Jambo!" Foi com esta saudação que, algures entre
as 5h30 e as 6h30 (a esta altura da madrugada é-me difícil
saber a quantas ando), um dos masai de serviço me tentou acordar,
não saindo do alpendre da minha tenda enquanto não ouviu
um som gutural à laia de resposta. Na véspera, já
me tinham prevenido que, ali, no Savora Mara um bonito acampamento
situado numa elevação natural, entre dois afluentes
do Mara, onde o alojamento se faz em tendas confortáveis com
direito a camas de verdade, casa de banho privativa e um alpendre
com vista para o rio e para os jardins bem cuidados , eram os
próprios funcionários que nos vinham chamar para o primeiro
safari do dia.
Descrita assim, a cena até pode soar digna de um filme como
o tantas vezes citado África Minha de Sidney Pollack, mas,
acredite-me, essa não é a imagem que nos vem logo à
cabeça em momentos como aquele... A muito custo, lá
consegui desviar a rede mosquiteira e estender o braço para,
às apalpadelas, acender o candeeiro ou a lanterna. Lá
fora, e apesar dos dias começarem cedo em África, ainda
estava escuro como breu, por isso, à saída, tive de
atravessar os jardins entre a minha tenda e a área do bar à
luz dos lampiões. Um a um, todos os elementos do meu grupo
foram chegando para cumprir mais um dos rituais do Quénia:
tomar o primeiro café do dia antes de nos distribuirmos pelas
carrinhas Toyota e partir para a reserva, onde tínhamos encontro
marcado com chitas, búfalos, leões, zebras, girafas,
impalas, elefantes e até, com alguma sorte, leopardos.
À
entrada na reserva, fomos logo "assaltados" por
uma série de mulheres e homens masai de pele muito escura,
o que mais impressiona é a sua silhueta longilínea (os
homens atingem facilmente 1,90 m) que lhes confere uma elegância
de gazelas que nos tentaram impingir colares de missangas e
frutos, provando que até esta antiga tribo de guerreiros, que
nunca se submeteu ao jugo colonial, se está a render, hoje,
às benesses do turismo. O mais irónico é que
talvez tenha sido esta a forma que eles encontraram para assegurar,
para lá da pastorícia, a sua sobrevivência e a
perpetuação dos seus usos e costumes. Transposta a cancela
de segurança da reserva, Chris, o experiente guia-motorista
que me coube em sorte e cuja idade não consegui adivinhar,
abriu o tejadilho (por motivos óbvios de segurança,
a observação é sempre feita a partir dos veículos)
e lançou-se num frenesim, por entre as pastagens de Masai Mara,
para capturarmos as melhores imagens dos animais, que a esta hora
do dia começam a buscar alimentação.
O
expediente utilizado nestes safaris fotográficos é semelhante
ao dos antigos caçadores a caça, ao contrário
de países como a Tanzânia ou Zimbabwe, está proibida
no Quénia, para compensar excessos cometidos num passado recente
, ou seja, andar na peugada dos Big Five (os animais mais procurados
são os elefantes, os rinocerontes, os leões, os búfalos
e os leopardos). Para tal, os guias vão trocando informações
entre si e, assim, lá foram surgindo as primeiras manadas de
elefantes, de gnus, de impalas, de zebras até que, subitamente,
fomos informados que uma leoa com filhotes e uma família de
hienas estavam por perto.
Foi a euforia geral. Melhor do que isto só mesmo a altura em
que avistámos, a poucos metros de distância, uma garbosa
chita que se preparava para a grande caçada do dia. Por momentos,
ao ver o corropio de carrinhas e jipes à volta do pobre animal,
senti-me um miserável intruso naquele jogo, mas, bem vistas
as coisas, acho que estes animais pagam de bom grado este preço
em troca da sua preciosa liberdade. Com efeito, não há
zoo neste mundo por mais politicamente correcto que seja
que se possa comparar a esta sensação de ver os animais
no seu próprio habitat.
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